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Vizinho

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Publicado em 20 de agosto de 2009 por Pedro
ago 20

Vizinho é que nem cunhado. Você arranja uma namorada (ou casa) e ele vem de brinde – ele pode ser bom ou terrível. Ele não é nada teu, mas você tem que ter uma relação amistosa com ele para sua vida não virar uma desgraça. Vizinhos, assim como você e eu, discutem, fazem amor (eu não tenho feito, é verdade), barulho, arrastam cadeira… Vivem. No entanto, posso garantir que ninguém teve vizinhos como aqueles que o 204 e o 202 do meu ex-prédio tiveram. Por coincidência, esses dois apartamentos estão vazios agora, deixando o inferno interno do 203 sem ninguém por perto para encher o saco.

A maior qualidade de um vizinho é interpretar a total inexistência. Se ninguém ouve você, é porque você é um ótimo vizinho. Se você passa pelo corredor com seu cachorrinho na coleira e me dá um discreto bom dia, parabéns, deixa eu morar do seu lado. As pessoas já conhecem gente demais, não é necessário ser amigo de alguém a uma porta de distância (me desconsidere se você sempre sonhou em ser do Friends. Mas Friends não vale, dividir um prédio entre os amigos é bom demais para ser possível).

Eu fui do 204 e não passei um dia sequer dos últimos cinco anos sem pensar, pelo menos em um momento, que uma bomba poderia cair em cima do 203. Em alguns instantes eu até pensava que se a bomba caísse no 203, ela provavelmente cairia também no 303 e no 403… Bem, eu já estou tacando a bomba, não posso tomar conta de tudo, né?

Quem são as peças

Em dado momento na gigantesca linha de montagem de nascimentos do mundo, as engrenagens entram em pane, o óleo seca e algum empregado da fábrica perde um membro (membro que volta, assim como nas lagartixas, pois no céu a parada é outra). Nesse instante, de puro caos, nascem uns seres humanos totalmente dispensáveis, que, no início da linha estavam sendo feitos direito, mas terminaram de qualquer jeito por causa da pane.

Meus ex-vizinhos conseguiram a proeza indecente de nascer – todos – em momentos de caos na linha de montagem. Sempre quando dava merda na produção, a mãe paria uma tristeza em forma de gente. E assim foi depois de cinco nascimentos: ela sempre acertava, e ia, aos poucos, parindo um time de futsal dos infernos.

O mais surreal é que eles não são crianças barulhentas e chatinhas. São homens com mais de 40 anos barulhentos e chatíssimos. Cada um tem uma especialidade – Tem o espraguejador; o que solta os (138) cachorros no corredor e fica gritando que nem um louco atrás deles; o louco propriamente dito; o pentelho que puxa papo e o Zé Buceta senior que costuma ser o porradeiro. É claro que não posso dar uma impressão tão simplista deles – o espraguejador e o dos cachorros são absurdamente fissurados pelo Flamengo e gritam nas noites de quarta quando o time está perdendo. E a cereja do bolo: os cinco são mais fofoqueiros que as pudicas tricoteiras da janela da vila.

Ou seja, descrição e educação, duas qualidades indispensáveis a quem se propõe a morar ao lado de alguém, são duas palavras chinesas no vocabulário e na personalidade deles. Sempre quando alguém pergunta “tem apartamento vazio no teu prédio?”, eu digo “não queira ter os meus vizinhos… Eles são bizarros”. Um deles tem a estranha mania de cantar música clássica em QUALQUER momento do dia (e olha que esse não é o louco propriamente dito). Nós ficávamos deleitados com o espetáculo gratuito, que era quase diário, e tínhamos vontade de cometer assassinatos, em agradecimento ao petardo proporcionado.

Mas, embora o sofrimento seja um esticador de tempo, a dor acabou. Por quê? Eles se mudaram? Finalmente foram assassinados (pelo amor de Deus, eu não estou fazendo apologia à morte dos outros… Hehe… Ai ai… Não, nada, só estou pensando aqui neles sendo assassinados… Hehe… Hum…)? Não! Eles continuam o inferno dividido em cinco. Mas a minha família picou a mula, cantou para subir, arrumou as trouxas e saiu de lá para uns quatro bairros mais longe, por questão de segurança.

E vou te falar, em frente ao meu novo lar tem um apartamento que está sendo alvo de uma disputa judicial há anos, portanto ninguém mora lá. Disputas judiciais são da mesma classe que o Michael Jackson e o universo: são eternos, então terei paz por muuuuuito tempo. Sim, a leveza toma conta de mim. Mas a pena que eu sinto dos futuros moradores do 202 e 204 também toma.

Pedro

4 Comentários

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  1. Bia em 20 de agosto, 2009

    Não se esqueça que o que solta cachorros, gosta de o fazer de madrugada! Tipo umas duas, três da manhã, quando se pode ouvir os latidos e os gritos da sua casa até o leblon!

  2. Débora em 21 de agosto, 2009

    Engraçadinho como sempre… pena que às vezes age como um velhinho de 93 anos. Talvez isso esteja relacionado à falta de sexo. Quem sabe ?!?
    Gostei do texto! E tenta sonhar um pouco mais… não custa nada e faz bem demais pra alma. Em tempos e num mundo como esse, é puta essencial.
    Beijos

    Deixa eu fazer meu jabá dos meus outros sites !
    http://www.underfloripa.com.br – Resenhas de CINEMA( só clicar em cima da palavra) e coluna Lirismo das Sarjetas
    http://www.memoriasreinvetadas.blogspot.com

  3. Cynthia Fiuza em 21 de agosto, 2009

    Morar em prédio é quase como um jogo de loteria mesmo. E geralmente a gente perde! rsrs

  4. T1460 em 21 de agosto, 2009

    Nunca morei em apartamento, e nunca tive vizinhos. Os dois terrenos ao lado da minha casa pertencem a tios que nunca moraram lá, e os terrenos seguintes eram habitados por outros tios. Acontece que meu avô dividiu as terras entre os 15 filhos. E isso é tudo verdade!



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