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Violetas

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Publicado em 10 de junho de 2008 por Corra Mary
jun 10

“Nao é o bastante ver que um jardim é bonito sem ter que acreditar também que há fadas escondidas nele?” (Douglas Adams)

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Creative Commons License photo credit: panis et circenses

Ele entrou naquele carro como se nunca tivesse entrado antes. Dirigimos por uma estrada por mais tempo do que o previsto, cheia de outras pequenas ruas que vinham de encontro a ela, mas nenhum semáforo.

“Puta que pariu, que curva perigosa” – Eu fingia que não ouvia, e não parava de ler.

Era interessante olhar de rabo de olho e ver aqueles olhos enormes me observando com um ar de quem daria tudo para saber o que eu pensava naquele momento.

“Essa morte constante das coisas é o que mais dói.”

Era nisso que eu pensava. Parei de ler o livro nessa frase, e voltava toda hora para o início do parágrafo só para pegar essas palavras desprevenidas fingindo estarem sendo lidas pela primeira vez.

Ele começou a falar das violetas das casas alheias, que tinham que ser colocadas em vasos de barro, e essas chatices todas. Eu nem sabia que porra era uma violeta, e mesmo que soubesse, não me importaria por nada desse mundo.

Ele começou então a falar de como a noite estava fria, e aquilo sim me interessava. Eu estava congelando, e não via a hora de chegar.

Não fazia idéia aonde, mas só a idéia de chegar em algum lugar já me fazia pensar, não sei porque, que esse lugar não seria tão frio quanto naquela rua-sem-nome.

Nunca perdi essa minha mania, desde criança, de chamar todas as ruas de “rua-sem-nome”. Achava uma babaquice ter que decorar nome e sobrenome de algum babaca pseudo-importante só para poder me situar em que rua eu estava. Todas, além da rua da minha casa e a da casa da minha vó, eram então a “rua-sem-nome” ou às vezes “uma-rua-aí-qualquer”.

Chegamos numa bifurcação e o carro parou exatamente no meio. Ele não sabia pra onde ir, e me disse que caso pegasse a estrada errada, não haveria retorno.

Tinha nas minhas mãos a obrigação quase que jogada, empurrada por querer, de decidir o que eu não fazia idéia do que estava sendo decidido.

Fiz um gesto com os ombros de quem não se importava muito e soltei minhas primeiras palavras desde que entramos no carro:

- Desculpa, mas não posso co-pilotar sua própria existência. É aqui que eu fico. Eu e as violetas.

Corra Mary

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