Corra Mary
06 dez 2011

Bolsa estupro


Vira e mexe resolvem tirar alguma notícia velha do saco do esquecimento e torná-la novamente alvo de debate virtual. Dessa vez foi a notícia do Estadão de 2007 sobre o projeto de lei “bolsa-estupro”. Quem ainda não conhece o projeto, clique aqui e leia a notícia do Estadão.

É vergonhoso ver que um deputado com ideias como essa foi eleito. Seria uma ótima piada se não fosse real. Num país como o Brasil, com tantos problemas sérios, um projeto absurdo, desumano e cruel como esses é criado. Não só o projeto é de um absurdo surreal, como a defesa do mesmo também. Não irei discutir sobre a legalização ou não do aborto, já falamos sobre isso aqui no blog (clique aqui para ler) e nem de longe esse é o foco.

Para início de conversa, não me importa se o governante é evangélico, macumbeiro ou satanista. Pode ser o que quiser, mas é impraticável que se misture política com religião, o Brasil ainda é teoricamente um Estado secular e a criação de um projeto desses, por mais que nunca venha a ser aprovado é uma afronta a minha e a sua dignidade.

O auxílio a uma vítima de estupro nunca deveria vir de forma financeira. Porque dinheiro, qualquer mãe precisa para cuidar de um filho. Tenha ela sido vítima de estupro, ou não. Essas mulheres precisam de ajuda psicológica, porque com ou sem filho, sofrer um abuso sexual é um trauma que elas carregarão pela vida toda e sendo assim, o mínimo que elas merecem é o direito a abortarem o fruto desse ato.

O projeto e seus criadores em momento algum se importam com essas mulheres, defendendo a ideia de um psicólogo presente não para auxiliá-las mas para imporem suas próprias crenças religiosas às vítimas: “O psicólogo comprometido com a doutrina cristã deve influenciar a mulher e fazer com que ela mude de opinião. – defende Afonso.”

Há quem diga que o problema todo é a bancada evangélica e suas ideias absurdas, mas para mim, religião não dita caráter. Uma pessoa baixa e ignorante, continuará assim em qualquer religião que escolha. A ditadura evangélica fere e suja a minoria evangélica que não compactua com isso. Impor suas crenças é um ato absurdo e estúpido, mas a generalização também.

No final do artigo, somos brindados com outra declaração estupida do tal deputado que consegue ser ainda mais absurda: “se, no futuro, a mulher se casa e tem outros filhos, o filho do estupro costuma ser o preferido.”  Quer dizer então que além de afirmar que as mães possuem preferência entre seus filhos, essa preferência obrigatoriamente irá ao fruto de um crime sexual? O quão absurdo e inverossímil isso é? Não é preciso ser um gênio para saber que a realidade passa longe disso.

Um projeto desses não visa o auxílio necessário a uma vítima e nem a solução para o crime, pelo contrário, se baseia em crença religiosa para usar o dinheiro público como forma de consolação e caridade fazendo com que um crime brutal e hediondo ganhe facetas aceitáveis, consoladoras e até incentivadoras.

O projeto por mais que nunca venha a ser aprovado, não pode de forma alguma ser levado ao esquecimento. Gravemos os nomes e rostos de seus idealizadores para que uma vez fora de seus cargos políticos, nunca mais venham a exercer nenhum outro.

Postado por Marina | Categorias: Crônicas, Marina
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05 dez 2011

Quadrilha


Quando tinha 11 anos, me apaixonei por um menino dois anos mais velho. O contato mais próximo que tivemos foi quando ele pisou no meu pé na fila da cantina. Mesmo sem ainda me dar conta, estava aprendendo uma importante lição sobre relacionamentos amorosos: gostar de alguém não era garantia nenhuma de que seria gostada de volta.

Tudo que eu mais queria era poder pedir pro meu pai comprar aquele garoto para mim, mas o amor não funciona assim e uma hora ou outra a gente tem que descobrir isso. E consequentemente se frustrar.

Anos mais tarde, fui também apresentada a “Quadrilha” de Drummond e pude entender que além do amor nem sempre ser bilateral, ele também traumatiza e estraga vidas.

“João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.”

Lili
Lili não amava ninguém, e consequentemente não sofria daquela pontada aguda no coração que só sente quem já amou sem ser amado de volta. Lili era livre, tinha alguém que a amava apenas por ela ser Lili, já que não retribuía esse amor. Ela conheceu apenas a face bonita do amor. Final feliz para Lili, se casou com J. Pinto Fernandes, que não estava na história, ou seja, não possuía passado nem ex para infernizar a vida de Lili. Mulher de sorte, eu diria.

Joaquim
Joaquim é apenas um dos casos trágicos dessa história. Ele amava Lili, que prefiria não amar ninguém a ter que amá-lo de volta. É triste quando se é trocado por outra pessoa, mas é mais triste ainda quando se é trocado pelo nada. Saber que nada é ainda melhor que você deve ser de uma dor enorme. Não por acaso, Joaquim suicidou-se.

Maria
Maria amava Joaquim, um rapaz provavelmente depressivo e com tantas cicatrizes internas devido ao seu amor pela tão livre Lili, que não conseguia enxergar Maria. O amor não é tão óbvio, é preciso observação, cuidado e mente sã. O que Joaquim, o futuro suicida, não possuía. Maria deve então ter ficado esperando que algum dia, Joaquim enxergasse todo seu amor e se arrependesse de todo o tempo que perderam sofrendo em vão. Mas como o amor da vida real não é um filme de Hollywood, o final de Maria foi esperar eternamente por alguém que nunca chegou e nem chegaria.

Raimundo
Raimundo amava a ingênua Maria, que gastou a vida esperando. O fim de Raimundo não foi decisão própria, ele morreu num desastre. Foi o único que não teve escolhas. Enquanto os outros dirigiram suas vidas da forma como acharam melhor, a de Raimundo foi dirigida. Talvez o fim mais trágico, já que a falta de escolhas é sem dúvida uma das formas mais cruéis de direção.

Teresa
Já dizia Caio F “Viver é a melhor vingança”. Teresa amava Raimundo que não a amava de volta, e deve ter nutrido essa desilusão de forma tão amarga, que desistiu pelo resto de sua vida do amor e dos homens, se mandando para um convento. Mas não pense você que Raimundo era flor que se cheire. Para uma mulher tomar uma atitude tão drástica dessas, provavelmente Raimundo possuía culpa em tanta mágoa. Deve ter pisado nos sentimentos de Teresa. E veja só como a vida é, se encarregou sozinha de dar o troco a Raimundo.

João
Na primeira vez que li esse conto, senti pena por João não ser amado por ninguém, mas depois pude entender que mesmo João não sendo evidentemente amado por outra pessoa, há uma história paralela a essa nas entrelinhas:
João mantinha um caso secreto com J. Pinto Fernandes, uma bicha enrustida e covarde, que por pura pressão social e sem coragem de se assumir para o mundo, casou-se com Lili para evitar fofocas e desviar a atenção. João, frustrado e enojado por tamanha covardia, decidiu que não se tornaria um fraco como J. Pinto Fernandes e foi atrás de seu maior sonho: foi ser Drag Queen nos Estados Unidos.

Fim

Já não acho que Lili teve um final tão feliz assim. O que nos leva a aprender a segunda lição desse texto: o amor é um saco de merda mesmo quando parece ser um vaso de flores.

Postado por Marina | Categorias: Crônicas, Marina
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30 nov 2011

Amigos do Facebook

Estava hoje dando uma anlisada na minha lista de amigos do Facebook. Encontro-me com um pouco mais de 1770 amigos, um número muito pequeno comparado ao número de pessoas que já passaram de alguma forma na minha vida, e  muito superior ao número de telefones na agenda de contatos do meu celular. Não que isso tenha alguma coisa a ver, não tem. A sua vida online nem sempre reflete sua vida real. Não costumo sair para beber chopp com 1770 pessoas, mas de alguma forma todas aquelas pessoas esbarraram com o meu caminho durante o percurso de seus próprios, fazendo com que cada um se enquadre em uma determinada categoria de relacionamento na minha vida, e nesse quesito, o online e o real não se diferenciam em nada.

Classifiquei-os então em 10 categorias listadas abaixo:

Familiares 1 – São aqueles familiares mais próximos. Aqueles que realmente se fazem presente no dia-a-dia e que a convivência passa das datas festivas.

Familiares 2 – O tio do primo da sua avó que te achou, sabe lá Deus como no Facebook, mesmo que seja um completo babaca e muito diferente de você ou um gênio, talvez igualmente diferente de você, ele lá no fundo, beeem no fundo, ainda é seu familiar.

Melhores amigos – São os amigos que você mais possui contato. Aqueles amigos que você costuma telefonar, convidar para sua casa, e que atualmente se encontram no patamar mais elevado possível de relacionamento com você.

Amigos – Algumas pessoas se encaixam no meio do caminho entre “melhores amigos” e “conhecidos”, são aquelas pessoas que você nutre um carinho a mais e que possuem uma relevância significativa na sua vida para serem chamados de “conhecidos” mas que ainda não alcançaram o nível de “melhores” ou que algum dia já alcançaram, mas por alguma eventualidade da vida, alguma escolha errada ou algum catastrófico erro fez com que a relação de “melhores” nunca mais pudesse ser novamente estabelecida.

Amigo do amigo – Ele não é seu amigo mas está presente nas suas melhores memórias entre amigos. Ele é amigo do seu amigo, o que não o transforma em seu amigo, mas garante a ele uma consideração a mais e um espacinho de canto nobre na contact list do seu coração.

Conhecidos – Pessoas entram e saem de nossas vidas todos os dias. Algumas saem tão insiginificantes como quando entraram, sem estabelecer vínculo afetivo suficiente para que haja algum esforço para suas permanências. Não são pessoas desagradáveis, não são pessoas que você prefere não estar perto. São apenas pessoas sem muito contato que não cativaram, ou ainda não, qualquer sentimento em você, o famoso “não fede nem cheira”.

Semi-conhecidos – São aquelas pessoas que quando você está andando na rua e as avista de longe, entra na primeira loja ou lanchonete que aparecer no caminho ou finge que está falando ao celular para não precisar socializar com elas. Você teria tempo para uma breve conversa, você apenas não quer. Não há motivos para isso, aquela pessoa nunca te fez mal algum, e é por isso que você a mantém como contato da rede social, mas ela é tão insignificante, e mais, ela não acrescenta absolutamente nada em sua vida de uma forma tão forte, que você acha mais interessante chegar 5 minutos mais cedo em casa e cortar as unhas do pé do seu pai, do que gastar seu tempo perguntando de uma vida a qual você não tem o menor interesse em saber.

Admiradores – Acredito que 90% das pessoas são admiráveis em algum ponto. Seja por uma beleza ofuscante, por uma inteligência invejável, por um ótimo gosto musical, ou catando lá no fundo, até por um simpático e belo dedão do pé, quase todo mundo possui alguma característica admirável, e são essas características o motivo de aproximação das pessoas. Essas pessoas possuem vínculo com você, mas você não possui com elas. Elas se contentam em acompanhar sua vida de longe.

Pessoas admiráveis – É o inverso do tópico anterior. Por mais admirável que você seja, ninguém é tão egocentrico ao ponto de não possuir admiração por mais ninguém além de si própria. Todos nós admiramos algo em alguém e gostamos de manter e acompanhar essas pessoas.

Ex-amores – Não adianta, uma vez amor, nunca mais se tornará novamente um amigo. Será sempre um ex-amor, e a essa categoria permanecerá para sempre. Palavras foram ditas, promessas foram feitas e sentimentos foram sentidos, ignorar que um dia tudo isso esteve presente é estupidez. Se você não é uma pessoa emocionalmente perturbada, carente ou chata, já possui amigos o suficiente e não necessita da ilusão de querer transformar um ex-amor em um deles.

 

As pessoas não são iguais e suas influências em nossas vidas também não. Elas tomam atitudes referentes a si mesmas e aos outros que são exatamente o que ditam em qual categoria de relacionamento elas estão com você. Não possui ligação com sua importância isolada, apenas com a importância que ela exerce sobre a sua vida. Um melhor amigo seu, não passa de semi-conhecido de outra pessoa. Assim como você em milhares de outras vidas. E assim é a vida, o que para um é apenas um grão de areia, para outro é o mar inteiro.

Postado por Marina | Categorias: Crônicas, Marina
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29 out 2011

Você não se quebrou

Vasos chineses se quebram. Copos de cristal, ventiladores de teto, discos da Tina Turner, se estivermos com sorte. Pessoas nunca, a não ser quando esquecem de olhar os dois lados. Mas emocionalmente falando, não. Quem sou eu pra dar pitaco na sua fossa? Ninguém. Você levou um tombo e tanto, e pronto. Se machucou, ok. Dói, eu sei. Perdeu sua capacidade de amar, verdade. Ou não. Não existem verdades, apenas versões, na minha versão.

Sei bem como funciona, quantas vezes já fui dispensado do amor. Muitas. Quis quem não me queria, amei quem enganava, compartilhei unilateralmente, acreditei no sonho hollywoodiano, me quebrei, levantei, desisti, contei mentiras, interpretei. Parece propaganda de telefone celular via rádio estrelada pelo Fábio Assunção, mas é só minha versão daquele trânsito caótico de um amor para outro.

Você não se quebrou, eu não me quebrei. Nascemos com a disposição natural para o amor. Falo por você e eu, não pelos bárbaros da história – Hitler, por exemplo. Sim, não conseguimos imaginar viver sem, sentimos saudade, choramos, compramos discos e livros por impulso, atravessamos sábados com calças de abrigo revisando filmes melancólicos – meus favoritos são “Um Beijo a Mais” ou “A Vida é Bela”, produções genuinamente italianas, terra de gente que ama demais.

Bem, como gosto disso de sofrer com pés na bunda, resolvi amar de novo, a contragosto, paladar típico de um desistente. Cafés da manhã românticos, passeios de mão, festas em família, palpites de sogra, distribuição de beijos e mordidas em pezinhos pequenos. Viajamos pelo mundo sem sair de casa. Sabe quando o gostoso da transa se estende ao sono abraçadinhos? Pois é. Além de piegas, um prato cheio pra quem quer, mais uma vez, sair com a impressão de que o amor é o diabo com a garganta cortada ou um cão sarnento e raivoso.

Eu não estava quebrado, foi só uma interpretação, uma versão daquele ato final. Um sonho curto, ruim e mesquinho dentro do meu sonho maior, longo e aberto – apelidado de vida real, existência, a lucidez com suas esquinas e possibilidades. Eu não me quebrei, só atribui importância demais à oscilação momentânea da minha autoestima, valor demais a mim mesmo, pior, ao objeto dessa dependência psicologicamente física. Uma versão demasiado dramática do meu abandono. Fiz da minha vida uma ópera, um livro.

Você continua apto e aberto ao amor. A sede não seca. Se as coisas não aconteceram é porque não aconteceram. Pretensão sua achar que se fechou, que pode decidir, dirigir sua vida. Demita sua analista e olhe pros dois lados. Você só está perpetuando sua primeira experiência sobre o fim, cristalizando a primeira lágrima que caiu, como se tudo aquilo que acabou fosse realmente grande, infinito, definitivo.

O amor te feriu como fere uma flecha sem velocidade e impulsão. Ela cai no chão, você junta e enterra no próprio peito. É pena que quer despertar no outro, no próximo, no amado que se foi? Ninguém tem pena de você. Basta nascer para começar a sofrer, tudo é impermanente, não se iluda. O amor é gasoso, invisível, lendário, metafórico, um sonho. E como todo sonho é insólito, não pode ser cadeado em algum outro lugar que não o coração.

Seu coração não quebrou, pelo contrário, é única coisa que ficou intacta. Ele está lá, esperando por outrem. Como o meu, que pulsa melhor que antes. Um dia vou despertar e voltar a me abraçar com a solidão, estou sabendo. Por hora, não. Amanhã. Hoje, sigo sorrindo, chantageado pela minha versão atual. Toda manhã meu sonho acorda dentro de outro sonho.

Não temos o hábito de postar textos de terceiros aqui no blog, mas esse texto merece ser compartilhado. Créditos desse texto maravilhoso ao igualmente maravilhoso Gabito Nunes

Postado por Marina | Categorias: Contos, Marina
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