Talentos inúteis
jun 24

Cena rara no pique-bandeira: um mamute sai de sua posição de contenção e vai ao campo adversário. A marcação do cavalo #2 é implacável. Jogada de um time escalado com um 1-3-2 ultra ofensivo.
A gente pode não dizer ou não notar, mas todo mundo se orgulha de algum talento mongol, ou de um dom que não serve pra nada. Sério, a menos que você viva por esse pseudo-talento, ele não vai te dar coisa alguma (malabarismo, por exemplo). A graça mesmo é gerar um “pô, maneiro!” no indivíduo e se sentir um cara irado, nem que seja por três minutos.
Quando eu estudava na Escola Pequeno Príncipe, desenvolvi técnicas que me credenciaram a entrar em qualquer grupo estudantil homossexual (como se estudar na Escola Pequeno Príncipe já não fosse gay o suficiente). Era o perito na hora de pular corda, mesmo naqueles desafios em que você pula de um pé só, imita uma galinha, da uma rodadinha e só não dá a bundinha, porque sexo era proibido no colégio. Dentre meus sonhos de consumo aos 10 anos, estava o Pula corda do Gugu, sem dúvida alguma.
É claro que eu não ficava só pulando corda naquela escola. Também jogava queimado. Mas não era um simples jogadorzinho, era sempre o primeiro a ser escolhido, quando não o cara que escolhia. Eu era o macho-alfa do queimado (desculpa o paradoxo). Jogar comigo era ter a certeza de proteção aos mais fracos, desvios sensacionais, e arremessos técnicos, nunca mirando a cabeça (pois era crime inafiançável) ou os peitos das meninas (pois eram um investimento para o futuro).
Mas acho que meu talento mais inútil é ter consciência tática para jogar pique-bandeira. Foi quando percebi que gasto inteligência com merda. Neste jogo, forjei um padrão baseado na natureza: as gazelas, leves e rápidas, tentavam buscar a bandeirinha na outra área. Obviamente eram as sacrificadas. Os cavalos ficavam no meio, ora exercendo a função de contenção no fundo da quadra, ora indo salvar as gazelas paralisadas no campo adversário. Para fechar a retaguarda, os mamutes, os mais corpulentos, que ficavam protegendo a bandeirinha e não se movimentavam muito. Eu era o leopardo (o capitão do time podia ser o animal que quisesse). Como só o meu time adota esse estilo, eu sou o único leopardo da história do pique-bandeira. Obrigado!
Depois de crescido, despertei um gigante interno que para mim nem existia. Comecei a fazer malabarismos com as laranjas de casa, assim eu aprendia uma inutilidade nova e dava um destino divertido para as laranjas, coitadas, que não passavam por emoção alguma antes de se resumir a caroços cuspidos. Passei uma época praticando o dia inteiro, só para passar pela onda de ensinar as pessoas, tratando-as como verdadeiros discípulos.
Outro talento retardado é a minha perfeita noção de posicionamento e coordenação motora, que me dão reflexos muito apurados. Treino todo dia: derrubo as coisas para pegar no ar; caço mosquitos com a mão; qualquer coisa que cair no chão, eu me jogo pra pegar (mesmo objetos de vidro ou cortantes), jogo meu chaveiro para o alto e tento pinçar a chave da porta com o polegar e o indicador… É uma obsessão. Se alguém pensa em brincar comigo de “PENSA RÁPIDO”, eu já pensei e desvio do objeto que vão me jogar. Às vezes eu penso que seria capaz de desviar até de balas (não exagera, Pedro Staite).
Mas não adianta. Todo mundo era talentoso até conhecer o Youtube, depois acabou a ilusão de que você sabia fazer bem alguma coisa. Você acha que joga bem Guitar Hero, aí olha um puto fazendo 100% na música que você só passou depois do Conselho de Classe. Você pega sua guitarra e grava um solinho maneiro, aí vê um japa desgraçado tocando com duas guitarras ao mesmo tempo. Não procurei, mas tenho certeza de que algum filho da Diaba tem um esquema tático de pique-bandeira melhor que o meu.






