Corra Mary
29 set 2010

Conhecendo a sogra e toda a turminha

As sogras são inegavelmente importantes: se não fosse pela camisinha estourada, pelo planejamento familiar, pelas loucuras carnavalescas ou pela ineficácia dos métodos contraceptivos, elas não teriam parido pessoas maravilhosas que namorariam com outras. Estas também paridas por mães que se tornarão sogras e assim por diante até os meteoros ou as relações internacionais seriamente conturbadas darem cabo à humanidade. Por outro lado, é difícil imaginar que elas não causem temor, pelo menos em algum grau, nos pombinhos que acabam de se conhecer. E não raro, elas continuam atemorizando até que você pense em assassinato. É desolador demais para uma mãe saber que há um varão, que sabe Deus se fuma crack ou inala éter, levando sua filha para o caminho do pecado. O problema reside justamente aí: há esse ranço de que os jovens são inconsequentes, hedonistas e o caralho a quatro. Isso é um embuste encardido, e eu carrego o estandarte desta afirmação: dentre todas as fontes de prazer existentes, sou muito mais acompanhar uma bela paisagem bucólica ao som de odes tocadas ao violão (ok).

Na última semana, fui chamado para conhecer os parentes da minha namorada. Era um domingo de feijoada na casa dela. Quem me conhece, sabe que eu trato as carnes do feijão da mesma forma como trato as prostitutas: tenho medo irracional de ambas, por isso mantenho distância. No entanto, não pude recusar o convite, afinal, a avó (mãe e sogra duas vezes) perguntou para a neta se eu bebia cerveja, e comprou algumas Antacticas pra mim. Diante de tão doce demonstração de apreço por um desconhecido, não pude declinar do convite. Seria desfeita. Chegando lá, houve o habitual constrangimento de conhecer as peças, embora elas fossem absolutamente benevolentes. O que me incomodou, é que todos são muito letrados, e não costumam errar no português, hábito que foi perpetuado na minha família, povo rústico, de poucas posses e muita bronquice. Interagir com poliglotas cultos é um desafio para mim, mas tentei usar a minha maior arma – o humor – para conquistá-los.

Quando terminei o meu prato, que foi até gostoso, mas não admitia repetecos, a avó me perguntou se eu queria repetir. Falei que estava satisfeito. Aí a mãe disse: – Pedro, em família de mineiro, quanto mais você comer, mais pontos você ganha #fikdik (mentira, ela não pôs essa hashtag).

Neste momento, me serviram uma segunda cerveja. Isso me deu um insight para uma manobra arrojada cunhada na gracinha:

- Bem, não sei quanto a comer. Mas quanto mais eu beber, mais ganho pontos também né?

Todos riram, mas a sogra enveredou para um sorriso de “abre teu olho, rapaz”:

- Haha… Não, não… Aí você perde cada vez mais pontos.

Em uma atitude desesperada, exclamei: – Mas eu não consigo agradar vocês!

Aí a avó continuou na admoestação:

- Beber não, quanto menos beber melhor.

Tomei um gole de cerveja esperando que ela tivesse passado por um problema na fábrica e contivesse, por acidente, doses letais de arsênico. Mas continuei vivo e sabendo que estava na zona do rebaixamento: não podia mais perder pontos fora de casa. A partir de então, aceitaria comer tudo o que oferecessem. Na hora da sobremesa, a avó me perguntou se eu queria sorvete. Agradeci por dentro, afinal, amo sorvete! Perguntei quais sabores, pois desde que não fosse de milho verde ou passas ao rum, tomaria umas 20 taças:

- Tem de milho verde e passas ao rum.

- Tá, eu quero me matar, quer dizer, quero o de milho verde.

Tomei o sorvete lembrando que na Coréia do Sul é hábito tomar sorvete de feijão, logo, tudo poderia piorar. Na hora de lavar a louça, fiquei conversando amenidades com a avó. Quando estava quase ficando à vontade, ela me perguntou efusivamente:

- Pedro, você fuma?

O rabo que estava preso entre as pernas quase entrou na minha bunda. Respondi de bate pronto:

- Nããão…

- Ah, graças a Deus

Quando a namorada voltou, disse para ela ao pé do ouvido:

- Larissa, falei para a sua avó que eu não fumo. Sustenta a mentira.

- A minha avó sabe que você fuma.

Entrei em crise tentando falar em infrassom com ela para ninguém ouvir. Depois ela me disse que só a mãe sabia. Tudo não passava de um sadismo antitabagismo por parte dela. Eu mereci. Saí de lá altamente ressabiado quando a noite chegou. Até hoje não ouvi sequer um “elas te acharam simpático” da minha namorada. Espero não estar em maus lençóis.

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22 set 2010

Contos da urologia

“Se o urologista gostar de pênis, travará uma batalha vã durante a vida contra a tentação. Se ele não gostar, haverá uma contenda inglória para arrefecer sua ojeriza diária. O meio do caminho é de um equilíbrio precário dificilmente alcançável”

(Hipócrates)

(aham, Hipócrates, claro)

- Vamos lá ver isso.

- Ali?

- Isso. Tira a calça, o tênis e a cueca.

- (esse meu nervoso vai me diminuir penianamente e vai ser vergonhoso. Mas tudo bem, o que ele já deve ter visto de moléstia pélvica nessa vida não está no gibi. Se estivesse, o gibi seria para maiores de idade).

- …

- Vou tirar a meia também para não ficar feio, tá?

- Não. Fique com as meias.

- (isso é fetiche ou procedimento padrão?)

***

Oito, igual, igual, igual, dê maiúsculo. Um pênis média nacional em símbolos.

***

- Eu estava com ejaculação precoce. Não sabia o que estava acontecendo, só sei que era ridiculamente rápido.

- Aí você foi ao Boston Medical Group?

- Cara, quase. Eu via o anúncio na tv e pensava “caralho, será que eu vou ter que ir ao Boston Medical Group com a minha idade?”.

- Tenso.

- Pois é…

- Mas aí você foi a um urologista qualquer então.

- Fui. E na sala de espera tinham vários velhinhos “Boston Medical Group”. Foi desesperador.

- Mas você melhorou da ejaculação precoce?

- Não sei. Não fiz sexo desde então.

- Tenso.

***

- Meu pai foi a um urologista há uns quatro anos para fazer exame de próstata pela primeira vez.

- Não é o proctologista que faz isso?

- Ele foi ao urologista. Próstata, né?

- E como é que foi? Deve rolar toda uma psicologia.

- Pior que não. É direto: “tira a calça e deita ali”.

- Mas não tem nem uma historinha?

- Seria pior se tivesse.

- Por quê?!

- A pessoa pode ficar nervosa, o cu travar…

- É… Melhor sem historinha.

A medicina apregoa aos quatro ventos seus enormes avanços tecnológicos: as cirurgias cardíacas com robôs, os transplantes faciais, as trocas de sexo… Mas enquanto uma dedada no cu se fizer necessária para formular um diagnóstico, a medicina continuará convivendo com uma baita lacuna.

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17 set 2010

Cabeça cheia

Neste período a minha rotina ficou inteiramente tomada pelas obrigações. Embalado pelo lema de vida “disposição e disciplina”, que eu obviamente não sigo, me embrenhei em faculdade, estágio, grupo de teatro, espanhol e inglês, tudo ao mesmo tempo. Isso porque ainda tenho este blog para alimentar, amigos para conversar e namorada para namorar. Ando tão confuso, que às vezes me pego conversando com o blog, alimentando a namorada e namorando meus amigos. O mais esquisito é que eu estou fazendo várias atividades que eu deveria ter feito na infância: cursos de línguas e teatro. Se eu não tivesse uma bela monografia pela frente, teria me matriculado na escolinha de futebol e no jiu-jitsu.

Estou ficando vergonhosamente estafado no plano mental. Outro dia, ao sair do estágio, fui ao china mafioso comer um joelho e uma coca de garrafa por tlê leal e cinquenta. Engoli a massaroca, que, com o photoshop estomacal que o meu espírito faminto havia engendrado, estava uma delícia divina. Saí correndo para pegar o ônibus e reparei que não tinha pago. Voltei com vergonha e recebendo olhares chineses rancorosos (sabe Deus o que um chinês com raiva é capaz de fazer. Se com fome, ele come escorpião, imagina com raiva?).

Por falar em ônibus, há algumas semanas estava em um indo para o estágio. Faço o mesmo caminho há meses. Sempre que caio no sono, acordo no mesmo lugar, pois é uma curva fechada para a direita e outra para a esquerda. Só continuaria dormindo se estivesse em coma. No entanto, passei do ponto e levantei desesperado no seguinte. O curioso é que eu estava acordado… Pensava “tenho que marcar duas entrevistas, mais tarde tenho aula, não posso me atrasar, tenho que descer no próximo ponto, putz, não posso me esquecer de gravar o programa que o cara pediu, porra, que sono, vou chegar e ligar direto para a assessoria, CARALHO, PASSEI DO PONTO!”. Desci achando que meu destino era o alzheimer juvenil. A hipótese nem de longe pode ser descartada.

No meio de toda essa confusão mental, ainda tenho que decorar oito cenas para a peça que meu grupo amadoríssimo de teatro está fazendo. Escrevi quatro, mas nem isso me ajudou: cada vez que eu as leio, parece que é a primeira que elas me foram apresentadas. E não há coisa mais atemorizante do que a possibilidade de esquecer o texto no palco.

Fofocas da laia científica afirmam que maconha estraga a memória, que seus neurônios vão pra terra do nunca, e lá ficam até o corpo desencarnar. Se eu fizesse uso da erva satânica, acho que seria meu fim. A falta de memória que a minha rotina tem me proporcionado se juntaria com o déficit mental que a cannabis gera, e pronto, eu seria um corpo sem a menor referência. Sorte minha que eu sou cristão, devoto de Nossa Senhora da Sobriedade (quem me vê sempre no bar pode confirmar isso).

Volta e meia me paro pensando “que que eu ia fazer, hein?”, aí volto ao que estava fazendo, e depois me lembro de novo o que ia fazer. É um vai e vem escroto da porra. Agora ando desenvolvendo métodos para que eu não caia nas armadilhas cerebrais de uma cuca desregulada. Agora faço mais anotações do que nunca, mando e-mails para mim mesmo com avisos importantes, ando usando mais do que nunca os marcadores de e-mails para me lembrar dos que são importantes. Estou usando muletas, pelo menos enquanto o ano não acabar.

A situação é tão periclitante que eu já me esqueci o que significa a palavra “periclitante”. Só a usei porque meu dicionário é mais importante que meu pai (e foi ele quem me deu o dicionário. Deve ser triste ser traído por um presente que você mesmo dá. É por isso que jamais presentearei minha esposa com um vibrador). A situação é tão periclitante que às vezes eu esqueço até meu nome.

Tá, não precisa exagerar, Jonas Emiliano…

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21 jan 2010

O segundo dia mais gay da minha vida

Eu juro pelas paredes do meu intestino que eu não queria elaborar um texto sobre esse episódio. Eu sempre tive a mania de escrever alguma coisa engraçadinha depois que me acontece uma coisa chata / degradante. Foi assim com a menina que esfregou na minha cara, mas eu não percebi porque tenho problema mental (“Papando uma mosca varejeira”); e com a menina que me deu um toco saindo correndo pela rua (“A curiosa vez em que Deus se vingou de mim”).

Em um dia em que deveria ter ficado jogando Uno com a minha avó, fui pra uma festa com pessoas moralmente incríveis e questionáveis. Era semi à fantasia, pois nenhum convidado destoava por estar com ou sem roupinhas ou apetrechos normais ou fantasiosos. As músicas eram razoáveis – ora desciam ao inferno (funk!), subiam prum hip hop inofensivo, chegavam ao topo com uns roquinhos e desciam tudo de novo depois.

No meio dos festejos, olho para uma menina que estava fantasiada de Pocahontas. Pensei “isso lá em casa ia ter muito trabalho…”, mentira, pensei “clarearia o filho dela, mas pelo menos lhe daria olhos azuis”, mentira de novo, apenas pensei “porra, bonitinha essa Pocahontas, hein? Puta que pariu, se tivesse músculos, chegaria agora!”. Ela passou e eu continuei a dar atenção à única fêmea que jamais me abandonou: a cerveja.

Fui dançar, pois danço muito, quando vi uma outra garota, só que vestida de mulher gato, com uma roupa coladinha. Imediatamente me veio à mente: “pega esse chicote e bate no meu lombo, gostosa”. Na verdade foi assim: “Obrigado Deus, por existirem as calças de ginástica. E obrigado mais ainda pelas mulheres que as usam sem sentir vergonha nem complexo de observação por nossa parte”.

Procurei saber dados da Mulher gato e descobri que na faculdade ela tem apelido de heroína da Disney (lembrando que a Pocahontas, a outra, nessa hora está em outra dimensão que não saberia detalhar agora). Soube também que a Mulher gato havia terminado um namoro há pouco tempo. Isso me debilitou a alma, afinal, sou expert em ficar com meninas que voltam para os ex (“Esse texto não tem graça”). Só que o pior não era isso, a constatação que meu amigo fez foi mais desanimadora ainda e ajudou a tacar algumas pás de cal nas minhas segundas intenções:

- Ela é ex-namorada daquele negão ali, oh. Ele faz vale-tudo. Mas ele é legal!

Legal? Quero ver ele sendo legal me vendo ficar com a ex dele. O cara faz vale tudo, meu Deus, imagina ele puto da vida?

- Ei rapaz, fiquei chateado com a sua atitude! Mas que índole ruim, é um puta vacilo, meu!

É, seria exatamente assim…

Enfim, além disso, imaginei que eu, na minha posição pélvica ordinária, só poderia ser a ÚLTIMA pessoa a se envolver com uma menina que acabou de terminar com um negão de vale tudo. Porra, sai o negão e entra o Pedrinho? Ela teria um vazio existencial sem precedentes. Eu não gostaria de estar por perto.

A festa foi se encaminhando até que eu esbarrei com a Pocahontas do início do texto. Retirei um assunto ridículo do fundo de mim e fui falar com ela:

- E aí? Quer uma cerveja, um cigarro, um aperto de mão, um abraço…?

- Não, eu não fumo nem gosto de cerveja.

- (vaca filha da puta, vai ser mal comida assim na puta que te pariu) beleza (vira pro lado e finge que ela não existe, Pedro!).

- Fumar mata, sabia?

- É, eu sei (ih, vai puxar papo agora, é? S2… Não! S2 é o cacete!)

Conversamos bastante mas não deu em nada. Pegamos nossos contatos virtuais e começamos um chove não molha de 40 dias e 40 noites. Um dilúvio para a minha angústia e uma oportunidade única para jogar a minha mais fina retórica fora. Tenho plena noção de que eu pari e pari o máximo de originalidade que poderia sair de mim. A gente se deu muito bem, até que ela me chamou para irmos a uma festa no 13º pior lugar do Rio de Janeiro (as duas Mariuzzins estão antes, o necrotério também, claro): Cine Lapa.

Fui para lá já sabendo que seria um desafio no mínimo interessante: era uma festa gay. A fila era gigante e eu mastigava na cabeça os prós e contras daquela noite, mesmo sem tê-la vivido ainda:

- Vai ser vergonhoso se ela não quiser, meu Deus…

Lá dentro, como era de se esperar, não houve sequer uma discussão, uma briga, pois os gays são uma fração evoluída do nosso mundo. Se eles vão para a festa, eles vão festejar, nada mais coerente. Eles vão lá para também, quem sabe, arranjar um amor. Um deles, inclusive, queria que o amor fosse eu:

- Pedro, meu amigo está interessado em você…

- (Porrete, que merda de hétero sou eu para entrar numa festa gay e dar esperança para os outros? Bem, pelo menos alguém se interessou, até que eu não sou de todo mal… Deixa eu ver se o cara é bonito… Que isso, Pedro? Tá maluco?) Bem, pede desculpa para ele, cara. Diz que eu sou hétero.

A musicalidade continuou alta, todAs nós dançando Lady Gaga, Beyonce, Madonna e mais uma caralhada de divas. Eu já bebendo cerveja meio nervoso reparando que o meu approach não estava evoluindo como esperava. Fui ao banheiro meio apreensivo, com medo de que alguém quisesse meu amor por lá também, mas nada aconteceu.

Na volta, ganhei alguns sorrisos carinhosos e parti para o ataque. Aquilo ali seria tipo desfile de escola de samba: você se prepara por semanas e semanas para o dia decisivo. Aí você perde e fica com ódio. E foi exatamente o que aconteceu, perdi e fiquei com ódio. É claro que não um ódio dela e da festa. Era ódio só dela mesmo.

Arranjei uma desculpa para ir embora que não convenceria nem a Madre Teresa de Calcutá, mas também estava pouco me fudendo. Saí, comprei um cigarro varejo, pois seria minha forma de extravasar silenciosamente, uma vez que nem havia fumado na noite (se você fuma, vai perceber que minhas intenções foram nobilíssimas), e fui pra casa com um micro sorriso brotando na cara.

- Sai, sorriso, não vou escrever sobre essa porcaria de dia.

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Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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15 jan 2010

A magia das Tvs de ônibus

Hoje eu peguei o 572 e me assustei com a modernidade presa ao lado do cobrador. Era uma tela imensa, mais alta do que larga, com uma definição incrível, design arrojado, e cores, muitas cores pulando fora dela para a gente ver. Era simplesmente mais uma Tv de ônibus: em dado momento alguém teve uma ideia “jeniau” e reparou que TUDO o que faltava na vida de um passageiro de ônibus é justamente uma fonte riquíssima de entretenimento, já que conforto e segurança havia de sobra…

Parece novo, mas já podemos presenciar uma batalha entre Tvs de ônibus: tem a Bus Tv, que me parece ser a pioneira do ramo, uma espécie de TV Tupi sobre 8 rodas (quantas rodas tem um ônibus?); a “Bus”, que, se não tiver esse nome, foda-se, quem mandou não mostrar a marca direito?; e uma terceira, que é a mais incrível, pois tem como slogan algo como “a única Tv sem som para o seu conforto!”.

Não sei se seu pai é um magnata das telecomunicações e dos transportes, e resolveu juntas as coisas, assim como se junta feijão com sorvete. Mas, se for, manda ele para puta que o pariu. Mentira, peça desculpas para ele, e explique que essa iniciativa ainda não deu certo: as três TVs são tão escrotas, que eu rezo para o ônibus passar pela frequência da CNT, só para o nível melhorar. E convenhamos que a CNT só é melhor do que a TV Anel e a TV Jesus.

Por quê?

Bus TV – Ela predomina nos ônibus da Real: aqueles amarelinhos, cujo principal representante é o demoníaco 179 (“um–sete-nove” e não ”cento e setenta e nove”. Já reparou que alguns a gente diz número por número e outros a gente fala por extenso? O nove-nove-meia e o quinhentos e onze não me deixam mentir).

É uma Tv para quem tem tempo de sobra, daqueles que vão de um ponto final ao outro. Rolam umas charadas que demoram uns 5 minutos para dar a resposta (haja suspense); o horóscopo é fragmentado na programação, então se você lê Áries na Central, só vai conseguir ler Libra em São Conrado, uma tortura. Além disso, nela você pode ver os mais variados clipes… Eu disse “ver”, porque não dá para ouvir. Supostamente ela tem som, mas o motor do ônibus tem absurdamente mais.

Bus (ou outro nome secreto) – É a que está instalada na São Silvestre (a que eu vi hoje no 572). Essa reparou bem na lerdeza da Bus TV e resolveu fazer ao contrário – é uma Tv hiperativa. É tanta a rapidez que você não vai conseguir ler o que está escrito, a menos que você seja aluno (a) do professor Xavier.

São vários blocos como o Bus Gastronomia & culinária, que sempre dá toques sobre alimentação. Num deles dizia que o excesso de alho na comida pode causar… Bem, não sei, porque não consegui ler até o final. Assumo que fiquei curioso. Alho demais deve deixar a pessoa fedorenta e com algum problema no sangue. Talvez seja uma Tv com convênio com o Google, porque é fato que eu vou procurar o que acontece quando uma pessoa tem overdose de alho.

E o mais engraçado é que tem um chamariz “a Bus informa você”, mas deveria ser diferente: “A Bus informa você (parcialmente)” ou “A Bus informa você?” ou “A Bus informa você (só se você tiver uma puta duma leitura dinâmica)” ou “A Bus informa e o Papai Noel presenteia você”. É complicado, o negócio já começa nadando na mentira.

TV Sem som (ou “TV assumo que não sei o nome”) - Essa está ligada à Saens Peña, pois sempre tenho o prazer inenarrável de vê-la no 410. Como já disse, essa se tocou de que não dá para ouvir porra nenhuma no ônibus, então executa uma série para ser entendida mesmo sem som. Aliás, eu imagino que seja uma programação para você viajar dentro da sua viagem, uma vez que a programação é uma compilação de vídeos viajandões. Nela você encontra pessoas correndo, cachoeiras, imagens da cidade, pássaros voando, na mesma linha das imagens de arquivo do “Fala que eu te escuto”. Eu vejo e consigo imaginar uma voz no meu ouvido “Você acredita em milagres? Deus está perto de você…”.

Enfim, de qualquer forma, é impossível relaxar com essas imagens, porque o retardado esqueceu a seta do Windows bem no meio da tela. Sim, tem uma seta inerte no meio da “programação”. Por mais que você tente relaxar, sempre vai ficar uma parte sua lutando para que a seta suma da sua frente, não dá. Se você fumar uns três cigarros do capiroto, talvez consiga alguma coisa.

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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