As sogras são inegavelmente importantes: se não fosse pela camisinha estourada, pelo planejamento familiar, pelas loucuras carnavalescas ou pela ineficácia dos métodos contraceptivos, elas não teriam parido pessoas maravilhosas que namorariam com outras. Estas também paridas por mães que se tornarão sogras e assim por diante até os meteoros ou as relações internacionais seriamente conturbadas darem cabo à humanidade. Por outro lado, é difícil imaginar que elas não causem temor, pelo menos em algum grau, nos pombinhos que acabam de se conhecer. E não raro, elas continuam atemorizando até que você pense em assassinato. É desolador demais para uma mãe saber que há um varão, que sabe Deus se fuma crack ou inala éter, levando sua filha para o caminho do pecado. O problema reside justamente aí: há esse ranço de que os jovens são inconsequentes, hedonistas e o caralho a quatro. Isso é um embuste encardido, e eu carrego o estandarte desta afirmação: dentre todas as fontes de prazer existentes, sou muito mais acompanhar uma bela paisagem bucólica ao som de odes tocadas ao violão (ok).
Na última semana, fui chamado para conhecer os parentes da minha namorada. Era um domingo de feijoada na casa dela. Quem me conhece, sabe que eu trato as carnes do feijão da mesma forma como trato as prostitutas: tenho medo irracional de ambas, por isso mantenho distância. No entanto, não pude recusar o convite, afinal, a avó (mãe e sogra duas vezes) perguntou para a neta se eu bebia cerveja, e comprou algumas Antacticas pra mim. Diante de tão doce demonstração de apreço por um desconhecido, não pude declinar do convite. Seria desfeita. Chegando lá, houve o habitual constrangimento de conhecer as peças, embora elas fossem absolutamente benevolentes. O que me incomodou, é que todos são muito letrados, e não costumam errar no português, hábito que foi perpetuado na minha família, povo rústico, de poucas posses e muita bronquice. Interagir com poliglotas cultos é um desafio para mim, mas tentei usar a minha maior arma – o humor – para conquistá-los.
Quando terminei o meu prato, que foi até gostoso, mas não admitia repetecos, a avó me perguntou se eu queria repetir. Falei que estava satisfeito. Aí a mãe disse: – Pedro, em família de mineiro, quanto mais você comer, mais pontos você ganha #fikdik (mentira, ela não pôs essa hashtag).
Neste momento, me serviram uma segunda cerveja. Isso me deu um insight para uma manobra arrojada cunhada na gracinha:
- Bem, não sei quanto a comer. Mas quanto mais eu beber, mais ganho pontos também né?
Todos riram, mas a sogra enveredou para um sorriso de “abre teu olho, rapaz”:
- Haha… Não, não… Aí você perde cada vez mais pontos.
Em uma atitude desesperada, exclamei: – Mas eu não consigo agradar vocês!
Aí a avó continuou na admoestação:
- Beber não, quanto menos beber melhor.
Tomei um gole de cerveja esperando que ela tivesse passado por um problema na fábrica e contivesse, por acidente, doses letais de arsênico. Mas continuei vivo e sabendo que estava na zona do rebaixamento: não podia mais perder pontos fora de casa. A partir de então, aceitaria comer tudo o que oferecessem. Na hora da sobremesa, a avó me perguntou se eu queria sorvete. Agradeci por dentro, afinal, amo sorvete! Perguntei quais sabores, pois desde que não fosse de milho verde ou passas ao rum, tomaria umas 20 taças:
- Tem de milho verde e passas ao rum.
- Tá, eu quero me matar, quer dizer, quero o de milho verde.
Tomei o sorvete lembrando que na Coréia do Sul é hábito tomar sorvete de feijão, logo, tudo poderia piorar. Na hora de lavar a louça, fiquei conversando amenidades com a avó. Quando estava quase ficando à vontade, ela me perguntou efusivamente:
- Pedro, você fuma?
O rabo que estava preso entre as pernas quase entrou na minha bunda. Respondi de bate pronto:
- Nããão…
- Ah, graças a Deus
Quando a namorada voltou, disse para ela ao pé do ouvido:
- Larissa, falei para a sua avó que eu não fumo. Sustenta a mentira.
- A minha avó sabe que você fuma.
Entrei em crise tentando falar em infrassom com ela para ninguém ouvir. Depois ela me disse que só a mãe sabia. Tudo não passava de um sadismo antitabagismo por parte dela. Eu mereci. Saí de lá altamente ressabiado quando a noite chegou. Até hoje não ouvi sequer um “elas te acharam simpático” da minha namorada. Espero não estar em maus lençóis.

