Eles beberam o mundo antes de chegar a casa dela. Ele, em certo ponto embotado pelo álcool e estimulado pelo que ia acontecer lá dentro, ficou meio sem ação no elevador de porta pantográfica. Ela se sentia mais tranquila, pois voltava para a toca com ou sem álcool, com ou sem alguém todos os dias, era rotina. Ela abriu a porta, e foi observada de soslaio por uma gata preta em cima de um emaranhado de não sei o quê. Pelo aspecto da casa, outros organismos menores e menos nobres provavelmente observavam também a dona entrando em casa com seu affair de cinco horas antes.
Ele entrou no apartamento e sentiu, no ponto mais sólido que um gasoso pode estar, a fragrância desanimadora de bituca de cigarro com incenso de ananda. Ele bateu a porta e foi seguindo para o corredor não sem antes dar uma má olhada na cozinha, um cômodo que, se tivesse vontades e ações, convidá-lo-ia gentilmente a voltar para a porta pantográfica o mais rápido possível. A pia era a constatação do acúmulo. Uma frigideira, seis pratos, duas panelas, sete copos e sabe Deus quantos talheres jaziam sem a menor esperança de que um dia voltariam a ficar limpos. A pequena grade redonda presa no ralo segurava contra vontade toda a sorte de macarrões de anteontem.
Na sala, ele se perguntava que tipo de desapego pela limpeza uma pessoa como ela – tão potencialmente higiênica – poderia cultivar dentro de si. Um cinzeiro de bunda para o alto – bitucas distantes o suficiente em um metro de queda – adornavam o chão ao lado de uma garrafa que era caco puro. Cinzeiro e garrafa haviam caído da cômoda e ficaram no chão como se dependesse deles a volta para cima. Dava para ver que cada coisa espalhada pelo piso de taco tinha um endereço antigo em estantes, cômodas ou armários, mas por questões de estabanação, tropeço, relaxamento, ou Alzheimer, elas ficavam onde ficavam. Uma empregada ali seria um Hércules diarista de avental.
Ele entrou no quarto e praticamente não se assombrou ao ver um espelho – achado no lixo – em cima do sofá. O espelho estava estilhaçado pois alguém sentara nele por descuido na semana anterior. Ela tirou a camisa e tacou em direção ao cabideiro, que lutava contra o peso de suportar tanta roupa. O arremesso saiu errado, mas a camisa com certeza não ficou sozinha no chão. Ela tinha companhia de duas calças e outras duas camisas. Isso se esquecendo que contabilizar os cascos de cerveja. Um desses cascos parecia um membro da Ku Klux Klan, pois estava coberto por uma camisa branca – esse arremesso só pode ter sido certeiro.
Enquanto ela jogava suas roupas desordenadamente, pois sabia que encontraria o que quisesse, embora não com a limpeza que um sanitarista desejaria, ele era meticuloso. Tirava sua roupa e fazia o possível para que as peças ficassem juntas, afinal, não gostaria que uma delas ficasse esquecida para sempre naquele limbo. Fizeram o que tinham e fazer, e ela dormiu o que o álcool dizia que ela tinha que dormir. Ele ficou mais meia hora na cama se recusando a fechar o olho.
Até que ele levantou e pegou todas as garrafas do quarto e da sala e levou para a cozinha. Varreu o chão, tirou os cacos, reuniu todas as bitucas possíveis e imaginárias e jogou no lixo. Na pequena lixeira da pia da cozinha, havia o lixo compactado pela preguiça de trocar o saco. Ele o fez. Além disso, lavou a louça e livrou a pobre grade daqueles macarrões que só queriam descer pelo ralo. Pensou em como a comida pode ser nojenta quando está fora do prato ou da panela, e enquanto pensava, botava os copos limpos no escorredor. Dobrou as roupas dela e colocou onde achava digno repousá-las e juntou os calçados cada um com seu par no pé do armário. Fechou o laptop, ajeitou a cúpula do ventilador de teto e matou uma barata. Deixou a barata morta onde estava para mostrar à dona da casa que se não fosse ele, a barata podia estar na cara dela pela manhã. Comparada com a indecência que era antes, a casa estava impecável.
Era um agrado de despedida. Não voltaria nunca mais a aparecer.



