Corra Mary
17 dez 2010

É, Orkut…

(De 24/01/2004 – Até Facebook fazer sucesso)

O Orkut foi criado por um engenheiro turco chamado Orkut (oh!) Büyükkoktën (seus pais foram os mesmos que deram o nome para aquele vulcão islandês poderoso e destruidor, o Eyjafjallajokull) em janeiro de 2004. Menos de um ano depois, ter Orkut era sinônimo de ter alma – se inscrever no site era praticamente um dever cívico, como se alistar no exército para os meninos, e usar absorvente para as meninas. A pessoa simplesmente não era levada a sério se não tivesse Orkut, e olha que esse impulso louco de redes sociais nem existia ainda.

O Orkut ajudou a juntar namorados, parentes, amigos de longa data (amigos que já estão tão distantes quanto antes)… Mas começou a ficar irremediavelmente tosco. E foi essa tosquice que o arrefeceu impiedosamente. Hoje olho no meu fuxicator (o que já é tosco) e reparo que os nicknames atuais têm mais símbolos retardados como corações, asas de borboleta e estrelas do que propriamente letras. Por que uma asa de borboleta antes e outra depois do seu nome, porra? Para dizer que você é leve e sonhadora como uma borboleta? Elas não sonham, não têm consciência, mas você tem, ou deveria ter.

Outra coisa são os scraps: se você não acessa sua conta há dois meses, dê uma entrada e veja que você não vai ter mais do que 10 scraps novos, e certamente nove deles serão enormes imagens com dizeres simplórios de amizade, de “te amodoro” ou sei lá mais o quê. O ser humano não percebe que isso é mais tosco que tunar um Chevette? Lembro que tinha um scrap natalino que era uma árvore de palavras, e dentre elas havia uma que era “tenacidade”, mas ninguém nunca teve a mais puta ideia do que isso significou. Para não haver dúvidas, tenacidade, de acordo com os dicionários informais que o Google me serviu (logo, “não haver dúvidas” se torna relativo), quer dizer “perseverança. Sempre deletei os scraps padronizados de efemérides como Natal e aniversário. Era uma forma simbólica de boicotar essa preguiça mental que as pessoas têm.

Usar Orkut, com o passar dos tempos, foi perdendo status. Se na década de 50 era bem visto o cara que fumava cigarro, hoje ele é um emblema de um espectro de imundices, que vai desde a fedentina crônica até os enfisemas idem. Outra grife queima-filme é Mcdonalds, que, se não era algo glamoroso outrora, muito menos é hoje em dia. Comer um Cheddar fumegante é uma delícia, mas também a credencial pública de que você despreza o próprio coração (poxa, já é tão reprovável fazer isso com os dos outros, que dirá com o próprio). O Orkut vai indo precariamente pelo mesmo caminho.

O Facebook é muito mais glamour, tem até filme com o Justin Timberlake (não posso parar o texto toda hora para tirar dúvidas no Google – ele está no filme, não está? O nome dele está escrito certo?). O Orkut também poderia ter, mas creio que, ou seria de comédia, ou seria rodado na Índia, com orçamento baixo, off-Bollywood, com uma galera esquisita cantando enquanto envia scrap. Seria uma bela experiência.

Mas enfim, Orkut, descanse em paz. O Icq não durou pra sempre; Jesus não agradou a todos; o Audiogalaxy era uma merda para baixar música; o Justin Timberlake foi o único que deu certo no grupo dele; P.O. Box só teve um sucesso (Papo de jacaré – reza a lenda que era composição do Latino, logo, teve tudo para dar certo); o próprio MSN já está indo para o buraco; a Hebe saiu do SBT… Tudo tem início, meio e fim, com exceção do Oscar Niemeyer. Mas com ele também não dá pra competir.

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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10 dez 2010

Mulheres são do mal

Sabe aquela pessoa que nunca foi à República Tcheca, mas, graças a enciclopédias (que têm tanta informação quanto ácaro), sabe o PIB do país, a vegetação, as belezas naturais, o ciclo reprodutivo nos antigos sudetos, a origem do chá praguense e mais um monte de mongolice? Pois bem, em relação a mulher, eu sou quase a mesma coisa. Tudo bem que entrando na comparação, eu já fui à República Tcheca uma vez ou outra, mas andei teórico em excesso ultimamente (Jesus, nunca pensei que fosse fazer a clássica piada de ligar a fonética de “Tcheca” com a sexualidade feminina. Estou com tanta vergonha que eu poderia dar fim a minha vida se alguém pudesse dar início daqui a duas semanas).

Mulher é uma espécie de pastora que pretende fazer o mesmo que Jesus Cristo fez, só que sem querer: aumentar cada vez mais seu rebanho cativo. Elas te enlaçam, te convidam para dentro do cercadinho, você entra sem imaginar que é uma mera opção e o que acontece? Muitas vezes nada. Aí você desiste e pretende pular o cercadinho para conhecer novas pastoras. Mas nesse instante elas assopram um apito que emite um som que só as ovelhas podem ouvir (os cachorros patentearam isso, mas meu exemplo só admite ovelhas. Foi mal, K9s e Beethovens da vida). O assopro no apito de infrassom te faz voltar como um cãozinho, ou melhor, como uma ovelhinha disposta a mais um pouco de chove não molha.

Outra coisa que me assusta é que a própria mulher afirma que elas são menos solidárias entre si. Não existe aquela ética de “opa, você chegou primeiro? Tudo bem, pode ir” que é muito comum entre nós varões. Sei lá, me parece que no mundo de vocês é muito tênue a linha entre a “amiga que curte” e a “piranha vagabunda” ou entre a “amiga mais comportada” e a “piranha vagabunda sonsa”. É muito fácil ser a piranha ao mesmo tempo em que é muito difícil compreender quais atributos ela tem para ser caracterizada como tal. Já vi duas pessoas com comportamentos muitíssimo semelhantes, praticamente iguais, sendo que só uma era tida como vagabunda. A outra era o quê? Um anjo?

O que me impressiona também é ver como elas conseguem levar na boa um transtorno psicótico todo mês chamado TPM. Existem as mulheres de bem, que provavelmente perderam o hímen após os 18 anos ou após o casamento na outra vida, que não têm TPM, mas elas são favorecidas por Deus (um pouco de teologia agora: dizem que o hímen é uma espécie de lacre. Bem, na verdade, essa pele é como se fosse um interruptor: ao romper, uma reação imediata acontece. Mas onde, Pedro? Essa reação acontece no céu. Cada hímen tem um código e cada vez que um é rompido pisca uma luz lá em cima e Deus verifica o “Codhím”. Codhím é o Código do Hímen e serve para Ele localizar e identificar as meninas que viraram mulher pelo mundo no exato momento em que a transição aconteceu. Imediatamente Ele acessa um relatório e separa entre as que deram na hora certa, as que foram muito precoces, as que foram muito tardias e as que passaram por situações excepcionais. As que foram muito precoces são punidas com a TPM na reencarnação seguinte. As que passaram de 60 anos, mantiveram o hímen e morreram, têm o lacre desparafusado no céu e vão sem pele para a próxima vida. Agora você entende por que o mundo está descontrolado, né? É muito Codhím para verificar).

Mas esse negócio de TPM é uma questão filha da puta mesmo. Eu tinha uma namorada que possuía um útero maligno. Não sei como o endométrio dela escamava (talvez por um aparador de grama minúsculo), mas ela ficava com uma segunda personalidade tão chatinha, choroninha e pentelinha, que me dava vontade de dar um soco na cara dela. Devem ter pensado “cara, a gente precisa fazer leis de proteção à mulher, ainda mais quando ela está de TPM. Se eu que sou jurista tenho vontade se degolar minha mulher com estilete, imagine os populares?” – aí nasceu a Lei Maria da Penha, só pode ser.

A sorte de vocês é que nós homens temos pelos nos lugares errados; somos mais feios quando estamos nus; mesmo obesos, temos menos curvas; fedemos, peidamos e arrotamos com mais frequência; somos manipuláveis; mentimos mal; temos saco escrotal (não existe coisa mais feia e ofensiva) e o pior: acreditamos piamente no que vocês falam e geralmente gostamos daquilo que nós não somos.

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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17 nov 2010

Pudores excessivos a troco de nada

O bidê é a prova material de que a nossa sociedade para no tempo em alguns aspectos. Hoje em dia, na era dos gadgets que englobam 39 funções (telefone, música, vídeo, vibrador, psicólogo, tudo numa coisa só), é um anacronismo ter algo ocupando tanto espaço com um único objetivo: um chafariz com jato rumo ao túnel metafórico. Tanto é que as casas novas, rumo à otimização do espaço físico, não possuem mais o elefante branco da limpeza. Elas têm o famoso chuveirinho, que segue à risca o conceito da convergência: limpa não só a bunda, como também outras partes do corpo e serve para auxiliar a limpeza do banheiro.

Além disso, para muitas pessoas, o chuveirinho é como a Coca-Cola: foi inventado por um motivo, mas é usado para outro. Afinal de contas, nenhuma empresa de chuveirinhos pensou em masturbação na hora de fazer seus produtos.

Embora seja muito atraente falar sobre masturbação feminina, prefiro enveredar para um caminho mais desafiador e delicado: um papo que tive com um amigo não identificado sobre limpar a bunda com chuveirinho. Os seres humanos são diferentes, nada mais natural do que haver orientações sexuais, gostos, manias, objetivos, personalidades e, sobretudo, formas de limpar a bunda diferentes. Só não entendi por que ele tratou o tema com pudor excessivo.

Antes do diálogo, preciso alinhavar dois parêntesis sobre o tema:

Fui educado segundo a vertente Alfrediana de limpeza: uso papel higiênico desde tenra idade. Meu epitélio bundal se acostumou com papel, pois mesmo quando não era capaz de me limpar, mamãe me aplicava lencinhos umedecidos com aroma de flores campestres (não à toa que sempre penso em bunda infantil quando vou ao Jardim Botânico ou ao Parque Lage – é memória sensorial). Não adianta você, adepto da escola bidelina (ou chuveirística), dizer que minha vertente é nojenta: estamos falando sobre tirar restos de cocô do corpo, é nojento de qualquer forma, e provavelmente sempre será.

Se você acompanha meu outro blog, percebeu que falei sobre limpar a bunda noutro dia. Mas, por favor, não quero que você pense que eu estou obcecado no assunto. O problema é que eu dei a cagada (não tinha substantivo melhor?) de esbarrar com outra boa ideia sobre o mesmo tema. E minha cabeça é complicada, se eu não liberar logo esse texto, ela fica com prisão de ventre (não tinha termo melhor?).

Víamos esta foto quando:

A – Odeio quando botam o papel higiênico assim (bad). Você puxa e ele destaca sem você querer.

B – É, eu não sei, não uso muito papel higiênico.

A – Você usa chuveirinho?

B – Uso.

A – E como você se certifica de que a sua bunda está limpa?

B – Eu sei, ué.

A – Sim, mas você passa a mão?

B – Não.

A – E se ficar alguma coisa presa, porra? Nunca ficou uma badalhoquinha?

B – Nunca ficou.

A – Que nojo…

B – …

A – Você seca a bunda?

B – Não interessa.

C – Sobre o que vocês estão falando?

A – Sobre como ele se limpa. Ele usa chuveirinho, mas não quer me dizer se passa a mão para se certificar que a bunda está limpa. E nem se ele se seca depois.

C – Ah, deve se secar sim.

A – Será que é com a toalha de rosto?

B – Cala a boca!

A – Vou evitar me secar na sua casa…

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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08 nov 2010

Ressaca

Ressaca não é uma coisa boa. Sim, não é uma coisa boa e o céu é azul. Se o mar estiver de ressaca, as pessoas podem morrer afogadas nele. Se você estiver de ressaca, quer dizer que você também se afogou, só que em um mar etílico. Se a sua moral estiver de ressaca, ferrou-se, vai acordar com vergonha e pensando “oh céus, por que a gente é tão corajoso e disposto depois de algumas caipirinhas?”.

Mas vou me referir à trivial zona alcoólica que nos acomete quando, por um distanciamento da noção das nossas capacidades, passamos a crer que o nosso corpo é de uma resistência gigantesca. Ressaca é o efeito colateral que Deus encontrou para fazer com que o álcool não fosse a solução de todos os nossos problemas. A solução é Ele, por mais que Ele não passe de um Menino Maluquinho que tentou abraçar o mundo com as pernas.

O embrulho começa quando a gente ainda está dormindo. Depois de um porre, a nossa pálpebra deveria ter mais uns 30mm de espessura, afinal de contas, a claridade, maior inimiga do sono depois das finanças desgastadas ou do casamento no vermelho, simplesmente NÃO deixa a gente continuar o plano diabólico de dormir até morrer. Quando a gente fecha o olho, tudo fica preto, certo? Mas quando a claridade nos dá sensação de ter uma tela laranja na nossa cara, mesmo com os olhos fechados, não dá, a vida está te chamando para mais um dia.

Aí você levanta e percebe que o seu crânio te reservou uma surpresa maravilhosa. O cérebro inchou e fica aquela constipação cerebral que faz doer quando a gente balança a cabeça para qualquer direção. Isso sem contar com a mais genuína sede do universo, o sofrimento desértico que é a sua goela clamando por água – que de nada vai adiantar – desde o meio do seu sono. Aí o primeiro gole é como se fosse um jato d’água na calha do telhado que está cheia de folha seca e rato morto. O segundo leva um comprimido para o estômago. O resto é para saciar uma vontade que vai voltar daqui a 15 minutos. Cadê os isotônicos quando eu mais preciso deles???

Depois de beber quase uma garrafa, você lembra que o seu estômago já estava poluído com toda a sorte de malefícios alcoólicos. Se você não vomitou por pouco ontem, por muito pouco não vai vomitar hoje depois de meia piscina olímpica dentro de si. O entupimento de água é a pura metáfora de ir do céu ao inferno, sobretudo se você quiser espremer a sua barriga tentando dormir mais um pouco. Tem coisa demais ali dentro, o negócio é torcer para que seus movimentos peristálticos estejam com a corda toda, e joguem tudo para baixo o mais rápido possível.

E essa é a melhor das hipóteses. Porque não há vômito que alivie uma ressaca moral, por exemplo. A dor na consciência que dá por ter feito aquilo com aquela pessoa que você teria vergonha de andar de mãos dadas é pior do que a dor de cabeça. Como quase nenhuma consciência tem hipertireoidismo (ou seja, não fica pesada), o que resta é uma recuperação tipo Ernesto Geisel, lenta e gradual.

Se você não magoou ninguém na noite anterior, só a si, sejamos oportunistas. O negócio é rir de si mesmo e acreditar que o que nos causa qualquer tipo de ressaca só mata em longo prazo. E lembrar, claro, que por causa de um mísero Engov não tomado, a vida não recomeçou agradável no dia seguinte.

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26 out 2010

Amor (sexo) aos 64 anos

Eu ainda preciso de 40 outubros para ter a sensação de como é viver o amor com 64 anos. Mas tudo bem, não é por isso que eu não posso imaginar ou colocar impressões de quase-idosos que eu conheço. Embora 64 seja uma idade ligada a Beatles (When i’m sixty-four), pensei mais na minha tia L (identificar tios em textos é pecado), simpática senhora que daqui a um ano vai poder entrar de graça nos ônibus do Brasil. Isso não será muito útil, porque ela tem um pouco de pavor de seres humanos que não saibam o nome dela.E geralmente a coisa que mais encontramos no ônibus são pessoas que nos chamariam de “amigo” ou “psiu” se precisassem falar conosco.

Ela é viúva, mas parece lidar bem com isso. A gente volta e meia conversa sobre putaria, amor, sexo ou só sacanagens aleatórias. Não que ela seja uma anciã da devassidão, longe disso, mas é que a nossa família tem alguma falha (ou virtude) grave (ou maravilhosa) de falar sobre sexo sem o menor dos pudores. Para se ter uma ideia, outra tia, a J (essa sim é meio devassona), vive tentando apalpar as genitálias dos meus amigos. Eu acho isso um absurdo, pois queria que ela apalpasse as minhas também. Mentira, não acho um absurdo, mas que é muito esquisito, isso é. Meus amigos não sabem onde enfiar a cara, fica um clima escroto e ela se caga de rir.

Voltando à tia L. Noutro dia estava sem camisa em casa (com esse calor, eu queria andar sem pele e morar no freezer) e a minha tia viu os 31 pelos que adornam precariamente meu peito.

Ela disse: - Sabe o que é isso? É hormônio masculino!

- Poxa, tia, eu trocaria todos esses pelos, além dos da bunda, por 10 cm de…

- Que isso! Vai bater no joelho…

- HAHHAhAHahahaHahahAHHaAHAhAHahahahaA (rindo de quem não sabe das coisas)… Tá, por mais 4 cm, pode ser?

Minha tia fala besteira, mas não pratica. Ela é virgem até hoje e nunca me deu um primo. Mentira, é que ela nunca mais se envolveu com algum varão depois que meu tio virou jóquei no céu. Mas ela quer arranjar um namorado, mas só para “namorar”.

Você pode pensar “que safadoca essa dona L! Quer só fazer um lésco-lésco sem compromisso, hein?”, mas é justamente o contrário. Ela abdicou do sexo (assim como eu, mas ela fez de forma voluntária) e só quer uma companhia e uns beijos na boca. Aí falei pra ela que se o namorado dela desse beijo na boca, iria acabar querendo fazer sexo com ela, afinal, uma coisa leva a outra, assim como a fabricação de nenéns ou as guerras no Oriente Médio.

- Não! Eu vou arrumar um brocha!

- Mas tia… e se um dia ele chegar e falar que tem dedo e língua? A Língua é o único músculo que não fica estafado, sabia?

- Não, ele não vai querer coisa nenhuma!

Espero do fundo do meu ventrículo esquerdo que tia L. consiga um novo amor para lhe desatarantar as ideias. Se alguém conhecer um brocha bacana, me passe o Facebook dele, ok?

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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