(De 24/01/2004 – Até Facebook fazer sucesso)
O Orkut foi criado por um engenheiro turco chamado Orkut (oh!) Büyükkoktën (seus pais foram os mesmos que deram o nome para aquele vulcão islandês poderoso e destruidor, o Eyjafjallajokull) em janeiro de 2004. Menos de um ano depois, ter Orkut era sinônimo de ter alma – se inscrever no site era praticamente um dever cívico, como se alistar no exército para os meninos, e usar absorvente para as meninas. A pessoa simplesmente não era levada a sério se não tivesse Orkut, e olha que esse impulso louco de redes sociais nem existia ainda.
O Orkut ajudou a juntar namorados, parentes, amigos de longa data (amigos que já estão tão distantes quanto antes)… Mas começou a ficar irremediavelmente tosco. E foi essa tosquice que o arrefeceu impiedosamente. Hoje olho no meu fuxicator (o que já é tosco) e reparo que os nicknames atuais têm mais símbolos retardados como corações, asas de borboleta e estrelas do que propriamente letras. Por que uma asa de borboleta antes e outra depois do seu nome, porra? Para dizer que você é leve e sonhadora como uma borboleta? Elas não sonham, não têm consciência, mas você tem, ou deveria ter.
Outra coisa são os scraps: se você não acessa sua conta há dois meses, dê uma entrada e veja que você não vai ter mais do que 10 scraps novos, e certamente nove deles serão enormes imagens com dizeres simplórios de amizade, de “te amodoro” ou sei lá mais o quê. O ser humano não percebe que isso é mais tosco que tunar um Chevette? Lembro que tinha um scrap natalino que era uma árvore de palavras, e dentre elas havia uma que era “tenacidade”, mas ninguém nunca teve a mais puta ideia do que isso significou. Para não haver dúvidas, tenacidade, de acordo com os dicionários informais que o Google me serviu (logo, “não haver dúvidas” se torna relativo), quer dizer “perseverança. Sempre deletei os scraps padronizados de efemérides como Natal e aniversário. Era uma forma simbólica de boicotar essa preguiça mental que as pessoas têm.
Usar Orkut, com o passar dos tempos, foi perdendo status. Se na década de 50 era bem visto o cara que fumava cigarro, hoje ele é um emblema de um espectro de imundices, que vai desde a fedentina crônica até os enfisemas idem. Outra grife queima-filme é Mcdonalds, que, se não era algo glamoroso outrora, muito menos é hoje em dia. Comer um Cheddar fumegante é uma delícia, mas também a credencial pública de que você despreza o próprio coração (poxa, já é tão reprovável fazer isso com os dos outros, que dirá com o próprio). O Orkut vai indo precariamente pelo mesmo caminho.
O Facebook é muito mais glamour, tem até filme com o Justin Timberlake (não posso parar o texto toda hora para tirar dúvidas no Google – ele está no filme, não está? O nome dele está escrito certo?). O Orkut também poderia ter, mas creio que, ou seria de comédia, ou seria rodado na Índia, com orçamento baixo, off-Bollywood, com uma galera esquisita cantando enquanto envia scrap. Seria uma bela experiência.
Mas enfim, Orkut, descanse em paz. O Icq não durou pra sempre; Jesus não agradou a todos; o Audiogalaxy era uma merda para baixar música; o Justin Timberlake foi o único que deu certo no grupo dele; P.O. Box só teve um sucesso (Papo de jacaré – reza a lenda que era composição do Latino, logo, teve tudo para dar certo); o próprio MSN já está indo para o buraco; a Hebe saiu do SBT… Tudo tem início, meio e fim, com exceção do Oscar Niemeyer. Mas com ele também não dá pra competir.


