Adão e Eva foi a primeira história que respaldou a hegemonia masculina no mundo. Depois de uma suposta joselitice dela, Deus (e não Deusa) ficou extremamente bolado e disse: “Se fodeis aí”. Presenteou a humanidade embrionária com o caos, as dores do parto, a vergonha, a menstruação (isso não é necessariamente uma praga, só as tensões que vêm antes), os celulares de toque polifônico, as bandas de tecnobrega e outras desgraças. A partir daí, o homem tomou a frenteira e se deu o direito de ser o timoneiro da nossa existência. E fudeu a porra toda, lógico.
A gente tem uma dívida histórica com vocês mulheres. Só Deus (e não Deusa) sabe o que vocês sofreram com o subjugo vindo de nossa parte. Vocês não votavam, não podiam trabalhar fora, apanhavam a troco de nada (SORTE que isso não acontece mais…), eram realmente tratadas como um gênero dependente e fraco (ou pelo eufemismo “frágil”). Não sei como vocês aturaram por tanto tempo isso, mas de fato houve uma virada em determinado momento. Mas para isso, algumas de vocês tiveram que ser incendiadas numa fábrica em troca de um feriado internacional. Além disso, parece que fogo tem algo de emancipador, pois foi isso que vocês tacaram nos sutiãs na década de 60. Direitos iguais, pero no mucho todavía.
Aí veio a pílula anticoncepcional, uma invenção que eu diria divina, se não fosse científica. Aí vocês puderam bradar aos quatro ventos: “Que porra é essa de ter 15 filhos? Só vou ter quando eu estiver preparada”, e assim foi mais ou menos. O problema é que vocês se fuderam bonito com a chamada “dupla jornada de trabalho”, ou seja, vocês saíam para trabalhar, mas se desmiliguiam para alimentar o Jr., cuidar da casa e alimentar seus maridos, que ainda eram tidos como provedores únicos, pois ganhavam muito mais que vocês. Grosso modo, o trabalho de vocês era um paliativozinho. Uma maneira machista de pensar “bem, agora elas podem comprar os sapatos delas sem encher meu saco”. O mundo foi muito cruel com vocês em milhões de aspectos. E a própria evolução dos fatos a favor de vocês sempre foi lenta demais
Mesmo depois de tudo isso, vocês ainda ganham 75% do que a gente (se estiver comparando comigo então, você tá fudida, filha), e ainda não podem se dar o luxo de cometer deslizes no trânsito, porque sempre haverá um bastião da burrice para gritar um “vai pilotar fogão” ou “tinha que ser mulher”. Isso se você não for loira, aí você é atingida por mais outra sorte de preconceitos de origem esquisita.
Bem, mas apesar de tudo, os direitos são iguais hoje em dia. Por mais que esteja incutida em algumas mentes anacrônicas a inferioridade feminina, isso atualmente é uma queimação de filme para quem pensa assim. O mundo lutou por direitos iguais (e é válido reconhecer que muitos homens participaram disso).
E partindo do pressuposto de que nós temos capacidades iguais, não entendo porque algumas coisas tradicionais continuam no nosso dia-a-dia. Por exemplo: pagar a conta. Não sei porque é papel do homem pagar, uma vez que os dois componentes do casal estudam e trabalham. Nós e vocês somos provedores juntos do lar. Se a gente divide as contas da casa, porque não fazer o mesmo na rua? Me parece que o homem tem vergonha de mostrar que precisa da mulher publicamente. E a mulher aproveita isso, pois o que não falta são exemplares femininos perguntando às outras se o peguete pagou tudo sozinho, pois seria uma vergonha se dividisse.
O primeiro argumento de vocês é que isso é simplesmente cavalheirismo, e isso não deve sair de moda. Gentileza é uma coisa, cavalheirismo é outra: é simplesmente um eufemismo machista. Se você ganha mais do que teu parceiro, ou tanto quanto, por que raios você faz questão de que ele pague tudo? Isso é um feminismo oportunista. Eu sei que a gente tem uma dívida histórica com vocês, mas não é por isso que a gente vai quitá-la nos restaurantes. Isso seria uma afronta a vocês mesmas. Todo mundo pede iguais oportunidades, e quando ela acontece, as pessoas não tiram a carapuça machista e ainda se sentem confortáveis nos pontos em que a tradição joga a favor. Ora, se tudo passou por uma revolução, que vergonha há em ser revolucionário?
Eu não ligo mesmo pra isso. Eu e minha namorada temos a mesma grana e ela não me ama menos por ter que dividir comigo em várias ocasiões. Não preciso mostrar nada. Uma vez paguei sozinho a conta, mas fui ao banheiro e dei o cartão e a senha pra ela. Para o restaurante todo, ela me bancou, oh, que vergonha. Meu papel não é de homem, é um papel de pessoa, e foi isso que vocês quiseram a vida toda: acabar com papéis exclusivos, não?
O que estou querendo dizer é que gestos de gentileza têm que ser independentes de gênero. Pra que cavalheirismo se não há damismo? A tentação que o cara deve ter em pagar a conta para a mulher deveria ser a mesma que teria em pagar para um amigo ou um irmão. Há 550 outras mil de formas de ser romântico, cortês e bom.



