Corra Mary
17 mar 2011

Feminismo oportunista

Adão e Eva foi a primeira história que respaldou a hegemonia masculina no mundo. Depois de uma suposta joselitice dela, Deus (e não Deusa) ficou extremamente bolado e disse: “Se fodeis aí”. Presenteou a humanidade embrionária com o caos, as dores do parto, a vergonha, a menstruação (isso não é necessariamente uma praga, só as tensões que vêm antes), os celulares de toque polifônico, as bandas de tecnobrega e outras desgraças. A partir daí, o homem tomou a frenteira e se deu o direito de ser o timoneiro da nossa existência. E fudeu a porra toda, lógico.

A gente tem uma dívida histórica com vocês mulheres. Só Deus (e não Deusa) sabe o que vocês sofreram com o subjugo vindo de nossa parte. Vocês não votavam, não podiam trabalhar fora, apanhavam a troco de nada (SORTE que isso não acontece mais…), eram realmente tratadas como um gênero dependente e fraco (ou pelo eufemismo “frágil”). Não sei como vocês aturaram por tanto tempo isso, mas de fato houve uma virada em determinado momento. Mas para isso, algumas de vocês tiveram que ser incendiadas numa fábrica em troca de um feriado internacional. Além disso, parece que fogo tem algo de emancipador, pois foi isso que vocês tacaram nos sutiãs na década de 60. Direitos iguais, pero no mucho todavía.

Aí veio a pílula anticoncepcional, uma invenção que eu diria divina, se não fosse científica. Aí vocês puderam bradar aos quatro ventos: “Que porra é essa de ter 15 filhos? Só vou ter quando eu estiver preparada”, e assim foi mais ou menos. O problema é que vocês se fuderam bonito com a chamada “dupla jornada de trabalho”, ou seja, vocês saíam para trabalhar, mas se desmiliguiam para alimentar o Jr., cuidar da casa e alimentar seus maridos, que ainda eram tidos como provedores únicos, pois ganhavam muito mais que vocês. Grosso modo, o trabalho de vocês era um paliativozinho. Uma maneira machista de pensar “bem, agora elas podem comprar os sapatos delas sem encher meu saco”. O mundo foi muito cruel com vocês em milhões de aspectos. E a própria evolução dos fatos a favor de vocês sempre foi lenta demais

Mesmo depois de tudo isso, vocês ainda ganham 75% do que a gente (se estiver comparando comigo então, você tá fudida, filha), e ainda não podem se dar o luxo de cometer deslizes no trânsito, porque sempre haverá um bastião da burrice para gritar um “vai pilotar fogão” ou “tinha que ser mulher”. Isso se você não for loira, aí você é atingida por mais outra sorte de preconceitos de origem esquisita.

Bem, mas apesar de tudo, os direitos são iguais hoje em dia. Por mais que esteja incutida em algumas mentes anacrônicas a inferioridade feminina, isso atualmente é uma queimação de filme para quem pensa assim. O mundo lutou por direitos iguais (e é válido reconhecer que muitos homens participaram disso).

E partindo do pressuposto de que nós temos capacidades iguais, não entendo porque algumas coisas tradicionais continuam no nosso dia-a-dia. Por exemplo: pagar a conta. Não sei porque é papel do homem pagar, uma vez que os dois componentes do casal estudam e trabalham. Nós e vocês somos provedores juntos do lar. Se a gente divide as contas da casa, porque não fazer o mesmo na rua? Me parece que o homem tem vergonha de mostrar que precisa da mulher publicamente. E a mulher aproveita isso, pois o que não falta são exemplares femininos perguntando às outras se o peguete pagou tudo sozinho, pois seria uma vergonha se dividisse.

O primeiro argumento de vocês é que isso é simplesmente cavalheirismo, e isso não deve sair de moda. Gentileza é uma coisa, cavalheirismo é outra: é simplesmente um eufemismo machista. Se você ganha mais do que teu parceiro, ou tanto quanto, por que raios você faz questão de que ele pague tudo? Isso é um feminismo oportunista. Eu sei que a gente tem uma dívida histórica com vocês, mas não é por isso que a gente vai quitá-la nos restaurantes. Isso seria uma afronta a vocês mesmas. Todo mundo pede iguais oportunidades, e quando ela acontece, as pessoas não tiram a carapuça machista e ainda se sentem confortáveis nos pontos em que a tradição joga a favor. Ora, se tudo passou por uma revolução, que vergonha há em ser revolucionário?

Eu não ligo mesmo pra isso. Eu e minha namorada temos a mesma grana e ela não me ama menos por ter que dividir comigo em várias ocasiões. Não preciso mostrar nada. Uma vez paguei sozinho a conta, mas fui ao banheiro e dei o cartão e a senha pra ela. Para o restaurante todo, ela me bancou, oh, que vergonha. Meu papel não é de homem, é um papel de pessoa, e foi isso que vocês quiseram a vida toda: acabar com papéis exclusivos, não?

O que estou querendo dizer é que gestos de gentileza têm que ser independentes de gênero. Pra que cavalheirismo se não há damismo? A tentação que o cara deve ter em pagar a conta para a mulher deveria ser a mesma que teria em pagar para um amigo ou um irmão. Há 550 outras mil de formas de ser romântico, cortês e bom.

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06 mar 2011

Celular no ônibus

Tudo na vida pode ser usado para o mal: dinheiro, taco de beisebol, livros (bíblia, por exemplo), cola de sapateiro e mais uma lista incontável de coisas que foram desvirtuadas ao longo do tempo. Os alto-falantes de celular não fogem à regra. Um exemplo que infelizmente vai ser tornar clássico é entrar em um ônibus e ouvir as últimas tendências da musicalidade duvidosa saídas diretamente da porra de um celular. Isso é um emblema de que a sociedade ainda não evoluiu o suficiente (além, claro, dos bidês, palitos de dente e placas de “não jogue lixo no chão”). Não entendo qual é o fascínio em dividir com o público o que está fazendo. Eu não leio em voz alta meus livros, porra, fone de ouvido está aí para você não encher o saco alheio.

A má fé é o que mais estupra meu senso. O cretino sabe que duas coisas são proibidas ao entrar num coletivo: fumar e ligar aparelhos sonoros. Só que a placa mostra um pictograma de um rádio e uma linha diagonal vermelha de “proibido”. Aí ele senta, acha que o busão virou baile e liga a dança da gaitinha (Stereolove) no celular. Ele deve pensar “ora, não posso ouvir rádio, olha lá o desenho proibindo. Mas celular pode”. Aparelhos de rádio são proibidos, mas se você conseguir reproduzir sons de outra forma, vá em frente. Isso me leva a crer que se eu acender um cachimbo no ônibus, não tem problema, pois a plaquinha tem um cigarro desenhado e não cachimbos, charutos ou latinhas com crack. Entenda, seu impertinente escroto: não importa como você libera as ondas sonoras ou as fumaças, o que importa é que é proibido liberá-las.

Deveria acontecer no Rio a mesma coisa que houve em 1904, na época do Oswaldo Cruz e Pereira Passos: uma campanha obrigatória de vacinação, mas esta para combater a falta de simancol.

Além da inconveniência ambulante na qual a pessoa se transforma, outro fator que agrava a situação é o repertório utilizado. Nunca ouvi um metal, rock, hardcore, música clássica, sertanejo, folclore peruano, mpb… É sempre o tripé demoníaco funk / hip hop / algo parecido com Rihana. Não que eu esteja falando mal dos estilos, pelo contrário, a salvação da minha semana é rebolar no batidão (mentira), o que irrita é a falta de variedades. Se você vai estragar a minha viagem, pelo menos estrague com alguma novidade, ora bolas.

Reza a lenda que em Petrópolis, as pessoas que reclamam de quem está ouvindo música no ônibus são repelidas com mãos de ferro. Um amigo meu tem uma amiga que estava andando lá no coletivo quando uma mulher gigante ligou o seu jukebox portátil. A amiga, uma diminuta mocinha perseguidora de seus direitos, pediu gentilmente para que ela tirasse a música. A mulher gigante ficou transtornada de ódio (besuntada de falta de razão) e começou a xingar a menina. Ao fim da viagem, a pobre menina foi descer do ônibus e a mulher gigante deu uma gravata nela. Sim, você sai de casa e um passarinho verde te conta “daqui a pouco você vai tomar uma gravata, quer ver?” e você ri. Sorte da menina que ela tinha uma amiga que ajudou a desencalhar a giganta de cima dela. A vigança veio a galope: a menina era filha de policial. Ele seguiu o ônibus até o ponto final e deu uma prensa na filha da puta.

Se hoje em dia a giganta liga o jukebox de bolso, só Deus pode dizer. Mas com certeza a menina parou de lutar pelos seus direitos. Ser estrangulado não deve ser maneiro.

 

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25 fev 2011

Ter emprego

Ter emprego é como possuir cabelo condenado pelas circunstâncias estéticas: mais incômodo do que ter um é passar pelo desamparo de chegar a certa idade sem ter. Eu com 24 já não posso me orgulhar de ter o cabelo que pedi a Deus, primeiro porque se Deus lesse meu blog, me enviaria capim em vez de tecido capilar na cabeça. Segundo porque os meus fios aos poucos vão deixando de ser meus para serem da vida. São uns ingratos e nem um pouco companheiros: em vez de ficarem juntos com os fios não-revoltados, mergulham da minha cabeça para seguir ao sabor dos ventos.

Uma vez fui a uma entrevista de estágio na Record. Me preparei bastante antes de ir para Benfica ser sabatinado: vi a noite inteira o programa da Igreja Universal, calculei o dízimo + 5% da bolsa que ganharia, pois se eu oferecesse 50% a mais de dízimo para a igreja, obviamente eu estaria em vantagem em relação aos outros candidatos incautos. Estava prestes a vender minha alma parcelada para o diabo do jornalismo da religião neopentecostal, só faltava receber um sim do entrevistador. Nosso papo foi ótimo: falei da minha pequenina experiência profissional, rodei com ele pela redação, desci para fumar um cigarro com ele (quando acendi o Carlton, ainda não era Dunhil, pensei “se eu não passar, mudo meu nome para Margarete”). O problema é que logo depois da entrevista, aconteceu com ele o oposto do que eu queria que acontecesse comigo: ele foi demitido. E eu virei Margarete.

Entrei em 2011 com a corda no pescoço, pronto para adentrar no mundo da prostituição (o que mal me renderia a cerveja do mês, só se eu desse muito a bunda e me depilasse magistralmente. Não que eu beba muito, minha bunda é que vale pouco). É que meu contrato no estágio estava a dois meses de acabar e eu não sabia o que fazer depois. Fui para uma entrevista de estágio na Ediouro, a mesma que, indiretamente, está me prometendo o livro do Corramary até agora. A vaga era para marketing, ou seja, eu teria de vender sardinha fingindo que era salmão. Mas infelizmente não há pessoa que venda peixe pior do que eu, logo, tinha tudo para dar errado.

Fiz algumas entrevistas e cheguei à fase final tendo que fazer uma provinha. A habilidade que eu não tenho para peixaria, tenho de sobra para provinhas: fico em sites de notícias o dia inteiro, sei a capital da Letônia, leio dicionário quando estou no banheiro… Ia ser mole. O problema é que a provinha era de marketing, e não de conhecimentos gerais. A coordenadora, ao ver minha cara de “se essa prova fosse em chinês daria no mesmo”, me tranquilizou dizendo que era apenas para eu colocar ideias e impressões, sem o compromisso de usar a técnica da gangue dos marketeiros. Ela me disponibilizou uma planílha de Excel para colocar os dados, mas minha cabeça era uma infrutífera bola de feno presa no tronco. Aí resolvi ser eu mesmo.

Ignorei a planílha do Excel, abri o Word, pois pensava que se eu iria passar por uma tarde desagradável e com desfecho infeliz certo, que pelo menos minha aventura fosse mais confortável. Pensei em desistir da prova, sair correndo e tomar um Nescau em casa com minha mãezinha (percebo que essas horas são tristes porque fico com saudade da minha mãe, que estranho), mas seria muita humilhação. Você é um marketeiro ou um rato, Pedro Staite? Me perguntava sem saber qual resposta era menos sedutora. Quando comecei a escrever cheio de dúvidas, a luz acabou e eu não pude reprimir um “graças a Deus”. O problema é que meu Laptop tinha bateria de sobra, mas reclamei para a coordenadora que eu não estava conseguindo ler nada na sala, e fazer prova no escuro me deixaria em desvantagem. Quando ela estava prestes a aceitar, a luz voltou e eu pensei no eterno tira e põe que Deus faz com os pobres seres que ele sadicamente pôs a se matarem por aqui.

Voltei à prova sem a menor perspectiva. Escrevi um monte de coisa sobre mídias sociais, falei que o “Facebook era o análogo requintado do Orkut”, pisei em toda a sorte de ovos, simplesmente não pus alguns dados que pediram para detalhar e parei. Pensei “como não vou passar mesmo e não tenho culhão para desistir, vou fumar um cigarro lá embaixo, eles não vão me demitir porque nem admitido eu vou ser”. Quando voltei, o cara da portaria me pediu a identidade para me dar outro crachá, mas ela tinha ficado lá em cima. “Meu plano diabólico de interromper a prova vai ser descoberto!”, mas o cara me deixou passar, afinal, meu Rg já estava ali nos anais do computador.

Terminei, a coordenadora chegou e eu disse que ela corria o risco de rir da minha prova, mas pelo menos ela estava bem escrita. Fui para casa lamentando a iminência do encontro com o monstro perverso do desemprego. Dois dias depois minha amiga que trabalha lá me disse que eles tinham me adorado, que eu mostrava autoconfiança e que estava pronto para o mercado de trabalho, eu já era um profissional. Mas esse papo é que nem quando você está afim de uma amiga e ela te dá um toco te elogiando antes, sabe?

- Você é muito fofo, muito legal, eu te adoro, mas… prefiro beber cocô de pombo a ficar com você / eu viraria lésbica se você fosse o último homem do mundo / estou esperando o bebê diabo / engoli césio-137 e não posso beijar ninguém.

Embora não tenha passado, meu ego ficou inegavelmente inflado. Mas não posso comprar cerveja com ego.

O contrato do meu estágio estava a três semanas de terminar, e aí descolei outra entrevista, dessa vez na Tv Brasil (TVE, onde passa Castelo Rá Tim Bum, Pingu, Confissões de adolescente…). Falei com três pessoas e fui ok. Depois veio a chefa suprema do último level para zerar o jogo. Ela pôs um terror em mim… Toda a minha graciosidade se retraiu e foi parar no meu cóccix. Fiquei com cara de bunda na entrevista inteira e saí de lá já treinando malabarismo e pompoarismo para a época de vacas magras na marginalidade.

Mas por um acaso do destino, um milagre das circunstâncias, eu passei. Só espero que esse emprego não me faça cair os cabelos.

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16 fev 2011

Playstation 3 arruinando o sexo

Os pombinhos estavam confabulando os últimos retoques do ninho de amor que tinham acabado de alugar juntos. Jovens, recém-saídos da faculdade, eles resolveram juntar as obsessões e as escovas de dente e não viam a hora de brincar de marido e mulher. Eles discutiram os pormenores da decoração, os trâmites de roubar mobília das casas dos pais e os elementos de entretenimento da casa. Este último ponto foi uma bolinha de neve no topo da montanha:

- A gente podia ter um Playstation 3, né? O pessoal vem e joga com a gente!

- Ah, mas você compra.

- Mas seria só para ter uma diversão social. Um baralho viria bem também.

- Odeio baralho.

- Ou então um Uno.

- Uno é um saco…

- Twister? Mico doido?

- …

- Minha filha, se você nunca ganhou War na vida, não precisa ficar com trauma de outros jogos.

- Odeio War!!!

- Eu sei que você vai querer jogar o Playstation também… Vamos dividir?

- Ah, não sei…

- Vamos fazer uma aposta? O primeiro que recusar sexo compra o Playstation 3!

- … Tá!

- Ótimo. Mas não vale querer sexo assim que acabarmos de fazer sexo, porque é vacilo fisiologicamente dizendo.

- Tá bem.

Eles se mudaram, arrumaram as coisas e inauguraram todos os cômodos da casa com a mais variada sorte de putarias de amor.

Até que um dia ela acordou com bastante dor de cabeça. Ele percebeu e pensou “está na hora de ganhar um Playstation 3!” e se achegou com maldade na coitada. Ela, orgulhosa, não capitulou à maquiavelização no namorado filho da puta e deu o sexo apostado que ele cobrava. Enquanto ele fazia os trabalhos meio a contragosto, pois estava sonolento e atrasado pro trabalho e não imaginava que ela aceitaria transar, ela maquinava sacaneá-lo na mesma moeda. Bastava a primeira moléstia dele aparecer.

Embora ela tenha ficado puta da cara com isso, o casal levou na esportiva e viveu tranquilamente na semana corrente. Só que ele não contava que ia torcer o tornozelo jogando futebol de sabão no aniversário do primo. Ele chegou em casa com um inhame no lugar do tornozelo, e ela lembrou que a vingança é um prato de salpicão na geladeira: era hora de ganhar um Playstation 3. Mas ele também não estava de brincadeira nessa vida, e mandou ver mesmo sem sustentabilidade, no ritual que mais chegou perto de um “canguru perneta” na história dos dois.

E assim eles levaram as semanas seguintes: ele tinha dor de barriga e era obrigado a fazer o sexo mais trancado da vida; ela estava à beira do coma alcoólico, mas tirava forças do útero para não perder a aposta; ele estava vendo o seu time chegar à final da Libertadores pela primeira vez, mas teve que marcar gols nela até a hora do intervalo; ela brigava feio com a família, mas precisava entrar no clima à força.

O orgulho deles evoluiu na cronologia tal qual um gremilin num lugar sem água. Se antes era algo inofensivo, agora o panorama deixava um psicólogo preferindo tratar os TOCs do Roberto Carlos. Eles pararam de contar suas aflições para não dar motivo de sexo inconveniente com o adversário, ou melhor, parceiro, e aos poucos esqueceram que era só um Playstation 3 em jogo. Eles não gastavam muita energia fazendo sexo quando batia vontade justamente para usá-la quando eram convocados a transar quando não havia vontade alguma.

E assim o Playstation 3 arruinou a vida sexual do casal.

(Aqui é o fim, se você gosta de fins trágicos).

Até que um amigo deixou um Super Nintendo na casa deles com clássicos como Mario Kart e Super Mario All Stars (aquela fita com todos os jogos do Mario, inclusive Super Mario 2, o mais retardado de todos). Gastaram tanto tempo jogando com amigos ou sozinhos, que pararam de pensar no Playstation 3. A aposta foi se diluindo aos poucos, e quando chegou a um nível homeopático, ou seja, nulo, repararam que apostar sexo era um pecado terrível. Constaram isso e foram para a cama fazer o que tinham que fazer, mas pela primeira vez em tempo, com vontade.

Morais da história:

a) Super Nintendo é muito mais maneiro que Playstation 3

b) Tudo demais faz mal, inclusive sexo e orgulho.

(Aqui é o fim, se você gosta de fins felizes e edificantes).

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05 fev 2011

Violência na cidade grande

Você que acompanha o que eu retiro do intestino do meu cérebro sabe muito bem que volta e meia eu disserto sobre as agruras que é ser um branquelo nessa vida bronzeada. Além de todas as travas solares que fincam na minha cútis e me matam aos poucos (bronzeamento é PREJUDICIAL. É lindo, mas é PREJUDICIAL!), existe o agravante de parecer alguém que não nasceu aqui, e que só veio para cá para beber metade do dinheiro e pagar bebida para os outros com a outra metade, ou seja, um gringo.

Mas sinceramente ter um pé que, de tão claro, reflete a luz do Sol, tal qual uma filial corporal da Lua, não me irrita tanto. Eu só me emputeço quando aquele amigo de uma década vem e fala “nossa, você está branco, hein?”. Porrete, eu nasci branco, ou sou branco, e só não morrerei branco, caso tenha uma doença do Michel Jackson ao contrário. É a vida. Há os narigudos, os epiléticos, os carecas e os que têm pelos demais. E nem por causa disso vamos nos impressionar com isso até o fim da vida. Ou vamos, pelo visto.

Na verdade, o que faz a minha alma desfalecer um tiquinho a cada dia é a possibilidade de entrar nas estatísticas policiais, justamente por parecer um estrangeiro. Ora, todos sabemos que os índices de roubo aumentam nessas datas safadas como ano novo e carnaval. Todo mundo sai da cidade, mas ela fica mais cheia ainda, como!?!? São os putos.  Nossa pujante rede hoteleira, que está se esfolegando para ter o mínimo do mínimo pras Olimpíadas, fica até o talo com pessoas que nem eu, só que verdadeiras, com pedigree.

Aí o que acontece? Nossas delegacias viram torres de Babel – uma porrada de gente junta falando uma porrada de língua diferente. Não sei exatamente por quais motivos um gringo é mais atraente no mercado de roubo a transeunte. Mas todo mundo sabe algum:

- Se saiu do país é porque tem dinheiro. E provavelmente um dinheiro que dobrará aqui, afinal, a menos que ele venha da Chechênia ou de Bangladesh, ele fatalmente sairá com mais reais do banco. Melhor assaltar alguém que provavelmente tem três vezes mais grana no bolso.

- Não sabe desenrolar. Existe a possibilidade de desenrolar um assalto, sobretudo em cima daqueles que fazem o “se colar colou”. O cara vem e fala “passa tudo”, rezando para que você realmente passe, porque ele não tem nem um alfinete para te ameaçar. Se ele não for enorme, dá para ignorar que ele vai desistir. Dificilmente um gringo vai se ligar nisso. (isso não é uma dica. NÃO TENTEM FAZER ISSO EM CASA… Bem, não creio que isso vá acontecer na sua casa… Enfim, não tentem fazer isso na rua também).

- Tem cara de babaca. Gringo tem um physique du rôle todo próprio. É um colorido, umas folhas, uma roupa justa no meio da coxa, umas pernas finas… O Zé Pequeno vê uma figura dessas e pensa “Creio que, pelas estatísticas do meu trabalho, esse transeunte não é natural de nossa terra, logo, será mais facilmente fragilizado”. Mentira, ele pensa “Já é, vou descolar um ganho nesse inglês”. É batata, mafrém!

- O gringo já sabe o histórico da cidade. Ele sabe que aqui as mulheres são sedentas por sexo, cobras e macacos andam com os humanos na rua e que aqui tem mais violência do que os guetos alagados do Camboja (antes que você procure sobre isso no Google: esse gueto não existe). É fato que é quase tudo mentira, as mulheres são todas castas, não se vê bicho algum, mas a violência é realmente uma constante, não tanto quando nos guetos alagados, mas com certeza no mesmo nível que as ruelas de jogo ilegal da Romênia. Enfim, o gringo sabe o que pode acontecer, ele não vai brincar com a sorte, vai deixar sempre uma parcela dos seus proventos num lugar mais escondido, e o resto ele vai dar pro assaltante.

Eu sinto que as pessoas têm medo de ficar perto de gringo, como se ele fosse um talismã de energia negativa pró-violência. Por exemplo: quando estou no ônibus, e ele está ficando cheio, eu sou quase sempre a última opção para completar o banco. Eles não querem sentar do meu lado, a menos, é claro, que seja uma velhinha, porque as velhinhas têm tesão na minha fofura e na minha simpatia. Elas sempre sentam do meu lado.

Uhul, texto nº 100! Obrigado a todos os envolvidos.

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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