Sonhos do Leo

mai 08

"O Leo é piroca das ideias", afirma Freud, em psicografia exclusiva ao Corrinha.

Tenho um amigo chamado Leo, apelidado carinhosamente de Leonardo, que se mostrou uma pessoa esquisitamente sonhadora com o passar do tempo. Talvez por ter ficado enclausurado ao longo de cinco temporadas no pragmatismo indecente da engenharia (e da escassez de pélvis que se encaixassem na dele), Leo descambou a sonhar, pois era uma forma de abstração necessária para quem tem um coração artístico como o dele.

Agora, como todo bom ser humano que preza pela arte do bem-viver, Leo mandou a engenharia à merda e virou fotógrafo. Ele sabe que a vaca vai emagrecer, mas vacas magras posam muito melhor para fotos do que as gordas. Fotógrafos aprendem isso com Sebastião Salgado, eu acho. Supus que com sua guinada para a fotografia – levando o brinde de desbravar a inocência de inúmeras Marias-Nikon das cercanias – Leo fosse direcionar sua energia onírica exclusivamente para a nova profissão. Mas, não. Ele continua sonhando um monte de coisas loucas.

Sonhos no alto I

Na caixinha comprida de dons no arquivo cerebral do Leo existe o hábito de sonhar nas alturas. Certa vez ele devaneou que estava conversando com uma chica ardente que lhe perturbava o miocárdio. Ela estava na janela, ele do lado de fora, sentado numa cadeira (acho que tomando um chá, mas talvez seja sonho meu). Mas ela estava no 10º andar, e ele numa cadeira gigantescamente alta, conversando de frente para  ela.

- Como você fez pra subir na cadeira?

- Não sei, eu já estava lá quando o sonho começou.

Isso me lembra dos meus próprios sonhos de ser rico. Nunca sei como vou me tornar um – quando o sonho começa já estou limpando a bunda com um chumaço de dólar.

  Sonhos no alto II

O outro sonho acrobático é um filme pornô com algum tipo cabalístico de mensagem que não consegui decodificar. No segundo sonho, ele ficava se engalfinhando sexualmente com uma mocinha que também lhe podava o ventrículo. Isso numa cama. Numa cama com vários colchões, bem alta. Aí você pensa, “ah, Pedro, ele pôs a vagina da menina num patamar superior, mas no fundo tem certeza de que consegue alcançá-la, não é nada demais”.

Mas o detalhe surreal do sonho é que entre os colchões outros casais também estavam lesco-lescando. Ou seja, era uma espécie de x-tudo, no qual os pães eram os colchões, e os recheios, os casais se pegando.  A atriz principal do sonho dele estava em um colchão embaixo de onde se encontrava Leo (sim, ela tinha um colchão enfiado na cara. Você está entendendo o sonho, é isso mesmo!). Para poder chegar até o Leo, a amada escalou pelo lado, tomando cuidado para não despencar lá de cima. Enfim ela chegou, mas o conteúdo do que aconteceu depois é proibido para leitores com algum resquício de moral na essência.

A girafa de origami roubada

Nesta história, Leo era um próspero empresário dono de um zoológico de origami. Todos os animais estavam lá, mas feitos de papel, como se Noé tivesse sido o primeiro Akira Yoshizawa da humanidade. Os bichos todos – leão, ornitorrinco, arara, urso, minha ex-sogra – eram feitos de origami e tinham tamanho real.

Em dado momento, Leo percebeu que a girafa estava sendo roubada. O ladrão era o Homer Simpson. Ele disparou ao encalço de Homer, esperneando como só alguém que perde a sua girafa em tamanho real de origami poderia espernear. Acordou gritando pelo Homer Simpson, o que fez seu colega de internato de engenharia ter certeza de que ele tinha sérios problemas em suas engrenagens mentais. Concordo com o colega de internato.

Thiago x Anderson Silva x Aquaman

Thiago é pseudônimo de um amigo que, por ter seu nome na boca dos agiotas, não me permite a identificação adequada. Ele é nosso amigo, uma raposa arisca que desperta os sentimentos mais enigmáticos nos outros. Tenho certeza de que Leo já quis bater nele (é como ter a necessidade de comer gelatina, às vezes dá vontade), e o subconsciente dele tem mais certeza ainda.

Certa vez ele sonhou que Thiago Pontes (pseudônimo) levou uma surra inesquecível de Anderson Silva no meio da rua. O lutador fugiu da cena do crime (ou da boa ação) e entrou num helicóptero. No entanto, o mesmo subconsciente que estabelece o ódio, assume o amor. Aquaman, o herói que conversa com peixes (assim como um amigo de Trindade que bebeu um chá irreversível), apareceu para vingar Thiago Pontes da Costa (ainda pseudônimo). Aquaman soltou um hadouken de água na cara de Anderson Silva, dizimando-o como “um Blastoise faria com um Pidgey” (isso é Cortázar, vocês não vão entender)…

Jogos vorazes da dinda

Nesta aventura, Leo estava com alguns amigos (inclusive eu) em sua antiga casa de veraneio em Teresópolis participando de uma gincana muito divertida: todos deveriam matar uns aos outros, até que só sobrasse um. Depois o Leo soube (pelo visto eu morri no sonho) que essa tragédia fazia parte de uma tese de doutorado de sua madrinha, e que sua mãe estava sabendo de tudo. Ele acordou antes de saber o que a madrinha fez no pós-doutorado.

 

- Leo, posso escrever sobre os seus sonhos no Corramary?

- Pô, Pedro, meu sonho é que você escrevesse sobre mim no seu blog!

Bem, acho que esse é o único sonho que dá para realizar.

 

Vergonhas amorosas na infância

abr 09

"Que garoto imbecil", a jovem Isabele pensou.

Antes de se tornar o mítico Vampiro Boxeador, varão de caninos salientes assolando a cristandade na madrugada, meu irmão era uma criancinha muito estranha (ninguém vira um Drácula Tyson à toa). Era contemplativo, se encontrava em um estágio tão baixo na cadeia social que conseguia a proeza de sofrer bullying até das crianças que sofriam bullying. Déficit de atenção, autismo – quaisquer desses perrengues da psicologia – só não foram anotados na ficha do meu irmão porque nossa família, assim como alguns africanos que tratavam a AIDS como questão higiênica, achava que tudo se resolvia com um banho bem-tomado.

Na 3ª série, o pequeno coração avoado do meu irmão começou a bater um sanguinho de amor por Isabele, uma menina dois anos mais velha. As diferenças de idade, por questões de parte em relação ao todo, vão ficando insignificantes com o passar do tempo. Mas no mítico ano de 1995, aos nove aninhos, meu irmão era praticamente um feto num pote de maionese perto do mulherão avassalador Isabele era.

Mas como estava querendo destruir verdades eternas, meu irmão resolveu alinhavar um approach que evocasse todo o romantismo possível para cima dela. Ele queria mostrar ao mundo que Davi podia dar uns pegas em Golias. Teve a inebriante ideia de escrever uma carta, na qual poderia depositar toda a lava amorosa que estava prestes a jorrar do seu vulcãozinho cardíaco.

O problema foi a escolha do ghost writer. Nosso padrasto, o mesmo que nos dava conselhos como “bota pra fora e manda chupar”, quando não sabíamos nem o que esse “chupar” significava, era a pior pessoa possível para escrever a carta. Era óbvio que sua vontade de se divertir em cima dos enteados era uma razões do sucesso do casamento dele com a nossa mãe.

 

“Isabele,

Venho por meio desta declarar todo o amor que arde no meu peito…”

 

Provavelmente nem Álvares de Azevedo, que morreu antes de ter pentelhos, teria feito uma carta de amor com esse naipe aos nove anos. No entanto, meu irmão, valente toda vida, pegou a carta (que ainda tinha um desenho IMPRESSIONANTE feito pelas mãos sacanas do nosso padrasto), juntou a uma rosa e entregou para a Isabele.

Golias pisou na cabeça de Davi e o matou sufocado com as frieiras.

Uma amiguinha da Isabele, pendulando entre um carrasco e uma freira, chegou até nosso Davi com TDAH e perguntou: “Foi você mesmo que escreveu a carta?” Meu irmão tinha que sustentar a mentira: “Foi, (cara de bunda gelatinosa).” Em um movimento mais involuntário do que respirar, elas se escangalharam na galhofa e riram da cara dele. A menina foi misericordiosa: “Raphael, ela é muito velha pra você. É melhor você arranjar alguém da sua idade.” Provavelmente meu padrasto dormiu realizado nesse dia. E o canino do meu irmão começou a ficar pontiagudo.

 

Insignificâncias

mar 27

Num dia desprezível passado sei lá quando, eu estava saindo do meu prédio para começar mais um dia, quando, ao fazer a última curva do corredor rumo à porta da rua, brotou de rapel uma velhinha na minha frente. Não há explicação razoável que justifique a entrada dela em cena, foi milagre ou rapel, embora uma idosa daquele naipe fazendo rapel seja, em certa instância, algo miraculoso.

Andei um pouco mais devagar, porque não queria parecer indelicado e ultrapassá-la com pressa naquele corredor pequenininho. No entanto, ela andava tão lentamente que eu não tive opção, e então acabei passando a senhora quase que na porta. As gentilezas nanométricas do dia a dia rogam que você deve segurar a porta para a pessoa que vem atrás, e eu o fiz com a vovó. Segurei a porta, e ela disse: “pode deixar, pode deixar”. Eu pensei: “é óbvio que eu posso deixar, não há qualquer outra coisa que eu possa fazer.”

Fui a caminho do ponto de vans alucinadas (elas ainda vão me matar um dia), me perguntando ridiculamente: “o que eu poderia fazer? Tirar a velhinha do prédio na base da porrada? Levá-la no colo? Fechar a porta na cara dela? O máximo que ela deveria me dizer era ‘obrigado’, mas isso a ingrata não fez.”

E é um episódio absolutamente sem importância como esse que me faz pensar que estou ficando meio pancada. Acho que se houver um ranking sobre gente que se apega a falas insignificantes, estarei no trono. Não sei por que faço isso, as pessoas já não são experts em assuntos decentes para falar (este texto é uma prova formal disto), mas há algo nos automatismos da nossa fala que me fisga como um Banjo Minnow num anúncio da Polishop.

Outra insignificância que se instala no meu cérebro, tal como uma tênia que resolveu morar na cobertura do hospedeiro, é o conjunto de mínimas satisfações aleatórias que as pessoas dão.

Esteja, por exemplo, numa fila do mercado. Aí tem uma moça atrás de você com tudo no carrinho: o leite Ninho, as alcaparras, o papel higiênico folha dupla com aroma de pêssego (porque até o nosso cu merece atenção da indústria), as velas de aniversário da vó que anda devagar em prédios, tudo. Mas ela se esqueceu de pegar a alcatra. E o que ela vai fazer? Falar baixinho, sem se dirigir a ninguém especificamente: “ai, esqueci a alcatra, tô ficando maluca” e ir ao açougueiro.

Ela se esquecer da alcatra é supernormal. Algumas doenças, talvez as piores do espectro médico, aguçam a especialidade do infeliz em esquecer coisas. Fora isso, tem mãe que esquece o filho no mercado, padre que esquece o pênis no coroinha, motorista de van que se esquece de fazer a curva. O problema é ela contar – pra ninguém no meio do nada – que olvidou a porra da alcatra.

Se as insignificâncias fossem peixes voadores, você lotaria a sua tarrafa se andasse de ônibus prestando atenção. A qualquer momento uma velhinha vai dizer que levou o guarda-chuva porque achava que ia chover, mas na verdade não está chovendo; ou um cara vai se levantar atabalhoadamente falando que pegou o ônibus errado; ou então a mulher vai reclamar do próprio celular tocando enquanto o procura na caverna dos Goonies que é a sua bolsa. O motorista vai fazer uma curva fechada, a tia vai quase cair do assento e falar para o próprio crânio: “ai, que motorista apressado”.

E tudo falado para si. Isso deve ser uma mistura de carência com necessidade de se explicar para os outros, porque tem sempre um filho da puta que está prestando atenção no que você está fazendo, embora não queira falar contigo.

Acho que eu sou um desses filhos da puta.

Pior erro do mundo em entrevista de emprego

mar 21

Por que todas as fotos que representam o mercado de trabalho são tão retardadas?

Entrevista de emprego não é o lugar que concentra as pessoas mais sinceras da vizinhança. Minha avó Zinda não me disse isso, mas poderia ter dito: é um conselho valioso. O que acomete os candidatos não é uma desonestidade sanguinária, é mais uma questão de sobrevivência no mercado. O currículo de um candidato traduz a competência da pessoa da mesma forma que sua beleza pode ser traduzida numa foto do Facebook (postada por você, e não naquela em que você foi marcada pela amiga que tem inveja, que quer roubar seu namorado e destruir sua vida): é o que o próprio candidato/fotografado considera ideal.

Mas a indecência-mor que a competição – ou melhor, a necessidade – estimula na alma do candidato é aflorada quando o empregador lhe pergunta qual é o seu maior defeito.

Ser sincero nessas horas pode dar certo, mas também corre o risco de representar o fim da linha antes mesmo que a moça eletrônica do metrô agradeça pela preferência.  Se o seu maior defeito é uma queda patológica por animais, a ponto de você já ter feito amor com cães, é óbvio que você não vai falar isso, por mais que agora você só transe com os belíssimos huskys siberianos (também, quem resiste?). Uma mentirinha vai bem, você deve ter outros defeitos certamente mais aceitáveis. Se a vaga de emprego for para uma pet shop, então, qualquer mentira vale.

Só não vale falar que você é perfeccionista.

Ou que você é muito sincero. Até porque, se você for MUITO sincero, fatalmente vai, honestamente, confessar algum defeito nojento, ridículo, abjeto que você está tentando esconder:

- Meu maior defeito é ser muito sincero. Eu digo o que penso, é impossível controlar. Aliás, é um defeito tão grave que eu não consigo esconder que o meu segundo maior defeito é fazer sexo com cachorros. Mas eu posso fazer contigo também se isso me deixar em vantagem em relação a esses merdas que estão na sala de espera.

Mas “perfeccionista” não dá, é um clichê que algum demônio criou, alguma influência maligna disseminou e transformou em uma jogadinha tão barata que não dá pra não ser motivo de piada, empalação ou pelo menos uns tapas na cara.

Se eu fosse empregador, não contrataria alguém que trata perfeccionismo como defeito, por diversas razões:

- “Fazer as coisas perfeitamente” só pode ser um defeito se a pessoa for tão obcecada que chega a cometer crimes para atingir a perfeição nas tarefas. Uma pessoa dessas deve matar animais, ou pelo menos pessoas, para dar cabo dos seus objetivos. Eu sou empregador, mas não sou imortal; nem por um caralho embelezado e voador eu a contrataria. Se bem que se ela fosse mesmo assim, só de estar na entrevista de emprego já seria algo que representaria sério risco à minha existência. Acho que esse é o único lado bom de ser subordinado. Ah, e o salário baixo, pois não estimula a gana prejudicial pelas coisas materiais.

- Usar uma qualidade travestida de defeito é uma artimanha mongoloide, mas, muito, muito, muito pior do que mongoloide, é uma jogada batida. Eu jamais contrataria um candidato que, além de medroso (por não confessar um defeito decente), me joga no pau do nariz um clichê. Isso revela covardia e falta de imaginação, e quem quer um empregado com esses dois emblemas mostrados sem querer? Ou seja, a partir do momento em que o candidato diz que o defeito dele é ser perfeccionista, ele está dizendo, nas entrelinhas, que é covarde e simplório. Eu deveria trabalhar em Recursos Humanos, puta que me pariu!

- Se a pessoa for realmente perfeccionista, sem nenhum efeito colateral, e ela ainda considerar isso um defeito, fodeu. Sabe Deus o que ela vai ter como qualidade (provavelmente um toque divino para fazer o mundo parar quando quiser). Uma pessoa dessas roubaria meu emprego em dois meses – eu sou empregador, mas tenho família pra criar. Não contrataria nunca o pobre prodígio (mesmo sem me perguntar por que uma pessoa tão perfeita a esse ponto estaria desempregada).

Bullying carnavalesco

fev 27

No carnaval, cada ônibus é um bloco intimista

 

Eu tento não falar muito mal do carnaval, primeiro porque ele é um preço que eu pago para não precisar trabalhar por uns dias (embora eu ache o preço muito caro) e porque não quero parecer um velho ranheta que espinafra a vida com os próprios joanetes. Só que às vezes o carnaval implora para ser esculhambado, mesmo que você faça o possível para evitá-lo. O carnaval é aquele playboy que quer briga contigo mesmo quando você engole o orgulho e o trata tranquilamente.

Se o gênio da lâmpada chegasse e me dissesse que, graças a algumas manifestações do sindicato de gênios encantados, ele só poderia realizar desejos esquisitos, eu teria um na ponta da língua: fazer com que a Prefeitura passasse todos os blocos da cidade para Pedra de Guaratiba. Todos. Nada contra a Pedra Guaratiba, mas seria muito a favor da nossa distância se ela me separasse de qualquer resquício de carnaval. Ah, o transporte seria grátis para os blocos, mas um a cada quatro ônibus explodiria aleatoriamente. Bem, eu precisava deixar o desejo esquisito, senão o sindicato não liberaria.

Só fico puto com carnaval quando ele encosta em mim, chuta a porta da minha vida com um coturno de aço e escrotiza a porra toda. Eu odeio ter que andar quilômetros porque é impossível pegar algum táxi ou ônibus; é ridículo ter que deixar os documentos em casa porque a qualquer momento você pode ser assaltado (que tipo de diversão coletiva é essa que te toma os pertences ao som de “Olha a cabeleira do Zezé”? Não é surreal?); é péssimo quando um bloco inteiro entra no seu ônibus fazendo com que você simplesmente não possa ficar em paz. Como ficaria em todas as outras semanas do ano.

E foi exatamente isso que me aconteceu no último domingo. Passei por uma osmose carnavalesca na marra, sofri bullying pelo motivo mais “é, esse é o nosso Brasil” que já vi na vida: estava lendo um livro enquanto eles gritavam, mas eles não se conformaram com isso. Ou seja, eu, que tinha por volta de 112 milhões de motivos para reclamar do barulho, causei estranheza neles justamente pelo meu silêncio.

Estava voltando de um lugar secreto, que nem no DOI-CODI revelaria qual era (a menos que houvesse um arame fervendo apontado para a minha uretra), no meu ônibus com ar condicionado, ouvindo rádio (sim, eu ouço rádio, e, sim, eu ouço uma rádio chamada “Rádio do verão”, o que me faz torcer cada dia mais para o outono começar só para saber o que eles vão fazer com o nome da estação).

Uma profusão de pessoas foi entupindo o ônibus aos poucos, e o carnaval começou lá mesmo. Absolutamente as mesmas músicas de sempre, as mesmas piadas de sempre, as mesmas roupas de sempre e as mesmas caras de sempre, o que me fez pensar um monte de coisas:

- É por isso que um canal de TV como o Viva faz sucesso. Nego adora uma reprise.

- Eles todos vão descer no Monobloco, eu desço antes, preciso sair discretamente.

- Bésameee, bésame muuucho, como si fuera esta noche lá última veeez. Que música poderosa… eu fico impressionado.

- Eu sou burro ou esse livro é realmente cheio de pegadinhas?

- Jesus, que pessoa feia, no dia que ela morrer, o cemitério vai fingir que é um gêiser só para cuspi-la pra fora.

- Ihhh, ferrou…

Esse pensamento veio quando uma mulher, incomodada com a minha paz, falou alto:

- IH, O RUSSINHO QUER LER, VAMO FAZER SILÊNCIO!

O ônibus todo fez “shhhhhhhhhhhhh”, o “shhh” mais doloroso da minha vida, um “shhh” que entrava em mim como um taco de beisebol pelo orifício mais revelador da minha anatomia, um “shhh” que me deu saudades da minha mãe (um sinal, que vem desde o jardim de infância, de que estava em apuros).

Tentei ejacular da minha alma intimidada o mínimo de espirituosidade, fingi agradecer aos céus por eles terem feito silêncio e falei “pô, galera, valeu, vou poder ler em paz”. Isso tudo esboçando um sorriso tão falso que perigava sair dele alguns dardos com ebola.

Aí começou a sabatina:

- Que livro você tá lendo? O que você está aprendendo com esse livro?

A chefe do grupo fingiu que estava com um microfone na mão e me perguntou o que eu estava achando do livro. Cometi o sacrilégio de esculachá-lo pelo bem da minha sobrevivência:

- Tá chato pra caralho, ainda bem que vocês vieram falar comigo.

Aí, moldando seu piru metafórico no formato de um cone, ela me arreganhou mais ainda:

- Ahhh, então para de ler e vem dançar! Eu quero tchuuu, eu quero tchaaa, eu quero…

Levantei agarrado, todo mundo cantando e eu com vontade de ser o árabe maluco e o prisioneiro americano ao mesmo tempo só para arrancar a minha própria cabeça com uma faca. Se a luta pela sobrevivência te obriga até a comer seres humanos no gelo, eu resolvi tomar a lata de cerveja de uma das comparsas, só para demonstrar que eu – mesmo com bronzeado uns 12 tons abaixo dos praieiros – fazia parte do grupo.

Mas como Deus sabe que sou ateu, a cerveja estava pelando e eu quase engasguei. Nesse momento, as mulheres más já estavam gostando de mim, mas os caras lá atrás não perdoaram:

- Ahhhh, galegooo, já tá bêbado, é? A mamãe não pode saber! Uhhh…

Aí a chefe das acossadoras repreendeu o cara dizendo que eu era “parceiro” e mais do que um rostinho bonito, um verdadeiro intelectual (ganhei pra night). Olhei pra ele e fiz cara de “tsssss, levou moraaal” e essa atitude infantojuvenil representou a culminância da minha malandragem na selva carnavalesca. Ele me encarou e pela primeira vez o clima de tensão de um faroeste do Clint Eastwood tomou conta da cena. Infelizmente o cara não está mais entre nós para confirmar essa história… Mentira, eu voltei para o meu lugar e esperei o meu ponto, o vilão do filme permaneceu existindo.

Os cinco minutos seguintes serviram para acreditar que eu havia sido esquecido, mas tive que descer do ônibus. Acho que o calor da despedida tornou tudo mais forte, todos gritando “ÊÊÊ, o galego vai descer!”, senti algumas mãos, mas não percebi se era carinho, maldade ou crime, e desci para desejar nunca mais estar perto da cidade durante o carnaval.

Piadas que eu não entendo

fev 13

O controverso Ary Toledo é o padrinho não oficial deste post.

Há algumas piadas na nossa vidinha miserável que não têm explicação evidente de causa e efeito. Elas existem como se fossem heranças divinas, algo que entrou no nosso cérebro por vias osmóticas e que só têm razão de ser justamente porque até hoje ninguém perguntou qual é a razão da existência delas. Eu não sou ninguém. Eu perguntando não vai mudar em nada os paradigmas contemporâneos acerca das piadas sem pé nem cabeça. Mas se eu pensar na minha insignificância para combater as incoerências do mundo, vou acabar não fazendo nada para melhorá-lo, coitado (de mim, não do mundo).

Cheguei ao trabalho noutro dia, quando reparei que usava uma camisa muito semelhante à do meu colega de setor. Um terceiro companheiro, cujo ímpeto sacana sempre me aponta uma agulha da piada feroz, me perguntou se o cara da camisa parecida e eu havíamos dormido juntos. Porque, de acordo com a anedota, a ocasião que envolve duas pessoas com a mesma roupa significa que elas dormiram juntas e possivelmente transaram antes de dormir.

Não dá para entender essa piada. Eu nunca acordei com uma menina e saí de casa usando, sei lá, o mesmo vestido que o dela, ou o mesmo tomara que caia (talvez a mesma calcinha, mas seria impossível as pessoas verem). E mesmo que eu tivesse uma noite de amor louco homossexual com um varão devasso, dificilmente eu acordaria e falaria “hey, varão, que tal usarmos a mesma camisa, hein? A gente transou, pô!”.

Aliás, a probabilidade de duas pessoas terem a mesma camisa é remota. E a chance de que um deles leve a camisa igual bem no dia de fazer sexo é absolutamente improvável. Se o cara que está dormindo fora só tiver a camisa igual, é óbvio que o marmanjo que dormiu em casa vai escolher outra camisa no armário, porque é tosco sair por aí que nem um par de jarros (outra coisa meio sem explicação) (estou levando em consideração que essa piada só funcione para hipotéticos casais homossexuais). Ou seja, é mais provável que duas pessoas com camisas diferentes tenham dormido juntas do que duas pessoas com camisas iguais. Por isso, abre o olho, todo mundo deve estar transando loucamente às nossas costas.

Outra piada que as roupas revelam é a de que quando você está mais bem-vestido do que o normal significa que o seu exame de fezes está marcado. Você chega na beca, alguém pergunta “pô, tá bem-vestido. Vai fazer exame de fezes hoje?” Ou seja, cagar num pote, de acordo com a sabedoria popular, deve ser um ato solene, só pode.

Há uma profusão de incoerências nisso. Primeiro porque a “ação principal” de um exame de fezes é feita em casa, e não tenho registro de pessoas que se vistam com traje esporte fino para cagar no recanto do lar (nem em outro lugar qualquer).

Defecar já é uma ação que te descaracteriza como “ser evoluído”, afinal, não arranjamos um método muito mais requintado para fazê-lo do que os outros animais. Ok, os cachorros evacuam no jornal, nós, num vaso com água. Mas a única diferença entre nós e nossos bichos de estimação é que as nossas merdas boiam e nós não precisamos esfregar a bunda no chão para nos sentirmos limpos, tirando isso, todos os bichos cagam mais ou menos parecido. Diante de fato tão cru, que razão teria um traje fino para as fisiologias?

Uma variação dessa piada é a de que o traje esporte fino é um indicativo de que você vai fazer exame de próstata. Não entendo. Um cara, cujo dedo sabe Deus que largura tem, vai tentar sentir o inchaço da sua próstata pelo método mais primitivo e doloroso possível. Por que, Jesus, você colocaria uma roupa “bonita” para tomar uma dedada?

Não posso garantir que pessoas não usem roupas melhores para tomarem dedadas genéricas (ou dedadas de amor). Só que esse tipo de dedada é uma metonímia. Mas é impossível acreditar que pessoas o façam quando a dedada tem fins medicinais preventivos. Conto com os avanços da medicina – que está aprendendo a diminuir os sintomas de Alzheimer, controlou a Aids e erradicou a poliomelite – para que em 20 anos o exame de próstata seja menos invasivo. Mas se só me restar o dedo amigo do doutor, certamente irei, só que com a pior roupa possível.

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