Piadas que eu não entendo

fev 13

O controverso Ary Toledo é o padrinho não oficial deste post.

Há algumas piadas na nossa vidinha miserável que não têm explicação evidente de causa e efeito. Elas existem como se fossem heranças divinas, algo que entrou no nosso cérebro por vias osmóticas e que só têm razão de ser justamente porque até hoje ninguém perguntou qual é a razão da existência delas. Eu não sou ninguém. Eu perguntando não vai mudar em nada os paradigmas contemporâneos acerca das piadas sem pé nem cabeça. Mas se eu pensar na minha insignificância para combater as incoerências do mundo, vou acabar não fazendo nada para melhorá-lo, coitado (de mim, não do mundo).

Cheguei ao trabalho noutro dia, quando reparei que usava uma camisa muito semelhante à do meu colega de setor. Um terceiro companheiro, cujo ímpeto sacana sempre me aponta uma agulha da piada feroz, me perguntou se o cara da camisa parecida e eu havíamos dormido juntos. Porque, de acordo com a anedota, a ocasião que envolve duas pessoas com a mesma roupa significa que elas dormiram juntas e possivelmente transaram antes de dormir.

Não dá para entender essa piada. Eu nunca acordei com uma menina e saí de casa usando, sei lá, o mesmo vestido que o dela, ou o mesmo tomara que caia (talvez a mesma calcinha, mas seria impossível as pessoas verem). E mesmo que eu tivesse uma noite de amor louco homossexual com um varão devasso, dificilmente eu acordaria e falaria “hey, varão, que tal usarmos a mesma camisa, hein? A gente transou, pô!”.

Aliás, a probabilidade de duas pessoas terem a mesma camisa é remota. E a chance de que um deles leve a camisa igual bem no dia de fazer sexo é absolutamente improvável. Se o cara que está dormindo fora só tiver a camisa igual, é óbvio que o marmanjo que dormiu em casa vai escolher outra camisa no armário, porque é tosco sair por aí que nem um par de jarros (outra coisa meio sem explicação) (estou levando em consideração que essa piada só funcione para hipotéticos casais homossexuais). Ou seja, é mais provável que duas pessoas com camisas diferentes tenham dormido juntas do que duas pessoas com camisas iguais. Por isso, abre o olho, todo mundo deve estar transando loucamente às nossas costas.

Outra piada que as roupas revelam é a de que quando você está mais bem-vestido do que o normal significa que o seu exame de fezes está marcado. Você chega na beca, alguém pergunta “pô, tá bem-vestido. Vai fazer exame de fezes hoje?” Ou seja, cagar num pote, de acordo com a sabedoria popular, deve ser um ato solene, só pode.

Há uma profusão de incoerências nisso. Primeiro porque a “ação principal” de um exame de fezes é feita em casa, e não tenho registro de pessoas que se vistam com traje esporte fino para cagar no recanto do lar (nem em outro lugar qualquer).

Defecar já é uma ação que te descaracteriza como “ser evoluído”, afinal, não arranjamos um método muito mais requintado para fazê-lo do que os outros animais. Ok, os cachorros evacuam no jornal, nós, num vaso com água. Mas a única diferença entre nós e nossos bichos de estimação é que as nossas merdas boiam e nós não precisamos esfregar a bunda no chão para nos sentirmos limpos, tirando isso, todos os bichos cagam mais ou menos parecido. Diante de fato tão cru, que razão teria um traje fino para as fisiologias?

Uma variação dessa piada é a de que o traje esporte fino é um indicativo de que você vai fazer exame de próstata. Não entendo. Um cara, cujo dedo sabe Deus que largura tem, vai tentar sentir o inchaço da sua próstata pelo método mais primitivo e doloroso possível. Por que, Jesus, você colocaria uma roupa “bonita” para tomar uma dedada?

Não posso garantir que pessoas não usem roupas melhores para tomarem dedadas genéricas (ou dedadas de amor). Só que esse tipo de dedada é uma metonímia. Mas é impossível acreditar que pessoas o façam quando a dedada tem fins medicinais preventivos. Conto com os avanços da medicina – que está aprendendo a diminuir os sintomas de Alzheimer, controlou a Aids e erradicou a poliomelite – para que em 20 anos o exame de próstata seja menos invasivo. Mas se só me restar o dedo amigo do doutor, certamente irei, só que com a pior roupa possível.

Corracast #1

fev 07

Como somos da modinha, resolvemos também lançar um Podcast. E como também somos sem criatividade, ele se chama Corracast (quanta originalidade, não é mesmo?).

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Leitores que quiserem participar dos próximos como convidados, adicionem no Skype: corramary

Lembram do falecido FAQ, onde eu e Pedro respondíamos as perguntas dos leitores? Ele vai voltar! Mas agora na versão Podcast.
Enviem suas dúvidas (sentimentais, profissionais, amorosas ou sobre o que quiserem) para contato@corramary.com com o assunto FAQ.
A pergunta pode ser direcionada a um dos quatro ou a todos.

Esperamos que gostem!

Digas, sugestões e conselhos são sempre bem vindos.

Brincadeirinha da Zona Sul

jan 31

Época mágica em que eu brincava de Banco Imobiliário com dinheiro de verdade.

Eu não sou rico, mas meu shape é. Há algo de realeza nas combinações genéticas dos meus antepassados que foi se acumulando até chegar à minha concepção. Nasci com cara de quem tem grana, de tricolor, de fraldinha, eu não posso fazer nada. É impossível morrer e pedir para nascer de novo com outro chassi porque correria o sério risco de ter morrido à toa. Bem, mas se eu pudesse, também não faria.

Para incrementar a situação, sempre morei na Zona Sul do Rio, área que figura 98% dos cartões postais cariocas. Eu na Zona Sul sou o ranço da riqueza ao quadrado, e só não se traduz em verdade absoluta porque eu realmente não tenho dinheiro. Ou pelo menos não como as pessoas apregoam. Se eu fosse rico como a minha cara mostra, eu estaria neste exato momento coçando o saco com uma escovinha de ouro. Mas, não, estou guarnecendo um blog com o intuito de te apresentar boas histórias e te fazer comprar um livro (clique ao lado, preciso dos royalties).

Uma ocasião que sempre gera “acusações” de riqueza pra cima de mim é quando estou em conversas sobre brincadeiras infantis. Em um momento de descontração do trabalho, estávamos eu, Cenoura, Pikachu e Trambique conversando sobre brincadeiras de infância.

Antes, a distribuição geográfica dos domicílios dos personagens.

Cenoura é de Realengo.

Pikachu, de Nilópolis.

Trambique, da Tijuca, mundialmente conhecida como a Copacabana da Zona Norte.

Eu, de Copacabana.

Pikachu iniciou a conversa descrevendo o jogo mais difícil que já tiveram coragem de inventar: o “pique-lateiro”, uma variação de pique-esconde, mas com a diferença de que o “pique 1, 2, 3, salve todos!”, a artimanha mais vacilona que já inventaram, se dá chutando uma lata que o cara que está procurando as pessoas tem que proteger. Ou seja, o puto, além de procurar uma dezena de moleques espoletas (vovô falando), ainda tem que tomar conta para que nenhum escroto chute a lata. Se isso acontecer, é rebelião em Bangu 3, todo mundo fica livre, o infeliz tem que pôr a lata no lugar e procurar todo mundo de novo.

Ninguém conhecia a brincadeira, então Cenoura sugeriu que falássemos de polícia e ladrão. Pikachu, sempre levando brincadeiras muito a sério, dizia que eles brincavam valendo Nilópolis inteira.

Fizemos um bate-bola:

- Porra, a cidade inteira? A brincadeira que vocês começaram na infância está rolando até hoje, né?

- Haha, não, valia para o máximo que você conseguisse correr. É claro que a gente não pegava um ônibus para se esconder, porra.

- Se bem que noutro dia rolou um polícia e ladrão na tua área, né? Pessoal chegando de rapel nas casas dos bicheiros.

- É!

- Vocês nunca brincaram de polícia e bicheiro?

- Não! Se fosse polícia e bicheiro ninguém ia querer ser a polícia.

- Já jogou polícia e lateiro? É que nem polícia e ladrão, mas se você chuta a lata…

Depois conversamos sobre taco, uma espécie de críquete misturado com malandragem. Cenoura me perguntou como eu conseguia jogar taco em Copacabana, no meio do trânsito. Esse filho da puta queria me constranger.

- Ah, eu brincava com os meus amigos no Jardim Botânico.

Todos riram da minha cara, como se no Jardim Botânico as crianças em vez de brincar ficassem contando dinheiro. O filho da puta conseguiu me constranger.

- Porra, você queria que eu fosse até Realengo só para jogar taco e te agradar?

Pikachu falava que a maior alegria na hora de jogar taco era procurar nos escombros o taco perfeito, cunhado pela mãe natureza e esperando ser resgatado pelo primeiro punheteiro júnior que aparecesse. Nesse momento resolvi chutar o balde, porque tive um amigo milionário (o pai dele recebia cesta de Natal do banco… Eu nunca conheci alguém que recebeu mais do que contas) que tinha um aparato super industrializado para jogar taco. Aí disse que a gente jogava com ele.

Eu e Pikachu começamos outro bate-bola:

- Ah, Pedro, então você não jogou taco de verdade!

- Eu usava um negócio feito para jogar taco! É a mesma coisa que você falar que eu nunca joguei futebol só porque usei uma bola de verdade!

Trambique se lembrou do porradobol, brincadeira que provavelmente ele, um marginal na adolescência, usou para praticar bullying nos infanto-desprotegidos antes que virasse crime hediondo. Ele tinha todo o physique du rôle de degenerado que dava bolada na cara dos pequenos cristãos, isso é fato.

O fim do meu filme terminou de ser carbonizado nessa hora. É que meu ex-amigo rico (o que é pior? Um ex-amigo rico ou um amigo ex-rico?) jogava uma espécie de porradobol, mas banhado a ouro 24K. Era com raquetes e bolinha de tênis, na quadra que ficava no iate dele (mentira, era em terra firme). Todo mundo execrou meu passado na alta sociedade, e eu cansei de tentar me defender em uma questão tão besta:

- Gente, vocês já brincaram de guerra de ouro? É muito maneiro, vocês tinham que ter brincado disso!

Dar mole

jan 13

Momento exato em que as mulheres consagram a sua homossexualidade por não ter notado o mole que elas deram

Se todas as pessoas do mundo passassem a pensar como homens, a Terra comportaria uns 50 bilhões de habitantes em 10 anos. Multiplicaria o número de pais dos próprios sobrinhos (porque os primos todos iam se comer loucamente); possivelmente a literatura médica teria uns 2/5 a mais de DSTs em seus compêndios; a indústria pornô seria maior do que qualquer igreja, fundação, empresa, e só encontraria rivais nos videogames (bem, isso é quase realidade); o mundo ia ser tomado por um senso de praticidade tão grande que, se bobear, até o amor acabaria. Mas ele seria muito bem fingido por algumas gerações.

Se todas as pessoas do mundo passassem a pensar como mulheres, o planeta teria a densidade demográfica da Groenlândia. O mundo seria absurdamente mais gentil, cortês e simpático (o que mascararia muito mal a falsidade e a falta de cumplicidade pelas quais o sexo feminino é conhecido). De qualquer forma, os habitantes (todos de mente feminina) esbarrariam em algo que as mulheres afirmam saber fazer, mas fazem de um jeito tão controverso que parece que não sabem: dar mole. É a partir daí que a raça humana poderia estar em risco.

Partindo de uma ordem mais ou menos comum, sem dar mole, não tem beijo, sem beijo não tem caso, sem caso não tem namoro, sem namoro não tem casamento (união, morar junto, pacto de sangue, sei lá), sem casamento não tem rebento. Sem rebento não tem população e sem população, a densidade demográfica se joga no poço. Ou seja, num mundo em que as pessoas não sabem dar mole, os sucessos reprodutivos despencam, porque a chave da ignição de tudo é se embrenhar no approach.

Se pelo assassinato de um arquiduque bunda acontece uma guerra mundial de quatro anos, um mole no começo da relação gera um bebê. O início da concepção da criança não é quando ela nasce, ou quando o espermatozoide invade o óvulo: ele acontece na night, no boteco, na festa, em qualquer lugar onde se dê mole (Jesus Cristo, hoje estou conceitual demais).

 

O outro lado – o paradoxo do mole feminino, a população tem salvação

 

Já antevejo no horizonte mulheres com archotes dizendo “Hey, senhor Pedro Staite, deixe de ser um desqualificado, você não entende picas do mundo feminino. Espero que o senhor broxe cinco vezes a cada seis tentativas”. Obviamente vou concordar pedindo desculpas, mas elas vão me interromper: “Ahhh, senhor Pedro Staite, espero que seu pênis fique como um vídeo cassete: empoeirado, com duas cabeças e sem funcionar. Nós sabemos dar mole, sim, vocês é que não têm sensibilidade para entender.”.

Esse é o flat do problema: se as mulheres, que são sensíveis, sabem que nós não somos assim, por que o mole que elas dão requerem sensibilidade? Hoje em dia, quando a mulher dá mole, ela não está dando mole, e sim uma minúscula abertura para você implorar. Mulher é tão incoerente que é o único tipo de ser que nega o que quer só por esporte. E, claro, se você não entrar no jogo e desistir de implorar (com charme), sua farda ganha uma condecoração homossexual.

Pior ainda é quando você não nota a micro-brecha que elas dão. Às vezes, um olhar de 16 milissegundos condensará TODO o interesse que ela demonstra por você numa noite. Se você não perceber, for míope, achar que foi um olhar à toa ou estiver com ebola, pronto, além de ter perdido a chance pro resto da vida, volta pra casa com a alegria de ter despertado no grupo de amigas dela a conversa “humm, ele deve ser gay, só pode ser”. E sabe por que isso acontece? Responde-se em uma palavra: oferta.

Mas a controvérsia desemboca agora. Mulheres notam os moles que as mulheres dão.

1) É por isso que amigas mulheres são importantes: se as mulheres de quem você é a fim fossem jogos de videogame, as amigas seriam a revista de detonado, com todos os cheat codes para você zerar o jogo.

2) É por isso que talvez em um mundo onde todos tivessem pensamento feminino, as pessoas dariam moles mínimos, mas teriam sensibilidade para captá-los. Isso poderia ser uma salvação para a população.

Ao final do texto, elas voltam a reclamar comigo: “ahh, senhor Pedro Staite, você merece morrer com os epidídimos entupidos, aprende a dar mole, faça o seu papel direito antes de falar de mim”.

E eu vou concordar chorando.

Eu não sei fazer finais

dez 30

Meus textos sempre são analisados com toda perícia por pessoas que infelizmente me querem bem, pois graças a isso, elas não me poupam na hora de mijar no que eu escrevi. Mas é um mijo construtivo, disso não duvido nem à porrada, é um mijo rico em nutrientes que proverão sempre o crescimento das plantinhas nos xaxins do meu cérebro.

E a crítica mais recorrente que eu recebo é a de que os fins dos meus textos são fracos. Ao invés de fazer que nem um maratonista, eu dou o sprint final no começo do texto e termino sem fôlego. Talvez por causa do Photoshop mental que a minha ignorância fundamentou com o tempo, eu acabo enxergando com bons olhos os arremates dos posts, mas pelo visto eles carecem de tchan!.

Há fortes especulações internas de que às vezes eu termino a parada, mas teimo em continuar por achar que acabou cedo demais. Aí continuo e fica sem liga. Seria muito mais fácil acabar na hora que Deus reservou, dar uma pausa e partir para outra um tempo depois (estou falando de produção textual, não de sexo).

Não posso ser traído pelos finais porque é a parte mais marcante do processo. Ele tem propriedades cabalísticas para destruir uma boa história ou legitimar uma merda líquida, só depende se for ruim ou bom. A lenda reza parcialmente certa: a primeira impressão até pode ficar, mas nenhum julgamento resiste à última.

E me parece que o usar o fim a meu favor é certamente uma das minhas maiores deficiências. Como fazer isso, Padim Pade Cisso? Quando saber a hora certa de terminar uma história e como não macular essa história a partir do momento em que ela precisa de um final?

 

Fins decentes. Isso é algo que eu busco para ajeitar meus textos.

E não é que faria sentido se eu aplicasse isso também nas coisas da vida?

Festa da empresa

dez 26

Toda empresa que se preze oferece ao seu empregado uma oportunidade singular: destruir a reputação do ano inteiro em apenas um dia, na festa de fim de ano da firma. Isso acontece porque o álcool é a mãe de todas as possibilidades. Algumas pessoas, talvez na carência de amor maternal, enxergam isso somente pelo prisma positivo e mergulham numa piscina que começa na euforia e termina no desgosto. Pois é, se você puder escolher entre tipos de ressaca, escolha sempre aquela que te faz vomitar.

Minha festa da firma aconteceu na longínqua área de Xerém, conhecida por abrigar um CT das categorias de base do Fluminense e por sempre inspirar a impressão de “caralho, que lugar longe da porra” nos habitantes cariocas. Nada contra, o longe para mim pode ser o perto para você (essa regra só não se confirma para Santa Cruz, Islândia e Netuno).

Pegamos nossos abadás para a festa, entramos em um dos ônibus e fomos felizes da vida para lá. Quando chegamos a Xerém, o motorista começou a vacilar quanto às certezas inexoráveis que todo condutor possui quando segue um itinerário, ou seja, ele estava perdido. Uma curva para lá, uma consulta no mapa para cá, e o motorista se achou. Imbicou nosso busão para um sítio, e todos ficaram felizes.

Um bando de pessoas de camisa branca, tal qual uma nação umbandista, desceu do ônibus para a festa. Reparamos que as pessoas do evento não estavam de branco e tampouco nos olhavam com alguma receptividade. O clima não estava ameno. Ficamos uns 30 segundos numa espécie de duelo psicológico com eles até percebermos que nós havíamos entrado na festa errada. Aquele era um evento de fim de ano do Banco do Brasil, e nós éramos 45 penetras perdidos e um motorista com orgulho ferido (motorista de ônibus errar o caminho deve ser como um jogador de futebol perder um pênalti).

Será que o PIB de Xerém cresce no final do ano devido a festas de empresa? Se no único lugar errado onde nos enfiamos já tinha alguma coisa, podemos esperar que a cidade seja um polo regional de festanças de firma.

Voltamos todos para o ônibus, e o motorista, na mais cristalina vibe de “quando se é mau fodedor, até o saco atrapalha”, pôs a culpa no mapa do convite da festa. Se ele tinha razão, somente os deuses do transporte e da cartografia poderão dizer.

Na enorme tenda montada para a solenidade havia uma infinidade de mesas, cadeiras, empregados e animadores de festa. É desolador ver o trabalho de um animador no início de uma festa; as pessoas estão sóbrias, portanto ninguém dá confiança para os pobres coitados. Isso me leva a crer que quando é uma festa adulta, a empresa de animação de eventos só aceita fechar contrato se uma cláusula indicar que haverá um tonel de birita por convidado. O lema das empresas de animação é o mesmo do que o da indústria pornográfica: “nosso trabalho é muito mais difícil no seco”.

Mas em duas horas, as pessoas já vendiam a dignidade por valores que as moedas ainda não conseguiram se rebaixar para alcançar. O cúmulo nervoso da coisa foi quando o animador (já fazendo valer o seu know-how de animação) propôs um concurso de dança cujo vencedor ganharia uma máquina digital.

Dois caras disputaram utilizando toda a falta de categoria que puderam reunir. Quando a contenda se encaminhava para o mais justo dos empates, o animador, sempre em consonância com os desejos de Lúcifer, sugeriu que eles se despissem, porque sempre há como penetrar mais fundo rumo ao núcleo terrestre da vergonha.

Apenas um teve coragem de ficar de cueca (ou sunga) no palco. Nesse momento, enquanto ele dançava “Na boquinha da garrafa”, eu pensava “sniper justiceiro, cadê você?”. Ele ganhou a tão sonhada câmera digital, e eu me perguntei o que eles fariam se valesse uma TV de led. Um pirocóptero com o pinto em chamas? Enfiar um punhal pelo cabo na bunda e fingir ser um abelhão? Tatuar o cólon? Graças a Deus eu fui embora na metade do evento.

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