Casamento gay é maneiro
jul 29

Há um arsenal pronto para quem é contra os direitos da união gay ou contra gays em si. Um arsenal, com todo o respeito que um preconceituoso merece, patético:
- Isso vai acabar com a família brasileira. (ou “minha vida só fará sentido se todas as pessoas do mundo casarem e terem dois filhos, que também vão casar e assim sucessivamente até o messias voltar”).
A família é uma instituição interessante, que protege os indivíduos (embora, infelizmente, torne muitas pessoas infelizes e aprisionadas). Com a união gay, a família brasileira – com a qual você, pelo visto, derreteria se acabasse – vai continuar existindo, não se preocupe, pode sair do seu bunker anti-fim do mundo. A diferença é que ela será mais plural e mais diversa.
A família, assim como tudo à nossa volta, evolui com o passar dos anos. Ao mesmo tempo em que é mais instável, é baseada em sentimentos mais honestos. Hoje as pessoas são menos dependentes (mulheres, principalmente), a galera pode se divorciar sem sentir a pressão do descrédito do mundo. Tá, a Gretchen exagera, mas ela seria exceção até em 2099. Elas querem e podem se separar, isso é muito mais saudável do que se sentir refém de um cônjuge pela vida toda. Os filhos vão aprender o que é a vida um dia.
Os gays poderão ter filhos, tanto alugando uma barriga de aluguel (ou um testículo de aluguel), como adotando. Adotar uma criança é um substituto perfeito caso duas pessoas que só tenham o jardim ou duas que só tenham o regador com a semente queiram ter um filho. Se ele vai ser amado, isso eu não posso garantir, mas falaria o mesmo se quem adotasse fosse um casal de homem e mulher. Só digo que não é assim “ah, hoje acordei com vontade de ter uma filha, vou arranjar uma orientalzinha e eu vou chamá-la de Lua”, o processo de adoção demora mais do que duas gestações somadas. Quem adota um filho, quer e luta bastante por isso.
- Os gays são muito promíscuos.
Bem, na verdade o preconceito é que é promíscuo. E falar que gays são promíscuos é um dos maiores indícios de que a pessoa está sendo preconceituosa. Ora bolas, gays não têm um defeito genético, como o seu avô te disse no jantar de domingo, que o fazem ser promíscuos. Nós é que procuramos promiscuidade neles, da mesma forma que não procuramos em nós mesmos.
Se você vir dois homens simplesmente se beijando, você vai chamar de promíscuo e sem-vergonha, mas se vir um rapaz e uma moça fazendo o mesmo, vai pensar que o amor é lindo. Você tem que fazer uma autoavaliação e se perguntar honestamente “Será que eu estou falando que eles são sem-vergonha simplesmente porque eu não estou acostumado a ver esse tipo de cena?” Pronto, uma hora você se acostuma, muito embora a gente só precise se acostumar com isso, porque fomos paulatinamente treinados durante a vida a ver de forma antinatural coisas naturais.
- Ser gay não é normal, é uma doença.
A homossexualidade está presente na nossa história desde sempre (E você diz “e daí? A gripe também!”), é uma coisa da natureza, e que acontece com várias espécies no mundo animal. É só uma característica diferente da sua, o que não vai te obrigar a fazer nada que você não queira, você segue a sua vida e eles seguem as deles.
- A igreja não permite essa safadeza.
Querido, você já se masturbou, já tem sua vaga no inferno garantida. Não vamos cagar regra religiosa, porque certamente ela não está enquadrada na situação que o mundo vive.
Só para dar um exemplo, a igreja desaconselha o uso de preservativos. Isso já é um indicativo feroz de que ela está parada num tempo muito remoto. Não levemos em consideração isso em um estado (infelizmente com 900 aspas) laico.
Argumentos desesperados – para quando se está a um pentelhômetro de perder a razão:
- Haaaan, você é muito a favor dos gays, seu gay!
Basta pensar em qualquer grupo que passou ou passa por violações nos últimos tempos. Judeus e negros, por exemplo. Não sou simpático ao antissemitismo ou ao racismo (se você é simpático, não merece respeito), mas nem por isso eu sou judeu ou negro. Muito pelo contrário, sou mais branco que a alma de Deus e ateu a ponto de falar da alma de Deus sem achar que vai pro inferno. Quem defende bandeiras somente em causa própria tem bastante egoísmo no coração.
- Quero ver se seu filho for gay!
Não é questão de gostar ou não. Para mim é como perguntar “E se o seu filho fosse alto? Você iria gostar?” Pra mim não faz diferença, vou gostar do meu filho praticamente de qualquer jeito e me orgulhar dele, desde que ele não assassine pessoas, seja mimado, pedófilo, intolerante, preconceituoso ou dono de outras moléstias comportamentais vexatórias. Prefiro infinitas vezes um filho que chegue em casa e diga “Papai, esse é o Biscoito, meu namorado” a um filho homofóbico. Do primeiro, vou ter orgulho, pois é convicto e age de acordo com a sua orientação, do segundo, teria pena e vergonha.









