Você que acompanha o que eu retiro do intestino do meu cérebro sabe muito bem que volta e meia eu disserto sobre as agruras que é ser um branquelo nessa vida bronzeada. Além de todas as travas solares que fincam na minha cútis e me matam aos poucos (bronzeamento é PREJUDICIAL. É lindo, mas é PREJUDICIAL!), existe o agravante de parecer alguém que não nasceu aqui, e que só veio para cá para beber metade do dinheiro e pagar bebida para os outros com a outra metade, ou seja, um gringo.
Mas sinceramente ter um pé que, de tão claro, reflete a luz do Sol, tal qual uma filial corporal da Lua, não me irrita tanto. Eu só me emputeço quando aquele amigo de uma década vem e fala “nossa, você está branco, hein?”. Porrete, eu nasci branco, ou sou branco, e só não morrerei branco, caso tenha uma doença do Michel Jackson ao contrário. É a vida. Há os narigudos, os epiléticos, os carecas e os que têm pelos demais. E nem por causa disso vamos nos impressionar com isso até o fim da vida. Ou vamos, pelo visto.
Na verdade, o que faz a minha alma desfalecer um tiquinho a cada dia é a possibilidade de entrar nas estatísticas policiais, justamente por parecer um estrangeiro. Ora, todos sabemos que os índices de roubo aumentam nessas datas safadas como ano novo e carnaval. Todo mundo sai da cidade, mas ela fica mais cheia ainda, como!?!? São os putos. Nossa pujante rede hoteleira, que está se esfolegando para ter o mínimo do mínimo pras Olimpíadas, fica até o talo com pessoas que nem eu, só que verdadeiras, com pedigree.
Aí o que acontece? Nossas delegacias viram torres de Babel – uma porrada de gente junta falando uma porrada de língua diferente. Não sei exatamente por quais motivos um gringo é mais atraente no mercado de roubo a transeunte. Mas todo mundo sabe algum:
- Se saiu do país é porque tem dinheiro. E provavelmente um dinheiro que dobrará aqui, afinal, a menos que ele venha da Chechênia ou de Bangladesh, ele fatalmente sairá com mais reais do banco. Melhor assaltar alguém que provavelmente tem três vezes mais grana no bolso.
- Não sabe desenrolar. Existe a possibilidade de desenrolar um assalto, sobretudo em cima daqueles que fazem o “se colar colou”. O cara vem e fala “passa tudo”, rezando para que você realmente passe, porque ele não tem nem um alfinete para te ameaçar. Se ele não for enorme, dá para ignorar que ele vai desistir. Dificilmente um gringo vai se ligar nisso. (isso não é uma dica. NÃO TENTEM FAZER ISSO EM CASA… Bem, não creio que isso vá acontecer na sua casa… Enfim, não tentem fazer isso na rua também).
- Tem cara de babaca. Gringo tem um physique du rôle todo próprio. É um colorido, umas folhas, uma roupa justa no meio da coxa, umas pernas finas… O Zé Pequeno vê uma figura dessas e pensa “Creio que, pelas estatísticas do meu trabalho, esse transeunte não é natural de nossa terra, logo, será mais facilmente fragilizado”. Mentira, ele pensa “Já é, vou descolar um ganho nesse inglês”. É batata, mafrém!
- O gringo já sabe o histórico da cidade. Ele sabe que aqui as mulheres são sedentas por sexo, cobras e macacos andam com os humanos na rua e que aqui tem mais violência do que os guetos alagados do Camboja (antes que você procure sobre isso no Google: esse gueto não existe). É fato que é quase tudo mentira, as mulheres são todas castas, não se vê bicho algum, mas a violência é realmente uma constante, não tanto quando nos guetos alagados, mas com certeza no mesmo nível que as ruelas de jogo ilegal da Romênia. Enfim, o gringo sabe o que pode acontecer, ele não vai brincar com a sorte, vai deixar sempre uma parcela dos seus proventos num lugar mais escondido, e o resto ele vai dar pro assaltante.
Eu sinto que as pessoas têm medo de ficar perto de gringo, como se ele fosse um talismã de energia negativa pró-violência. Por exemplo: quando estou no ônibus, e ele está ficando cheio, eu sou quase sempre a última opção para completar o banco. Eles não querem sentar do meu lado, a menos, é claro, que seja uma velhinha, porque as velhinhas têm tesão na minha fofura e na minha simpatia. Elas sempre sentam do meu lado.
Uhul, texto nº 100! Obrigado a todos os envolvidos.


