Cadê a magia?

jul 02

 

Meia-noite, certeza do pulso único, apreensão e perguntas “A Ig vai conectar?”, pensamentos como “Super Ig, Super Internet Grátis? Mas é paga…”, espera ansiosa, barulhinho alienígena de conexão discada. Usava a fé que tinha em Deus só para fazer o computador conectar à internet. Depois que apareceu a banda larga, virei ateu. Mesmo quando era virgem (como se agora eu fosse “el fodedor”), tinha certeza de que o barulho da conexão seria o mais excitante que ouviria enquanto vivesse. Por enquanto, não houve música da Sade que me fizesse mudar de ideia.

Quando conectava, minha alma tinha uma ereção. A ejaculação espiritual se consumava quando a buzina de navio do ICQ soava por volta de 00h07min, se a minha reza tivesse dado certo. Sempre tomava um susto quando alguém fazia aniversário, pois o ICQ tocava Happy Birthday numa guitarra metalzona. Depois tocava um “O ou!” na voz demoniacamente gostosinha da menina e eu mergulhava na piscina da sociabilidade virtual.

Quando já não tinha com quem conversar, bastava pedir “contacts” para alguém e pronto, várias pessoas novas para chatear. A gente reclama dos Nicks no Msn, o programa que morreu antes de morrer, mas no ICQ os usuários faziam malabarismos milagrosos com os algarismos. Nego conseguia transformar um simples “Keka” ou “Juju” num sânscrito com arabesco bizarro, onde só muito vagamente dava para perceber que em vez de ermitonas misteriosas, eram simples Kekas e Jujus na lista.

Se o Icq fosse a melhor coisa do mundo, não teria ido pro saco. Mas, assim como o Beto Barbosa, o Icq, mesmo no ostracismo, conquistou uma aura nostalgicamente cult através da história. Ele existe até hoje, mas a mágica dele está restrita a um espaço remoto do tempo, quando a gente se embasbacava com qualquer coisa na internet. Ignorando as discrepâncias técnicas, se o Google Wave fosse lançado em 1999, todo mundo teria usado.

Outro exemplo nostálgico era o chat da Universo Online (Uol). Sou do tempo em que as meninas desse chat eram realmente meninas. E quando não eram, não passavam de garotos inofensivos brincando de ser menina na internet. É como usar a roupa da avó escondido, mas numa versão pós-moderna. Espero que vocês concordem comigo que usar roupa de vó é divertido. Hoje em dia, as “meninas” do chat já chegam chupando o seu pau virtual, isso quando não são velhos malucos que traduzem com mais perícia que ninguém o verbete “nojento”. Na escala da abjeção, vêm no topo os homens cujo objetivo patético de vida é ansiar por peitinhos pré-adolescentes numa eventual webcam.

Estragaram o chat da Uol. Ele virou uma praça de fakes esquisitos. E se tem alguém ali que não é, tenho mais medo ainda. O chat da Uol orkutizou antes mesmo do Orkut existir, olha que coisa.

O Orkut então era o David Copperfield da internet, tamanha a mágica que tinha. Algumas comunidades juntavam pessoas que juravam que só elas pensavam aquilo que o tema propunha. Era lindo ver que outras pessoas no mundo também se decepcionavam quando tinha feijão no pote de sorvete. Mas o Orkut também foi transformado em ferro velho com o tempo.

Só mesmo num mundo alucinado como esse uma pessoa pode começar a se sentir velha com 24 anos de idade.

Homens de sunga

jun 29


Fonte: Google Imagens

Não é muito difícil descobrir que não sou uma fã de praia. Meu bronzeado dinamarques não me deixa mentir. Tenho um medo sobrenatural de mar, nojo de areia, minha pele é sensível demais ao sol e morro de vergonha de desfilar de biquini no meio da muvuca semi pelada. Ou seja, não há nada que eu goste na praia. Mas vez ou outra, pela insistência dos amigos, eu até me aventuro. Algo em torno de uma vez ao ano, e olhe lá.

Das minhas poucas experiências com praia, há algo que sempre reparo e sempre me traumatizo: Homens de sunga.

Na praia, os homens se separam em duas categorias. Aqueles que usam bermudas e aqueles que usam as horrorosas sungas. Acho que se for a praia com algum paquerinha e ele usar sunga, perco 40% da minha paixão por ele. Se a sunga for branca, perco 60%.

Não é tão fácil desviar o olhar da sunga do indivíduo, eu até tento, mas parece que aquela peça tem um imã, é quase hipnótico. Depois de um banho de mar, as sungas parecem fazer parte do corpo do cara. Como se tivessem sido colocadas a vácuo, e me pergunto se foi o cara que vestiu a sunga, ou se foi a sunga que vestiu o cara.

As sungas não cobrem completamente o que deveriam cobrir. Quer coisa mais vomitável do que pelos pubianos escapando de uma sunguinha super atochada? Porque levando em consideração que homens não se depilam, e que há pelos rebeldes naquele corpo que nunca encararam uma gilete, é praticamente impossível uma sunga cobrir todos.

Mas o pior de tudo, pior do que a estética de uma sunga, ou pior até mesmo do que pelos pubianos escapando, é o volume que a sunga deixa a mostra. Há informações que deveriam pertencer apenas ao dono daquele piru. Como para qual lado ele o guarda. Acho muito indiscreto descobrir se o cara é de direita ou de esquerda na primeira ida a praia. Além do mais, o volume entre as pernas pode ser uma armadilha das grandes (com o perdão do trocadilho). O cara pode parecer super bem dotado, quando na verdade aquele volume não passa de sacos escrotais enormementes desproporcionais. O que me dá calafrios só de imaginar.

Imagino que homens não usem sempre bermudas, para bronzearem as pernas também. O que, devo admitir, faz sentido. Mas não muda em nada o fato de que sungas são horrorosas e deviam ser queimadas em praia pública. Se o único motivo para usá-las é evitar as pernocas brancas, sei lá, use-as para pegar sol na laje da casa da avó, no sítio de Guaxexé ou o mais escondido da civilização possível. Não há desculpas para usar sunga em plena praia de Copacabana e ainda achar que está arrasando.

Talentos inúteis

jun 24

Cena rara no pique-bandeira: um mamute sai de sua posição de contenção e vai ao campo adversário. A marcação do cavalo #2 é implacável. Jogada de um time escalado com um 1-3-2 ultra ofensivo.

A gente pode não dizer ou não notar, mas todo mundo se orgulha de algum talento mongol, ou de um dom que não serve pra nada. Sério, a menos que você viva por esse pseudo-talento, ele não vai te dar coisa alguma (malabarismo, por exemplo). A graça mesmo é gerar um “pô, maneiro!” no indivíduo e se sentir um cara irado, nem que seja por três minutos.

Quando eu estudava na Escola Pequeno Príncipe, desenvolvi técnicas que me credenciaram a entrar em qualquer grupo estudantil homossexual (como se estudar na Escola Pequeno Príncipe já não fosse gay o suficiente). Era o perito na hora de pular corda, mesmo naqueles desafios em que você pula de um pé só, imita uma galinha, da uma rodadinha e só não dá a bundinha, porque sexo era proibido no colégio. Dentre meus sonhos de consumo aos 10 anos, estava o Pula corda do Gugu, sem dúvida alguma.

É claro que eu não ficava só pulando corda naquela escola. Também jogava queimado. Mas não era um simples jogadorzinho, era sempre o primeiro a ser escolhido, quando não o cara que escolhia. Eu era o macho-alfa do queimado (desculpa o paradoxo). Jogar comigo era ter a certeza de proteção aos mais fracos, desvios sensacionais, e arremessos técnicos, nunca mirando a cabeça (pois era crime inafiançável) ou os peitos das meninas (pois eram um investimento para o futuro).

Mas acho que meu talento mais inútil é ter consciência tática para jogar pique-bandeira. Foi quando percebi que gasto inteligência com merda.  Neste jogo, forjei um padrão baseado na natureza: as gazelas, leves e rápidas, tentavam buscar a bandeirinha na outra área. Obviamente eram as sacrificadas. Os cavalos ficavam no meio, ora exercendo a função de contenção no fundo da quadra, ora indo salvar as gazelas paralisadas no campo adversário. Para fechar a retaguarda, os mamutes, os mais corpulentos, que ficavam protegendo a bandeirinha e não se movimentavam muito. Eu era o leopardo (o capitão do time podia ser o animal que quisesse). Como só o meu time adota esse estilo, eu sou o único leopardo da história do pique-bandeira. Obrigado!

Depois de crescido, despertei um gigante interno que para mim nem existia. Comecei a fazer malabarismos com as laranjas de casa, assim eu aprendia uma inutilidade nova e dava um destino divertido para as laranjas, coitadas, que não passavam por emoção alguma antes de se resumir a caroços cuspidos. Passei uma época praticando o dia inteiro, só para passar pela onda de ensinar as pessoas, tratando-as como verdadeiros discípulos.

Outro talento retardado é a minha perfeita noção de posicionamento e coordenação motora, que me dão reflexos muito apurados. Treino todo dia: derrubo as coisas para pegar no ar; caço mosquitos com a mão; qualquer coisa que cair no chão, eu me jogo pra pegar (mesmo objetos de vidro ou cortantes), jogo meu chaveiro para o alto e tento pinçar a chave da porta com o polegar e o indicador… É uma obsessão. Se alguém pensa em brincar comigo de “PENSA RÁPIDO”, eu já pensei e desvio do objeto que vão me jogar. Às vezes eu penso que seria capaz de desviar até de balas (não exagera, Pedro Staite).

Mas não adianta. Todo mundo era talentoso até conhecer o Youtube, depois acabou a ilusão de que você sabia fazer bem alguma coisa. Você acha que joga bem Guitar Hero, aí olha um puto fazendo 100% na música que você só passou depois do Conselho de Classe. Você pega sua guitarra e grava um solinho maneiro, aí vê um japa desgraçado tocando com duas guitarras ao mesmo tempo. Não procurei, mas tenho certeza de que algum filho da Diaba tem um esquema tático de pique-bandeira melhor que o meu.

A ex

jun 22

- Amor, quem é essa pessoa que te liga toda hora?

- Ah, é a minha ex.

- E o que a sua ex quer com você?

- É que a vó dela morreu.

- E o que você tem a ver com isso? Por acaso foi você quem matou?

- Não seja ciumenta. Eu gostava muito da vó dela.

- Você está namorando comigo, agora você tem que gostar é da minha vó.

- Coitada, ela tá sofrendo. Só to querendo ajudar.

- Ela tem amigos e familiares para isso. Não precisa ligar pra você.

- Éramos amigos antes de começarmos a namorar. Você quer que eu jogue no lixo 10 anos de amizade?

- Foda-se se vocês eram amigos do colégio, do maternal, do saco escrotal dos seus pais ou até de vidas passadas, eu não estou nem aí! Quando uma pessoa vira atual, ela nunca mais desce para o degrauzinho da categoria de amiga. Ela não é sua amiga, ela é sua ex.

- Não é bem assim, você não tem amigos também?

- Tenho, mas eu nunca fui pra cama com eles.

- Então você não tem amizade com nenhum ex seu?

- E porque eu teria? Se algum deles fosse bom, ainda seria atual.

- Você é muito radical.

- A vó dela tá morrendo faz quanto tempo? Porque ela te liga todo dia desde que estamos juntos. Se essa vó tá sofrendo esse tempo todo, acho que até eu vou levar flores no velório da coitada.

- Quando descobriram o câncer, já era tarde demais. Nem chegou a sofrer. Ela sempre me ligou pela amizade que temos.

- Que nem quando ela te ligou às duas da manhã de uma terça-feira? Era só pra bater papo? Ela não quer ser minha amiga também não? Vou adorar ter alguém me ligando de madrugada num dia de semana. Super normal.

- Ela é meio carente mesmo.

- Se o problema dela é carência, que adote um cachorro então. Aliás, se esse for o preço pra ela te deixar em paz, eu mesma dou um cachorro pra essa maldita. E com pedrigree ainda. Ela tem preferência por fêmea ou machou ou eu mesma posso escolher?

- Ela já tem oito gatos, não precisa de cachorro.

- Esse é o problema dela então. Um gato é normal, agora oito, é coisa de gente que não bate bem da cabeça.

- Para com isso.

- Aliás, você vai no velório da vó dela?

- Acho que sim, me sinto na obrigação de ir por tudo o que a família dela fez por mim.

- E o que exatamente foi?

- Eu era praticamente um membro da família deles.

- E deixou de ser assim que vocês acabaram, né? Olha, to até com inveja dessa família.

- Mesmo não mantendo mais contato, guardo com carinho tudo o que eles fizeram por mim.

- Que bacana. Vou te chamar pra circuncisão do meu sobrinho também. E pra cirurgia de hérnia da minha tia mês que vem.

- Você quer o que? Que eu pare de falar com ela? Que eu corte o contato completamente?

- Eu? De jeito nenhum. To tão comovida com essa amizade tão verdadeira e sincera de vocês dois que to até pensando em voltar a falar com os meus também, especialmente aquele ex que a minha mãe adorava, sabe? Acho que já te contei dele, o bem sucedido, bonitão, mais velho e que era louco pra casar comigo.

- Não acho uma boa ideia.

- Ótimo. Então estamos entendidos.

Lei Seca

jun 21

Não sei como é essa blitz da Lei Seca em outros estados, mas aqui no Rio de Janeiro elas estão por toda parte. Vai chegando o final de semana e é certo você esbarrar com elas por algum lugar.

Acho até bacana, realmente tem gente que abusa da bebida ao ponto de não conseguir ficar nem em pé, quem dirá dirigir. Mas o problema é que a Lei Seca te fode por qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Duas latinhas de cerveja e você já se fode dos pés a cabeça. Acho que foi por isso que surgiu o Twitter da Lei Seca.

É um twitter genial que te avisa por onde estão rolando as blitz, e já sabendo delas, você evita passar por aquele lugar e procura outro caminho para não ter que assoprar aquela merda de bafômetro e se fuder completamente. Todo mundo sabe que não é legal dirigir embriagado. Ok, verdade universal e até os que fazem não concordam, mas vamos combinar que duas latinhas não deixam ninguém bêbado, não é mesmo?

Acho que o verdadeiro controle sobre quem está em condição de dirigir e quem não está, não é nem feito pela blitz, mas sim pelo próprio Twitter. Porque se a pessoa está conseguindo ler o twitter pelo celular, então ela está tranquilíssima para dirigir. Essa pessoa pode ter tomado suas duas inocentes cervejinhas, que em nada afetarão sua habilidade ao volante, por isso ela merece escapar das blitz.

Agora, se a pessoa não consegue saber onde estão as blitz por falta de capacidade para ler, então essa pessoa não vai conseguir escapar das blitz, não porque ela não tem como saber onde elas estão, mas porque sua embriaguez está tão, mas tão alta, que nem ler ela está conseguindo. Essa pessoa certamente não conseguirá escapar das blitz. Merecido também.

No final das contas, o Twitter que inicialmente seria um boicote a lei seca, acaba mais ajudando do que atrapalhando. Ponto para o Twitter.

Espírito de porco

jun 17

           

Se você tem estômago de vidro, por favor, pule este parágrafo, ele é nojento. Noutro dia, estava descendo uma escada quando vi uma estalactite de catarro presa no corrimão. Ou seja, algum filho do Satanás cometeu a indecência chinesa de cuspir em qualquer lugar o que lhe entupia as vias respiratórias. O produto cuspido conseguiu, por um milagre da física, se pendurar no corrimão e se manter preso nele, dada a sua liga forte, gerada por algum resfriado, sinusite ou enfisema pulmonar em estágio inicial.

A primeira coisa que eu pensei foi “Filho da puta, espírito de porco!”.

Tenho um amigo que, embora tivesse limites mínimos de educação para não escarrar ao léu, era um perfeito espírito de porco quando estava no colégio. Uma vez, estávamos na aula de biologia no laboratório – afinal, tudo o que a gente não aprendia na teoria, tínhamos que não aprender também na prática – quando ele dedicou sua atenção ao pequeno peixe que vivia solitário no aquário do local. Para facilitar a minha vida, vou fingir que o peixe se chamava Jolly. O amigo não merece ter seu nome revelado, mas se você for apegado a nomes, pode chamá-lo de Claribalte.

Claribalte viu Jolly nadando com imensa melancolia naquele aquário imundo. Neste momento, antes de enfiar meu piru da justiça na bunda culpada de Claribalte, preciso reconhecer que o pobre Jolly realmente nadava triste, e, de fato, a água não cumpria as exigências do Inmetro divino de ser inodora, insípida e incolor. Para “resolver” o problema existencial do peixe, Claribalte pegou uma garrafinha com um líquido azul e derramou no aquário, assim, Jolly ficaria feliz com a água “azul da cor do mar” (palavras do cretino do meu amigo).

Cinco minutos se passaram, e Jolly começou a nadar torto, e com a cabecinha desesperadamente apontada para a superfície.

Depois, na sala de aula, a coordenadora entrou desesperada perguntando:

- Quem teve a coragem de colocar QUEROSENE no aquário? Quem faz isso mata um ser humano.

Nenhum peixinho triste foi sacrificado nesta história. A heroica equipe de paramédicos do laboratório (tá, foi a zeladora) conseguiu salvar Jolly da morte. Depois de uma verdadeira CPI do Jolly e uma sequência de dedo-durismos, a denúncia recaiu sobre Claribalte, e ele foi punido com a limpeza do aquário. Para quem mataria um ser humano, saiu barato.

Não satisfeito em direcionar seu espiritismo suíno para animais indefesos, Claribalte também engendrava suas escrotices na vida em comunidade. Certa vez, ele estava no banheiro do colégio e, depois de dar sua mijada estudantil, foi lavar as mãos. Havia uma bola sólida de sabão presa a uma corrente, e era com ela que todos os alunos se higienizavam. Ele, querendo seu minuto de exclusividade, arrancou a bola para si, lavou a mão e não teve a menor dignidade de ao menos jogá-la no lixo. Jogou na privada mesmo.

Para somar, ao secar as mãos – também uma única toalha coletiva – ele, em vez de colocar de volta no lugar, tacou a tolha na privada também. E, o arremate: deu descarga, entupiu a privada e alagou o banheiro e o corredor. É ou não é um filho duma puta cheia de frieira e joanete?

E aí você me pergunta: mas, Pedro, porco escarra no corrimão, judia de peixe (ou de outros animais) ou depreda os banheiros que outros vão usar? Não! É por isso que eu acho muito desconfortável usar a expressão “espírito de porco”, porque, afinal, os porcos são muito mais educados do que a gente.

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