Sonhos do Leo

mai 08

"O Leo é piroca das ideias", afirma Freud, em psicografia exclusiva ao Corrinha.

Tenho um amigo chamado Leo, apelidado carinhosamente de Leonardo, que se mostrou uma pessoa esquisitamente sonhadora com o passar do tempo. Talvez por ter ficado enclausurado ao longo de cinco temporadas no pragmatismo indecente da engenharia (e da escassez de pélvis que se encaixassem na dele), Leo descambou a sonhar, pois era uma forma de abstração necessária para quem tem um coração artístico como o dele.

Agora, como todo bom ser humano que preza pela arte do bem-viver, Leo mandou a engenharia à merda e virou fotógrafo. Ele sabe que a vaca vai emagrecer, mas vacas magras posam muito melhor para fotos do que as gordas. Fotógrafos aprendem isso com Sebastião Salgado, eu acho. Supus que com sua guinada para a fotografia – levando o brinde de desbravar a inocência de inúmeras Marias-Nikon das cercanias – Leo fosse direcionar sua energia onírica exclusivamente para a nova profissão. Mas, não. Ele continua sonhando um monte de coisas loucas.

Sonhos no alto I

Na caixinha comprida de dons no arquivo cerebral do Leo existe o hábito de sonhar nas alturas. Certa vez ele devaneou que estava conversando com uma chica ardente que lhe perturbava o miocárdio. Ela estava na janela, ele do lado de fora, sentado numa cadeira (acho que tomando um chá, mas talvez seja sonho meu). Mas ela estava no 10º andar, e ele numa cadeira gigantescamente alta, conversando de frente para  ela.

- Como você fez pra subir na cadeira?

- Não sei, eu já estava lá quando o sonho começou.

Isso me lembra dos meus próprios sonhos de ser rico. Nunca sei como vou me tornar um – quando o sonho começa já estou limpando a bunda com um chumaço de dólar.

  Sonhos no alto II

O outro sonho acrobático é um filme pornô com algum tipo cabalístico de mensagem que não consegui decodificar. No segundo sonho, ele ficava se engalfinhando sexualmente com uma mocinha que também lhe podava o ventrículo. Isso numa cama. Numa cama com vários colchões, bem alta. Aí você pensa, “ah, Pedro, ele pôs a vagina da menina num patamar superior, mas no fundo tem certeza de que consegue alcançá-la, não é nada demais”.

Mas o detalhe surreal do sonho é que entre os colchões outros casais também estavam lesco-lescando. Ou seja, era uma espécie de x-tudo, no qual os pães eram os colchões, e os recheios, os casais se pegando.  A atriz principal do sonho dele estava em um colchão embaixo de onde se encontrava Leo (sim, ela tinha um colchão enfiado na cara. Você está entendendo o sonho, é isso mesmo!). Para poder chegar até o Leo, a amada escalou pelo lado, tomando cuidado para não despencar lá de cima. Enfim ela chegou, mas o conteúdo do que aconteceu depois é proibido para leitores com algum resquício de moral na essência.

A girafa de origami roubada

Nesta história, Leo era um próspero empresário dono de um zoológico de origami. Todos os animais estavam lá, mas feitos de papel, como se Noé tivesse sido o primeiro Akira Yoshizawa da humanidade. Os bichos todos – leão, ornitorrinco, arara, urso, minha ex-sogra – eram feitos de origami e tinham tamanho real.

Em dado momento, Leo percebeu que a girafa estava sendo roubada. O ladrão era o Homer Simpson. Ele disparou ao encalço de Homer, esperneando como só alguém que perde a sua girafa em tamanho real de origami poderia espernear. Acordou gritando pelo Homer Simpson, o que fez seu colega de internato de engenharia ter certeza de que ele tinha sérios problemas em suas engrenagens mentais. Concordo com o colega de internato.

Thiago x Anderson Silva x Aquaman

Thiago é pseudônimo de um amigo que, por ter seu nome na boca dos agiotas, não me permite a identificação adequada. Ele é nosso amigo, uma raposa arisca que desperta os sentimentos mais enigmáticos nos outros. Tenho certeza de que Leo já quis bater nele (é como ter a necessidade de comer gelatina, às vezes dá vontade), e o subconsciente dele tem mais certeza ainda.

Certa vez ele sonhou que Thiago Pontes (pseudônimo) levou uma surra inesquecível de Anderson Silva no meio da rua. O lutador fugiu da cena do crime (ou da boa ação) e entrou num helicóptero. No entanto, o mesmo subconsciente que estabelece o ódio, assume o amor. Aquaman, o herói que conversa com peixes (assim como um amigo de Trindade que bebeu um chá irreversível), apareceu para vingar Thiago Pontes da Costa (ainda pseudônimo). Aquaman soltou um hadouken de água na cara de Anderson Silva, dizimando-o como “um Blastoise faria com um Pidgey” (isso é Cortázar, vocês não vão entender)…

Jogos vorazes da dinda

Nesta aventura, Leo estava com alguns amigos (inclusive eu) em sua antiga casa de veraneio em Teresópolis participando de uma gincana muito divertida: todos deveriam matar uns aos outros, até que só sobrasse um. Depois o Leo soube (pelo visto eu morri no sonho) que essa tragédia fazia parte de uma tese de doutorado de sua madrinha, e que sua mãe estava sabendo de tudo. Ele acordou antes de saber o que a madrinha fez no pós-doutorado.

 

- Leo, posso escrever sobre os seus sonhos no Corramary?

- Pô, Pedro, meu sonho é que você escrevesse sobre mim no seu blog!

Bem, acho que esse é o único sonho que dá para realizar.

 

O mito da Friend Zone

abr 27

Não é de hoje que as pessoas possuem uma terrível dificuldade em se responsabilizarem pelas suas próprias vidas. Qualquer infortúnio, a culpa é sempre do outro. E quando não tem nem outro para culpar, a culpa é de Deus, do destino, do universo, do caralho a quatro; mas nunca da própria pessoa. Sinto-me na obrigação de começar esse texto com uma das lições mais importantes que meus 25 anos de vida me ensinaram até hoje: Tudo que acontece na sua vida, absolutamente tudo, é culpa única e exclusivamente sua e de mais ninguém.
Estamos entendidos quanto a isso?  Ok, então podemos continuar.

No momento em que você conhece uma pessoa do sexo oposto (ou dependendo da sua opção sexual, do mesmo sexo) você automaticamente a classifica em uma das três categorias:

  • Interessante
    Aquela pessoa que fisicamente tem todos os atributos para que vocês futuramente se envolvam sentimentalmente ou apenas sexualmente. Essa pessoa já começa na vantagem das outras pessoas.
  • Semi-interessante
    Aquela pessoa que pode não ter todos os atributos, mas que, pelo menos, possui algum ou alguns.
  • Desinteressante 
    Aquela pessoa que não possui nenhum atributo físico que te atraia ou que possua algum atributo grande que você desgoste exacerbadamente.

É importante deixar claro que as duas primeiras classificações acima estão sujeitas a mudanças (apenas essas). Uma pessoa que de primeira entrou em uma categoria, pode no segundo seguinte mudar para outra.

Todos nós fazermos parte dessas categorias nas listas imaginária das pessoas que conhecemos e convivemos. Não tem como escapar. Para qualquer relação amorosa, é necessário sentir tesão pela outra pessoa. Não existe nenhuma possibilidade de manter uma relação feliz e verdadeira, se aquela pessoa nem ao menos te atrai fisicamente. É o início de tudo, é de onde surge a vontade do primeiro beijo, da primeira transa, dos primeiros sentimentos (não necessariamente nessa ordem). Nem sempre o belo é o chamariz do interesse, às vezes pequenos detalhes como um sorriso, uma tatuagem, uma parte do corpo específica, são o suficiente para faiscar o desejo inicial. E depois vem então todas aquelas etapas que já conhecemos: A conquista mútua, a rendição igualmente mútua e etc.

Logo após as classificações iniciais de âmbito exclusivamente físico, vem as classificações sociais. Conforme vamos conhecendo as pessoas, vamos classificando-as como amigos, melhores amigos, conhecidos, grandissíssimos filhos da puta, colegas de trabalho e etc.
Classificações essas que vem com o tempo e conforme vamos conhecendo as pessoas.

A friend zone acontece justamente quando as classificações feitas por uma pessoa, não batem com as da outra. João classificou Maria como a número 1 na sua lista de interessante, enquanto Maria o classificou como desinteressante, mas além disso, o classificou socialmente como apto a manter alguma outra relação, seja como um amigo, melhor amigo, conhecido ou colega de trabalho.

É justo culpar Maria por não sentir atração por João?

Óbvio que não! As pessoas possuem total direito de simplesmente não nos quererem. Não importa o quão bom sejamos ou o quão fortes e verdadeiros sejam nossos sentimentos. É sempre opção do outro não nos querer. A rejeição é uma merda, rasga o coração em 18 pedacinhos, mas a aceitação é necessária.

Não é porque alguém não te acha suficientemente interessante, que você seja completamente desinteressante. Você apenas não é para aquela pessoa, e acredite, todo mundo é desinteressante para alguém. Por mais inteligente, linda e rica que seja uma pessoa, haverá outra para não querê-la. Assim é a vida. Acostume-se!

O principal discurso de alguém que não consegue aceitar uma rejeição dolorosa e culpa o outro por isso, é a de que a outra pessoa é que não sabe escolher parceiro e que não enxerga os atributos que o rejeitado tem a oferecer.
Na verdade é justamente o oposto. Todos estamos suscetíveis a desilusões amorosas, mas o primeiro passo para um envolvimento, é escolher um alvo que possua minimamente interesse em nós, e nesse ponto, a pessoa que se pôs na friend zone não conseguiu nem isso.
E a outra pessoa sabe sim o que podemos oferecer, ela apenas não quer. E é direito dela não querer.

Se aquela pessoa gosta de você, gosta da sua presença, gosta do que você fala, pensa e expõe, pode gostar apenas disso e só. Não tem nenhuma obrigação de sentir algum desejo sexual por você, o que não faz dela uma sem coração, bitch do caralho, vagaranha de quinta ou kenga arrombada.

Dificilmente alguém que possui algum carinho por você, falará na sua cara algo desnecessário com o único propósito de quebrar seu coração, então sinto-me na obrigação de falar: Ninguém nesse mundinho em que vivemos, deixará de se envolver com alguém unicamente pela amizade de ambos.
A amizade é apenas uma desculpa para não ferir cruelmente o outro e não há mal algum nisso. A rejeição já é ruim por si só, então não há necessidade de piora-la ainda mais. Dizer para o outro “eu não vou me envolver com você porque você é feio demais/gordo demais/fede a ônibus lotado em horário de rush demais”, não trará nenhum benefício a situação de merda e nem a nenhum dos envolvidos. Então ao invés de ficar puto dentro das calças pela desculpa esfarrapada, sinta-se bem pela consideração que a pessoa teve até mesmo na hora de te rejeitar. É sinal de que a outra pessoa tem sim sentimentos por você, eles apenas não são os que você gostaria que fossem.

 Da mesma forma que é direito da outra pessoa não querer se envolver com você, é direito seu também não querer uma amizade, e a friend zone é justamente quando a pessoa esquece desse direito e se expõe a situações desnecessárias e dolorosas por pura falta de vontade de sair da mesma.

Há sim pessoas sugadoras, que necessitam da bajulação alheia 24 horas por dia, independente se isso machuca o outro ou não, mas se permitir ser o capacho da situação é culpa sua e de mais ninguém. As pessoas só fazem com a gente, o que deixamos que elas façam. 

O friend zone nada mais é, do que uma forma deturpada de maquilar a tão temida rejeição ao invés de encará-la e aceitar que faz parte da vida e que o erro não é da outra pessoa, mas sim de você mesmo que fantasiou algo que nunca existiu, não existe e nem vai existir e que além disso, ainda deixou a infeliz situação chegar a níveis catastróficos de humilhação e falta de amor próprio pelo medo de se responsabilizar e seguir em frente.

 

Vergonhas amorosas na infância

abr 09

"Que garoto imbecil", a jovem Isabele pensou.

Antes de se tornar o mítico Vampiro Boxeador, varão de caninos salientes assolando a cristandade na madrugada, meu irmão era uma criancinha muito estranha (ninguém vira um Drácula Tyson à toa). Era contemplativo, se encontrava em um estágio tão baixo na cadeia social que conseguia a proeza de sofrer bullying até das crianças que sofriam bullying. Déficit de atenção, autismo – quaisquer desses perrengues da psicologia – só não foram anotados na ficha do meu irmão porque nossa família, assim como alguns africanos que tratavam a AIDS como questão higiênica, achava que tudo se resolvia com um banho bem-tomado.

Na 3ª série, o pequeno coração avoado do meu irmão começou a bater um sanguinho de amor por Isabele, uma menina dois anos mais velha. As diferenças de idade, por questões de parte em relação ao todo, vão ficando insignificantes com o passar do tempo. Mas no mítico ano de 1995, aos nove aninhos, meu irmão era praticamente um feto num pote de maionese perto do mulherão avassalador Isabele era.

Mas como estava querendo destruir verdades eternas, meu irmão resolveu alinhavar um approach que evocasse todo o romantismo possível para cima dela. Ele queria mostrar ao mundo que Davi podia dar uns pegas em Golias. Teve a inebriante ideia de escrever uma carta, na qual poderia depositar toda a lava amorosa que estava prestes a jorrar do seu vulcãozinho cardíaco.

O problema foi a escolha do ghost writer. Nosso padrasto, o mesmo que nos dava conselhos como “bota pra fora e manda chupar”, quando não sabíamos nem o que esse “chupar” significava, era a pior pessoa possível para escrever a carta. Era óbvio que sua vontade de se divertir em cima dos enteados era uma razões do sucesso do casamento dele com a nossa mãe.

 

“Isabele,

Venho por meio desta declarar todo o amor que arde no meu peito…”

 

Provavelmente nem Álvares de Azevedo, que morreu antes de ter pentelhos, teria feito uma carta de amor com esse naipe aos nove anos. No entanto, meu irmão, valente toda vida, pegou a carta (que ainda tinha um desenho IMPRESSIONANTE feito pelas mãos sacanas do nosso padrasto), juntou a uma rosa e entregou para a Isabele.

Golias pisou na cabeça de Davi e o matou sufocado com as frieiras.

Uma amiguinha da Isabele, pendulando entre um carrasco e uma freira, chegou até nosso Davi com TDAH e perguntou: “Foi você mesmo que escreveu a carta?” Meu irmão tinha que sustentar a mentira: “Foi, (cara de bunda gelatinosa).” Em um movimento mais involuntário do que respirar, elas se escangalharam na galhofa e riram da cara dele. A menina foi misericordiosa: “Raphael, ela é muito velha pra você. É melhor você arranjar alguém da sua idade.” Provavelmente meu padrasto dormiu realizado nesse dia. E o canino do meu irmão começou a ficar pontiagudo.

 

Insignificâncias

mar 27

Num dia desprezível passado sei lá quando, eu estava saindo do meu prédio para começar mais um dia, quando, ao fazer a última curva do corredor rumo à porta da rua, brotou de rapel uma velhinha na minha frente. Não há explicação razoável que justifique a entrada dela em cena, foi milagre ou rapel, embora uma idosa daquele naipe fazendo rapel seja, em certa instância, algo miraculoso.

Andei um pouco mais devagar, porque não queria parecer indelicado e ultrapassá-la com pressa naquele corredor pequenininho. No entanto, ela andava tão lentamente que eu não tive opção, e então acabei passando a senhora quase que na porta. As gentilezas nanométricas do dia a dia rogam que você deve segurar a porta para a pessoa que vem atrás, e eu o fiz com a vovó. Segurei a porta, e ela disse: “pode deixar, pode deixar”. Eu pensei: “é óbvio que eu posso deixar, não há qualquer outra coisa que eu possa fazer.”

Fui a caminho do ponto de vans alucinadas (elas ainda vão me matar um dia), me perguntando ridiculamente: “o que eu poderia fazer? Tirar a velhinha do prédio na base da porrada? Levá-la no colo? Fechar a porta na cara dela? O máximo que ela deveria me dizer era ‘obrigado’, mas isso a ingrata não fez.”

E é um episódio absolutamente sem importância como esse que me faz pensar que estou ficando meio pancada. Acho que se houver um ranking sobre gente que se apega a falas insignificantes, estarei no trono. Não sei por que faço isso, as pessoas já não são experts em assuntos decentes para falar (este texto é uma prova formal disto), mas há algo nos automatismos da nossa fala que me fisga como um Banjo Minnow num anúncio da Polishop.

Outra insignificância que se instala no meu cérebro, tal como uma tênia que resolveu morar na cobertura do hospedeiro, é o conjunto de mínimas satisfações aleatórias que as pessoas dão.

Esteja, por exemplo, numa fila do mercado. Aí tem uma moça atrás de você com tudo no carrinho: o leite Ninho, as alcaparras, o papel higiênico folha dupla com aroma de pêssego (porque até o nosso cu merece atenção da indústria), as velas de aniversário da vó que anda devagar em prédios, tudo. Mas ela se esqueceu de pegar a alcatra. E o que ela vai fazer? Falar baixinho, sem se dirigir a ninguém especificamente: “ai, esqueci a alcatra, tô ficando maluca” e ir ao açougueiro.

Ela se esquecer da alcatra é supernormal. Algumas doenças, talvez as piores do espectro médico, aguçam a especialidade do infeliz em esquecer coisas. Fora isso, tem mãe que esquece o filho no mercado, padre que esquece o pênis no coroinha, motorista de van que se esquece de fazer a curva. O problema é ela contar – pra ninguém no meio do nada – que olvidou a porra da alcatra.

Se as insignificâncias fossem peixes voadores, você lotaria a sua tarrafa se andasse de ônibus prestando atenção. A qualquer momento uma velhinha vai dizer que levou o guarda-chuva porque achava que ia chover, mas na verdade não está chovendo; ou um cara vai se levantar atabalhoadamente falando que pegou o ônibus errado; ou então a mulher vai reclamar do próprio celular tocando enquanto o procura na caverna dos Goonies que é a sua bolsa. O motorista vai fazer uma curva fechada, a tia vai quase cair do assento e falar para o próprio crânio: “ai, que motorista apressado”.

E tudo falado para si. Isso deve ser uma mistura de carência com necessidade de se explicar para os outros, porque tem sempre um filho da puta que está prestando atenção no que você está fazendo, embora não queira falar contigo.

Acho que eu sou um desses filhos da puta.

O ódio gratuito aos ricos

mar 27

Recentemente, Thor Batista, filho do homem mais rico do Brasil e um dos mais ricos do mundo, atropelou e matou um ciclista na Br-040. Não demorou muito, para o ódio gratuito ao filho mimado do magnata ser cruelmente destilado por todo canto.

O caso ainda está sendo investigado e todo mundo é considerado inocente até que se prove o contrário, mas o julgamento popular não perdoa. Na verdade, o erro que Thor cometeu não foi ter atropelado acidentalmente o ajudante de pedreiro, mas ter nascido rico. E desse erro, ele nunca será absolvido.

É um misto de inveja e ódio que fazem com que qualquer rico seja sempre visto como vilão, independente da situação. E o pobre, como coitado. Talvez pela raiva geral de que a vida para aquela pessoa sempre foi e sempre será mais fácil do que para qualquer um de nós. O contrário acontece com o pobre. De imediato, apenas pela vida mais difícil devido à sua pobreza, ele ganha uma aura quase que angelical. Ainda espero o momento em que minha mãe me contará que na verdade não sou filha do meu pai, mas sim de um caso de uma noite que ela teve com o Eike Batista, mas enquanto isso não acontece, preciso me contentar com o fato de que não sou milionária e que não preciso ter ódio de quem seja apenas pelo fato de eu não ser.

Um dos preconceitos mais enraizados e desconfio que seja um dos mais difíceis de se tirar de alguém, é o preconceito contra os ricos. Sabemos que nem todo rico enriquece de maneira legal, mas há sim os ricos de berço de ouro ou fruto do seu próprio trabalho duro, mas nem esses são poupados. Parece que essa é uma das grandes maldições que o dinheiro traz. O gratuito ódio popular.

Se um rico esbanja seu próprio dinheiro com qualquer coisa que nós, meros mortais, nem sonharíamos (viagens caras, carros caros, apartamentos caros, etc) sempre haverá uma multidão para apedrejá-lo. Ora, o dinheiro é dele e se ele quiser limpar a bunda com ele, está no seu direito!

A população cobra dos ricos atos que ela mesma não se preocupa em alimentar. Como por exemplo, exorbitantes e constantes doações à caridade. Como se essa fosse alguma obrigação dos ricos. E não basta apenas doar, tem que doar publicamente. Tem que sair nos jornais, na televisão. Porque a população quer ver. Doação anônima, não vale. Sou obviamente à favor da caridade, mas tenho consciência de que não é obrigação de ninguém seja rico ou pobre e que esse ato ou a ausencia dele, não fazem de alguém mais ou menos honrado. Cada um faz o que quiser com o seu dinheiro e não há nada de errado em gastá-lo com seu conforto e luxo. Se o dinheiro não veio de maneira suja e corrupta, que mal há nisso?

Rico também carrega nas costas a necessidade de nunca errar. Se ele fura a fila do supermercado, pronto, a partir daquele momento, todos os seus atos para a vida inteira serão vistos como desonestos. Vale lembrar que cartão de crédito no bolso não muda em nada o fato de que somos todos humanos. Rico ou pobre, estamos todos sujeitos à erros e acidentes e responderemos em vida por cada um deles.

Pior erro do mundo em entrevista de emprego

mar 21

Por que todas as fotos que representam o mercado de trabalho são tão retardadas?

Entrevista de emprego não é o lugar que concentra as pessoas mais sinceras da vizinhança. Minha avó Zinda não me disse isso, mas poderia ter dito: é um conselho valioso. O que acomete os candidatos não é uma desonestidade sanguinária, é mais uma questão de sobrevivência no mercado. O currículo de um candidato traduz a competência da pessoa da mesma forma que sua beleza pode ser traduzida numa foto do Facebook (postada por você, e não naquela em que você foi marcada pela amiga que tem inveja, que quer roubar seu namorado e destruir sua vida): é o que o próprio candidato/fotografado considera ideal.

Mas a indecência-mor que a competição – ou melhor, a necessidade – estimula na alma do candidato é aflorada quando o empregador lhe pergunta qual é o seu maior defeito.

Ser sincero nessas horas pode dar certo, mas também corre o risco de representar o fim da linha antes mesmo que a moça eletrônica do metrô agradeça pela preferência.  Se o seu maior defeito é uma queda patológica por animais, a ponto de você já ter feito amor com cães, é óbvio que você não vai falar isso, por mais que agora você só transe com os belíssimos huskys siberianos (também, quem resiste?). Uma mentirinha vai bem, você deve ter outros defeitos certamente mais aceitáveis. Se a vaga de emprego for para uma pet shop, então, qualquer mentira vale.

Só não vale falar que você é perfeccionista.

Ou que você é muito sincero. Até porque, se você for MUITO sincero, fatalmente vai, honestamente, confessar algum defeito nojento, ridículo, abjeto que você está tentando esconder:

- Meu maior defeito é ser muito sincero. Eu digo o que penso, é impossível controlar. Aliás, é um defeito tão grave que eu não consigo esconder que o meu segundo maior defeito é fazer sexo com cachorros. Mas eu posso fazer contigo também se isso me deixar em vantagem em relação a esses merdas que estão na sala de espera.

Mas “perfeccionista” não dá, é um clichê que algum demônio criou, alguma influência maligna disseminou e transformou em uma jogadinha tão barata que não dá pra não ser motivo de piada, empalação ou pelo menos uns tapas na cara.

Se eu fosse empregador, não contrataria alguém que trata perfeccionismo como defeito, por diversas razões:

- “Fazer as coisas perfeitamente” só pode ser um defeito se a pessoa for tão obcecada que chega a cometer crimes para atingir a perfeição nas tarefas. Uma pessoa dessas deve matar animais, ou pelo menos pessoas, para dar cabo dos seus objetivos. Eu sou empregador, mas não sou imortal; nem por um caralho embelezado e voador eu a contrataria. Se bem que se ela fosse mesmo assim, só de estar na entrevista de emprego já seria algo que representaria sério risco à minha existência. Acho que esse é o único lado bom de ser subordinado. Ah, e o salário baixo, pois não estimula a gana prejudicial pelas coisas materiais.

- Usar uma qualidade travestida de defeito é uma artimanha mongoloide, mas, muito, muito, muito pior do que mongoloide, é uma jogada batida. Eu jamais contrataria um candidato que, além de medroso (por não confessar um defeito decente), me joga no pau do nariz um clichê. Isso revela covardia e falta de imaginação, e quem quer um empregado com esses dois emblemas mostrados sem querer? Ou seja, a partir do momento em que o candidato diz que o defeito dele é ser perfeccionista, ele está dizendo, nas entrelinhas, que é covarde e simplório. Eu deveria trabalhar em Recursos Humanos, puta que me pariu!

- Se a pessoa for realmente perfeccionista, sem nenhum efeito colateral, e ela ainda considerar isso um defeito, fodeu. Sabe Deus o que ela vai ter como qualidade (provavelmente um toque divino para fazer o mundo parar quando quiser). Uma pessoa dessas roubaria meu emprego em dois meses – eu sou empregador, mas tenho família pra criar. Não contrataria nunca o pobre prodígio (mesmo sem me perguntar por que uma pessoa tão perfeita a esse ponto estaria desempregada).

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