Corra Mary
09 jun 2013

O limite da xavasca

sarah

Não é de hoje que vemos ex-promíscuas (que ganhavam dinheiro com isso ou não), virando pastoras de igreja evangélica. É a aposentadoria de puta. O que me faz pensar se não há alguma espécie de limite para a xavasca. Encare como quiser: lei da vida, movimento do universo ou seja lá o nome que preferir usar.

Imagine um isqueiro. Depois que você o usa demais, ele perde o seu funcionamento. Você então o joga fora e compra outro. Infelizmente com a vagina não funciona assim. Você não pode comprar outra e nem trocar o seu fluído. Isso além de soar extremamente nojento, não seria funcional. Qual a saída então? Virar pastora.

A igreja evangélica parece funcionar como um botão de limpar histórico para a vagina dessas moças. Depois de uma vida inteira dando mais que chuchu na serra, um belo dia acordam e percebem que a quilometragem de suas xavascas já atingiu todos os limites existentes e o último estágio é fechar as portas da Disneyland e procurarem uma vaga na igreja da esquina.

Montei um bonito gráfico para explicar a teoria:
grafico
Esse é o gráfico da vagina. Você, moça que me lê agora e está se perguntando em qual nível sua xavasca se encontra, não fique preocupada. Como todos sabem, há uma diferença brutal entre dar e distribuir. Você pode dar muito, muito mesmo, mas nunca chegará ao nível de alguém que faz isso profissionalmente. É outra categoria, minha amiga!

Uma mulher livre com sua sexualidade, dá por diversão, dá porque gosta. Mas quando o sexo é feito com a consciência pesada, uma hora a mulher se sente na obrigação de limpar essa consciência e isso é um prato cheio para qualquer igreja evangélica. Já que nada melhor do que alguém emocionalmente fragilizado pra ser perfeitamente moldado em prol dos interesses da igreja em questão. Independente de quem a xavasca pertença, estamos falando de negócios.

A pessoa por outro lado, tem aí uma nova oportunidade de continuar alimentando seu inacabável oportunismo nato de acordo com as circunstanciais oferecidas. Quando era jovem e bonita, aproveitava-se disso e usava em seu benefício: filme pornô, prostituição, engravidar de homem rico, etc. Depois que a juventude e a beleza se foram, a igreja é a última possibilidade para a manipulação. Dessa vez, não mais sexual, mas psicológica. A igreja sai ganhando, a ex-tudo atual pastora sai ganhando. Só quem não sai ganhando são os fiéis, mas quem se importa com eles, não é mesmo?

Acho muito mais digno ser atriz pornô ou prostituta do que pastora. Se ambos os lados estão de acordo com a troca de sexo por dinheiro, pelo menos ninguém é enganado, ninguém é manipulado. Cada um aceita o que é e o falso moralismo passa longe. Aceitar ser quem você é, sem ferir o direito de ninguém, é a maior prova de dignidade que um ser humano pode dar. Seja isso socialmente aceito ou não.

Como xavasca não tem opção de reset, a igreja vende que pelo menos para a consciência tem. Como diria Velhas Virgens: Isso pra mim é aposentadoria de malandro.

Postado por Marina | Categorias: Crônicas, Marina
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26 mai 2013

Os 5 estágios da louça suja

louça

Sem dúvida um dos trabalhos domésticos mais odiosos que existe é lavar a louça suja. Se você não tem dinheiro o suficiente para contratar uma emprega de segunda a segunda, ou para comer todos os dias em restaurante, uma hora ou outra acabará tendo que lavar suas próprias louças. É maçante, é nojento, é chato, mas mais do que tudo é estritamente necessário.

Segundo a psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross, ao lidar com perdas e tragédias, as pessoas passam por 5 estágios diferentes. Mal sabia Elisabeth que para a louça suja também.

Estágio 1 – Negação:

- Ah, nem tem tanta louça assim. Dá pra lavar amanhã.

O primeiro estágio começa já com você negando a própria louça. Acabou de comer, está com a barriga cheia e prefere fingir que a louça não existe. É o começo do caos pois é dessa forma que a louça se amontoa e depois disso você a cada momento inventará uma nova desculpa para não se render ao tédio de lavar a louça. A cada hora que a louça permanece suja na pia, lavá-la se torna um trabalho mais e mais difícil.

Estágio 2 – Raiva:

- Eu não vou lavar merda nenhuma. Se alguém se incomodar que lave. Quero nem saber.

Você odeia a louça. Você evita entrar na cozinha pra não ter que encará-la. Você está muito confortável onde quer que esteja e não pretende se movimentar um dedo para que a louça apareça limpinha e cheirosa de volta aos armários. Pratos e talheres descartáveis pelo resto da sua vida são fortemente cogitados.

Estágio 3 – Negociação:

- Eu cozinho e você lava. Não? Eu passo as suas roupas por uma semana. Também não? Te dou 50 Reais pra você lavar. Pelo amor de Deus, qualquer coisa!

Você então barganha com os familiares, amigos, conjugue, ou qualquer outra pessoa para que não tenha que ser você a pessoa a exercer tal tarefa tão repugnante. Vale oferecer qualquer coisa. Nada é tão valioso que não possa ser trocado pela louça limpinha sem que você precise molhar suas mãos para isso.

Estágio 4 – Depressão:

- Trabalho tanto e não tenho dinheiro nem pra contratar uma empregada. Que mundo injusto! Vou ter que lavar essa merda todos os dias até morrer? Eu odeio a minha vida!

Você cai na real. Terá que ser você a pessoa a lavar a louça. A essa altura já tem vida nascendo da sua louça e se bobear espécies nunca antes descobertas. Você tem que lavar logo, mesmo que faça aos prantos, antes que a vida da sua louça suja comece a ter inteligência e a criar uma cidade inteira dentro da sua cozinha.

Estágio 5 – Aceitação:

- Não tem outro jeito, vou ter que lavar. Tudo bem, lavar a minha própria louça não é tão ruim assim. Eu poderia ser faxineira(o) de Motel e ter que limpar porra dos outros o dia inteiro.

Você tenta se convencer de que não odeia tanto assim.  Você sabe que odeia, mas se é para acabar lavando, que seja da melhor forma possível. A louça não vai se lavar sozinha então é melhor se conformar e mesmo com com raiva nos olhos, encarar aquela pilha de louça que você quase pode ouvi-la rindo ironicamente bem baixinho de toda a sua revolta que no final das conta não deu em absolutamente nada.

Postado por Marina | Categorias: Crônicas, Marina
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11 abr 2013

O nosso amiguinho foi embora

Nosso amiguinho foi embora

— O nosso amiguinho foi embora… O nosso amiguinho foi embora.

Ela, 84 anos, na iminência do sexagésimo aniversário de casamento, sobre o marido, para os dois netos. Seu marido, meu avô, sorteado pela impossibilidade da morte, agora era só uma alma partilhada em frações desiguais nos interiores da gente viva que gosta dele. A morte é a única coisa impossível que acontece. É impossível e repentina, independentemente da idade, das condições de quem se desfaz disso aqui, porque não existe preparação suficiente. A morte é impossível até que se prove o contrário, e quando o contrário é provado — sempre —, é uma surpresa terrível.

E o que sobra para ela, 84 anos, 59 deles numa referência involucrada num caixão? Não sei, deve ser muito pouco. Mais de meio século compartilhando os hábitos, as tarefas e os sonos com alguém sugere que a morte também deveria ser compartilhada. É essa a injustiça que torna a vida muito mais difícil do que bonita.

Mas, e é quase uma afronta dizer isso a quem se perdeu da metade de si com a morte do outro, ela, aos 84 anos, tem um resquício de consolo. Esse resquício se encontra nos suportes familiares de que ainda dispõe.  Chegou o momento de usar a família em uma de suas maiores finalidades: neutralizar precariamente a dor pelas peças que a desfazem aos poucos. Pelas peças que deixam de existir, impossível e repentinamente. É um suporte insuficiente, porque a verdadeira sustentação acabou de deixar de ser, mas sofrer acompanhado já é algo perto de quem só tem os próprios ombros para chorar.

Ela, 84 anos, não é António Jorge da Silva, 84 anos também, cria de Valter Hugo Mãe. Ele, apenas mais uma ficção real da literatura, perde a esposa, se vê sozinho (mesmo com filhos) e é mandando para um asilo, onde se ultraja com o tratamento infantil que recebe, se deprime, vê a morte ceifando seus companheiros, se reinventa à força e convive com a saudade constante.

“passados vinte e três dias, a elisa e o meu genro vieram visitar-me. traziam os meus netos, o miúdo e a miúda, e eu senti que já não poderia adiar mais o encontro. assim que entraram no meu exíguo quarto, as portadas abertas para mostrarem que vivemos em profunda claridade, fizeram fila no correr do roupeiro e permaneceram esticados como para revista de tropas. verifiquei que estavam de gala, todos adomingados para me verem e eu imaginava bem a elisa a dar ordens precisas sobre isso. quero-vos arranjados porque vamos ver o avô. e eu senti-me um idiota por ter julgado algum dia que as suas visitas iam ser constantes, coisa do quotidiano, para que eu acreditasse ainda na união da família. que idiota fui, de facto, assumindo ali diante deles que se punham embonecados no disparate de acharem que assim devia ser para irem ver quem outrora viam todos os dias. era como transformarem-me num passeio aborrecido…”

Ela não vai passar por isso. Enquanto a impossibilidade não lhe tomar a vida e lhe devolver a companhia do marido em alguma instância das suas crenças, ela jamais será um passeio aborrecido.

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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04 abr 2013

Os novos cambistas

cambista

Hoje começou (e terminou também) a venda dos ingressos do Rock in Rio. A internet só falava disso, todo mundo feito louco tentando e se frustrando no site para realizar a compra. Alguns conseguiram, mas muitos só ficaram na vontade mesmo. Não é todo mundo que pode parar a sua vida para ficar, numa manhã de quinta feira, tentando por horas realizar uma compra num site completamente instável até conseguir.

Para aqueles que não conseguiram, só resta agora a opção de esperar a sorte de futuramente conseguirem ganhar àquela promoção esperta da rádio ou comprar o ingresso de alguém que por algum motivo desistiu. Quem comprou hoje, talvez na data por algum imprevisto não possa ir, e sabe o que essa pessoa fará? Ela não apenas venderá o seu ingresso, ela irá querer lucrar fortemente com ele. E então, por saber que está tudo esgotado, venderá o seu ingresso não pelo preço que comprou, mas por duas, três vezes o seu preço original.

Um ingresso que já não é barato (R$ 260 a inteira) sairá por uns R$ 600. Esse será o preço que você, meu amigo, terá que desembolsar para assistir ao seu ídolo de pertinho.

Essa é a nova geração de cambistas. Não são mais aqueles caras que compravam 10, 20 ingressos para venderem na porta do evento por preços absurdos. Agora, os cambistas estão nos seus amigos da rede social e te chamam de amigo, mas não hesitam na hora de lucrarem com o seu, ou de qualquer outro, precioso dinheirinho por algo que não servirá mais para eles. O preço só será justo para o bolso deles.

São essas mesmas pessoas que tanto se chocam com o desvio de dinheiro público do político ladrão, ou que acham um absurdo o preço caríssimo daquele video game no Brasil enquanto lá fora ele cai quase que pela metade. O espertinho não gosta que alguém o faça de otário lucrando com o seu dinheiro, mas não perde a oportunidade de fazer o mesmo com outro alguém se puder se beneficiar com isso.

Existe um ditado que diz que se você quiser conhecer uma pessoa de verdade, basta dar poder a ela. Nessa situação, a pessoa que tem o ingresso tão cobiçado, tem o poder e o que ela fizer com esse poder, diz muito sobre quem ela é.

Num mundo perfeito, ninguém aceitaria ser feito de otário, e o ingresso super ultra mega inflacionado encalharia na mão dos espertinhos que não só deixariam de lucrar rios com ele, mas perderiam o dinheiro que pagaram inicialmente pelo ingresso, mas infelizmente estamos falando de sonhos. Então aquela pessoa que sonha em ver o seu ídolo ao vivo, pagará. Com raiva, mas fechará os olhos e pagará.

Para quem é espertinho, deitar a cabeça no travesseiro e ter a consciência plenamente limpa de ser uma pessoa naturalmente honesta, pode facilmente ser substituída por dinheiro no bolso. E foda-se se é sujo ou não, o Iphone 5 não pode ser comprado com honestidade, então para que mesmo ela serve?

[Editado]
A atividade do cambista constitui crime contra a economia popular, previsto na lei 1521/51, com pena de até dois anos de prisão. Então, meu amigo, se você se deparar com alguém vendendo ingressos por um preço muito acima do que realmente valem, saiba que a pessoa não está só sendo desonesta, ela está cometendo um crime, então denuncie!

A denuncia pode ser feita pelo Disque Denuncia 181, pelo 190 ou pessoalmente numa delegacia de crimes virtuais.

    “CRIME CONTRA A ECONOMIA POPULAR- Cambista que compra ingressos de espetáculo e os revende por preço superior ao real – Configuração: – Inteligência: art. 2º, IX da Lei de Economia Popular

    251 – Configura, em tese, o delito do art. 2º, IX, da Lei nº 1.521/51, a conduta do cambista que compra ingressos de espetáculo e os revende por preço superior ao real, máxime porque os cambistas, atuando de modo organizado e ardiloso, têm constantemente saqueado a economia popular com suas investidas, condicionando a diversão da população ao próprio enriquecimento. (Recurso em Sentido Estrito nº 911.579/1, Julgado em 20/12/1.994, 13ª Câmara, Relator: – Roberto Mortari, RJDTACRIM 24/474)”

Postado por Marina | Categorias: Crônicas, Marina
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25 mar 2013

Cheeseburger de azulejo

azulejo

Se existe uma coisa que me deixa um pouco constrangido em trabalhar com palavras, além de não ter certeza absoluta de que a regência nominal de “constrangido” é realmente “em”, é o excesso de questões esquisitas que envolvem a nossa língua. Essas questões existem em outros idiomas? Sim. Eu vou abordá-las? Sim. Estou mentindo? Sim. Este texto é em vão? Se depender do primeiro parágrafo, sim.

A língua é um gigantesco organismo vivo que vai evoluindo com o passar do tempo, e há alguns timoneiros essenciais nesse trajeto. Eles vão conduzindo o idioma, com um propósito universal de extrema nobreza: não virar zona. Eles analisam, por exemplo, se “queijo” continua significando “alimento derivado do leite da vaca, da cabra, do besouro etc.”. Se em algum momento, “queijo” significar “ladrilho vidrado por um lado, com desenhos e cores variadas, que se usa para cobrir superfícies”, teremos três opções: ou a língua evoluiu rápido demais, ou as pessoas começaram a colocar azulejo no cheeseburger, ou algum dicionarista acabou de receber uma demissão por justa-causa.

E, para não virar zona, esses timoneiros discutem o que é certo e o que é errado. É aí que muitas vezes começa o problema. Eles não concordam entre si; há uma trava na matrix que os impede de dizer “beleza, tô contigo nessa”. Há milhões de casos nos quais “os gramáticos não chegaram a um consenso”, o que, a bem da verdade, abre um precedente confortável, porque podemos colocar a culpa neles se escrevermos alguma blasfêmia constrangedora. Se nem eles, que já conjugavam o verbo “anuir” no jardim II, chegaram a um acordo, eu não sou absolutamente ninguém para acertar tudo por, aí.

Pra mim, português tem ao menos uma conexão com a cocaína: quanto mais puro, mais mortífero. Se um alucinado cometer o ultraje milagroso de gravar todas as regras do português e resolver aplicá-las numa revisão, o resultado só poderá ser lido com naturalidade na ABL.

Só que, apesar das estranhezas que a deixam meio turva, a norma culta é bacana. Ela deve ser seguida, senão realmente as coisas viram uma zona (e só quem já comeu um cheeseburger de azulejo sabe como isso é doloroso — todos os meus dentes de fundo estão quebrados, isso sem contar com uma pequena farpa de cerâmica que ficou presa entre o meu siso e a minha gengiva). Não precisamos peidar alfazema a cada frase, até porque pompa nunca significou decência, mas seguir a norma é uma excelente maneira de evitar a encheção de saco das pessoas.

Estou, se você reparar, pregando para o português a mesma coisa que o Dove pregou para a estética quando falou em “Real beleza”. Ninguém precisa falar um português perfeito, mas você vai esfregar merda na cara antes de sair de casa? A menos que a festa tenha um tema controverso, não. Então acho que a pessoa não precisa escrotizar o idioma. A língua, querendo ou não — e eu não tenho habilidade para mudar isso —, é um artifício que, noves fora a literatura, só sobressai no erro ou na pompa. A mensagem muitas vezes é descartável. O erro é inesquecível.

 

Adendos que, por falta de competência, não consegui incluir no texto:

1)      A propaganda que eu fiz do Dove foi involuntária. Na verdade, aquele ¼ de creme hidratante deixa o sabonete molenga em três banhos. Eles precisam decidir se querem ser um sabonete em barra ou um sabonete líquido.

2)      Ainda estou avaliando se os dois moleques que testaram (sem aspas, eu acredito neles) os corretores do Enem são geniais (sobretudo o do miojo, que ainda escreve bem) ou dois completos idiotas. A verdade é que o Enem não pode sair dando zero para todo mundo. O Enem é um professor bonzinho, dá ponto onde consegue. Toda avaliação revela o resultado de duas partes: a do avaliado (a óbvia) e a da instituição do avaliador. Os colégios mais precários, por exemplo, são aqueles nos quais você consegue tirar as melhores notas, e geralmente sem ser provocado intelectualmente. É exatamente o mesmo panorama do Enem e do Mec, imaginando-se que um seja a prova e o outro, a escola.

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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