Corra Mary
14 jul 2010

Lembre-se

Quando você estiver trabalhando, lembre-se. Quando você estiver dormindo, comendo, se vestindo, lembre-se. Quando você estiver assistindo televisão, comendo churrasco, e tomando uma gelada, lembre-se. Quando você estiver beijando outras bocas lembre-se. Quando você estiver dirigindo o carro, a moto, o caminhão lembre-se. Quando você sentir vontade de fazer xixi nas calças de tanto rir, lembre-se. Quando você não achar que a vida vale à pena, lembre-se. Quando você acordar e não quiser sair da cama, lembre-se. Quando você sentir ódio, lembre-se. Quando você sentir frio e calor ao mesmo tempo, lembre-se. Quando você perder o ônibus, lembre-se. Quando você passar um domingo inteiro em casa, lembre-se. Quando você for visitar um parente distante, lembre-se. Quando você lavar o carro, lembre-se. Quando você escutar a sua música favorita, lembre-se. Quando você correr, andar, rastejar, lembre-se.
Quando e enquanto você viver, lembre-se que eu estarei te amando.
E quando você estiver lembrando, não se esqueça de não esquecer.

Corra Mary

Postado por Marina | Categorias: Contos, Marina
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07 mar 2010

Boas intenções

Boas intenções não valem de nada.
As pessoas parecem ter uma enorme necessidade em querer arrumar desculpas para as ações de outras pessoas. Normalmente, esse papo de “boas intenções” surge nesses casos específicos de talvez não querer aceitar, ou de covardemente querer justificar uma ação injustificável.

Até um crime pode ser cometido por uma boa intenção. O bandido precisava alimentar a sua família. Por isso, assaltou, roubou, e devido aos acontecimentos inesperados, não teve outra escolha, teve que atirar, e matou outro, que por sua vez, também estava apenas querendo alimentar a sua família, a única diferença é que para isso, escolhera trabalhar.
Isso muda alguma coisa? A intenção do individuo muda o que ele fez? Seu crime será menos crime pela intenção ter sido boa?

O que vale não é a intenção, mas a forma como ela é demonstrada. Todos nós temos escolhas, todos os dias quando acordamos, temos a árdua tarefa de expor em ações, as nossas intenções.
Para si mesmo ou para os outros, uma boa intenção que ainda não virou ação, é inútil. Uma boa intenção demonstrada de forma errada traz conseqüências opostas a ela. É assim que deve ser, e é isso que separa os que sabem conduzir suas vidas, dos que não sabem. E não deixar uma pessoa sofrer as conseqüências de suas próprias escolhas, além de uma falsa proteção, é outra ação não pensada, e acredite, como tudo na vida, ela voltará para você também.
“Toda ação tem uma reação.” Terceira lei de Newton, e ela já existia e regia a sua vida antes mesmo de você ter consciência do que ela era.

Respeitá-la, não é apenas questão de caráter, mas de inteligência, porque o que define você, não é o que você é, e sim o que você faz com o que você é.

Postado por Marina | Categorias: Contos, Marina
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22 set 2009

Esse texto não tem graça

Primeiro ou segundo dia de setembro

Me equivoquei redondamente há dias quando pensei que eu era a salvação dos problemas de um ex-caso. Na minha cabeça, eu juntava todos os predicados necessários para fazer uma pessoa como ela rir, se divertir e se apaixonar. Só esqueci, no meio da auto-blindagem do excesso de confiança, de que, na verdade, ela é quem era a salvação para todos os meus problemas.

E é duro passar a acreditar que você sai do nível de “salvação extraordinária” para o patamar de “historinha que não deu certo”. Como é irônico constatar que o impacto que ela deixou em você é muito maior do que o impacto que você deixou nela. São coisas como essa que deixam alguém com medo de se embrenhar na mata da paixonite. Mas, num emaranhado de contradições, cabe perceber que se sentir pequeno é a forma mais cruel de não ter coragem para crescer.

É chato demais procurar – à toa – algo nela que me represente. Todos nós somos carimbos, e a tinta que eu deixei foi fraca demais para ser percebida. Isso porque todas as músicas possíveis e imaginárias sobre amor e burrice já têm destinatário certo na mente dela – um passado de mais de meia tonelada (ou mais de meia década) contra um presente de 70 kg… É pedir para ficar de castigo numa gangorra hipotética. Mas é o que dá entrar numa disputa, sem o menor poder de barganha.

Eu desenvolvi uma habilidade desgraçada de ser a pessoa certa nos momentos mais errados possíveis. Ando perdendo as contas de ser incrível em vão. Continuando na toada contraditória, fico com uma culpa que não é minha. Fico puto da vida e só, porque o mundo é um saco de pessoas ordinárias, e não dá para fazer nada até esbarrar com alguém que valha o medo de se embrenhar na tal mata. Enquanto isso se espera pela hora de não esperar nada, pois esse é o exato momento furtivo onde a história acontece e te surpreende.

Mas vou te contar que falta saco e paciência.

Suspiro e coraçãozinho batendo mais forte são indicativos maravilhosos ou cruéis, só depende da situação. Essa história ajudou a tirar meu fôlego, antes por ânsias e bons momentos, hoje por cansaço acumulado de casos que foram para o saco. A vida é estampada com seus altos e baixos, pela maré que seca e alaga, pelas malditas contradições e incoerências: uma maneira pouco cortês de te fazer grato pela montanha e resignado pelo vale.

Sabe quando você olha para algum lugar sem o menor interesse, mas mantém o olhar simplesmente porque uma soma de conforto, tédio e sono te obrigam a isso? Estou assim. Letargia purinha.


Postado por Pedro | Categorias: Contos, Pedro
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10 mai 2009

Complicado

Um certo tipo de obrigação, um falso sentimento momentâneo de continuidade, que te empurra para fora da cama e como um relógio te avisa que já passou das cinco – concorrendo também a ser dia seguinte – e te pegarias então sentado no pé da cama, levando um objeto a boca (como uma criança de colo), sem saber ao certo o porque se faz, e se perguntarias, assim por acaso, se na situação do dia ter passado e os sonhos continuados, ininterruptos, o haveria de ter mesmo existido, e sem uma hipótese de mentira, ou verdade que deixou de acontecer, a realidade e tudo mais que ela pudesse trazer, seria tão inimaginável a ponto de tudo não indicar apenas mais cansaço pelas horas de fingimento na cama de lençóis de ontem.
E por quanto tempo ainda os vizinhos continuariam a te lembrar que não-ter-vivido não significaria não-ter-existido? E quem ainda poderiam ser eles para serem donos de tal verdade absoluta, visto que apenas pagam o mesmo aluguel com a clássica desculpa de som alto e visitas no alto da madrugada para se fazerem presentes e o apartamento não invadido pela vigilância sanitária? E você não estava incomodando. O apartamento vazio e as plantas secas e o cheiro de água sanitária não seriam motivos válidos para se incomodar, e talvez a sua não presença na caixa de correio, e a ausência das conversas sobre o tempo nos medíocres encontros no salão, o fariam ser visto quase como um anti-cristo da boa vizinhança, a mais nova conversa pelos corredores, e logo mais, por todo um bairro.
É complicado. – Você diria.


Postado por Marina | Categorias: Contos, Marina
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02 mai 2009

O sapo e o pássaro

sapopassaro

Todos os dias, o sapo observava o pássaro que tomava banho na lagoa.
O pássaro por sua vez, notando que estava sendo observado, cortou o silêncio:
- Venho notado que meus banhos nunca são solitários.

O sapo se assustou, deu um pulo para trás, mas já não mais podendo se esconder saiu da moita e mesmo envergonhado, não perdeu a pose e respondeu:
- Sempre que te vejo você está na mais triste solidão. Deverias me agradecer, pois te faço um favor em acompanhar suas tão sem graças visitas a lagoa.

O pássaro pulou para a pedra mais próxima do sapo, enquanto o mesmo continuava a se gabar:
- Veja eu: tenho essa enorme lagoa que me oferece tudo que preciso, e ainda sou cercado por todo o tipo de criatura. Não preciso conviver lado a lado com a mesma solidão que você. Minha vida é maravilhosa, e tenho a oportunidade de compartilhá-la a todo o momento.

O pássaro que nunca foi de muitas palavras, surpreendeu a si mesmo quando respondeu:
- Você vive a vida que te foi imposta, e se ela fosse mesmo tão boa assim, você não teria a necessidade de enfaticamente tentar convencer os outros do que nem você mesmo está convencido.
O céu é muito maior do que a sua lagoa, e lá em cima se tem o privilégio de só dividir o vôo com quem se quer. Você nunca compreenderá, porque não aprendeu a voar, mas te deixo com minhas últimas palavras mesmo levando em conta suas limitações: A liberdade compensa as faltas.

E o pássaro bateu as asas e voou.
Enquanto o sapo permaneceu. Permaneceu, permaneceu, e permaneceu.


Postado por Marina | Categorias: Contos, Marina
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