Velhinha

jul 01

“Não tenho plantas na minha casa. Não consigo fazer com que elas fiquem vivas. Algumas nem esperam morrer, cometem suicídio. Uma vez, cheguei em casa e encontrei uma planta pendurada numa corda, com o vaso de xaxim caído no chão. Tinha um bilhete de despedida dizendo: “Detesto você e seus CDs.”"
(Jerry Seinfeld)

Parou o carro em frente à praia e foi andando até o apartamento. Era um apartamento velho, com cores de assombração, escadas largas e um elevador que provavelmente não funcionava há mais de 20 anos. Só para dizer que o apartamento tinha elevador, daqueles que fazem barulho ao subir, e Deus-me-acuda-ao-descer.

Chegou ofegante ao último andar. Em situações como essa, parar de fumar parecia a coisa mais certa a fazer. Tirou a única chave da bolsa e entrou.
Silencio.
A casa não possuía luzes ou sons. Era provavelmente a caverna próxima a praia mais aconchegante que existia.
Gritou o nome de alguém sem obter respostas e a cada cômodo que entrava, deixava uma luz acessa. Odiava a escuridão num apartamento com cores em rosa, roxo e azul.

Na enorme cama do quarto principal, uma velhinha se encontrava deitada de bruços envolvida por lençóis tão brancos quanto ela.
Não havia dúvidas de que era um corpo. Não como o seu, não como o das pessoas que desejavam bom dia na banca de jornal, era um corpo menos colorido, mais enrugado e muito menos velhinha.
Lembrou-se de Marilyn, num dia tão linda, e no outro tão morta. E por mais que se esforçasse, não conseguia reconhecer os traços antes tão familiares. A morte não se encaixava naquelas fortes linhas faciais.

O mundo ainda continuava mundo, e era estranho. Alguém não fazia mais parte dele, e ela se deu conta, que na verdade isso não era nada. As pessoas ainda andavam no calçadão, os telefones dos apartamentos vizinhos ainda tocavam, e as gordas do 601 ainda fofocavam.
O dia estava tão bonito, que aquela beleza toda chegava a doer. Ela queria catástrofes, choros e comoções desnecessárias para o que a rasgava por dentro. Não queria sentir sozinha.

Pegou o telefone da cômoda ao lado da cama e discou aqueles números que nunca saíam da cabeça:
- Ela foi uma privilegiada.
- Ham? Quem?
- Morrer dormindo não é para qualquer um. Só para os realmente bons. Não sabemos quem ela foi antes, não sabemos o passado de alguém que para nós, não nasceu criança, e por pior que ela possa ter sido durante a vida, foi provado que alguém a perdoou. Ela fechou os olhos e essa noite não acabou em dia. É outra realidade, meu irmão.
- Nossa velhinha está com Marilyn!


9 Comentários

  1. Morrer dormindo realmente é só pra pessoas to boas… eu espero morrer assim. Ms to achando dificil

  2. Adorei seu blog, muito bom os textos, especialmente este…
    Abraços…

  3. André Sampaio /

    “Na enorme cama do quarto principal, uma velhinha se encontrava deitada de bruços”

    Nessa parte eu tive uma ereção.

  4. “O mundo ainda continuava mundo, e era estranho. Alguém não fazia mais parte dele…”
    “Morrer dormindo não é para qualquer um. Só para os realmente bons…”

    ahhhh sua boba me fez chorar …
    seu texto me lembra meu avô que escolheu o momento de morrer . Parece estranho mas foi isso mesmo, ele se despediu de toda a familia que está espalhada pelo Brasil e depois voltou para sua terra natal e morreu, assim simples, sem ficar doente nem nada

    lindo texto!!!Parabéns!!!

  5. ai, esse André é retardado!

    mt bom o texto, pra ser mais clichê: vc escreve muito bem!

  6. fiquei arrepianda
    agora, só comento se achar o texto muito ruim,tá foda elogiar todo dia… isso não faz meu tipo :P

  7. A escritora mais bacana deste blog, sem dúvida. Uma maturidade literata que a cada texto vai se aperfeiçando a olhos vistos tal qual a matéria num torniquete de algo próprio. Texto lindo gostei muito, meu predileto até agora. Parabéns e beijões pra ti.

  8. quero estar com Marilyn tambem hahahahahhaa

Deixe seu comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>