
Tirando Deus, futebol, programas de qualidade inversamente proporcional ao tamanho do público e Avenida Brasil (uma falha bem-vinda na Matrix), o tempo é um dos raros assuntos que unem as pessoas. Seja lá qual acepção de tempo você escolha, ele de alguma forma provoca formigamento na alma das pessoas. O tempo está ruim, chove há dias, as nuvens estão pretas, o calor está insuportável, tenho vontade de assassinar meus pais quando faz sol na segunda-feira, 100% dos seres humanos que vão à praia em dia de semana são vagabundos, por mais que estejam de férias, ou procurando algum tipo de reabilitação espiritual, ou pagando promessa, ou vivendo o desemprego, ou exercendo de fato a vagabundagem… Tudo isso a gente diz a respeito do tempo meteorológico. Sempre.
Em relação ao tempo cronológico, a discussão de “uau, como o ano está passando rápido, dona Jocasta!”, tão vã quanto a raiva pela chuva em dias de açoite via CLT, cai na mesma inócua e pentelha ladainha. Mas a gente precisa reclamar do tempo que passa, porque ele é exatamente como aqueles fantasminhas vilões do Mario Bros.: quando você presta atenção nele, o desgraçado não se move, quando esquece e perde a atenção, ele voa.
E essas discussões sobre o tempo sempre encontrarão abrigo naquelas ocasiões que forçam convívio social. Deus não é pauta suficiente — é pano de fundo, futebol, BBB e novela, embora sejam quase unânimes, esbarram nesse “quase” e nem sempre são convocados a deus-dará num elevador, por exemplo. Só o tempo pertence, ainda para quem o ignore, a todo mundo.
Estava voltando de táxi para casa, e o condutor, um simpático português, com mais ou menos seis décadas e uns quebrados de existência, que tinha a curiosa mania de falar “mano” a cada frase (português paulista, veja bem), começou a lamentar sobre o tempo cronológico pra mim.
— Quando eu tinha a sua idade, dava pontapés nas estrelas, mano.
Não sabia se “dar pontapés nas estrelas” era uma expressão consagrada, batida, clichê, mas o bom da ignorância é nos dar a chance de ver beleza em algumas coisas. Achei bonito. O “mano” – com sotaque português de velhinho – foi bonito também.
— Noutro dia, fui levar um imortal da ABL em casa, aí ele me disse que exaltaram a inteligência e a experiência dele. Aí ele, fulo da vida, falou: “Mas para que eu quero essa experiência toda? De que adianta pente para quem não tem mais cabelo?” — disse o condutor, emendando: — Sabia que na tua idade eu tinha uma coleção de pentes de osso? Mas agora eles não me servem de nada, não tenho mais cabelo que nem você.
E esse foi primeira vez nos últimos dois anos que meu cabelo foi o lado forte numa comparação capilar. A atrocidade do tempo se embala numa progressão geométrica.
— O tempo é cruel, meu amigo. Há uns 15 anos, eu estava viajando com a minha mulher, em um carro sem capota. Em um momento, vi meu rosto no retrovisor e reparei que tinha uma coisa balançando no meu pescoço. Fiquei assustado, parei o carro e perguntei à minha mulher: “Ó, fofinha, o que é isso no meu pescoço?” Ela disse: “Ué, é uma pelanquinha, o tempo está passando, passa para você também.” Sabe, mano, eu vi aquilo e comecei a chorar.
O cara era português, falava “mano”, chamava a esposa de “fofinha”, notou acidentalmente a passagem do tempo encravada no pescoço e ficou desolado a ponto de chorar. Era a conversa mais poética que eu já havia travado num táxi.
— Na tua idade, um amigo me chamava “opa, tem dois brotinhos pra gente no outro lado da cidade”, eu ia voando. Hoje em dia, nem que me obriguem eu saio de casa. Vou fazer o quê? Vou dançar com quem? Quem vai querer dançar com um velho? E, se dançar, eu canso rápido, minhas pernas não aguentam.
E “perna não aguentar” é a senha para abolir meus escravos de ternura pela minha avó. Não sei que fixação eu tenho por velhice, não sei se é porque eu tenho a macabra convicção de que nunca chegarei até lá, ou se é porque a pobreza de tempo, a escassez dele quando você olha para frente, me comove.
— Foi um prazer — falei ao sair do táxi, pensando “se a Fofinha não existir mais, alguma mulher precisa tirar esse português para dançar”.


Adorei!
Sensacional!
Vou adotar “dar pontapés nas estrelas” pra vida, seja lá o que signifique.
A natureza é muito injusta mesmo. Permite que nós, pobres mortais, experimentemos a juventude, pra depois arrancá-la dos nossos braços. É cruel. Rs Ótimo texto!
Muito bom!
O comentário mais inutil de sempre: Le eu adorei.
Tenho pena do senhor por se sentir velho. Eu acho que a velhice é uma coisa psicológica. A maior parte das pessoas idosas que conheço (cerca de várias, já que vivo no fim do mundo) são pessoas “jovens”. A minha avozinha de oitenta e tal anos ainda anda por aí a cavar batatas. O meu avô não dispensa uma tarde na horta, ou na vinha. Está sempre a mexer-se a sorrir, e dançar (muito ama aquele homem dançar). Não sei mais o que escrever para complettar o raciocínio xD
E quando é que vem o awesome livro da Corramary para Portugal? D:
Adorei seu comentário, talvez o português daqui devesse aprender com os portugueses daí xD. Será que comprando pela internet, o livro chega até Portugal? Isso eu realmente não sei dizer (mas o seu comentário já é uma boa recompensa!)
Um abraço
O português daí precisa seriamente de conhecer a minha avó xD (parece que estou a fazer um estranho arranjinho)
Hummm, não sei, não sei. Irei pesquisar isso. Eu realmente queria comprar o livro D:
Awwn, tentarei comentar mais vezes, vocês são pessoas awesomes.
Aqui em Belém do Pará nós usamos o “mano” com bastante frequência.
Tem uma carga afetiva, de intimidade, sabe? Como uma abreviação para “irmão”
Tu soubeste retratar com exatidão o que isso significa para nós paraenses.
A propósito, tenho que me segurar as vezes para não esmagar o Mario Bros. Hahaha.
Abraços!
Parabéns pela sua capacidade de enxergar poesia em situações tão cotidianas, que passariam batidas em outras circunstâncias.