Serenidade
fev 22
Há dois anos, estava em uma praia, à noite, totalmente deslocado, quando uma menina de biquíni veio correndo em minha direção.
- Obrigado, Deus, por me presentear mesmo sendo um menino pouco ligado ao Senhor e às religiões.
No entanto, a menina passou por mim para bater papo com alguém nas minhas costas.
- Porra, Deus! Tá na hora da pegadinha sagrada?
Era um luau com pessoas mais prafrentex do que eu. Perto dos meus semelhantes da ocasião, estava me sentindo meio quadrado, alheio, picareta, tal qual um pai paquerador. A cada cigarro que fumava, dava dois para quem pedia, só para ficar bem na fita.
Estava ficando com uma Gabriela e a menina, com um Gabriel.
- Porra, o moleque é todo estranho… Tudo bem que eu sou branquelo, esquisito e sem corpo, mas ele me ganha em estranhice.
Fiz piadinhas, ela riu, e um mês depois estávamos falando de amor, um em cima do outro, conversando e namorando até cansar. Bati numerosos recordes sentimentais com ela e me propus à presunção de tentar bater os dela também.
Um ano depois, estávamos secos por causa da rotina. Se existe um olho mágico que enxerga as coisas boas da vida, a rotina é a catarata que embaça essa visão. Não me arrependo de nada, mas assumo que via muito pouco no momento. Ela também, aposto. De qualquer forma, o caldo desandou de vez e cada um foi para seu canto para viver algo raro no mundo dos ex-namorados: um namoro sem volta.
Outro ano depois, cá estou eu em uma manhã ordinária, escrevendo numa aula tão ordinária quanto e pensando nessas coisas amorosas. Estou com uma espinha na cara que pode ser uma boa alusão ao tema – no começo da espinha, mexia na casquinha e doía horrores, sangrava e tudo. Agora até esqueço de arrancar, e quando o faço, sinto uma dorzinha, que, embora seja uma manifestação desagradável, é quase imperceptível.
Um ano depois do fim e dois anos depois do começo, sinto uma coisa que não sentia há anos. Serenidade. Noutro dia, estava em um ônibus, num dia ensolarado, ouvindo uma música instrumental, pensando em coisas absurdas. Imaginava que tinha tomado um tiro e estava me recuperando no hospital, todos sabiam que não era nada grave. Aí, na visita dos meus amigos, eu me fingia de doente e falava:
- Meninas, realizem meu último desejo… Me mostrem os peitos… Arrrf…
E começava a rir e todos riam também. Quando reparei, estava rindo desse devaneio mongol no ônibus, com o dia ensolarado e com a música instrumental.
- Isso deve ser felicidade. Estou indo para o inferno (estágio), mas estou rindo de bobeira. Que coisa…
(Aí, cheguei ao estágio e percebi de vez que a felicidade é algo momentâneo. De qualquer forma, é bom ter serenidade para notar essas coisas).
E também para notar que o mundo é um poço de pessoas sem personalidade e alma. Autênticos cones que vivem em função de propósitos tão mesquinhos que dá até medo. Mas, no meio dessa gente toda, existem milhares de exceções, que acabam por fazer as coisas valerem à pena. Que bom!
É fácil falar da vida quando as coisas estão uma merda. Mas acho que seria ingratidão com as circunstâncias se não falasse bem dela de vez em quando. Agora é um ótimo momento para isso.




O cliche mais certo que existe: O tempo cura tudo.
E cura mesmo, quando vc ve ja está no blog escrevendo sobre o ocorrido comparando-o com uma espinha.
O tempo é mesmo mágico.
Caralho, texto foda!
“Porra, Deus! Tá na hora da pegadinha sagrada?” foi ótimo. rs
Estranho que dá pra perceber um tanto de serenidade numa parte do texto. Penso que quando algo que sentimos é bem real acaba afetando as coisas a nossa volta mesmo. No caso, sentir-se mais sereno faz as coisas que você diz parecerem mais sensatas. Sei lá o que eu tô dizendo… mas seja lá o que for é bem real porque eu tô numa onda bem sincera.
Ok, é isso. Cara, isso que você falou dos peitos me lembrou House… mas beleza.
Valeu. _o/
Hehehe, pois é… Não passa de uma espinha (aliás, ela já sarou! Parei com as casquinhas, curou mais rápido).
Stella, é exatamente esse o espírito da coisa. A serenidade trazendo sensatez! O negócio dos peitos foi devaneio mesmo… Heheheh nem que eu tivesse em coma mostrariam, ehehe. Mas espero não precisar viver isso para confirmar minha teoria!
eu nem sei o que comentar…muito bom, mesmo!!
Estranho como a gente fica feliz ao pensar essas bobeiras. Eu sempre me pego rindo de umas viagens como essa.
Músicas instrumentais são boas pra pensar. Parece que os seus pensamentos compõem a letra da música.
Também adorei o “Porra Deus! …”
Excelente