“Se precisamos de paciência para nos suportar-mos, quanto mais para suportar os outros.”
(Carlos Drummond de Andrade)
Entre todas as situações de desconforto total, não me recordo de nenhuma que seja pior do que as minhas experiências com semi-conhecidos.
[.Definição de semi-conhecidos.]
Semi-conhecidos são aquelas pessoas que não se classificam como desconhecidos por serem mais do que conhecidos para pessoas próximas a você, ou por em algum momento da sua vida, ter trocado mais de meia dúzia de palavras (provavelmente tentando ser gentil), mas também não se encaixam na parte de colegas nem muito menos amigos, por você não ter intimidade e não ter falado o suficiente para que sua companhia seja algo realmente agradável.
Semi-conhecido é aquela ex-namorada do amigo do seu primo que você conheceu na viagem pra Teresópolis no natal do ano retrasado.
É aquela menina da aula de trigonometria que sempre vem falar com você coisas que ela julga de seu interesse, mas que na verdade você não faz a menor questão de saber, e caga solenemente.
É a professora particular de dança-moderna da sua tia avô…
Enfim, há milhões de semi-conhecidos na vida de todo mundo, e o mais engraçado é pensar que o seu desespero de os encontrar deve ser igual ou ate pior do desespero deles te encontrarem, mas que a boa educação impedem ambos de passarem reto.
[.Piores lugares para se encontrar um semi-conhecido.]
Ônibus. Sem pensar duas vezes, é indiscutível que o ônibus seja o trauma de todo aquele que foge alucinadamente dessa praga humana.
Você ficará sem graça de não falar com ele, e ele fará o mesmo. Vocês sentarão um ao lado do outro, e conversarão sobre como o tempo está quente, ele perguntara se você tem visto aquele amigo em comum e quando o assunto morrer, e você estiver olhando para a janela do ônibus rezando para que aquele inferno acabe logo, ele vai te surpreender com a pergunta mais original que um semi-conhecido pode fazer:
- Como estão os estudos? (Variando também entre: “Foi bem nas provas?”)
[.Táticas para despistar semi-conhecidos.]
É de conhecimento geral que quando você encontra uma dessas pessoas, por coincidência, seu celular vai tocar na exata hora que você bater o olho nele.
Não entendo como as pessoas ainda acham que se safarão sem serem “notadas” com a velha desculpa do celular tocando (ou então, procurando algo dentro da bolsa), o diferencial é que o seu desespero será igual ao dela, por isso não pegará mal tal atitude (se ela não fizesse, você faria).
Você sempre tem poucos segundos para pensar numa solução, então como os dois vão querer continuar parecendo simpáticos um para o outro, mas ninguém quer padecer em papinhos imbecis de semi-conhecidos, essas desculpas ainda são aceitas. Por isso, procure algo dentro da bolsa, leia aquele jornal velho que você esta usando para se abanar, receba torpedos imaginários as 6:30 da manha e em casos extremos entre na primeira porta que estiver a sua frente, mesmo que seja uma churrascaria, e você um vegetariano vestido com uma blusa verde com os dizeres “Porcos são amigos, não comida.”
Corra Mary
Nem me fala em semi-conhecidos no busão, cara morena, sabes os perrengues que já passei com esses.
E semi-conhecidos também podem ser deveras úteis, principalmente em filas em que dá pra dar um jeito de furar.