
Quando tinha 11 anos, me apaixonei por um menino dois anos mais velho. O contato mais próximo que tivemos foi quando ele pisou no meu pé na fila da cantina. Mesmo sem ainda me dar conta, estava aprendendo uma importante lição sobre relacionamentos amorosos: gostar de alguém não era garantia nenhuma de que seria gostada de volta.
Tudo que eu mais queria era poder pedir pro meu pai comprar aquele garoto para mim, mas o amor não funciona assim e uma hora ou outra a gente tem que descobrir isso. E consequentemente se frustrar.
Anos mais tarde, fui também apresentada a “Quadrilha” de Drummond e pude entender que além do amor nem sempre ser bilateral, ele também traumatiza e estraga vidas.
“João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.”
Lili
Lili não amava ninguém, e consequentemente não sofria daquela pontada aguda no coração que só sente quem já amou sem ser amado de volta. Lili era livre, tinha alguém que a amava apenas por ela ser Lili, já que não retribuía esse amor. Ela conheceu apenas a face bonita do amor. Final feliz para Lili, se casou com J. Pinto Fernandes, que não estava na história, ou seja, não possuía passado nem ex para infernizar a vida de Lili. Mulher de sorte, eu diria.
Joaquim
Joaquim é apenas um dos casos trágicos dessa história. Ele amava Lili, que prefiria não amar ninguém a ter que amá-lo de volta. É triste quando se é trocado por outra pessoa, mas é mais triste ainda quando se é trocado pelo nada. Saber que nada é ainda melhor que você deve ser de uma dor enorme. Não por acaso, Joaquim suicidou-se.
Maria
Maria amava Joaquim, um rapaz provavelmente depressivo e com tantas cicatrizes internas devido ao seu amor pela tão livre Lili, que não conseguia enxergar Maria. O amor não é tão óbvio, é preciso observação, cuidado e mente sã. O que Joaquim, o futuro suicida, não possuía. Maria deve então ter ficado esperando que algum dia, Joaquim enxergasse todo seu amor e se arrependesse de todo o tempo que perderam sofrendo em vão. Mas como o amor da vida real não é um filme de Hollywood, o final de Maria foi esperar eternamente por alguém que nunca chegou e nem chegaria.
Raimundo
Raimundo amava a ingênua Maria, que gastou a vida esperando. O fim de Raimundo não foi decisão própria, ele morreu num desastre. Foi o único que não teve escolhas. Enquanto os outros dirigiram suas vidas da forma como acharam melhor, a de Raimundo foi dirigida. Talvez o fim mais trágico, já que a falta de escolhas é sem dúvida uma das formas mais cruéis de direção.
Teresa
Já dizia Caio F “Viver é a melhor vingança”. Teresa amava Raimundo que não a amava de volta, e deve ter nutrido essa desilusão de forma tão amarga, que desistiu pelo resto de sua vida do amor e dos homens, se mandando para um convento. Mas não pense você que Raimundo era flor que se cheire. Para uma mulher tomar uma atitude tão drástica dessas, provavelmente Raimundo possuía culpa em tanta mágoa. Deve ter pisado nos sentimentos de Teresa. E veja só como a vida é, se encarregou sozinha de dar o troco a Raimundo.
João
Na primeira vez que li esse conto, senti pena por João não ser amado por ninguém, mas depois pude entender que mesmo João não sendo evidentemente amado por outra pessoa, há uma história paralela a essa nas entrelinhas:
João mantinha um caso secreto com J. Pinto Fernandes, uma bicha enrustida e covarde, que por pura pressão social e sem coragem de se assumir para o mundo, casou-se com Lili para evitar fofocas e desviar a atenção. João, frustrado e enojado por tamanha covardia, decidiu que não se tornaria um fraco como J. Pinto Fernandes e foi atrás de seu maior sonho: foi ser Drag Queen nos Estados Unidos.
Fim
Já não acho que Lili teve um final tão feliz assim. O que nos leva a aprender a segunda lição desse texto: o amor é um saco de merda mesmo quando parece ser um vaso de flores.


Muito tri, hahaha
Haihauiahuiahaihaihaihaihauia… Muito massa!
E eu digo mais: o amor é um saco de merda mesmo quando parece ser um vaso de flores.
=P
Parabéns pelo texto!
Luv sux!
Vou deixar um adendo… Drummond é muito foda! (=
krak, cabalisticamente sinistro…
Parabéns por mais um texto inteligente e divertido!!Mas cuidado com a segunda lição… Há vasos de flores que merecem a sua atenção.
Bjs
Me orgulho de ser amiga dessa menina fantástica!!!!bjs , TE AMO!!!!
Marina, querida, adorei seu texto e a ilustração. Veja minha versão para o poema de Drummond:
Quadrilha
João roubava Teresa que roubava Raimundo
que roubava Maria que roubava Joaquim que roubava Lili
que não roubava ninguém.
João foi para a cadeia, Teresa para o bordel,
Raimundo foi assassinado, Maria ficou lésbica,
Joaquim suicidou-se e Lili casou-se com o Zé Pinto
que não tinha entrado na escória.
HAHAHAAHHAHAA Adorei, Vicente!!
Heh. Eu iria pelo contrário: o amor é um vaso de flores mesmo quando parece um saco de merda.
Anos atrás eu aprendi, depois de sucessivos “amores da minha vida” que, por mais que eu quebresse a cara, alma não gasta e eu sei voltar pra casa.
Minha amiga… isso faz uma diferença…
Adorei o final do João, o mais corajoso, com certeza!!!
Hahahaha sempre gostei desse texto, e também me deparei com ele a primeira vez, quando criança…
Adorei sua interpretação pra ele! huahauhaua Ri muito e adorei a criatividade… invejável! RS
Parabéns
Muito bom!