- Amor, a gente precisa conversar.
- É alguma coisa séria?
- Mais ou menos.
- Como assim, mais ou menos?
- Ah, Leila, pode ser séria dependendo do ponto de vista. Ou não, vai saber…
- Mas só estamos eu e você aqui. Que ponto de vista mais você precisa? É do meu, e do seu. Aliás, só do meu, porque se você vai falar comigo, é só do meu que interessa.
- Mas eu não sei do seu ponto de vista, então falo “mais ou menos” porque se falar que é séria e não for, vou ter te assustado a toa. E se falar que não é, e for, você pode achar descaso da minha parte.
- Marcelo, a gente namora há três anos. Você já me conhece bem o suficiente para saber do meu ponto de vista.
- Mas às vezes parece que eu nem te conheço. Quando acho que sua reação será uma, você me surpreende com outra totalmente inesperada.
- E você ta reclamando? Saiba que homens se matariam para estar comigo, mesmo sendo esse poço de imprevisibilidade que você diz que eu sou.
- Imprevisibilidade? Essa palavra nem se quer existe, Leila.
- Mas é lógico que existe. Não é só porque você não conhece que ela não existe.
- Eu estudei num dos melhores colégios daqui. Sei muito bem o que existe e o que não existe.
- Que nem daquela vez que você achou que “putativo” fosse um palavrão?
- Mas olha essa palavra. Não tem como não achar.
- É por isso que você é assim, Marcelo. Só porque estudou em colégio particular cheio de filhinho-de-papai, acha que sabe de tudo. Já pensou em fazer terapia? Tenho certeza que iria descobrir que a culpa é da sua mãe.
- Minha mãe não tem nada a ver com isso.
- Mas a culpa é sempre da mãe.
- Você não gosta da minha mãe?
- Eu não disse isso.
- Então porque acha que a culpa é dela?
- Se não é dela, é do seu pai.
- Meu pai morreu quando eu tinha dois anos de idade.
- Opa, Marcelo. Está aí então. Achamos o problema: É a morte do seu pai.
- Desde quando você é psicóloga, Leila?
- Só estou querendo te ajudar, seu ingrato.
- Mas eu não preciso da sua ajuda.
- Ah, não? Quer dizer então que você não precisa de mim na sua vida? Ta fazendo o que comigo então? Fica na minha vida quem quer. Sabia disso, Marcelo? Fica quem quer, e se você não quiser, pode ir embora.
- Leila, eu…
- Ai, Marcelo, você vai acabar comigo, né? Desculpa, desculpa. Eu não queria ter dito aquilo. Não me abandona não.
- Mas eu não disse nada.
- E nem precisa. Você veio com essa cara de cachorro que caiu da mudança. Eu te conheço. Eu te conheço!
- Conhece tão bem, que errou.
- Eu nunca erro, Marcelo. Sou pisciana, ascendente Leão, filha de Ogum. Você sabe o poder que isso tem?
- Ta bom, Mãe Dinah, vamos deixar isso pra depois, a conversa em si não é essa.
- Olha você me cortando. Bem que a minha mãe dizia preu não ficar com você. Porque eu não a ouvi, hein?
- Como eu estava dizendo, Leila, eu…
- Não. Você não vai falar isso. Li num livro de auto-ajuda ano passado, que nunca se deve deixar que o outro termine com você. É muito humilhante. Tenho que acabar antes então.
- Ham?
- Marcelo, está tudo acabado.
- Leila, você tem algum problema.
- Olha você já querendo me humilhar! Esse é o estágio pós-termino. O livro falava sobre ele.
- Esquece essa merda de livro. A gente pode conversar como dois adultos?
- E esse é o da raiva. Sabia que aquele livro me serviria em algum momento. Só aviso, Marcelo, no estágio do arrependimento, eu não vou voltar não, hein? Você só me fez sofrer.
- Leila, você está acabando mesmo? Tem certeza?
- Ta com raiva por eu ter estragado seus planos de acabar comigo primeiro e sair por cima, né? Mas me diga, Marcelo, quais palavras exatas você ia usar?
- Apenas seis palavras: “Estou pensando em comprar um cachorro.”
- Eu sempre quis ter um labrador.
Corra Mary
kkkkkkkkkkkkk ai ja fiz algo parecido :O mas tbm aprendia lição rsrs
Comprar um cachorro foi uma tarefa relativamente fácil para mim. O problema foi quando eles morreram. Será que eu deveria tê-los matado antes para sair por cima?
Encontrei o site sem querer e estou achando incrível! Ótimos textos, Viva o humor inteligente!
hsauhsaush, é por isso que eu não levo as coisas muito a sério e penso três vezes antes de falar algo. Podem interpretar uma coisa totalmente diferente da outra. É nessas horas que vemos o quão importante é a interpretação de texto das aulas de português na escola.
mulheres… hauahuahuahuah
nossa, três anos disso? tenho medo…
ah, “Eu nunca erro, Marcelo. Sou pisciana, ascendente Leão, filha de Ogum. “, mulheres, sempre buscando disfarçar a carência com horóscopo
GENIAL!
Cara, por que que quando o casal começa a brigar adoidado coisas assim acontecem? E não é só de um lado. (Lógico que as mulheres fazem incontáveis vezes mais. hahaha)
Viva o humor inteliente! [2]
KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
Muito legal!