Pôr do sol em Jaconé.
jun 09
“Passamos a vida inteira à espera de uma pessoa que nos diga algo de fundamental, e quando percebemos vagamente que talvez ela já nos tenha procurado, não podemos deixar de concluir com amargura que nós não a soubemos ouvir, e muito menos identificar. Esperávamos sem estar preparados para a espera.
E por acaso, essa pessoa foi talvez a única a que humilhamos.” (Samuel Rawet)

photo credit: luchador_lb
- Você acredita em amar por amar, sem motivo, sem esperas, sem exigências?
- Não.
- No que você acredita então?
- Nisso. No agora, no que não posso negar.
- Defina “isso”. A razão da sua existência? Sua motivação para viver?
- Algo que me faça não pensar nessas besteiras.
- Sempre foi fácil demais para você.
- Não. Para você que sempre foi complicado demais.
- Não consegue me entender?
- Você consegue?
- Não.
- Então não me peça o que não pode oferecer.
- Sou humana.
- Eu sei, e talvez esse seja seu pior defeito.
- Errar?
- Saber que está errando…
- (…) e continuar a errar.
- Nossa, como sou previsível.
- Você é humano.
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- Gosta disso?
- Às vezes.
Eu continuo a passar a ponta das unhas pelas suas costas enquanto olho por trás do vidro.
- O jornal deu que hoje seria quente. Muito quente. Quente de matar, quente de morrer.
- E está.
- Não, a noite está fria. E ninguém está morrendo por ela.
- Quando eu te deixar, você morrerá por mim?
- Quando será isso?
- Amanha, talvez.
- Então não me traga isso hoje.
- …
- E não, eu não morrerei.
- Viverás?
- Tão pouco.
- Então o que será?
- Não será. Seremos o que sempre fomos, tentando recuperar o tempo que perdemos um com o outro.
- Não foi tempo perdido.
- Se ganha com a dor?
- Se aprende.
- Tolice. Com a dor, se sofre. Nada mais.
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- Sabe quanto tempo duramos?
- Um bucado de dias.
- É… E agora acabou. Não há o que se lamentar, o que desejar, o que perdoar, o que gritar, simplesmente porque não há.
- Nunca houve.
- Eu tive tanta coisa bonita dentro de mim…
- Você esquece, você substitui, você supera. Ou seja lá o artifício que a vida vai inventar para te fazer ficar bem. Porque é sempre assim. De uma forma ou outra, no final, você acaba bem.
- Mas enquanto esse dia não chega?
- Não sei.
- Se você não sabe, ninguém mais pode me ajudar, e eu estou completamente fudida.
- Não é a primeira vez, é?
- Dói como se fosse.
- Nunca se tem uma segunda primeira vez.
- Volta pra mim?
- Ham?
- Eu disse pra você voltar.
- Pra que? Pra amanha me arrepender? Pra amanha você se arrepender? Pra esquecermos tudo o que dissemos diante da raiva de acreditar que tudo seria diferente,
e porque seria? Porque seria diferente se nada mudou? As pessoas mantêm a estúpida ilusão de que mudaram, de que o outro mudou, mas não mudou. Ainda somos os mesmos, e sempre seremos. Não vou ser uma daquelas pessoas que sentimos pena, que se iludem com uma mentira qualquer apenas porque é isso o que elas querem acreditar. Não se constrói uma verdade absoluta com mentiras maquiadas.
- É melhor irmos rápido. Estamos atrasados!
- Atrasados pra que?
-Pra ver o sol se por em Jaconé.




Lindas palavras… gostei do que li. Difícil eu “gastar” meu tempo em um blog como eu gasto no seu. E olha, Mary, que só passei por aqui pq te vi numa reportagem de blogueiras mais gatas da internet… pra vc ver… a gente tem que estar aberto todo dia às coisas que a vida nos mostra…
“- Não é a primeira vez, é?
- Dói como se fosse.”
Parabéns pelo seu talento… sinto pela sua “procura frustrada”, ao menos nos seus artigos, por um companheiro fixo e compromissado… às vezes esse é o sentido da vida… buscas… alegrias… tristezas… e sempre, sempre, nenhuma certeza.