Papando uma mosca varejeira

dez 06

Em 2005, eu era um rapaz que passava por profundas mudanças estéticas. Foi nessa época em que mudei de sexo e passei a me chamar Pedro. Antes era conhecida por Ângela e era profundamente insatisfeita por ter uma vagina. Mentira. Eu, que sempre fui homem (acredite), comecei 2005 com cabelo grande, que chegou a bater no ombro, uma autêntica autoafronta. Não sei o que estava querendo provar deixando o cabelo crescer (talvez os limites incopreensíveis do mau gosto… Ou estava provando só o gosto da solidão mesmo), só sei que tive uma bela (jeito de falar) estopa no meu cocuruto por muito tempo. Sempre quando acordava, era um suplício, tinha que tomar banhos complexos, passar cremes das mais duvidosas procedências (pré-banho, com enxague, sem enxague, com mais ou menos enxague, pós-banho…), era infernal.

E eu assumo que eu não cortava a juba porque tinha preguiça… São nesses momentos que a gente entende por que preguiça é um pecado capital.

Bem, resolvi cortar e tive um salto de qualidade. Saí do horrível para o normal. E normais, quando são gente boa, vez ou outra se dão bem, não é verdade? Pois é, foi o que aconteceu comigo. Ou melhor, o que ia acontecer comigo se eu não tivesse papado uma mosca varejeira real africana (Africanus varejerus).

Entrou, no meio desse ano de 2005, uma menina bonita de morrer no meu cursinho. Ela, cujo nome não seria prudente revelar, é loira (acho que é farmacêutico, mas isso não embaça sua beleza), tem um rosto fino, sorriso divertido e altura perfeita. Nosso primeiro papo foi meio estranho, porque foi ela quem puxou:

- Você toca algum instrumento?

- Toco você se quiser, minha tchutchuca…

Mentira, eu jamais daria uma resposta dessa sóbrio. Ela realmente havia perguntado se eu tocava alguma coisa. Isso porque ela afirmou ter visto uma palheta na minha carteira no exato momento em que eu a abria para tirar um tostão. Pensei “que freak essa menina, que visão de águia… Que rosto lindo, ai ai”.

Começamos a conversar sobre as coisas mais belas da vida (quando se começa a falar sobre as coisas mais belas da vida, a parada não pode dar certo) e estabelecemos ótimas conexões. Viramos bons colegas, mas eu nunca tinha tentado nada, porque imaginei que ela jamais fosse querer alguma coisa com um réles bunda como eu, que um diria escreveria em blog com coelhinhas da playboy estampadas – não dá para respeitar.

Foi quando rolou uma festinha da nossa amiga, e toda a rapaziada estava presente: Trombeta, Mescalina, Gravata, Geleia, Hamburger, Zé Buceta, Espirro, Antônio Costa Prachedes de Almeida, eu e ela… Bem, usei nomes fictícios para evitar o constrangimento público (embora só o Mescalina leia o blog de vez em quando. Bruno Miranda, você é o Mescalina, beleza? Tô contando aquela história ridícula da festa da Ana Paula).

A musicalidade rolava solta, os esqueletos balançavam, as pessoas tiravam fotos, e os birinaites batiam no estômago como pantufas em museus – um primor absoluto. Tudo estava muito divertido, e eu na minha, contando as piadas nos momentos certos, mas sem pretensões. Aí eu tirei uma foto com a minha amada e foi fofinho, porque dei-lhe um abraço mais intenso do que aquele que o figurino pedia. Ela deve ter notado que eu, mesmo sem mostrar muito, estava cheio de maldade. Mas aquela maldade bem tímida, pois não estava nos meus planos chegar nela.

Para espanto meu, ela também estava de maldade.

Depois de terminar a latinha de cerveja (eu estou sempre bebendo, que cachorro alcoólatra), levantei para pegar outra, mas minha amada faz um pedido.

- Balu, pega a minha máquina fotográfica?

Ou melhor, já que eu sou eu, e não preciso preservar meu nome:

- Pedro, pega a minha máquina fotográfica?

- Onde ela está?

- Na minha bolsa, lá no quarto (No quarto escuro, bem escuro e sensual).

Saio da sala, virando à esquerda, no corredor. Antes, dou uma olhadela no espelho, pois sabia que tiraria fotos com ela quando voltasse para a sala. Entro no quarto e a bolsa está lá, em cima da cabeceira, pronta para ser aberta por um estranho. Enquanto estou procurando a porra da máquina fotográfica, ouço passos atrás de mim. Era a minha amada na porta… Tudo escuro, só a luz de onde a festa estava rolando dizia que era ela.

- Pegou a máquina?

Eu, malandro que sou, com a máquina na mão, só que dentro da bolsa:

- Estou procurando.

Aí ela veio, sentou do meu lado e eu perguntei:

- Vamos tirar uma foto?

Ahá!

Nem preciso dizer o que aconteceu, né?

A gente tirou fotos… Literalmente.

No dia seguinte, o Mescalina pergunta para a minha amada:

- E você e o Pedro, hein!? Rola um clima, né?

- Ah, pô, dei o maior mole ontem pra ele e ele não aproveitou…

Poderia soar injusto, mas a menina, linda e divertida, praticamente me dá uma emboscada no quarto escuro – um avanço do poder feminino – e eu procedo cheio de infância na mente. É de doer o coração. Ela estava inteiramente coberta de razão.

Foi uma mosca que eu papei e que ficou engasgada na minha alma por muito tempo. De vez em quando tenho pesadelos em que uma máquina digital começa a me xingar e a me perseguir gritando “otááário!”. Menos Pedro, não exagera.

Obs.: A menina NUNCA mais me deu sequer um mole, embora continuasse legal. O divertido é que depois ela começou a namorar um Pedro. Maneiríssimo saber que, dependendo dos desmandos cósmicos, o Pedro poderia ter sido eu.

Obs 2.: Até hoje eu sou profundamente zoado pelo viado do Mescalina. Graças a Deus eu não sou o único a fazer merda na vida, então tenho moeda de troca.

Obs 3.: Se você tiver saco para ver como as coisas na vida se entrelaçam, dê uma olhada nos comentários do texto “Sorte no jogo, azar no resto”. Tem um comentário do Mescalina (Bruno) que não me deixa mentir.

Obs 4.: As fotos que eu e a minha amada tiramos até hoje estão no meu computador. Mas as pessoas jamais verão.

6 Comentários

  1. Bia - Jiraya /

    Ja conhecia essa historia! Acho que foi o “Mescalina” que me contou! hahahahhhahaha

  2. Me manda agoraaaaaaaaa! Se vc nao contar, eu revelo o nome da amada agora!

  3. Correção:
    Me manda agoraaaaaaaaa!
    Se vc nao mandar, eu revelo o nome da amada ¬¬

  4. como eu entendo você, cara…

  5. Pior que essa história foi a de uma amiga (juro que é de uma amiga), ela era louca por um carinha da escola, até que um uma festinha o tal carinha resolveu dar em cima dela e ai ela quis dar uma de difícil, achando que dessa forma o cara também ficaria louco por ela, acabou que o carinha ficou com uma outra menina que por sinal ela detestava e passou a detestar ainda mais.

  6. eeer… e a vontade de bater no pedro??? como faz??/ZOA
    HSUAHAUSAHUAHSUHAUUSA
    tipo, toodo mundo ja passou por uma situação parecida com essa, garanto…
    Quando eu tinha 12 anos, eu ia tirar meu “BV”, com uma menina mais velha que eu, e super desejada pela cidade toda, entre os adolescentes u.u
    Eu fiquei esperando ela em frente de uma casa no fim da rua, a frente da residencia (cujo numero muito sugestivo… 24 ¬¬) era toda escura…
    Quando a menina aparece lá, eu fiquei olhando pra cara dela, até as formigas nos atacarem, e a gente ter que sair correndo D; (feliz por poder falar isso a alguem)

Deixe seu comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>