Corra Mary

21 mar 2012

Pior erro do mundo em entrevista de emprego

Por que todas as fotos que representam o mercado de trabalho são tão retardadas?

Entrevista de emprego não é o lugar que concentra as pessoas mais sinceras da vizinhança. Minha avó Zinda não me disse isso, mas poderia ter dito: é um conselho valioso. O que acomete os candidatos não é uma desonestidade sanguinária, é mais uma questão de sobrevivência no mercado. O currículo de um candidato traduz a competência da pessoa da mesma forma que sua beleza pode ser traduzida numa foto do Facebook (postada por você, e não naquela em que você foi marcada pela amiga que tem inveja, que quer roubar seu namorado e destruir sua vida): é o que o próprio candidato/fotografado considera ideal.

Mas a indecência-mor que a competição – ou melhor, a necessidade – estimula na alma do candidato é aflorada quando o empregador lhe pergunta qual é o seu maior defeito.

Ser sincero nessas horas pode dar certo, mas também corre o risco de representar o fim da linha antes mesmo que a moça eletrônica do metrô agradeça pela preferência.  Se o seu maior defeito é uma queda patológica por animais, a ponto de você já ter feito amor com cães, é óbvio que você não vai falar isso, por mais que agora você só transe com os belíssimos huskys siberianos (também, quem resiste?). Uma mentirinha vai bem, você deve ter outros defeitos certamente mais aceitáveis. Se a vaga de emprego for para uma pet shop, então, qualquer mentira vale.

Só não vale falar que você é perfeccionista.

Ou que você é muito sincero. Até porque, se você for MUITO sincero, fatalmente vai, honestamente, confessar algum defeito nojento, ridículo, abjeto que você está tentando esconder:

- Meu maior defeito é ser muito sincero. Eu digo o que penso, é impossível controlar. Aliás, é um defeito tão grave que eu não consigo esconder que o meu segundo maior defeito é fazer sexo com cachorros. Mas eu posso fazer contigo também se isso me deixar em vantagem em relação a esses merdas que estão na sala de espera.

Mas “perfeccionista” não dá, é um clichê que algum demônio criou, alguma influência maligna disseminou e transformou em uma jogadinha tão barata que não dá pra não ser motivo de piada, empalação ou pelo menos uns tapas na cara.

Se eu fosse empregador, não contrataria alguém que trata perfeccionismo como defeito, por diversas razões:

- “Fazer as coisas perfeitamente” só pode ser um defeito se a pessoa for tão obcecada que chega a cometer crimes para atingir a perfeição nas tarefas. Uma pessoa dessas deve matar animais, ou pelo menos pessoas, para dar cabo dos seus objetivos. Eu sou empregador, mas não sou imortal; nem por um caralho embelezado e voador eu a contrataria. Se bem que se ela fosse mesmo assim, só de estar na entrevista de emprego já seria algo que representaria sério risco à minha existência. Acho que esse é o único lado bom de ser subordinado. Ah, e o salário baixo, pois não estimula a gana prejudicial pelas coisas materiais.

- Usar uma qualidade travestida de defeito é uma artimanha mongoloide, mas, muito, muito, muito pior do que mongoloide, é uma jogada batida. Eu jamais contrataria um candidato que, além de medroso (por não confessar um defeito decente), me joga no pau do nariz um clichê. Isso revela covardia e falta de imaginação, e quem quer um empregado com esses dois emblemas mostrados sem querer? Ou seja, a partir do momento em que o candidato diz que o defeito dele é ser perfeccionista, ele está dizendo, nas entrelinhas, que é covarde e simplório. Eu deveria trabalhar em Recursos Humanos, puta que me pariu!

- Se a pessoa for realmente perfeccionista, sem nenhum efeito colateral, e ela ainda considerar isso um defeito, fodeu. Sabe Deus o que ela vai ter como qualidade (provavelmente um toque divino para fazer o mundo parar quando quiser). Uma pessoa dessas roubaria meu emprego em dois meses – eu sou empregador, mas tenho família pra criar. Não contrataria nunca o pobre prodígio (mesmo sem me perguntar por que uma pessoa tão perfeita a esse ponto estaria desempregada).

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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12 mar 2012

A atual do ex

Independente de quem ou de como terminou o relacionamento, a atual de um ex é sempre um assunto delicado. Não importa quem seja, você não irá com a cara dela. E não tenha consciência pesada quanto a isso, pode ter certeza que ela também não irá com a sua.

É impossível não fazer comparações. Afinal, se aquele cara te chamava de linda, maravilhosa, inteligente e bla bla bla, é importante saber qual o critério do indivíduo, e aí então vem a dúvida mortal: É preferível que a atual seja melhor ou pior que você?

  • A atual é melhor que você

Autocritica é sempre importante. Eu, por exemplo, sei que não sou mais bonita que a Megan Fox, mas tenho certeza absoluta que sou mais bonita que a Regina Casé. Ok, entre Fox e Casé há um trem de possibilidades, mas já é uma base para a comparação. Sendo assim, na hora de se comparar com a atual do ex, não dá pra ficar de picuinha inventando defeito onde não tem só para se sentir por cima, e nem diminuindo a si mesma pela dor de cotovelo.

Certa vez, quando um ex começou um novo namoro fui correndo fuxicar a Fulana. Devo admitir, procurei defeito e para minha frustração a Fulana não tinha nenhum. Pois é, meu ex que não era nada perfeito, estava namorando uma menina aparentemente perfeita (sabe-se lá a macumba que ele fez). A menina era linda, boa filha, tirava boas notas, era boa funcionária, tinha senso de humor e até seu dedinho do pé era uma gracinha. Até eu estava me apaixonando por ela.

Ninguém passa em outra vida para ser apenas mais um, todo mundo quer ser especial, marcante e único. Chega a ser um pensamento egoísta, querer que mesmo após o término, a outra pessoa ainda te mantenha no mesmo pedestal, mas é difícil abrir mão dele. É difícil ceder o lugar para outra pessoa que acabou de entrar naquela vida. Então por mais que o relacionamento já esteja morto e enterrado, o seu ego não está. Fica sempre a vontade de ainda ser melhor, de imaginar que por mais que ela tente, ela nunca calçará seus sapatos. O chato é quando o “ela nunca será você”, para ela, seja um alívio.

  • A atual é pior que você

Se o critério daquele cara que sempre te elogiava é compatível com o a atual, o primeiro pensamento é sempre “então eu sou um cocô”. Mesmo conhecendo as variáveis (ele está desesperado, ele não encontrou alguém melhor, ele não consegue alguém melhor, ele quer te provocar, ela tem uma vagina mais apertada que metrô às 6 da tarde, bla bla bla), o primeiro pensamento é sempre esse.

A autoestima desce até o inferno, dá tchauzinho pro capeta e não sobe nunca mais. O ser humano deveria estar sempre evoluindo, procurando sempre o melhor, mas em questões do coração nem sempre é assim. O amor é cego, burro, surdo, esquizofrenico e completamente retardado. As escolhas ás vezes retrocedem de nível, o que deveria ser pra mais, cai pra menos. E não sejamos hipócritas, há sim pessoas melhores que as outras. Da mesma forma que sei que sou mais bonita que a Regina Casé, sei também que sou mais inteligente que a Carla Perez, mais boa pessoa que o Ted Bundy e mais sensual que a Dilma. E mesmo não fazendo idéia de quem esteja lendo esse texto agora, tenho certeza que você também é.

Ok, ninguém é uma característica isolada, mas num conjunto de característas (boas e ruins), se botá-las na balança, um lado sempre pesará mais que o outro.

Sinceramente, não sei se prefiro me sentir um saco de fezes ambulante porque a atual do meu ex é a mistura do Tiririca com o Zaccarias (depois de morto), ou se prefiro ver todos os meus defeitos estapearem a minha cara ao me deparar com uma atual que faria até o meu pai ter uma conversinha em particular com a cegonha.

Na verdade sei sim. Prefiro que o passado, e todas as pessoas que ficaram nele, não influenciem em absolutamente nada o meu presente. Mas, oh céus, é tão difícil!

Postado por Marina | Categorias: Contos, Marina
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07 mar 2012

A rolha

Recentemente descobri o Never Liked It Anyway, um site destinado a venda e compra de presentes e outros objetos dados e/ou esquecidos por ex-namorados(as)/noivos(as)/esposos(as)/whatever.

Passei um bom tempo vendo os objetos e lendo suas histórias. Entre vestidos de casamento, jóias e até motos, achei interessante uma das histórias que li de um cordão que a menina ganhou de aniversário. O ex comprou em cima da hora, porque tinha esquecido do aniversário. E detalhe: comprou com o dinheiro dela. Sensacional a cara de pau do cidadão.

Tenho um ex, que já pediu de volta um presente que me deu para dar para a nova namorada porque não tinha dinheiro pra comprar um novo. Inicialmente senti pena de mim mesma por ter namorado uma criatura daquelas, mas depois senti pena da atual, já que eu, pelo menos já havia me livrado daquele encosto, mas ela acabara de entrar na furada.

Tenho mania de me apegar a pequenos objetos. Não necessariamente presentes, mas objetos que me lembrem a pessoa. Objetos que eu mesma dou um significado maior do que realmente possuem, porque designo a eles o carinho que designei àquela pessoa.

Certa vez, saí com uma antiga paixão e tomamos um inesquecível porre de vinho. Eu sabia que era a última vez que nos veríamos, e exatamente por isso, fiz questão de guardar a rolha do vinho na bolsa. Eu era completamente apaixonada por aquele cara e já que sabia que não poderia tê-lo, por falta de vontade do mesmo, eu pelo menos tinha a rolha da última vez que nos vimos.

Era um objeto ridículo, inútil, mas como eu não podia jogar o cara dentro da bolsa e guardá-lo pra mim até quando eu quisesse, pelo menos eu podia fazer isso com a rolha. Aquele objeto me lembrava não só daquele dia, mas de todos que tive com ele e que nunca mais teria novamente. Guardar a rolha não simbolizava um dia específico, simbolizava toda uma relação já afundada e dolorosa mas que eu ainda me apegava e recusava a me desfazer, como ótimo exemplar de mulher masoquista que sou.

Por motivos óbvios de manter a imagem de pessoa sã e equilibrada, ele nunca soube que eu peguei a rolha. Esperei ele ir ao banheiro e então taquei a rolha dentro da bolsa. Ele não teve essa oportunidade de comprovar o quão louca eu sou, voltou pra mesa e lá estava eu: linda, com um sorriso no rosto, bêbada e aparentemente sã; mas creio que se tivesse visto, teria fugido de mim da mesma forma como eu mesma queria fugir naquele momento.

Recentemente achei essa rolha dentro de uma gaveta. Diferente das outras vezes em que acidentalmente a encontrei e a deixei no mesmo lugar, dessa vez foi diferente. Aquela força que me impedia de jogá-la fora não existia mais. Minha vontade era enfiar aquela merda cu a dentro do infeliz, mas apenas joguei no lixo mais próximo. Triste fim para a rolha, um bonito recomeço para mim.

Foi como dizer adeus à um cocô privada a baixo quando se tem 3 anos. Você não entende o porque tem que dar tchau para algo que fazia parte de você, apenas sabe que tem que fazer, porque se não fizer, vai feder.

Postado por Marina | Categorias: Contos, Marina
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27 fev 2012

Bullying carnavalesco

No carnaval, cada ônibus é um bloco intimista

 

Eu tento não falar muito mal do carnaval, primeiro porque ele é um preço que eu pago para não precisar trabalhar por uns dias (embora eu ache o preço muito caro) e porque não quero parecer um velho ranheta que espinafra a vida com os próprios joanetes. Só que às vezes o carnaval implora para ser esculhambado, mesmo que você faça o possível para evitá-lo. O carnaval é aquele playboy que quer briga contigo mesmo quando você engole o orgulho e o trata tranquilamente.

Se o gênio da lâmpada chegasse e me dissesse que, graças a algumas manifestações do sindicato de gênios encantados, ele só poderia realizar desejos esquisitos, eu teria um na ponta da língua: fazer com que a Prefeitura passasse todos os blocos da cidade para Pedra de Guaratiba. Todos. Nada contra a Pedra Guaratiba, mas seria muito a favor da nossa distância se ela me separasse de qualquer resquício de carnaval. Ah, o transporte seria grátis para os blocos, mas um a cada quatro ônibus explodiria aleatoriamente. Bem, eu precisava deixar o desejo esquisito, senão o sindicato não liberaria.

Só fico puto com carnaval quando ele encosta em mim, chuta a porta da minha vida com um coturno de aço e escrotiza a porra toda. Eu odeio ter que andar quilômetros porque é impossível pegar algum táxi ou ônibus; é ridículo ter que deixar os documentos em casa porque a qualquer momento você pode ser assaltado (que tipo de diversão coletiva é essa que te toma os pertences ao som de “Olha a cabeleira do Zezé”? Não é surreal?); é péssimo quando um bloco inteiro entra no seu ônibus fazendo com que você simplesmente não possa ficar em paz. Como ficaria em todas as outras semanas do ano.

E foi exatamente isso que me aconteceu no último domingo. Passei por uma osmose carnavalesca na marra, sofri bullying pelo motivo mais “é, esse é o nosso Brasil” que já vi na vida: estava lendo um livro enquanto eles gritavam, mas eles não se conformaram com isso. Ou seja, eu, que tinha por volta de 112 milhões de motivos para reclamar do barulho, causei estranheza neles justamente pelo meu silêncio.

Estava voltando de um lugar secreto, que nem no DOI-CODI revelaria qual era (a menos que houvesse um arame fervendo apontado para a minha uretra), no meu ônibus com ar condicionado, ouvindo rádio (sim, eu ouço rádio, e, sim, eu ouço uma rádio chamada “Rádio do verão”, o que me faz torcer cada dia mais para o outono começar só para saber o que eles vão fazer com o nome da estação).

Uma profusão de pessoas foi entupindo o ônibus aos poucos, e o carnaval começou lá mesmo. Absolutamente as mesmas músicas de sempre, as mesmas piadas de sempre, as mesmas roupas de sempre e as mesmas caras de sempre, o que me fez pensar um monte de coisas:

- É por isso que um canal de TV como o Viva faz sucesso. Nego adora uma reprise.

- Eles todos vão descer no Monobloco, eu desço antes, preciso sair discretamente.

- Bésameee, bésame muuucho, como si fuera esta noche lá última veeez. Que música poderosa… eu fico impressionado.

- Eu sou burro ou esse livro é realmente cheio de pegadinhas?

- Jesus, que pessoa feia, no dia que ela morrer, o cemitério vai fingir que é um gêiser só para cuspi-la pra fora.

- Ihhh, ferrou…

Esse pensamento veio quando uma mulher, incomodada com a minha paz, falou alto:

- IH, O RUSSINHO QUER LER, VAMO FAZER SILÊNCIO!

O ônibus todo fez “shhhhhhhhhhhhh”, o “shhh” mais doloroso da minha vida, um “shhh” que entrava em mim como um taco de beisebol pelo orifício mais revelador da minha anatomia, um “shhh” que me deu saudades da minha mãe (um sinal, que vem desde o jardim de infância, de que estava em apuros).

Tentei ejacular da minha alma intimidada o mínimo de espirituosidade, fingi agradecer aos céus por eles terem feito silêncio e falei “pô, galera, valeu, vou poder ler em paz”. Isso tudo esboçando um sorriso tão falso que perigava sair dele alguns dardos com ebola.

Aí começou a sabatina:

- Que livro você tá lendo? O que você está aprendendo com esse livro?

A chefe do grupo fingiu que estava com um microfone na mão e me perguntou o que eu estava achando do livro. Cometi o sacrilégio de esculachá-lo pelo bem da minha sobrevivência:

- Tá chato pra caralho, ainda bem que vocês vieram falar comigo.

Aí, moldando seu piru metafórico no formato de um cone, ela me arreganhou mais ainda:

- Ahhh, então para de ler e vem dançar! Eu quero tchuuu, eu quero tchaaa, eu quero…

Levantei agarrado, todo mundo cantando e eu com vontade de ser o árabe maluco e o prisioneiro americano ao mesmo tempo só para arrancar a minha própria cabeça com uma faca. Se a luta pela sobrevivência te obriga até a comer seres humanos no gelo, eu resolvi tomar a lata de cerveja de uma das comparsas, só para demonstrar que eu – mesmo com bronzeado uns 12 tons abaixo dos praieiros – fazia parte do grupo.

Mas como Deus sabe que sou ateu, a cerveja estava pelando e eu quase engasguei. Nesse momento, as mulheres más já estavam gostando de mim, mas os caras lá atrás não perdoaram:

- Ahhhh, galegooo, já tá bêbado, é? A mamãe não pode saber! Uhhh…

Aí a chefe das acossadoras repreendeu o cara dizendo que eu era “parceiro” e mais do que um rostinho bonito, um verdadeiro intelectual (ganhei pra night). Olhei pra ele e fiz cara de “tsssss, levou moraaal” e essa atitude infantojuvenil representou a culminância da minha malandragem na selva carnavalesca. Ele me encarou e pela primeira vez o clima de tensão de um faroeste do Clint Eastwood tomou conta da cena. Infelizmente o cara não está mais entre nós para confirmar essa história… Mentira, eu voltei para o meu lugar e esperei o meu ponto, o vilão do filme permaneceu existindo.

Os cinco minutos seguintes serviram para acreditar que eu havia sido esquecido, mas tive que descer do ônibus. Acho que o calor da despedida tornou tudo mais forte, todos gritando “ÊÊÊ, o galego vai descer!”, senti algumas mãos, mas não percebi se era carinho, maldade ou crime, e desci para desejar nunca mais estar perto da cidade durante o carnaval.

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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13 fev 2012

Piadas que eu não entendo

O controverso Ary Toledo é o padrinho não oficial deste post.

Há algumas piadas na nossa vidinha miserável que não têm explicação evidente de causa e efeito. Elas existem como se fossem heranças divinas, algo que entrou no nosso cérebro por vias osmóticas e que só têm razão de ser justamente porque até hoje ninguém perguntou qual é a razão da existência delas. Eu não sou ninguém. Eu perguntando não vai mudar em nada os paradigmas contemporâneos acerca das piadas sem pé nem cabeça. Mas se eu pensar na minha insignificância para combater as incoerências do mundo, vou acabar não fazendo nada para melhorá-lo, coitado (de mim, não do mundo).

Cheguei ao trabalho noutro dia, quando reparei que usava uma camisa muito semelhante à do meu colega de setor. Um terceiro companheiro, cujo ímpeto sacana sempre me aponta uma agulha da piada feroz, me perguntou se o cara da camisa parecida e eu havíamos dormido juntos. Porque, de acordo com a anedota, a ocasião que envolve duas pessoas com a mesma roupa significa que elas dormiram juntas e possivelmente transaram antes de dormir.

Não dá para entender essa piada. Eu nunca acordei com uma menina e saí de casa usando, sei lá, o mesmo vestido que o dela, ou o mesmo tomara que caia (talvez a mesma calcinha, mas seria impossível as pessoas verem). E mesmo que eu tivesse uma noite de amor louco homossexual com um varão devasso, dificilmente eu acordaria e falaria “hey, varão, que tal usarmos a mesma camisa, hein? A gente transou, pô!”.

Aliás, a probabilidade de duas pessoas terem a mesma camisa é remota. E a chance de que um deles leve a camisa igual bem no dia de fazer sexo é absolutamente improvável. Se o cara que está dormindo fora só tiver a camisa igual, é óbvio que o marmanjo que dormiu em casa vai escolher outra camisa no armário, porque é tosco sair por aí que nem um par de jarros (outra coisa meio sem explicação) (estou levando em consideração que essa piada só funcione para hipotéticos casais homossexuais). Ou seja, é mais provável que duas pessoas com camisas diferentes tenham dormido juntas do que duas pessoas com camisas iguais. Por isso, abre o olho, todo mundo deve estar transando loucamente às nossas costas.

Outra piada que as roupas revelam é a de que quando você está mais bem-vestido do que o normal significa que o seu exame de fezes está marcado. Você chega na beca, alguém pergunta “pô, tá bem-vestido. Vai fazer exame de fezes hoje?” Ou seja, cagar num pote, de acordo com a sabedoria popular, deve ser um ato solene, só pode.

Há uma profusão de incoerências nisso. Primeiro porque a “ação principal” de um exame de fezes é feita em casa, e não tenho registro de pessoas que se vistam com traje esporte fino para cagar no recanto do lar (nem em outro lugar qualquer).

Defecar já é uma ação que te descaracteriza como “ser evoluído”, afinal, não arranjamos um método muito mais requintado para fazê-lo do que os outros animais. Ok, os cachorros evacuam no jornal, nós, num vaso com água. Mas a única diferença entre nós e nossos bichos de estimação é que as nossas merdas boiam e nós não precisamos esfregar a bunda no chão para nos sentirmos limpos, tirando isso, todos os bichos cagam mais ou menos parecido. Diante de fato tão cru, que razão teria um traje fino para as fisiologias?

Uma variação dessa piada é a de que o traje esporte fino é um indicativo de que você vai fazer exame de próstata. Não entendo. Um cara, cujo dedo sabe Deus que largura tem, vai tentar sentir o inchaço da sua próstata pelo método mais primitivo e doloroso possível. Por que, Jesus, você colocaria uma roupa “bonita” para tomar uma dedada?

Não posso garantir que pessoas não usem roupas melhores para tomarem dedadas genéricas (ou dedadas de amor). Só que esse tipo de dedada é uma metonímia. Mas é impossível acreditar que pessoas o façam quando a dedada tem fins medicinais preventivos. Conto com os avanços da medicina – que está aprendendo a diminuir os sintomas de Alzheimer, controlou a Aids e erradicou a poliomelite – para que em 20 anos o exame de próstata seja menos invasivo. Mas se só me restar o dedo amigo do doutor, certamente irei, só que com a pior roupa possível.

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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