
Por que todas as fotos que representam o mercado de trabalho são tão retardadas?
Entrevista de emprego não é o lugar que concentra as pessoas mais sinceras da vizinhança. Minha avó Zinda não me disse isso, mas poderia ter dito: é um conselho valioso. O que acomete os candidatos não é uma desonestidade sanguinária, é mais uma questão de sobrevivência no mercado. O currículo de um candidato traduz a competência da pessoa da mesma forma que sua beleza pode ser traduzida numa foto do Facebook (postada por você, e não naquela em que você foi marcada pela amiga que tem inveja, que quer roubar seu namorado e destruir sua vida): é o que o próprio candidato/fotografado considera ideal.
Mas a indecência-mor que a competição – ou melhor, a necessidade – estimula na alma do candidato é aflorada quando o empregador lhe pergunta qual é o seu maior defeito.
Ser sincero nessas horas pode dar certo, mas também corre o risco de representar o fim da linha antes mesmo que a moça eletrônica do metrô agradeça pela preferência. Se o seu maior defeito é uma queda patológica por animais, a ponto de você já ter feito amor com cães, é óbvio que você não vai falar isso, por mais que agora você só transe com os belíssimos huskys siberianos (também, quem resiste?). Uma mentirinha vai bem, você deve ter outros defeitos certamente mais aceitáveis. Se a vaga de emprego for para uma pet shop, então, qualquer mentira vale.
Só não vale falar que você é perfeccionista.
Ou que você é muito sincero. Até porque, se você for MUITO sincero, fatalmente vai, honestamente, confessar algum defeito nojento, ridículo, abjeto que você está tentando esconder:
- Meu maior defeito é ser muito sincero. Eu digo o que penso, é impossível controlar. Aliás, é um defeito tão grave que eu não consigo esconder que o meu segundo maior defeito é fazer sexo com cachorros. Mas eu posso fazer contigo também se isso me deixar em vantagem em relação a esses merdas que estão na sala de espera.
Mas “perfeccionista” não dá, é um clichê que algum demônio criou, alguma influência maligna disseminou e transformou em uma jogadinha tão barata que não dá pra não ser motivo de piada, empalação ou pelo menos uns tapas na cara.
Se eu fosse empregador, não contrataria alguém que trata perfeccionismo como defeito, por diversas razões:
- “Fazer as coisas perfeitamente” só pode ser um defeito se a pessoa for tão obcecada que chega a cometer crimes para atingir a perfeição nas tarefas. Uma pessoa dessas deve matar animais, ou pelo menos pessoas, para dar cabo dos seus objetivos. Eu sou empregador, mas não sou imortal; nem por um caralho embelezado e voador eu a contrataria. Se bem que se ela fosse mesmo assim, só de estar na entrevista de emprego já seria algo que representaria sério risco à minha existência. Acho que esse é o único lado bom de ser subordinado. Ah, e o salário baixo, pois não estimula a gana prejudicial pelas coisas materiais.
- Usar uma qualidade travestida de defeito é uma artimanha mongoloide, mas, muito, muito, muito pior do que mongoloide, é uma jogada batida. Eu jamais contrataria um candidato que, além de medroso (por não confessar um defeito decente), me joga no pau do nariz um clichê. Isso revela covardia e falta de imaginação, e quem quer um empregado com esses dois emblemas mostrados sem querer? Ou seja, a partir do momento em que o candidato diz que o defeito dele é ser perfeccionista, ele está dizendo, nas entrelinhas, que é covarde e simplório. Eu deveria trabalhar em Recursos Humanos, puta que me pariu!
- Se a pessoa for realmente perfeccionista, sem nenhum efeito colateral, e ela ainda considerar isso um defeito, fodeu. Sabe Deus o que ela vai ter como qualidade (provavelmente um toque divino para fazer o mundo parar quando quiser). Uma pessoa dessas roubaria meu emprego em dois meses – eu sou empregador, mas tenho família pra criar. Não contrataria nunca o pobre prodígio (mesmo sem me perguntar por que uma pessoa tão perfeita a esse ponto estaria desempregada).





