Tirinha #5 – Querida menininha ruiva

set 01

Se não entendeu, clique aqui.

Autoria Marina e Pedro
Ilustração Daniel Cramer

Feminismo ao contrário

ago 31

Acredito que o movimento feminista realmente tenha vindo com as melhores intenções do mundo. Nada de privilégios, apenas igualdade. Mulheres massacradas há anos, sem direito a escolha alguma em suas próprias vidas. A teoria é muito bacana, mas na prática, sabemos que não funciona bem assim.

O que resultou de um movimento em busca da igualdade social foi justamente o contrário. Se a mulher antes era vista como incapaz e inferior, agora é vista como pobrezinha e coitada. Hospitais só para mulheres, delegacias só para mulheres, leis só para mulheres, dia só para mulheres e até o metrô tem vagão só para mulheres. E os homens, como ficam nisso tudo? Até na hora de se aposentarem, as mullheres se aposentam 5 anos antes dos homens.

Isso que é igualdade? Mulher que hipocritamente levanta a bandeira da igualdade deveria estar automáticamente alistada no exército. Igualdade entre homens e mulheres não existe e dificilmente existirá. O que não é desculpa para privilégio babaca nenhum.

Homens e mulheres não são iguais e isso é uma verdade (aceite-a). Mas são pessoas, são cidadãos, são seres humanos e socialmente, têm que ser vistos como tal.

O problema das feministas, em sua grande maioria é o de foco. A causa é válida, mas o foco está completamente errado. Acham que estarão comprometendo sua independência feminina se aceitarem que o homem pague a conta do jantar, mas não veêm problema em pagarem a metade do valor de um ingresso de uma festa em comparação aos homens, apenas pelo fato de serem mulheres.

Não há problema nenhum em ser uma mulher independente, forte e decidida e ter um cavalheiro ao seu lado. É a maior aceitação de que socialmente a luta por igualdade é bacana, mas no âmbito sentimental ela ainda é uma mulher e quer ser tratada como tal.

Não me interessa quantos sutiãs a sua vó queimou em praça pública, socialmente não quero privilégios, sou (ou deveria ser) tão cidadã quanto qualquer homem, mas nas minhas relações amorosas eu ainda sou a mulher, eu ainda quero receber flores no meu aniversário, eu ainda quero que ele me empreste seu casaco quando estiver frio, eu ainda quero que ele abra a porta do carro, eu ainda quero que ele ande na calçada no lado dos carros, eu ainda quero que ele me busque em casa, eu ainda quero que ele pague a conta, eu ainda quero que ele seja o cavalheiro que ele deve ser, mas quando estiver ao meu lado.

Criancinha demoníaca

ago 29

Fui uma criança moldada minuciosamente para me tornar um lorde. Meu sobrenome, por exemplo, é Staite da Hora Rafael Rangel Hervet Pontes Orleans e Bragança (Júnior). Quando eu ia ao mercado com minha mãe, sempre ficava muito preocupado com que os meus pedidos de guloseimas se encaixassem no orçamento familiar. Meu senso de responsabilidade me impedia de provocar um rombo no orçamento com minhas jujubas ou Cheetos Bolinha supérfluos. Sempre perguntava “SE SOBRAR DINHEIRO, compra um Cheetos pra mim?”. Escrevendo essa frase, eu quase me emociono ao pensar em como eu era uma criança bacana. Minha mãe apertava meu braço e me mandava ficar quieto. Não que ela fosse uma monstra, mas é que ela não queria mostrar que estava fazendo contas na hora de fazer as compras. Então um “SE SOBRAR DINHEIRO” era uma afronta ao convívio até então sadio entre a pseudo-dondoca da minha mãe e as dondocas com pedigree da vizinhança.

Estava no ônibus noutro dia e vi uma criança totalmente inversa ao que eu fui. Ela sentou, pôs a agulha no disco e começou a falar desenfreadamente e alto pra cacete. Tudo bem, acontece. Aí ela gritou para a mãe, que foi pagar a passagem: “senta aquiiii, mããe, mãããe, senta aquiiii”. A mãe sentou do meu lado, entre mim e ela, e começou a perguntar sobre o dia da menina. Sobre como foi o dia na escola, se ela assassinou algum amiguinho e ocultou o cadáver, se ela prevaricou e se ela desenhou muito na aula. Papo vai, papo vem, ela deu uma ordem à mãe:

- Mããe, pega a agenda!

- Oi?

- Pega a ageeenda!

E eu pensando “Ensina um ‘por favor’ a essa criança, mãe cretina”. A mãe deu a agenda à menina e ela obviamente não agradeceu. Em outro momento, o bebê diabo crescido puxou a faixa da lancheira e acabou arrebentando. Ela ficou chorosa e deu uma segunda ordem à escrava que a pariu:

 

- Mããe, consertaaa!

- Calma, filha, mamãe conserta em casa.

- Conserta agoraaaa!

Aí quando a mãe pegou a lancheira, abriu para ver se a filha não tinha perdido algo. Mas houve o contrário: tinha uma toalhinha a mais lá dentro. A mãe disse:

- Filha, essa toalhinha não é sua…

- É simmm, mamãe!

Além de mal-educada, a garota era uma trombadinha também, fiquei horrorizado. A garotinha tentou uma medida desesperada:

- Mamãe, fala assim: “essa toalha é sua”, fala, mamãe!

- Mas essa toalha não é sua, de quem é?

- É minha sim, mamãeee!

E quando pensei que ela já estava pronta para o Congresso Nacional, ela mandou a melhor de todas:

- Você tem que me obedecer, mamãe!

- Você que tem que me obedecer!

- Nããão!

Desci um ponto antes, pois estava quase procurando algum objeto perfurante da mochila. Fui pensando em como as pessoas cagam no pau quando se trata de educação em casa. Alguns pais conseguem transformar os filhos em monstros antes que a vida se encarregue disso. Nessas horas sinto profundo amor por Giulia, Manu, Mariana, Jéssica e companhia (nomes das camisinhas que ficam na minha gaveta).

Eu Meredith

ago 25

“Na vida, apenas uma coisa é certa, além da morte e dos impostos: Não importa o quanto você tente, não importa se são boas suas intenções, você cometerá erros. Você irá machucar pessoas. E se machucar. E se algum dia você quiser se recuperar, há apenas uma coisa que pode ser feita: esquecer e perdoar. É isso que dizem por aí. É um bom conselho, mas não muito prático. Quando alguém nos machuca, queremos machucá-los de volta. Quando alguém erra conosco, queremos estar certos. Sem perdão, antigos placares nunca empatam, velhas feridas nunca fecham. E o máximo que podemos esperar é que um dia tenhamos a sorte de esquecer.” (Grey’s Anatomy – 4ª temporada/Episódio 4)

Adoro seriados de uma forma geral, comédia, drama, suspense, me permito assistir de tudo, e cada um me toca de uma forma particular, mas se há um seriado que consegue mexer com todos os meus sentimentos, emoções e lembranças, esse seriado é Grey’s Anatomy.

Grey’s Anatomy não é um seriado de vilões ou de mocinhos, é um seriado de pessoas de verdade, com vidas de verdade, dúvidas de verdade, sentimentos de verdade, erros e acertos de verdade. E é quase impossível não se identificar com aqueles personagens que mais parecem um plágio da sua própria vida.

A personagem que posso chamar de minha é Meredith Grey. Imperfeita, defeituosa, impulsiva e que se embola nos seus próprios conflitos, mas que mantém sempre viva a vontade de tentar. Ao mesmo tempo que se dedica a salvar vidas alheias, no hospital Seatle Grace, precisa se preocupar em salvar a sua própria. É delicioso assistir Meredith, é delicioso ser Meredith.

Meredith sou eu. Meredith é você, sua vizinha, sua mãe, sua namorada, sua irmã. Meredith é a mulher que chora e ri ao mesmo tempo. Meredith é a filha que esconde a dor da loucura da mãe e o abandono pelo pai alcoolatra. Meredith é a mulher que se apaixona pelo casado e precisa conviver com isso sendo diariamente esfregado em sua cara. Meredith é a mulher que se afoga e deixa afogar, é a mulher que desiste da vida nos últimos segundos antes de ser salva pelo seu próprio assassino. Meredith é a mulher que demora 7 temporadas para ficar com seu McDreamy. Meredith é a mulher que enfrenta a doença incurável de seu McDreamy. Meredith é quem chora no chão da sala com a melhor amiga. Meredith é aquela que encara a dor de um sacrifício, a alegria de um recomeço, e as dificuldades de uma tentativa. Meredith é tentar colar o coração partido com doses de tequila, e numa cama desconhecida descobrir que isso não funciona.

E como julgar uma pessoa dessas? Como julgar alguém que apenas tenta fazer seu caminho? Talvez da maneira mais errada, mais torta e mais difícil, mas a única maneira que a vida ensinou. Como acusar alguém pela dor causada a outro coração se sua própria dor ainda se mantém latente? Como não se apaixonar por Meredith e com ela querer comemorar as conquistas e chorar quando as derrotas batem a porta?

Não é difícil incorporar Grey ao seu próprio nome, a identificação é imediata. O difícil é ser Grey. É a vida de verdade. É a vida que acontece e não espera por ninguém. Mas quem disse que seria fácil?

Grey’s Anatomy não é um seriado sobre médicos ou sobre desilusões. Não é sobre amizades ou família. Grey’s Anatomy é um seriado sobre a vida e tudo que a cerca.

Meredith é um acerto dos roteiristas, um desafio a Ellen Pompeo e um presente a todos nós, telespectadores de nossas próprias vidas.

Grey’s Anatomy passa no canal Sony, toda segunda às 22:00 horas.

Ida ao clube

ago 23

Tentei procurar "clube das mulheres" no Google, mas eu seria demitido do trabalho se continuasse pesquisando

Enquanto namoradas educadas e pudicas de todo o Brasil vão ao clube de hipismo para pular as varas com o cavalo (hum), ou ao clube naval jogar squash com o tio que se recuperou do alcoolismo, ou ao clube da terceira idade para levar a avó no pesque-pague, minha namorada vai a um clube de natureza diferente. O das mulheres. Sim, sua experiência com o mundo masculino – que há um ano se restringe a mim – deve ter gerado lacunas sérias em suas necessidades. Nada mais justificável quando a referência masculina de alguém sou eu.

No começo fiquei um pouco desconcertado quando ela foi pra lá com uma amiga demoníaca (a amiga é um amor, mas seria mais ainda se em vez de clube das mulheres, tivesse sugerido um piquenique no bosque da virgindade). Mas depois reparei que seria mais “perigoso” para a nossa saúde conjugal se ela fosse, por exemplo, a um encontro de jovens com Cristo ou a um bingo clandestino com velhinhos viciados em jogo. No clube das mulheres, a chance de adultério se aproxima do zero, porque é o lugar menos excitante do mundo. Se você, mulher, fica excitada vendo homens gigantes, besuntados de óleo, dançando sensualmente e perigando de te mostrar o pênis, então há algum problema sério contigo.

Até raciocinar sob essa ótica, eu tinha ficado com perturbações. Ela me disse que havia um cara vestido de médico que tinha o maior piru da história das genitálias dançarinas. Isso porque ele estava de cueca. Aí penso em mim e reparo que a única igualdade no mundo é que em tudo, não importa o quê, há desigualdade. Uma “sortuda” tinha o privilégio de ver de perto a anatomia do cara. Ela subia no palco e ficava de frente para a plateia. O médico ficava de costas para as mulheres e abria o jaleco, sem cueca, para a moça. Ela fazia cara de espanto. É exatamente essa sensação que as cobras sempre proporcionaram. Antes que você também fique aflito, a minha namorada não foi a “sortuda” (ah, tá bem, Pedro, e os porcos tocam piano em saraus à fantasia no Clube Militar).

E esse cara, que guarda um telescópio na cueca, é taxista em horário comercial. Minha namorada o reconheceu por causa do cavanhaque (que alívio, ela não reparou só na Anaconda). Ela ficou em pânico, imaginando que bastava pegar o táxi para que a inocência sumisse de seus genes até a quinta geração. Antes que você fique aflito de novo, ela não pegou o táxi, nem perdeu a inocência (aham, Pedro, e as galinhas leem Voltaire, mas fingem que são incultas).  

Quando ela me contou sobre a ida àquele lugar profano, eu, malandramente, tentei dar a réplica, dar o touché que acabaria com ela:

- Ah, beleza, amor, então estou liberado para ir ao puteiro, afinal, não vou para fazer sexo, só para ver uns peitinhos e beber uma cerveja.

Aí ela, sem ironia, sem charme, sem um “vou te fuder no futuro se você fizer isso”, disse:

- Tudo bem, amor!

E essa era a última resposta que ela deveria ter dado. Estava torcendo para ela não gostar da ideia, porque eu morro de medo de prostitutas, não teria como dar o troco. A graça era só ameaçar dar o troco.

Ela programou uma ida ao clube de novo, dessa vez ela é quem vai fazer o papel de amiga maligna de levar as ovelhinhas para o templo do demônio. Espero que as inocências permaneçam intactas.

Horário f*#@$! comercial

ago 18

Sabe porque a Gisele Bündchen é tão linda? Além de genética que ajuda e dinheiro que ajuda mais ainda, ela não precisa acordar cedo.
Não existe como alguém manter a beleza se tem que diariamente levantar cedo do quentinho confortável de sua cama para a vida que é sempre tão fria. Não importa como a sua cama seja, ela é sempre a melhor e a mais quente só pelo fato de ser sua.

Assim como a beleza matinal é impossível, o bom humor também é. Ter alguém divindo o mesmo espaço que você, poucos minutos após o seu despertar matutino involuntário, e puxando uma empolgante e animada conversa é quase uma técnica moderna do controle da raiva. Você respira fundo e a cada massacrante segundo que aquela pessoa não hesita em falar sobre qualquer coisa que você não tem o menor interesse em saber, ainda mais àquela hora da manhã, você torce para que algo a faça se calar o mais rápido possível.

Se é uma verdade universal que ninguém funciona pela manhã (prova disso é a maior comunidade do Orkut ser a “Eu odeio acordar cedo”), porque as pessoas ainda insistem em manter o “horário comercial”? Aliás, quem foi a pessoa sádica (e masoquista ao mesmo tempo) que inventou o horário comercial? Existe algo que tenha a necessidade de ser feito às 7 da manhã, que não possa ser feito às 2 da tarde? E se existe, já passou da hora de criar um robô que o faça.

Não tenho dúvidas de que assim como os trabalhadores produziriam mais, as crianças aprenderiam mais também e muito melhor num horário humanamente aceitável. É tão óbvio que é impossível não pensar que acordar cedo represente um atraso na sociedade.

Quando eu tinha lá pelos meus 12, 13 anos, Seu Jorge (meu pai, não o cantor) teve a brilhante ideia de me acordar cedo aos finais de semana com a desculpa de que era para que eu, mesmo não querendo, aproveitasse o dia. Eu acordava chorando.
Demorei algumas semanas ainda para conseguir fazer com que ele entendesse que para mim, aproveitar o dia, significava dormir até a hora que eu quisesse.
Depois de um tempo ele finalmente entendeu. Ou desistiu.

Por muito tempo acreditei que a melhor dormida era aquela a tarde logo após o almoço, mas estava redondamente enganada. A melhor dormida mesmo é aquela quando não se tem a menor obrigação em acordar. A falta de obrigação é tanta que até se você de fato acordar cedo, não vai achar martírio nenhum, afinal, você não tinha essa obrigacão.

Um preconceito meu

ago 16

Não importa a religião, a estatura, a cor, a classe social ou a propensão a desenvolver pelos: tenho preconceito com regos masculinos (e femininos, a partir do momento em que a fenda ofenda o bom senso. A foto ilustra bem). E de todos os cofrinhos que eu vi na vida, não há exemplar que eu despreze mais do que o meu próprio. E eu nem cheguei a desenvolver capacidade masoquista de conseguir vê-lo com facilidade.

Não vou falar da minha anatomia na internet, afinal, devemos sempre ter cuidado com o que postamos no mundo virtual. Não vou cometer a indecência de falar que eu acidentalmente sentei nu numa ovelha e quando levantei, reparei que ela ficou acoplada na minha bunda – pra sempre. Seria um erro estratégico divulgar nessa terra de ninguém que o fator que determina meu ódio por cofrinhos venha da tristeza que eu mesmo posso proporcionar se usar uma camisa curta.

Algumas vezes, eu, uma velha reumática num corpo de sereio, chego em casa com uma dor absurda na lombar.  Nesses momentos, recorro às massagens milagrosas de dona Dulce, a poderosa xamã que eu chamo de mãe, e que tem habilidades manuais tão finas que me dá até medo de divulgá-las num lugar com tanto punheteiro (não o Corramary, aqui todos escutam música clássica e jogam freesbe com o maltês de estimação, me refiro à internet em si).

Ela sabe provar que é mãe quando me pede para abaixar um pouco o short na hora da massagem, (afinal, só o cu é mais perto do rego do que a lombar). Abaixo com todo o desgosto de uma viúva de guerra, e ela não faz uma piadinha sequer. Uma menção de nojo. Uma intenção de parar. Nada. Se eu tenho vergonha de mostrar o rego para a própria mãe, aquela mesma que me resgataria cagado me afogando numa piscina de vômito, então quer dizer que o caso é sério. Deixar o rego à mostra, pra mim, é que nem fazer 69 para gente cheia de merda: só rola se já houver amor.

Num dia desventuroso desses, estávamos eu e dois amigos que, na escola da vida, estão quase passando no vestibular para vadios com cirrose. Compramos duas garrafas de rum e filmamos o vídeo Three guys and two bottles. Mentira, simplesmente bebemos esse rum com Mate Leão e um limão esperto, mas no final da segunda garrafa, eu já estava desfalecido na cama vendo uma luz branca. Tirando a minha garrafinha d’água, que por um motivo aleatório é da juventude cristã, esse caso é a minha última conexão com a religiosidade.

Mentiras à parte, acordei no meio do alcoolismo ao perceber que meus amigos (ouviram, né? Amigos) estavam passando gelo na minha bunda (amigos?) Logo pensei uma sequência de coisas:

1º Puta merda, viram meu rego!

2º Será que eles pretendiam enfiar isso em mim?

3º Poderia ser pior. É bom saber que gelo derrete.

4º Minha mãe me disse para não aceitar bebida dos outros, porque pode ter pó de unha; sempre usar o jaleco pra não ter boneco (use camisinha) e escolher bem as minhas amizades. Deveria ter dado mais ouvido a ela.

Acho que preciso fazer terapia.