Corra Mary

26 jul 2012

Lingerie Day X Feminismo moderno

Minha participação no Lingerie Day do ano passado.

Todo ano acontece o Lingerie Day no Twitter (o dia em que as meninas – e meninos também – trocam seus avatares por fotos vestindo lingerie), uma brincadeira que começou inocente e sem muita pretensão por parte de seus criadores, mas que a cada edição aumenta a popularidade sempre garantido uma nova edição no ano seguinte. É divertido, é bonito, e acima de tudo é uma brincadeira. Nada mais do que isso.

Todo ano também nos deparamos com as militantes feministas que são tão contra o Lingerie Day que chega a dar a impressão que as bundas expostas são as delas.

Não é novidade para ninguém que lê o Corra Mary, que possuo um enorme desgosto pelo movimento feminista moderno. As feministas modernas adoram abrir a boca para pedir direitos iguais, mas nunca vi uma se quer, reclamando que quando fez 18 anos não teve que se alistar no serviço militar, ou na porta da balada discutindo com a caixa por não querer pagar meia entrada, e sim o valor inteiro como os homens normalmente pagam. Os direitos iguais feministas vão até onde convém, porque a verdadeira essência do feminismo, a bonita luta pelos seus direitos legais, foi esquecida lá nos anos 60.

“Ah, mas o Lingerie Day trata as mulheres como pedaços de carne.”
Minha cara, todos nós somos um amontoado de pedaços de carne. Uns bonitos, outros feios, uns inteligentes, outros nem tanto, uns que valem a pena, e outros que não valem nem a lingerie que vestem, a questão é que com roupa ou sem roupa você continuará sendo exatamente aquilo que você é. Se você é vulgar, continuará sendo vulgar no inverno da Sibéria vestindo sete casacos, e se você não é, continuará não sendo mesmo que seja a capa da Playboy desse mês. Não há roupa nesse mundo que esconda atitudes. E são elas que dizem sobre você, e não as suas roupas ou a falta delas.

“Há outras coisas mais importantes do que tirar a roupa na internet.”
Sim, há, mas um não anula o outro. Se nos focarmos unicamente nas causas importantes da vida, não existirá mais a diversão pela diversão. Não haverá mais os momentos das gargalhadas descompromissadas. E quem consegue viver a vida sem curti-la?
Para aderir à uma brincadeira virtual, não é necessário abdicar de suas causas sociais. Um convive pacificamente com o outro.

“O Lingerie Day só serve para um bando de macho se masturbar com novas fotos no HD.
Querida leitora, saiba que nesse exato segundo em que você lê esse texto, há pelo menos um cara se masturbando enquanto pensa em você. Com ou sem Lingerie Day. E, ei, leve isso como um elogio. Qual o problema em ser desejada? Você não gosta? Então nem saia de casa, por que acredite, toda vez em que você bota seus lindos pezinhos para fora de casa, uma penca de homem no metrô, na faculdade, no escritório, na banca de jornal e até na igreja, imaginam como é seu belo corpinho de quatro numa cama redonda. Você é constantemente desejada, e não há absolutamente nada de errado nisso. Até por que você também deseja outras pessoas. Ou vai me dizer que você se masturba pensando em coelhinhos?

“Homem não leva a sério mulher que participa do Lingerie Day.”
O primeiro pensamento de um homem de verdade ao te ver numa bela lingerie é o quão linda você fica nela. O segundo, é o quão linda você realmente fica nela. O terceiro, e todos os outros, não são algo diferente disso. É preciso separar o joio do trigo, não confunda homem com moleque, isso soa como uma enorme ofensa. Você realmente se importa com a opinião infantil e insegura de meros garotinhos bobos sobre você? Um homem sabe valorizar a beleza da mulher que escolheu pra si. Um garoto, acha que é proprietário dessa mulher. Um cara não é dono de você só porque te come oficialmente com status no Facebook. Você é sua e ele que aprenda a lidar com isso.

Da mesma forma que apenas o fato isolado de participar do Lingerie Day não diz nada sobre você, seu caráter e sua índole, não participar também não. Mas então que seja pelo motivo certo. Um sincero e bonito “não to afim” é sem dúvidas o melhor motivo e a melhor explicacão.

Ser dona do seu próprio corpo é ter a liberdade para fazer com ele o que você bem entender. Seja abortar, tatuar, modificar ou se sentir sensual. Ele é seu e de mais ninguém, então não saia por aí repetindo um discurso velho e batido só porque martelaram isso por anos na sua cabeça. A cabeça também é sua, então tenha você suas próprias ideias.

Postado por Marina | Categorias: Marina
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12 jul 2012

A vovó e o tv/vídeo

O que a gente vai não vai saber usar daqui a cinquenta anos?

Vovós, elas merecem 18 abraços por dia, um para cada momento em que lhes invadir a sensação de que o tempo está acabando. Acho que a artimanha evolutiva de não nos importarmos com a morte deveria ser desenvolvida justamente depois que a terceira idade bate o cartão no ponto da duração humana. Afinal, a ninguém deveria ser incutida a chance de viver uma prova da morte antes de morrer. É muito triste não ser pego de surpresa nessas horas cruciais.

Hoje, minha avó, o ser que mais bem representa a mistura entre a casmurrice e a ternura na Terra, continua viva, como parece continuar pelos próximos anos (e, se depender de mim, até que eu ache em alguma birosca a poção da imortalidade), e muito curioso ver o que dá medo nela ou enumerar as artes que ela nem de longe domina.

Ela está com um problema na perna, uma hora uma das duas pediria arrego por sustentar uma pessoa durante noventa anos – infelizmente é natural. Foi se arrumar para ir à fisioterapia, mas parecia com medo do que encontraria por lá: talvez a desconfiança de que algum charlatão lhe passasse as mãos ou obrigação de ter que fazer quarenta flexões de braço com o fisioterapeuta sentado nas suas costas. Medo de vó, assim como o receio que a avó da minha namorada tem de escadas rolantes. Deve ser muito estranho idosos, que são predispostos a ignorar avanços tecnológicos, tendo que se adaptar a uma escada que só te oferece a graça de movimento na entrada e na saída.

É claro que escada rolante, que já não é novidade, cobra um mínimo de coordenação motora, e para um corpo que vai perdendo a precisão com o ceifar dos anos, o mínimo é o máximo. E trabalhar com o máximo é sempre perigoso. Mas além disso, imagino que a relação de velhinhos com a tecnologia deve ser análoga à de alunos ruins com o conteúdo de uma matéria qualquer na escola. O acúmulo de informações novas ao longo de certo tempo deve tornar impossível o aprendizado lá na frente se você não aprendeu o começo da matéria. Se tecnologia fosse uma disciplina, os mais velhos seriam repetentes.

A primeira televisão da nossa casa, a que me serviu Vamp, TV Colosso, Pingu e um plug para conectar o Atari, não tinha controle remoto. Quando a gente teve a primeira televisão com controle, minha avó já devia ter seus setenta e blaus. Ela nunca esboçou muita curiosidade por aprender a usá-lo, e qualquer vislumbre de interesse se esvaía quando ela errava o canal e apertava o tv/vídeo sem querer. Trocar o canal e pôr no tv/vídeo é entrar num limbo se você não sabe por que aquilo existe. Minha avó já passou tardes inteiras em frente à tela azul do tv/vídeo espraguejando o Sistema Solar e esperando desolada alguém chegar para sintonizar algum programa a que se assistisse.

Para dar um crédito à dona Zinda, vale ressaltar que celular já não é mais um mistério completo para ela, a menos que haja necessidade de colocar créditos. É inconcebível que exista uma confiança entre o cliente, que digita o número do crédito no cartão da banca, e a matrix da operadora de telefone. E se eu estiver mentindo para a operadora e digitar secretamente o código de cinquenta reais em vez do de 15? E se a operadora fingir que eu digitei errado e não computar meu saldo? Minha avó deve pensar nisso, com o aditivo de que aquele código de 15, 16 números é uma transcrição impossível para quem não tem mais uma visão acurada.

E aí fico pensando: o que será que não vou dominar daqui a cinquenta anos? Eu, que em algum momento da biografia achei que nunca aprenderia a usar o Facebook, sou um péssimo aluno em potencial na aula de tecnologia. Mas tirando as questões virtuais, que aparatos a vida lá fora terá que vão me dar medo ou a sensação da mais cristalina ignorância? Sei que isso vai acontecer, porque serei um idoso convencional, e não uma dessas exceções bem-vindas para formalizar a regra.

Sinto que vou boiar porque não sou visionário. Não consigo imaginar, como toda pessoa que tem um pouco de Júlio Verne, qualquer coisa nova que pode revolucionar o futuro. Minha visão do futuro é infantil, tanto que estou tentando imaginar qualquer inovação tecnológica que não seja uma mochila propulsora para cada cidadão (isso criaria uma nova estatística de acidentes na sociedade, as quedas de mochila. “O que houve com fulano?”, “Caiu de mochila”).

Acho que sou muito novo para estacionar no tempo e usar para sempre todas as ferramentas que uso agora, mas às vezes é inevitável a sensação de que a busca pela praticidade torna algumas coisas muito pouco práticas. Mas só quero acreditar nisso depois do setenta anos, se eu chegar até lá (bem, se o Bukowski chegou a 73, eu chego a uns 120).

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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09 jul 2012

Os pombos, as velhas e as putas

Há um mistério em Copacabana. O moço do bar não ligou a luz neon, Deus não jogou sua fumaça de festa sobre a área, não se ouviu uma nota sequer de piano, não há sobretudos, mulheres sedutoras, drinks e muito menos algum detetive best-seller, mas há um mistério em Copacabana. E esse mistério só faz vulto devido ao que andaram fazendo com os pombos da vizinhança.

Três cabeças em três dias. Elemento mais baixo do estrato social animalesco, o pombo é, nas palavras de vovó, uma “barata com ossos”, nas de tia Morgana, um “rato sem malandragem”. Eu detesto as duas, mas não pelos pombos. Tia Morgana e vovó são meio esotéricas, daquelas que creem demais em banhos medicinais, e creditam à mistura de ervas o segredo para a total ausência de doenças. As moléstias existem, óbvio, velho sem doença é mentira ou milagre (ou mentira), mas como as duas possuem alopatofobia, nenhum médico jamais teve a oportunidade de pescar no lago de seus interiores bichados as trevas que matam os outros. Descobrir a doença é metade da morte. Vovó e tia Morgana levam tal assertiva às últimas instâncias da pouca vida que as piranhas do lago ainda não comeram.

Mas, embora não sejam dignas de registros muito brilhantes, o que elas pensam sobre a trinca rato/pombo/barata faz sentido em qualquer instância. A parte medonha da coisa é notar que as duas velhas se regozijam com bichos decapitados, o que me obriga a pensar que quem se alegra com algo tão nanometricamente desgraçado não pode ter tendência à felicidade. É a falta de novidades na vida em níveis exorbitantes de despropósito. O único Deus crível, o das interjeições, merece uma conjuração. Deus me livre essas duas.

O serial killer de pombos continuou a obra nos dias seguintes. Retalhou um infelizinho, retirou e depenou as asas e jogou o resto do corpo fora. Ver o esqueleto de uma asa de pombo no chão te desaprende a perceber que aquilo já fez algo voar. Fez, mas não o suficiente para que o dono evitasse ser pego. O pombo mais assustador que expirou o prazo foi um que permaneceu inteiro, pois os carros (e os assassinos) já nos mostraram algumas vezes que pombos só morrem quando se estraçalham. Não há nada mais assustador no campo semântico desses bichos do que um pombo morto que finge que dorme.

Mas possivelmente a felicidade das velhas com os defuntos de Copacabana se dê por outra razão. Os chifres que adornam as cabeças decrépitas de vovó, tia Morgana e outras velhas aleatórias do perímetro estão sendo vingados.

Reza o folclore das cercanias que as prostitutas adotaram os pombos da região. Isso contraria as regras existenciais de que a explosão demográfica dos pombos tenha se dado graças às facilidades alimentícias proporcionadas pelas velhinhas com pão francês na mão. Em dias de rei, bolinhos com recheio cremoso. As idosas têm o crédito histórico de terem tornado essas aves um pouco mais educadas e menos medrosas. Hoje em dia elas não voam mais quando um pedestre passa. Elas dão licença.

Mas, pelo que eu saiba, são as prostitutas (algumas até velhinhas, mas conhecidas menos por serem velhas do que por serem prostituas) que têm esse papel na área dos recentes pombos mortos. Sempre depois dos michês, elas descem, ainda com as reminiscências do amor comprado em si mesmas, e ficam batendo papo com os pombos, jogando-lhes uns agrados, que, na selva urbana da concorrência por alimento, servem como um contrato de amizade eterna. Se os pombos tivessem consciência daquilo que as putas exauridas falam, teríamos vários livros interessantes sobre a intimidade do meretrício. As moças escolhem direitinho os interlocutores dos seus segredos de trabalho.

Muitos dos clientes dessas prostitutas são generais matusalêmicos, jogadores trêmulos de dama, aposentados de radinho de pilha, maridos das velhinhas em geral. Vovó se escalpelou de ódio quando soube que vovô usou a gravata especial justamente para ir ao prostíbulo. É porque vovô mantém o hábito de tomar o remédio para ereção antes de sair de casa para causar o falso efeito de que a prostituta lhe causou uma ereção natural. A moça finge que acredita, vovô se orgulha, e a canseira se inicia na base do teatro. Vovó, desconfiada como uma agente da KGB, não engoliu a gravata especial para “ver os amigos do dominó” e vasculhou o lixo familiar. Achou a embalagem do remédio, um cartão, ligou os pontos e esperou o velho chegar com cheiro de eucalipto.

A traição na 3ª idade é uma concessão em nome da companhia. É um pecado aliviado pelo “melhor que nada” dos casamentos que se resumem à dependência.  Pensando nisso, vovó adestrou os corcéis do coração e preparou o café da manhã como se na noite anterior seu marido não tivesse enfiado o pau numa moça parida três gerações depois da dele. Preparou o suco de laranja com o compromisso de obliterar a cena de um velho se tremendo todo em cima de uma mulher sem rugas. Isso doía, mas era um grilhão suportável perto da possibilidade de não ter alguém tão perto para odiar diariamente.

Vovó não estava sozinha nessa situação. Ela era só mais uma sócia do clube das velhinhas enganadas e resignadas com medo da solidão. No entanto, se elas não podiam atacar os maridos, pois dependiam deles para que o suco de laranja matinal fosse bebido por alguém, todo o rancor poderia ser direcionado às moças das casas de amor temporário.

O tricô da manhã agora tinha uma pauta fixa. Como escandalizar aquelas desgraçadas que vendem uma hora de boceta para os velhinhos delas (delas quem? Uma pergunta de que eu não sei mais a resposta). Vovó e tia Morgana organizaram um quartel general de idosas com raiva e instalaram o centro de inteligência na casa de dona Lélis, a viúva ressentida.

Dona Lélis perdeu o marido durante uma ejaculação adúltera cerca de dois meses antes. O coração de Alaor não tinha gana para aguentar mais uma trepada no american bar da esquina, mas seu pênis não concordava com os prognósticos e seguia cheio de vontades. Morreu em cima de uma moça, mas teve a dignidade profética de pagar antes pelo programa.

Durante algum tempo elas ficaram observando as meninas da vida durante a manhã, que é quando elas mostravam as caras. Chegaram à conclusão de que o melhor seria matar os animais de estimação daquelas mulheres. Os pombos. Seria o plano perfeito, pois num extermínio de pombos, velhinhas estariam acima de qualquer suspeita. Ninguém da associação de moradores chegaria cheio de interrogatório para aporrinhar-lhes a energia vital. Para completar o bolo da vingança, o crime seria costurado com todo o requinte de crueldade que a imaginação concebesse. A criatividade usada para o mal pode escandalizar, e elas sabem disso, nem sei como, porque elas não sabem de porra nenhuma.

O primeiro bicho pego no massacre foi um dos decapitados do início do relato. Por ser o mártir involuntário da indisposição entre as classes, as velhinhas lhe apelidaram de “pombo de piranha”, em alusão ao boi, certamente. Os assassinatos continuaram acontecendo, cada vez com uma idosa diferente sujando a mão de sangue. Era uma terapia. Era a redenção das aposentadas. As vísceras que sumiam da cena do crime iam sendo enviadas em caixinhas cor-de-rosa para os prostíbulos.

De fato, as meninas ficaram mortificadas, muito embora elas deem o troco inconscientemente sempre quando um velho se treme todo durante algum michê infeliz.

O que ofende uma puta? Como fazer daquelas putas específicas umas pessoas desoladas? As velhas iam se perguntando isso (enquanto suas dentaduras rezavam para sair das bocas), matutando, digerindo ideias e defecando outras piores ainda a partir das que vinham. Conceber um brainstorm de velhinhas vingativas me faz perguntar o que as pessoas não fazem pela inspiração. Que tipo de delito se justifica quando o seu propósito final é a arte? Não paro de pensar nisso desde que retalhei todos aqueles pombos em busca de alguma história.

 

Postado por Pedro | Categorias: Contos, Pedro
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02 jul 2012

Minha segunda vez no videokê da Ilha

Raf eletronics, a culpa se concentra nele

Quando eu era um humilde bebê, estava engatinhando na cama em cima do meu pai e acertei seu saco escrotal com o meu joelho numa força que até hoje os cientistas tentam explicar. Sim, eu, com meu joelhinho de neném, provoquei um inchaço na base do Play Center dele (acabam de passar Liquid paper em “Pedro Staite da Hora” no testamento), o que gerou, segundo o folclore médico da família, um caso grave de “água no saco”. Não sei como fiz para inundar o meu primeiro lar, e assumo que estou com medo de procurar “água no saco” no Google. O certo é que meus parentes incutiram na minha alma um remorso eterno por tentar destruir a fábrica de filhos do meu pai após a minha produção.

Um quarto de século depois do incidente escroto-joelhal, tentei reunir os cacos familiares: fui de surpresa ao aniversário do meu pai, no videokê da Ilha do Governador. Os Staites são tão pragmáticos que até a diversão é religiosamente enquadrada na rotina. Vou morrer de câncer no útero antes de saber o nome de lá, mas se for chamado de lugar de sempre, vai fazer um sentido milimétrico em nosso microcosmo. Isso não quer dizer que eles merecem apanhar até que decidam variar os lugares de diversão, afinal, as pessoas é que fazem a graça, e se eles têm a sorte de conseguir ver os melhores amigos toda semana, Deus jogou The Sims direitinho com o grupo deles.

Sentando à mesa com minha namorada no videokê (ah, nada como um programa romântico. Sou realmente um matador), percebi que meu padrasto e meu pai se complementam nas coisas artísticas. Um tem voz de um Pavarotti adolescente, o outro é um Fred Astaire amador. Enquanto um faz o meio campo lá no palco, o outro imprime uma sensualidade dançante que nem o Kaoma foi capaz de produzir na década de 1990. Se eles trocarem os papéis, haverá duas desgraças para o mundo, mas eles nunca se sujeitaram a isso.

O engraçado é que o meu padrasto parece receber uma entidade quando sobe naquele palco para cantar, sempre seguindo um ritual: um cigarro na mão, a fumada mais blasé que a Ilha do Governador já conheceu, uma pose de “não sei quem são vocês, só sei que ficarão pelvicamente felizes” e uma aura que só alguém que já ganhou dinheiro no palco sabe exalar. Isso tudo ao som do midi file da introdução, pois quando a música começa de fato, não há um aparelho reprodutor no bar que permaneça indiferente:

- Mãe, o Alício é sensual demais no palco, acho que até eu quero dar pra ele.

Minha mãe, mesmo depois de 18 anos dormindo de conchinha com o cantor, provavelmente também estava on fire.

O bom de ir para lá é que, sendo criança ou adulto, eu recebo o melhor dos dois tratamentos. Já sou adulto suficiente para ser ouvido e fazer rir gente com o dobro da minha idade (é um dos poucos indicativos bons de que você cresceu: ter suas piadas respeitadas pelos mais velhos), mas criança o bastante para não precisar pagar a conta. A vida vende muito caro os momentos bons, porque ela é tacanha e brutal, então é preciso reconhecer que encher o rabo de cerveja grátis é uma brecha graciosa na Matrix.

No entanto, o ruim de ir para lá, nas circunstâncias que ocorreram, foi que eu abri um precedente. Se eu não for ao videokê no aniversário da minha mãe, provavelmente serei assassinado por ela enquanto estiver dormindo. Se eu não for ao do meu padrasto, serei acusado de favorecer um dos pais, e isso é uma coisa que só se faz quando o Stalin te obriga. Então, tomei no cegueta: calculo que até 2015, terei sido fagocitado pelo imenso lisossomo familiar na Ilha do Governador. Preciso bolar um plano decente de evasão até lá.

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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29 jun 2012

Curtir a vida

Numa das milhares madrugadas que passei em claro no computador, tive o prazer e a honra de bater um longo e gostoso papo com um querido amigo de longa data.

Ele me contava sobre as notícias que tivera recentemente sobre sua ex-namorada, uma pessoa com tantos problemas psicológicos que deixariam Courtney Love com inveja. Não eram das mais animadoras: drogas, bebedeiras exageradas, promiscuidade igualmente exagerada, etc. Quase um estágio para Christiane F. Uma espécie de crise de identidade de uma adolescente de 15 anos ainda buscando qual rumo seguir. Exceto pelo fato da pessoa em questão já ter passado dos 20.

Entramos em seguida numa discussão sobre se isso não seria o tão visado “curtir a vida” e em caso negativo, o que então seria.

É impossível entrar nesse assunto sem antes se questionar a maior dúvida existente: Qual o sentido da vida?
Se você se dispõe a pensar sobre o que é aproveitá-la, precisa antes decidir o que de fato ela é, e sua finalidade.

Gosto de pensar que a finalidade é a luta para conseguir se desprender do substantivo e se focar no verbo. O sentido da vida é viver. Essa é a sua finalidade. Essa é a sua resposta.

Não encaro a vida como um presente. Ninguém pede para nascer. Encaro como uma consequencia biológica. Mas não apenas como isso. Não é como se fóssemos uma galinha que cai de paraquedas no mundo, e como a todos os outros animais irracionais, a vida à leva. Com o ser humano é o oposto: ele leva a vida, ou pelo menos deveria levar. O presente não é a vida, mas a racionalidade para notá-la. E fazer jus à essa racionalidade é justamente usá-la.

Partindo do ponto em que você aceitou viver, é melhor fazer direito. Não há certezas quanto a uma segunda chance. Na verdade, as possibilidades disso acontecer são tão ínfimas que não devem ser levadas em consideração. Esse é o primeiro ponto para o seu total aproveitamento: a noção de que a vida não se repete. Encarar a vida como uma sala de espera não é viver, é sobreviver.

Ao mesmo tempo que nasce uma vida aqui, nasce outra em Marrocos. A vida não é um acontecimento isolado. É um conjunto de vidas que acontecem simultaneamente, ela acontece no plural, nunca no singular. Sendo assim, viver não é a monopolização para si mesmo das forças para seu aproveitamento, é considerar o todo como parte fundamental dessa busca. Parafraseando John Donne: nenhum homem é uma ilha isolada.

Não se pode aproveitar algo que se mata, que se destrói, que se contamina. Curtir a vida é se focar tanto no “curtir” quanto no “vida” e cuidar dela e de sua continuidade de forma amável e responsável como uma mãe cuida de um filho. Novamente falando, de forma ampla. A vida de maneira geral.
Pessoalmente falando, esse é o meu tendão de Aquiles. Escrevo esse texto com o mouse em uma mão e um Marlboro na outra, com a consciencia de que a cada tragada, um pouco de vida vai embora junto.

Tudo o que prende, priva, manipula, amedronta, amarra e cega, não faz parte da vida. É preciso se desprender de todo e qualquer dogma, é preciso viver em sociedade sem se deixar envenenar. A crença é o câncer da vida, que por sua vez não acontece pela metade. Querer viver a vida pela metade é não vivê-la por inteiro.

Tenha sempre em mente que a sua vida é sua e você é o único responsável por comandá-la. O aproveitamento da vida exige liberdade. Ela é a gasolina que impulsiona o viver.

Não é fácil, eu sei, mas ninguém disse que seria. O mais difícil da vida, é sem dúvida nenhuma, vivê-la.

Postado por Marina | Categorias: Marina
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