Corra Mary

16 ago 2012

Um taxista português e o tempo

 

Tirando Deus, futebol, programas de qualidade inversamente proporcional ao tamanho do público e Avenida Brasil (uma falha bem-vinda na Matrix), o tempo é um dos raros assuntos que unem as pessoas. Seja lá qual acepção de tempo você escolha, ele de alguma forma provoca formigamento na alma das pessoas. O tempo está ruim, chove há dias, as nuvens estão pretas, o calor está insuportável, tenho vontade de assassinar meus pais quando faz sol na segunda-feira, 100% dos seres humanos que vão à praia em dia de semana são vagabundos, por mais que estejam de férias, ou procurando algum tipo de reabilitação espiritual, ou pagando promessa, ou vivendo o desemprego, ou exercendo de fato a vagabundagem… Tudo isso a gente diz a respeito do tempo meteorológico. Sempre.

Em relação ao tempo cronológico, a discussão de “uau, como o ano está passando rápido, dona Jocasta!”, tão vã quanto a raiva pela chuva em dias de açoite via CLT, cai na mesma inócua e pentelha ladainha. Mas a gente precisa reclamar do tempo que passa, porque ele é exatamente como aqueles fantasminhas vilões do Mario Bros.: quando você presta atenção nele, o desgraçado não se move, quando esquece e perde a atenção, ele voa.

E essas discussões sobre o tempo sempre encontrarão abrigo naquelas ocasiões que forçam convívio social. Deus não é pauta suficiente — é pano de fundo, futebol, BBB e novela, embora sejam quase unânimes, esbarram nesse “quase” e nem sempre são convocados a deus-dará num elevador, por exemplo. Só o tempo pertence, ainda para quem o ignore, a todo mundo.

Estava voltando de táxi para casa, e o condutor, um simpático português, com mais ou menos seis décadas e uns quebrados de existência, que tinha a curiosa mania de falar “mano” a cada frase (português paulista, veja bem), começou a lamentar sobre o tempo cronológico pra mim.

— Quando eu tinha a sua idade, dava pontapés nas estrelas, mano.

Não sabia se “dar pontapés nas estrelas” era uma expressão consagrada, batida, clichê, mas o bom da ignorância é nos dar a chance de ver beleza em algumas coisas. Achei bonito. O “mano” – com sotaque português de velhinho – foi bonito também.

— Noutro dia, fui levar um imortal da ABL em casa, aí ele me disse que exaltaram a inteligência e a experiência dele. Aí ele, fulo da vida, falou: “Mas para que eu quero essa experiência toda? De que adianta pente para quem não tem mais cabelo?” — disse o condutor, emendando: — Sabia que na tua idade eu tinha uma coleção de pentes de osso? Mas agora eles não me servem de nada, não tenho mais cabelo que nem você.

E esse foi primeira vez nos últimos dois anos que meu cabelo foi o lado forte numa comparação capilar. A atrocidade do tempo se embala numa progressão geométrica.

— O tempo é cruel, meu amigo. Há uns 15 anos, eu estava viajando com a minha mulher, em um carro sem capota. Em um momento, vi meu rosto no retrovisor e reparei que tinha uma coisa balançando no meu pescoço. Fiquei assustado, parei o carro e perguntei à minha mulher: “Ó, fofinha, o que é isso no meu pescoço?” Ela disse: “Ué, é uma pelanquinha, o tempo está passando, passa para você também.” Sabe, mano, eu vi aquilo e comecei a chorar.

O cara era português, falava “mano”, chamava a esposa de “fofinha”, notou acidentalmente a passagem do tempo encravada no pescoço e ficou desolado a ponto de chorar. Era a conversa mais poética que eu já havia travado num táxi.

— Na tua idade, um amigo me chamava “opa, tem dois brotinhos pra gente no outro lado da cidade”, eu ia voando. Hoje em dia, nem que me obriguem eu saio de casa. Vou fazer o quê? Vou dançar com quem? Quem vai querer dançar com um velho? E, se dançar, eu canso rápido, minhas pernas não aguentam.

E “perna não aguentar” é a senha para abolir meus escravos de ternura pela minha avó. Não sei que fixação eu tenho por velhice, não sei se é porque eu tenho a macabra convicção de que nunca chegarei até lá, ou se é porque a pobreza de tempo, a escassez dele quando você olha para frente, me comove.

— Foi um prazer — falei ao sair do táxi, pensando “se a Fofinha não existir mais, alguma mulher precisa tirar esse português para dançar”.

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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14 ago 2012

O pornô brasileiro

A verdade é que todo mundo gosta de pornô. Homem, mulher, gay ou lésbica. Sexo é bom até quando não é com você.

Particularmente, não sou fã de pornô nacional. Que me desculpem as pessoas feias, mas sexo com gente feia só funciona quando é masturbação de um feio com ele próprio. Tanto para fazer quanto para assistir, o mínimo de tesão é necessário.

Atriz pornô brasileira ainda tem como dar uma fingida. Uma chapinha aqui, um silicone ali e até fica aprensentável. Já com os atores não é bem assim. Ator pornô brasileiro não tem muito como esconder a feiura. O cordão de prata, a cor de borda de cu, as estrias da bomba e as luzes feitas no salão de esquina que deixaram o cabelo do dito cujo verde, deixam qualquer uma mais seca que o deserto do Saara. É complicado sentir tesão num cara que te lembra o ajudante da lotação gritando “Inhaúma” no ponto de ônibus.

O pornô brasileiro iludiu os pré-adolescentes a acharem que mamilos femininos são botões do fogão que podem ser virados e apertados sem o menor problema e que a mulher no primeiro toque masculino já geme, grita e se contorce como um porco no caminho do abatedouro. Aí a criança cresce e se transforma num adulto frustrado sexualmente.

Certa vez, uma amiga estava na cama com um cara que ao ser incitado a xingá-la, a chamou de “retardada”. Outra, quando pediu “me bate”, levou um soco nas costas. Tem que desenhar? Tem que explicar em quantas linguas diferentes? Não é tão difícil assim, né? Sexo e bom gosto deviam sempre andar de mãos dadas, seja no pornô ou na vida.

Sexo tem que ser sujo, vulgar e sacana. Mas uma pitada de bom gosto é mais do que necessário. Se não, 2 girls 1 cup seria um marco positivo no pornô nacional e não uma bizarrice de revirar o estômago até dos mais fortes. Se algum cara cospe na minha vagina e diz qualquer coisa como “quero visitar a sua área de serviço”, mando ele embora no mesmo segundo não só da minha cama, como da minha vida. Nem tudo do pornô, se encaixa na cama.

Acho que pornô gringo me deixou mal acostumada. Há 10 anos que peço pizza e espero receber um típico ator pornô americano, alto, forte, bonito, sensual e doidinho para me comer besuntada no óleo da muçarela, e a Domino’s só me manda o cover do Agnaldo Timóteo. É fantasia demais, pra realidade de menos.

Postado por Marina | Categorias: Marina
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02 ago 2012

O preconceito contra ateus

Ninguém gosta de alguém que tenta impor aos outros suas próprias crenças. Sejam elas quais forem. É chato pra caramba e não há um jeito delicado que faça o outro parar. Em teoria, somos todos livres para escolhermos nossas próprias crenças. Mas apenas em teoria, porquê na prática não é bem assim que funciona. Bancada evangélica no congresso, “Deus seja louvado” em nosso dinheiro, etc. A pressão religiosa está por todos os lados e estado laico não passa de uma piada.

É complicado demais ser ateu. É complicado porquê a maioria dos religiosos que querem dividir seus pensamentos com você, não estão dispostos a ouvirem os seus.

Da mesma forma que não acho nada legal um religioso tentando me convencer do seu Deus, não acho bacana um ateu tentando convencer um religioso da ausência dele. Mas acredito que ambos têm a liberdade para exporem seus pensamentos, e é aí que está o problema. Para uma sociedade entupida até a garganta de dogmas religiosos, ser ateu soa como um afronte. Então mesmo que um ateu não esteja na igreja tentando convencer o padre/pastor de que ele caga pela boca, só por ele não compartilhar desse mesmo Deus, já é visto quase como um marginal, um criminoso. Ser ateu incomoda apenas pelo fato de ser.

Se um religioso tem a liberdade de expressar sua crença no Deus que quiser, porque um ateu não possui a mesma liberdade de expor a sua ausência de crença? O Deus dos religiosos, seja ele qual for, esqueceu de ensinar sobre tolerância?

Não me importa a forma como os outros escolheram viver suas vidas, desde que não interfiram na minha, por mim tudo bem, mas as igrejam possuem a chata mania de ensinarem que a vida pessoal do outro é de interesse seu, e então homossexuais, ateus ou qualquer um que não viva de acordo com seus ensinamentos delirantes, são discriminados e atacados sem dó. Assim como o ateu não está na igreja tentando convencer ninguém de nada, o homossexual não está dando a bunda dos outros, está dando a sua própria. Então qual é o problema?

Religião deveria ser pessoal, deveria ser algo que diz sobre você e a sua vida, apenas. A vida do outro é dele, não é sua e nem do seu Deus. Viva da forma como você bem entender, mas não exija que os outros sigam pelo mesmo caminho. E se você quer expressar suas ideias, esteja preparado para ouvir as dos outros. Você tem esse direito tanto quanto qualquer outro também tem.

Um ateu tem tanta liberdade para expressar-se quanto qualquer religioso, e se esses pensamentos atacam suas crenças, saiba que os seus atacam a inteligência dele, então paciência, apenas aceite as diferenças e seja feliz com o seu Deus, que os ateus serão sem.

Postado por Marina | Categorias: Marina
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01 ago 2012

Chá de panela evangélico

Adoro chás de panela/bebê. Adoro dar presentinhos e adoro principalmente as brincadeiras típicas. Ou as pessoas em questão vão casar, ou terão um filho. Eventos que já trazem consigo uma enorme felicidade.

Há uns meses atrás fui convidada para o chá de panela da minha prima. Fiquei felicíssima, finalmente depois de 5 anos de namoro, ela iria se casar. Minhas primas estão todas casando. Minha família por parte de mãe é toda evangélica e parece que pra eles, se a mulher passa dos 25 anos solteira, vai ficar encalhada pra sempre. É uma pressão fortíssima até que a pessoa se case, e depois a mesma pressão é convertida para pedidos do primeiro filho. Acho chato pra caramba, ainda mais quando é comigo. Planejo nem o que vou fazer no final de semana, vou lá planejar um casamento e filhos aos 24 anos de idade?

Eu e minha mãe resolvemos dar um ar condicionado de presente ao casal. Eles compraram uma casa em Bangu, que era onde o dinheiro deixava, e qualquer um que já tenha pisado em Bangu sabe que Bangu é quente pra caralho. Sem querer me gabar, mas já me gabando, foi de longe o melhor e mais útil presente que eles ganharam nesse chá de panela. E a cara de felicidade dela quando viu o presente, confirmava tudo isso. Era pura alegria, ela gritava de felicidade e mostrava para a mãe o presente. Todos estavam felicíssimos, a família inteira vibrava. Como ela não acertou o que era, já que ar condicionado não estava na lista de pedidos, tínhamos que desenhar alguma gracinha de batom no casal. Minha mãe desenhou bigodes no noivo, e eu, bem, eu com todo o meu humor um tanto quanto atípico, achei uma boa ideia desenhar um pênis na bochecha da minha prima. Nada muito detalhado, um desenho mal feito e na pressa, mas que não deixava nenhuma dúvida do que de fato era. Algo mais ou menos assim:


Não foi a melhor ideia que eu havia tido naquela noite.

Minha prima, evangélica, virgem (era o que dizia), em seu chá de panela, no meio de toda a família também evangélica, encontrava-se agora com um desenho de uma rola ereta e depilada em sua face. Ela ainda vendada, sorria. A família nem tanto. A filmagem foi pausada, minha tia correu com um paninho molhado em direção ao casal, minha vó ensaiava um choro forçado, meu irmão corria para gargalhar no banheiro, e eu percebia que havia estragado mais uma comemoração em família.

Minha tia apagou o pênis, mas deixou as bolas. Completou o desenho com um coração. Achei criativo, e a mensagem muito bonita: Um caralho que choca uma família inteira, transformando-se em amor.

Uma prima e um primo meu estão para casar, e minha vó já pediu pra minha mãe: Avise a Marina que pirus não!

Estou pensando em bucetinhas.

Postado por Marina | Categorias: Marina
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30 jul 2012

Feminismo moderno

Esse papo de feminismo moderno do ultimo post me fez lembrar de um ocorrido num restaurante de fast food alguns meses atrás. Estava voltando de Buzios com o namorado e alguns amigos quando fiquei apertada para fazer xixi. Paramos no tal fast food e eu corri para o banheiro.

Não fiquei surpresa quando vi a fila enorme que eu teria que enfrentar para fazer um simples xixizinho. Já cheguei e as mulheres da fila estavam soltando fumaça pelos ouvidos de insatisfação com a fila. Até aí normal, eu também fico puta em ter que esperar por qualquer coisa, ainda mais quando o chamado da natureza é tão forte.

Certa hora, um grupinho de umas três mulheres se juntaram para usar o banheiro masculino que estava vazio.
Enquanto uma usava, a outra cuidava da porta.

Certa hora apareceu um homem. A mulher que estava na porta não queria deixa-lo entrar. Ele não deu ouvidos, nem respondeu uma palavra se quer e sem cerimonias entrou no banheiro que era, de fato, designado para ele.

A mulher ficou indignadíssima, começou um longo e chato discurso de uma lição de moral sem moral alguma. Não consegui me manter calada e rolou o seguinte diálogo:

Eu: – Ele só entrou no banheiro que foi designado para ele.

Ela: – Mas tinha uma mulher lá dentro.

Eu: – Foi ela que invadiu o espaço dele. Não ele o dela. Se ela entrou lá, sabia que um homem poderia entrar a qualquer hora.

Ela: – Mas olha o tamanho dessa fila!

Eu: – Se fosse o contrario, fila enorme no banheiro masculino, os homens poderiam usar o feminino?

Ela: – Não!

Eu: E pq você pode?

Ela: Pq eu sou mulher!

Resolvi não gastar mais nenhuma palavra diante dessa resposta, já que ela era a prova de que qualquer argumento que eu usasse, nunca seria poderoso o suficiente para derrotar tamanha imbecilidade.
A minha vontade era de pegar o enorme boneco do Ronald Mc Donald em que eu me apoiava e varar na cabeça da mulher na esperança de dar um tranco naquele cérebro para que funcionasse minimamente.

O feminismo moderno virou oportunismo, o discurso de igualdade se deturpou tanto que a mulher chega a se achar superior ao homem só por ser mulher.

Quando eu era pequena, minha mãe me ensinou que homens tem pipi e meninas tem borboletinha. Desde pequena eu já estava ligada de que não éramos iguais, alguma diferença aí rolava, mas que nem por isso um necessariamente era melhor que o outro.

A sua avó lutou nos anos 60 pelos seus direitos legais, por ser reconhecida como cidadã, por uma sociedade mais justa. Não por privilégios e nem por igualdade entre sexos.
No seu relacionamento ela com certeza não abria mão do cavalheirismo masculino. Ainda queria ser cortejada, buscada em casa, receber serenata e todos os mimos do amor romântico, mas sabia que isso em nada influenciava no seu papel de cidadã na sociedade. Ser mulher não exclui ser cidadã.

O problema das feministas modernas é foco. Estão se focando no ponto errado. Querem lutar por salários menos desiguais? Têm o meu apoio! Querem lutar pelo direito ao aborto? Têm o meu apoio! Querem lutar pelo direito de usar a roupa que quiserem sem que corram o risco de serem estupradas? Tem o meu apoio!
Mas não me venham com ladainha de direitos iguais e blá blá blá, pq além de não serem iguais, se realmente quisessem isso, teriam se alistado no serviço militar aos 18 anos.

Aceitem as diferenças da vida, elas estão aí e são lindas!

Postado por Marina | Categorias: Marina
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