E no ônibus com ar condicionado…
dez 15

Ar condicionado de ônibus seria uma ótima invenção caso o público-alvo a que se destinasse não fosse de seres humanos. Como bem disse René Descartes, em entrevista exclusiva na suíte presidencial do meu cérebro, “A gente sempre arranja um jeito filho da puta de escrotizar a porra toda”. Cheio de razão, não é à toa que a gente estuda esse cara no colégio.
Nossa natureza é assim, sempre haverá um desgraçado para pôr chiclete mastigado em lugares estratégicos onde se põe a mão (sério, invoco meus mais sinceros desejos de que o ebola destrua a sua vida); sempre um filho da diaba vai deixar o celular dele tocando merdas diversas no transporte público; sempre teremos um filho do gavana colocando bolsos nas mangas das camisas… Do bidê à bomba atômica, não adianta: a gente sempre arranja um jeito de imprimir nosso espírito de porco nas coisas.
Ônibus com ar condicionado é uma tradução de tudo isso.
O dia está numa temperatura de razoável para quente, e aparece o ônibus de ar condicionado. Essa é a pior conjuntura possível: quando se está na primeira temperatura que, de acordo com o código de conduta rodoviária, o uso do ar se justifica. Ao entrar, você já vê o motorista e o cobrador usando um casaco que nem a minha avó usaria para se proteger das dores da artrose no frio da Patagônia. Gangrena nas mãos, aí vamos nós.
A pergunta é: por que não deixar o ambiente com a sensação amena, já que os ares-condicionados possuem a miraculosa tecnologia de ajuste de temperatura?
A suspeita de resposta é: porque já que ônibus de ar-condicionado é mais caro, que se bote logo a temperatura de -273ºC* para amortizar em 3 milésimos de segundo os 20 centavos pagos a mais (*zero absoluto, assim como Descartes, você aprendeu na escola. Se não aprendeu, bem, -273°C é bem frio).
(Pus -273ºK, mas essa temperatura não existe, logo, mostro que não lembro o que aprendi na escola. Graças à Lisa, a imprecisão sobre temperatura foi corrigida, obrigado!)
O vandalismo esfria
A primeira postura a tomar quando se entra num iglu coletivo com rodas seria tampar as saídas de ar glacial. No entanto, em algum dia extremamente quente do passado, um vândalo desgraçado, que provavelmente reencarnará na forma de um testículo estéril de doninha na próxima vida, arrancou todo o aparato de controle do ar. Ou seja, ficou aquele buracão jorrando vento importado do Alasca, e agora você não pode fazer nada. Só congelar com ódio.
O contra-vandalismo
Aí algumas pessoas, percebendo que ainda têm 50 minutos de viagem no horizonte, resolvem apelar para se proteger da hipotermia. Fazem uma bola de papel e enfiam no buraco para estancar a ventania. Dá certo, mas às vezes dá tão certo que o papel fica preso para sempre no buraco, até chegar um dia extremamente quente, e você precisar fazer uma verdadeira cirurgia para retirar o tufo dali.
As verdades são as seguintes:
1) Vandalismo fode quem não tem nada a ver com isso.
2) O ar condicionado de ônibus só dá vazão quando não é necessário.
Outra coisa terrível de um ônibus de ar condicionado é que o ambiente é hermeticamente lacrado para o ar circular frio. O problema é que as trocas gasosas no nosso interior são egoístas, elas não ligam para o efeito destrutivo que vão causar caso precisem expelir, por exemplo, alguns milímetros cúbicos de veneno intestinal no ambiente. Trocando em miúdos, se o nosso intestino se manifestasse em sintonia com o nosso psicológico, o ser humano só peidaria ao ar livre. Mas não acontece isso.
Aí você entra no ônibus, o passageiro da frente lança uma bomba de efeito moral pelo ânus, e fica aquela sensação de que o cheiro não vai sair porque não tem para onde ir. Ele provavelmente só vai se dissipar se a gente respirar, se os nossos alvéolos pulmonares pegarem essas partículas de peido e jogarem na nossa circulação sanguínea. Ou seja, o peido em ônibus fechado não se dissipa; ele fica preso no interior de todos os passageiros, num pequeno esforço coletivo que legitima a solidariedade humana.









