Corra Mary

30 nov 2012

Intimidade na internet

Parafraseando um grande amigo: “Conteúdo na internet é que nem xixi na piscina, uma vez dentro, impossível tirar tudo.”

Na madrugada passada, uma menina, de por volta 16 anos anos, sentiu isso na pele. Teve fotos intimas suas expostas no Facebook pelo ex-namorado. As fotos eram tão íntimas, mas tão íntimas, que em uma delas eu acredito até que vi uns dois ou três órgãos internos da menina.

Nada novo para a geração Orkut, nem para a geração Klauss, que aprenderam que nunca se deve subestimar a dor de cotovelo alheia. Uma pessoa babaca cheia de ódio, é capaz de cometer as ações mais sujas imagináveis.

Essa geração que está começando sua primeira rede social com o Facebook, provavelmente não acompanhou tantos casos de humilhação pública devido a exposição de suas intimidades na internet. Isso porque as pessoas na internet possuem a incrível capacidade de tirarem o pior de si mesmas. Comentários extremamente cruéis são disparados como se por trás do outro computador nem existisse uma pessoa de verdade.

Todo mundo faz sexo, todo mundo possui fantasias sexuais (algumas realmente bizarras e outras até ilegais), mas essa, apenas essa menina, será cruelmente massacrada, pelo simples fato de suas fantasias terem sido expostas. Não por culpa dela, mas ninguém na internet está interessado em saber disso. A internet não quer ser justa, ela quer apenas humilhar. Seja lá quem e por qual motivo for. Como se aquela pessoa fosse apenas um saco de pancadas virtual e nada mais. Como se não possuísse família, amigos ou vergonhas.

Adolescentes agem por impulso. Adolescentem se apaixonam e juram amor eterno. Adolescentes também erram (e pra caralho). Mas adolescentes também crescem, também se arrependem e também querem simplesmente deixar esses erros para lá. E a internet está aí para não deixar isso acontecer. A internet registra e imortaliza erros e vergonhas e uma vez online, não há mais o que se fazer. Carregar para toda a vida o fantasma da internet não deve ser fácil.

A lição que deve ser aprendida não é tirar ou não fotos íntimas e nem confiar ou não nas pessoas. Confiar é bom. A lição é aprender que dentro de cada pessoa há um monstro vil e cruel, e que nós nunca sabemos como essa pessoa lida com esse monstro, e que claro, a internet é uma vadia.

Postado por Marina | Categorias: Crônicas, Marina
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22 nov 2012

Comprando um apartamento

Chega uma hora na vida da pessoa em que ela precisa crescer. Querendo ela ou não, a vida cobra sem esperar o tempo pessoal de cada um. Faço 25 anos daqui há uma semana e as responsabilidades estão sendo sendo jogadas no meu colo esperando por um movimento meu, e precisa ser o movimento certo.

Até ontem eu escondia o boletim da escola do meu pai com medo de mostrar as notas vermelhas em matemática, e hoje já preciso procurar meu apartamento próprio, dessa vez, com um medo real e adulto de ficar no vermelho. Uma coisa posso dizer com toda certeza: Em qualquer época da vida, vermelho nunca é bom. Bem, exceto se o caso for uma possível gravidez indesejada.

Tendo essa missão em mente, comecei então a procurar imóveis à venda no Rio de Janeiro. Nasci e cresci no Rio, então sair daqui me seria extremamente doloroso, por mais que minha cidade tenha problemas, qual não tem?

Acho que o amor é isso, certo? Amar o bom, amar o ruim, amar o conjunto completo. Já conheci lugares incríveis, mas de todos, o único que me dá a sensação de lar, é mesmo o meu Rio. Pode não ser o melhor, mas é meu. O Rio de Janeiro é tanto meu, quanto eu sou dele.

Com Mundial e Olimpíadas vindo por aí, os imóveis estão quentíssimos. As UPPs também valorizaram demais os imóveis, e está sendo uma boa época não só para a venda, como para a compra também. Paralelo à minha compra, estou vendendo um apartamento e percebo que as possibilidades de compra estão tão grandes quanto as de venda. Não está difícil achar um apartamento para comprar tanto quanto não está difícil achar um comprador. A variedade para ambos os casos, têm sido extremamente positiva. Apartamentos e casas de todos os tipos, para todos os gostos e principalmente para todos os bolsos.

Comprar um apartamento não é uma decisão fácil. Sou muito impulsiva, mas para uma decisão tão importante, preciso ter calma e avaliar os mínimos detalhes. Afinal, não quero apenas uma casa, quero um lar e quanto menos dor de cabeça, melhor.

Já visitei centenas de apartamentos, e a cada hora me interesso em visitar um novo. Milhares de tentações esperando apenas o meu sim, sinto-me casando com o meu futuro apartamento, e como todo casamento, preciso decidir conscientemente para não dar em divórcio.

Postado por Marina | Categorias: Marina
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10 nov 2012

Angústia alimentar

Se existe algo que eu posso dizer é que as coisas estão evoluindo em mim. E quando digo “coisas”, me refiro a “taxas de colesterol e triglicerídeos” e quando cuidadosamente utilizo a expressão “evoluindo em mim”, quero dizer “armando um ardil para me matar daqui a trinta anos, causando um congestionamento nas minhas artérias e me impedindo de ver meus netos crescerem, caso eles venham a existir”. Tenho 26 anos, estou muito mais perto da época do nariz entupido, a terna infância, do que do coração entupido. Mas amedronta.

Meu colesterol “ruim” segue um bem-sucedido plano de carreira no meu organismo e vem batendo todas as metas rumo ao objetivo final (infarto). Além disso, vi que diminuiu o meu colesterol “bom” (cujo nome causa a estranha impressão de que não é realmente do bem. Imagine o Diabo “bom”, o Hitler “bom”, o Tripa Seca “bom”, o bandido da luz vermelha “bom”… Os cientistas foram muito infelizes quando escolheram dar uma faceta bondosa para um nome tão carregado de maldade, ainda que haja respaldo médico para tal. Dane-se, nomes são que nem Lego, era só enfiar o radical certo no lugar ideal, não precisaríamos diferenciar com “ruim” e “bom”. Este é pior problema da medicina: às vezes ela tem lamentavelmente pouca intimidade com a etimologia).

Comecei a procurar listas de alimentos que fazem mal, para saber se os meus hábitos de consumo eram muito prejudiciais. Reparei que esses alimentos transformam o cigarro em Vick Vaporub, tamanho sucesso que têm no ranking da desgraça gastronômica. Me ative a uma lista específica, a mais proibitiva de todas, só para ter o mórbido prazer de ver como estou afundado nas más escolhas. Ao mesmo tempo dá um sentimento de gratidão ao sistema nervoso autônomo, que tenta processar as merdas que a minha parte consciente me sugere engolir.

A lista é muito ranheta. Ela não apresenta apenas dez alimentos, e sim dez grupos, o que compreende mais ou menos 88% de qualquer coisa saborosa na humanidade.

Os três primeiros são:

1)      Refeições prontas congeladas (lasanha – pior que cianureto –, pizza, escondidinho, feijoada, ônibus, hoje eles congelam tudo pra comer. Antigamente a gente não congelava nada, ficava tudo podre e a gente morria. Hoje a gente compra tudo congelado, mas continua morrendo por causa de comida. Como é que eu vou dizer que karma não existe?).

2)      Embutidos ou “Só delícia” (salsicha, linguiça, mortadela, presunto, salame etc. Estou fantasiando neste exato momento uma tigela gigante com os cinco alimentos sendo inclinada para o meu corpo, coberto apenas com uma folhinha de louro – é, não vou mentir e falar que precisaria de uma folha de bananeira).

3)      Caldos e temperos industrializados (caldo Knor, temperinho do miojo, todas aquelas porcarias que fariam menos mal se você as cheirasse).

E todos eles são inventos para tornar a nossa vida mais prática. Se você fizer seu próprio tempero, a saúde te cumprimentará, mas é muito mais rápido jogar o cubinho de câncer na panela. A refeição congelada leva, na pior das hipóteses, 15 minutos num micro-ondas, é covardia com a saúde. Em cinco minutos você prepara uma salsicha, o único alimento que faz mais mal ingerido antes de ser cagado do que depois.

Então o mundo nos facilita a vida, nos dá mais tempo para curti-la, mas em contrapartida, a nossa expectativa diminui conforme os triglicerídeos aumentam. Quanto mais curtição, menos vida – é a essência da autodestruição prazerosa elevada ao cume do K2.

A lista também tem açúcar, frituras, refrigerante (sobretudo os de cola, e, na seção personnalité da morte, os light), biscoito recheado, biscoito de milho, espinafre… Não, espinafre não está, a saúde sempre se apresenta à nossa boca sem querer ser bem-vinda, é óbvio que espinafre faz bem.

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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29 out 2012

¡Adiós, cartera!

Turista, um amor incondicional pelo furto

A vida na Argentina se assemelha muito com a do Brasil, em primeira instância porque a matéria-prima que preenche a terra de lá é a mesma que a daqui: pessoas. Pessoas de todos os tipos: boas, moralmente flexíveis, más, que colecionam unhas e, naturalmente, pessoas que roubam a sua carteira. No caso, a minha. No entanto, lá é mais seguro, pois eu, na condição de turista frágil e com cara de imbecil (pesquisas comprovam que isso é uma redundância e que eu tenho cara de imbecil até na Islândia), só tomei pernada da bandidagem portenha uma vez em dez dias. O fato de eu não ter comprado uma nova carteira lá pode ter sido a resposta para um aproveitamento tão bom. Minha vida vai acabar antes dessa dúvida.

O mais devastadoramente curioso desse meu caso ínfimo de criminalidade é que a pós-produção do delito já está internalizada na sociedade (fenômeno brasileiro também). Depois de me dar conta que a minha carteira tinha sido levada pela malandragem do próximo, abordei com carinho um policial, e ele, com a naturalidade gosmenta de quem perdeu o saco para notar a passagem do tempo, me disse:

— Procura no lixo, geralmente as pessoas ficam com a carteira e jogam fora os documentos.

Torcendo muito para que o meu furtador tivesse seguido o modus operandi convencional, verifiquei a primeira lata de lixo. O negócio é tiro certo, leitor, todos os meus documentos jaziam lá dentro à minha espera. Aquilo não chega a ser uma lixeira, está mais para um achados e perdidos com a possibilidade de chorume. Na verdade, acho que essa comparação tende a ser leviana, pois nunca, jamais, em todo o tempo encontrei alguma coisa em achados e perdidos.

O fato também é que eu estou supondo que fui furtado, e isso só tem uma justificativa plausível: não quero acreditar – embora tenha condições de sobra para tal – que eu sou estúpido o suficiente para não colocar uma carteira no bolso da minha bermuda. É um vetor só, um encaixe só, não é possível que eu tenha errado o bolso. O que faz a minha burrice ganhar pontos é que o meliante, para ter existido, teria que ser o mais proficiente larápio da história da arte do crime, com mãos tão leves e imperceptíveis que não seria capaz de se reconhecer durante uma masturbação. Se ele existe, deve ser ótimo estar no seu corpo.

— Ele vai pegar o dinheiro e comer, sei lá, no McDonald’s. Aí ele vai passar terrivelmente mal depois de dois dias. Antes de dar entrada no hospital, ele vai rever o pai, com quem não falava havia mais de vinte anos. Mas como ele vai ser internado, a relação dele com o pai, depois de todo esse tempo, se restringirá aos dez dias que o ladrão vai passar no hospital antes de morrer.

Fui capaz de rogar uma praga imensa (que daria, inclusive, um filme bem dramático, que nas mãos certas ganharia o Oscar) a uma pessoa que nem sei se existe. A criminalidade é um despertar mútuo de demoniozinhos, chega a dar vergonha. Em nome de uma consciência um pouco mais leve, eu não acredito em pragas.

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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23 out 2012

Remedinho milagroso

“Remédio” e “milagroso” sempre se associaram na história da humanidade. A busca do homem pela cura do próximo segue um gráfico em ascendência galopante, sobretudo nos últimos séculos, quando algumas corporações benevolentes passaram a descobrir diversos alívios e soluções para a saúde da população. A margem de lucro saudável e assustadora dessas empresas é só um presente divino pela venda de um remédio que poderia custar, chutando com um olho só aberto, 90% menos. Mas isso é um detalhe, exatamente como uma vida, um detalhe.

Conforme as patentes vão sendo liberadas para esse mundão, o que reflete num acesso gradualmente maior da população aos fármacos, a saúde das corporações começa a apresentar uns probleminhas. Mas o importante é que remédio para depressão e hipertensão para seus presidentes não haverão de faltar, eu suponho.

Você já deve estar pensando: “’Remedinho milagroso?’ Lá vem o Pedro falar de coito e Viagra”. E provavelmente emendará observações como: “Ele tem todo o Physique du Rôle de impotente mesmo, mas não sabia que ele ficaria broxa tão cedo”, ou “só um esdrúxulo como ele vai pensar que eu uso a palavra ‘coito’”.

Na verdade, eu queria falar sobre Dramin, aquele remédio para enjoo. Minha namorada estava precisando de um (segure seus cavalos, ela não está grávida) depois de ter comido um gurjão de frango temperado com tifo e ebola. Se eu, um especialista mundial em porcarias empanadas de frango vendidas em boteco e prontas para te matar, fiquei com azia, imagine o estrago que faz em uma menina que procura não se submergir na banha alimentícia (embora coma feito uma porquinha)?

Eu já sabia que Dramin tinha propriedades miraculosas: se você acordar de ressaca (de absinto) dentro de um carro competindo o rali Dacar, sem usar cinto de segurança e ainda tendo um Lango Lango acoplado na cintura dando socos automáticos na sua barriga, nada vai acontecer se você tiver tomado um Dramin. E sabe como ele funciona? Leia a explicação da bula:

 Dramin® B6 contém o anti-histamínico dimenidrinato associado à piridoxina (vitamina B6). Não é conhecido o mecanismo exato pelo qual o dimenidrinato controla os enjoos, vômitos e tonturas de diversas origens, mas admite-se que inibe diretamente o centro do vômito e as funções do labirinto no cérebro.

Ou seja: Dramin é um acidente. É um acidente que faz bem. E, pelo que eu aprendi com o que as freiras do meu colégio não queriam divulgar, acidentes que fazem bem são milagres. Se não são, não importa, depois daquele dia, o Dramin é a coisa mais perto de um milagre que eu já vi na vida. Chega a me dar remorso por ter sido irônico com a indústria farmacêutica no início do texto.

Mentira, não deu remorso algum, mas não posso deixar de salientar a humildade da bula. É quase uma explicação culpada, algo como: “desculpa, gente, não sabemos como funciona essa parada aí, mas precisamos admitir que faz bem.”

É quase o case de sucesso medicinal da Coca-cola, com a diferença de que os efeitos da bebida incluem cárie, hiperglicemia, obesidade e, o mais hediondo e mortífero, celulite. Por acidente se descobriu que Coca é como um Diabo Verde do sistema digestivo. Qualquer merda que se interponha no caminho entre a sua digestão e o seu bem-estar é dissolvida pelo refrigerante. Gases, má digestão, tontura, vontade de arrotar (provavelmente a terceira ou quarta maior causa de angústia no mundo), tudo. A Coca ajeita, a Coca desentope, a Coca cura (temos aí um slogan de graça para a Coca-Cola Company, podem utilizar).

Se o enjoo for intenso, um verdadeiro prenúncio das cataratas do Iguaçu rumo à sua boca, e você não levar fé no Dramin, a última dica que eu dou hoje é a seguinte: tome seu Dramin com Coca-cola. Seu estômago vai voltar a ser virgem.

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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