O poder sobrenatural das palavras

nov 28

- Pedro, tenho que te contar uma coisa, mas fica entre nós, ok?

- O que, o quê? Você tá grávida?

- AI, QUE HORROR, PEDRO.

Neste momento cabalístico, ela levanta de onde está para achar um pedaço de madeira e bater três vezes. Porque bater na madeira, para ela, é a garantia de que um campo de força automático contra “maus auspícios” se abrirá ao seu redor.

- Como você fala besteira, cara.

- Eu perguntar de brincadeira se você está grávida não te deixa mais fértil, relaxa.

- Ah, fica quieto!

- Palavras não provocam gravidez, que mania de só se apegar às coisas ruins. Se eu falar que você vai ficar rica, você vai ganhar na megasena, na loteria, no caralho? Claro que não!

- Ah, se acontecer alguma coisa…

- Eu assumo a criança, pode deixar!

- AHHH, PEDRO, PARA DE FALAR MERDA!

Ela bate na madeira mais uma vez. Sinto que a paciência dela está se esgotando, mas meu dever cívico de eliminar as superstições do mundo não me deixa recuar.

- Ué, se você provar que eu te engravidei só por ter feito uma piada, assumo mesmo.

- AHHH, SAI, NÃO QUERO MAIS FALAR COM VOCÊ!

A paciência dela se esgota por completo. Sinto minha vida em perigo. Por mais que meus espermatozoides não tenham entrado na negociação, fiquei com sincero medo de perder a amiga caso ela venha a engravidar de um cara qualquer de agora até os próximos 36 meses. A culpa seria minha graças ao meu poder de fertilização telepática.

A única maneira de uma palavra ser uma parte da causa de uma gravidez é se o cara usar a lábia dele para te levar para a cama. Mas o azar astronômico de formar um zigoto nisso aí é responsabilidade dos atos e da fisiologia. Jesus, soa até patético eu precisar ter dito isso, mas é que a gente atribui uma aura sobrenatural ao que as pessoas dizem (ao passo que geralmente passa batido o que as pessoas fazem).

Para mim, isso é resquício da remota época em que a gente via um trovão e achava que era Deus nos dando esporro. Ou que era preciso dançar uma macarena primitiva para fazer chover. Na falta de respostas, o que qualquer um dizia fazia sentido desde que houvesse sincronia suficiente para parecer uma relação de causa e efeito (alguém falar que uma mulher vai engravidar exatamente um dia antes de ela descobrir que está grávida, por exemplo). Mas, poxa, a gente não precisa mais disso hoje em dia.

Ela fica mais calma, e a gente volta a tocar no assunto, só que rindo da situação.

- Você lembra que ia me dizer alguma coisa, mas acabei interrompendo com a piada? O que é?

- Nada, não vou contar mais.

- Pô, conta!

- Não, você vai saber numa hora dessas.

- … Vou fazer um texto sobre essa situação retardada, tá?

- Tá bem. Mas espera eu ficar menstruada.

Fofocas…

nov 20

Numa tarde pacata no setor financeiro de uma empresa.

Lulu do financeiro – Você tem jogado o The Sims que eu te emprestei?

Patrício do financeiro – Claro! Minha esposa está grávida de gêmeos, aí aproveitei para construir um segundo andar para os rebentos que estão chegando. Se não fosse o macete do dinheiro, eu estava fudido.

Lulu – Ah é, sem macete não dá!

Julieta do financeiro estava mais ou menos compenetrada no seu trabalho. Não tinha 100% da atenção nele, porque quase metade dela estava voltada para o assunto de Lulu e Patrício. Quando os dois saíram da sala, Julieta ligou para Magali.

Julieta do financeiro no telefone com Magali do jurídico – Maga! Você não sabe o que eu ouvi agora!

Magali do jurídico – O que, amiga!?

Julieta – O Patrício aqui do financeiro vai ser pai! A mulher dele está grávida!

Magali – O quê?! Mas ele não é gay?

Julieta – Menina, pelo visto não! Além de hétero, ainda é super fértil. A mulher dele está grávida de gêmeos!

Magali – Isso tá me cheirando a inseminação artificial… Aposto que ele tem uma amiga lésbica que vai fazer barriga de aluguel. Olha as fotos dele do facebook! Vestindo roupinha colada de super herói, sem uma foto com alguma mulher… Se ele tem esposa, cadê?

Julieta – É, talvez seja isso… De qualquer forma, ele está feliz da vida! Vai até fazer um segundo andar na casa dele.

Magali – Mas ele mora em prédio…

Julieta – Ué, ele deve ter uma outra casa… Ou então é a casa dessa tal amiga lésbica, vai saber.

Magali – Nossa, duas casas… Nada mal para quem vive na pindaíba…

Julieta – Ah, isso fica entre nós, tá? Mas acho que ele está fazendo alguma atividade ilegal pra conseguir o dinheiro dos gêmeos que estão vindo.

Magali – Sério? Que babadão…

Julieta – É, Maga, ele falou que tem um “macete” para conseguir dinheiro… Vê se pode?

Magali – Geeeente… Será que ele virou traficante?

Julieta – Acho que ele está vendendo muamba. Ah, mas é pelos filhos, né?  A gente não é ninguém para julgar…

Magali – Jesus, mas a amiga lésbica poderia pelo menos ajudar, né? É por isso que eu não gosto dessas sapatonas aproveitadoras.

Julieta – Amiga, deixa eu desligar, eles voltaram! Beijo!

Magali vai fumar um cigarro e encontra a Margô do faturamento.

Magali – Oi, Margô…

Margô do faturamento – Oi, tudo bem?

Magali – Tudo…

Margô – Hum…

Magali – Novidades?

Margô – Não, e voc…?

Magali – MENINA, O PATRÍCIO DO FINANCEIRO VAI SER PAI DE GÊMEOS!

Margô – Quê?!?! Mas ele…

Magali – Pelo que eu sei, é barriga de aluguel de uma amiga sapatona.

Margô – Gente, me arranca o cu com um saca rolha, mas não diz isso! Que bafo!

Magali – Ele está fazendo uns biscates imorais para construir um segundo andar na casa dela. Eles vão morar juntos e fazer uma família promíscua.

Margô – Sério? Essa obra no segundo andar deve ser o pagamento do Patrício pela barriga de aluguel da lésbica.

Magali – Olha… Eu não tinha parado para pensar nisso!

Margô – A gente pode conseguir muita coisa com o nosso útero…

Magali – Vou alugar o meu por uma mobília no apartamento. O tempo que eu ia gastar pagando, eu uso na gravidez.

Margô – Hahahah, beijo, Maga, vou descer.

Margô esbarra com Valquíria do recursos humanos. Elas são amigas desde os tempos do baile do hímen, em 1981.

Valquíria do recursos humanos – Margô, você não sabe o que eu descobri!

Margô – Eu seeei! Que o Patrício do financeiro vai ter gêmeos gerados pela amiga lésbica dele e que ele começou a vender muamba falsificada para construir o segundo andar na casa dela! Ele prometeu fazer isso para retribuir o favor que ela está fazendo, aí eles vão morar juntos lá!

Valquíria – Menina… Você está viajando!

Margô – Claro que não!

Valquíria – Claro que sim! O Patrício vai ter os gêmeos mesmo, mas é com uma mulher que ele conheceu no disk paquera. Ela é rica e solitária e tem uma casa em Penedo. Quando o segundo andar ficar pronto, eles vão se mudar daqui. Ele arranjou um macete para se manter lá. Vai abrir uma loja de mel e geleia real. E o pai dela é quem vai bancar tudo no começo!

Margô – Como você sabe?

Valquíria – Sabe a Cristina do financeiro? Aquela que senta perto da Lulu, da Julieta e do Patrício? Então, ela contou para a Janaína do planejamento, que contou para a Maroca do Comercial que me contou agora!

Chifre de unicórnio

nov 16

Às vezes as conversas chegam a pontos tão esquisitos que a gente fica sem saber se as pessoas não têm o que falar ou se elas têm em excesso. Duas amigas e eu conversávamos sobre a hipótese de haver um indicativo explícito de que uma pessoa fez sexo (implícito há milhões, desde bom humor repentino até autoconfiança eterna que expira em 5 dias). Dentre o que listamos, elegemos o que seria mais legal: assim que a pessoa consumasse o lesco-lesco, brotaria em seu crânio um chifre de unicórnio. E ele adornaria a cabeça do felizardo por uma semana, com direito a renovações a cada coito antes de findar o prazo de validade.

Imagina que coisa acordar de ressaca no dia seguinte com um chifre na cabeça.

Seria divertido, porque com um chifre de unicórnio, tudo ficaria mais na cara. Os nossos pais dariam sustos na gente, pois reza a lenda que quando o filho transa, os pais voltam à virgindade, mas obviamente não é assim que o leite vira iogurte. Eles fazem, e a gente saberia já no café da manhã. Mais bizarro ainda ia ser quando os nossos avós estivessem na semana do aniversário de casamento (data comumente considerada “o dia nacional da obrigação em mão dupla”). Mas provavelmente os avós não sairiam de casa, nem para almoço familiar, até que o chifre sumisse. Eles sempre querem passar uma mensagem de moral e bons costumes para os mais novos.

Mas do jeito que o ser humano é 50% teatro, provavelmente a gente criaria uma indústria enorme que manipulasse o chifre nas pessoas. Haveria, por exemplo, clínicas clandestinas para extirpar o chifre de adúlteros. Aquele tipo de clínica que ninguém conhece, mas que sempre um amigo pode te indicar. A remoção obviamente não deixaria cicatriz, senão de nada adiantaria.

Na verdade, se a história da humanidade tivesse essa bizarrice, a nossa cultura se encarregaria de tampar os possíveis chifres de todo mundo. Seria uma peça comum do vestuário um elmo pontudo para esconder o que você fez ou deixou de fazer na última semana. Não importa se houvesse algo a esconder, todos usariam por via das dúvidas (só os humanos fingem que não são sexuais). Menos, é claro, quem tivesse feito votos de castidade – inclusive, a forma de mostrar ao mundo a manutenção do voto seria a ausência de apetrechos na cabeça.

Por outro lado, como um espelho, haveria outra indústria igualmente poderosa para fazer justamente o contrário: implantar o chifre. Lojas e mais lojas onde você poderia comprar logo um pack com quatro chifres e passar a impressão mensal de que estivesse funfando como um touro. Ou então um unitário, só para usar em momentos estratégicos. É claro que também teríamos um exército de cirurgiões plásticos habilitados para fazer um implante mais elaborado, que durasse pelo menos um ano. Provavelmente casais num casamento de aparências seriam os maiores clientes de um consultório que fizesse o implante.

Milhares de coisas mudariam. A indústria pornô teria categorias a mais (usem a perversão e a criatividade), o código penal forjaria uns parágrafos a mais sobre crimes passionais (a mulher descobre que foi traída, serra o chifre do marido e enfia nele onde couber – 10 anos de cadeia), os casamentos durariam menos ainda, nasceriam grupos de funk como “Bonde dos chifrudos”… Seria uma existência surreal.

Tô começando a achar que preciso beber menos…

Tirinha #6 – O ano que vem

nov 10

Autoria Marina e Pedro
Ilustração Daniel Cramer

A vida de todos nós

nov 08

De tempos em tempos, as pessoas curtem polemizar alguma coisa. Depois da falsa saída do cantor sertanejo da dupla, deixando papai Francisco triste, foi a vez da ocupação dos alunos na USP.

Todo mundo quer saber o que você acha. Todo mundo quer opinar, todo mundo quer dar o seu pitaco, o seu RT no Twitter e o seu compartilhar no Facebook, mas enquanto isso, a louça suja de casa continua crescendo sem ter ninguém para limpar (inclusive a minha).

É bom falar da vida dos outros. Da luta dos outros. Dos ideais dos outros. Mas e a sua vida? E os seus ideais? Onde estão? E quem vai falar deles se não você, que está ocupado demais falando da dos outros?

O gosto por falar da vida alheia é tão grande que novela tá aí pra isso. Para você poder comentar, chorar e amar a vida de pessoas quem nem se quer existem, só pelo prazer de se entreter falando de uma vida que não é a sua.

Antes revolucionário da Gap do que revolucionário do sofá, que só levanta a bunda da cadeira para requentar a sobra de macarrão do dia anterior.

Avaliar o valor de um ideal pela roupa que o outro usa é assinar seu próprio atestado de completo imbecil.

Nada contra quem não tem ideais, quem não quer lutar por nada, quem está pela vida só de passagem, mas é justo esse tipo de pessoa querer criticar o coleguinha ao lado?

A luta toda é pelo direito de fumar maconha na faculdade? Olha, meu amigo, poderia ser até por querer fumar as cinzas do bisavô que ainda assim teria o seu crédito.

Admiro quem luta por alguma coisa. Seja ela qual for, toda luta merece seu reconhecimento. Toda luta tem seu ponto, tem seus lados e suas versões. Se a luta não for pelo extermínio geral, ou sei lá, pela aceitação da pedofilia ou do estupro da coleguinha gostosona, então porque não seria válida?

Os limites são ensinados de forma errada. A pessoa cresce achando que viver em sociedade significa precisar do aval do vizinho e obviamente, cresce achando que também pode ser esse vizinho, que mesmo não lavando as cuecas ou pagando as contas do amigo, se acha no direito de limitar suas escolhas e ações.

O problema é que sempre haverá alguém para achar que a vida do outro é direito seu. Sempre haverá alguém para achar que o que o outro faz ou deixa de fazer, é problema seu. E sinto informar, mas não é.

Momentos memoráveis

out 31

Estávamos conversando sobre rotina e memória em um bar chamado Fábio Jr. (reza a lenda que o único código universal para que qualquer garçom venha até você é chamá-lo de Fábio Jr., a Glorinha Kalil deveria colocar isso no seu próximo livro). É meio aflitivo perceber que na falta de momentos memoráveis, os dias não destoam uns dos outros, o que acarreta a fusão de todos esses momentos em uma só massa. Assim, a gente não sabe o que fez na terça passada ou no sábado retrasado simplesmente porque esses dias foram muito parecidos com os outros, e não têm referências suficientes para serem resgatados no limbo da nossa cabeça.

O nosso cérebro só deixa de colocar as vivências rotineiras em uma gaveta empoeirada se a gente salpicar esses momentos com alguma coisa fora do normal. Estou lendo um livro que fala sobre isso, e nele aparece um cara que pretende mostrar que o nosso tempo psicológico se alarga se a gente tiver momentos mais memoráveis, pois os dias passados não se confundem parecendo uma coisa só. Não que a gente tenha que ir para o Camboja todo mês para poder viver mais (até porque viraria rotina), mas se rodear de pequenas coisas novas para o cérebro. Assim a gente consegue nortear mais dias passados, eles se separam uns dos outros, e a nossa noção de tempo se alarga.

É claro que você não precisa se sujeitar a coisas que não quer só por causa da sensação de que está vivendo mais. Isso porque sair da rotina pode ser um suplício, e porque tem gente que está muito feliz com o próprio dia a dia. Não se importam em esquecer o que viveu, contanto que estejam vivendo agradavelmente.

No meio do papo no Fábio Jr., nos perguntamos se aquele dia tinha alguma chance de ser inesquecível; eu disse que se a gente fizesse algumas coisas esquisitas, talvez fosse. Aí levantei a camisa e mostrei meus mamilos para eles. Não me lembro bem (merda), mas alguém entoou uma expressão de “que porra desnecessária, Pedro, tire isso do alcance da minha visão”.

É que, por exemplo, se você ler a expressão “garrafa de vinho” (ou vir alguma garrafa em cima da mesa), ela vai entrar num compartimento que contém todo o campo semântico de “vinho” do seu cérebro: uma adega mental com um monte de garrafas velhas, uns porres, umas taças e outras bobeiras sobre a bebida. Mas se você pegar uma garrafa de vinho e, sei lá, e tomar um banho com ela, essa garrafa vai ser a memória com mais apelo dentre todas com o mesmo tema, ou seja, vai ser infinitamente mais fácil resgatá-la no futuro.

A simples “garrafa de vinho”, a rotina, na nossa vida de Fábio Jr. são justamente as idas ao bar. Com tantas no currículo interno, elas correm sérios riscos de parecerem umas com as outras. Pelo menos essa foi a única ida ao bar em que mostrei meus mamilos (o que até pode ser rotina para alguns). É tímido, mas já é um começo. Se conseguirmos transformar o “tomar um banho de vinho” em uma coisa divertida e menos constrangedora, acho que estaremos no caminho certo. Mostrar os mamilos só foi divertido para mim porque as pessoas riram, e eu negocio a minha dignidade diariamente para atingir esse objetivo.

É uma pressão muito forte esta sugestão de dogma – bem-intencionado – de viver cada dia como se fosse o último. O trabalho, a família, a faculdade não deixam, e a vida não deixa você deixá-los todos (ou forçá-los a jogar merda no ventilador junto contigo). Você mesmo se boicota, porque a sensação de comodidade e segurança é um colchão felpudo como uma chuvinha lá fora.

No sábado passado tive um dia obviamente alcoolizante, mas com teores inesquecíveis. Por um deslize de planejamento, nosso enorme grupo foi a um bar que fechava antes de te fazer dizer que amava o próximo. E num mundo cruel como esse, a urgência do amor é uma obrigação. O bando inteiro, tal qual um grupo de retirantes, andou quase um km (a gente se perdeu) em busca de um porto seguro para finalmente extravasar o amor. Assim que todos nós chegamos, o Fábio Jr. da vez fez a pergunta mais detestável de todas:

- Vão querer alguma coisa da cozinha? Ela vai fechar em 15 minutos.

Depois que o bar fechou (logo), uma parcela do grupo foi para a casa de um grande amigo, comprou 15 cervejas e conversou belezinhas até as 8 e meia da manhã. Aí sim. Quando eu estava chegando a minha casa, já cantando Frank Sinatra em norueguês, reparei que tinha uma feira ao lado dela. Pensei “nunca na vida entrei em uma feira por vontade própria, pode ser agora”.

Entrei, vi as frutas, as pessoas sóbrias, para as quais aquela manhã já era domingo, os vendedores, com ânimo bêbado quase tão grande quanto o meu, e fui parado por um deles.

- O que deseja, amigão?

Apontei para aquele quarto de melancia, pensei “odeio melancia, mas foda-se, é alegórico” e fiz o pedido. Entrei em casa quase às 10, e meus pais estavam conversando na sala. “Surpresa, gente, trouxe melancia!”, eles começaram a rir e disseram “seu bêbado maluco!”. Algumas amenidades conversadas, o cigarrinho do arremate, e um “boa noite” proposital para quem já havia tido uma possível boa noite. Foi a piada do fim de semana para a família e um indício provável de que esse dia será resgatado muito mais facilmente da minha memória. E eu não precisei mostrar mamilos pra ninguém dessa vez.

Você não se quebrou

out 29

Vasos chineses se quebram. Copos de cristal, ventiladores de teto, discos da Tina Turner, se estivermos com sorte. Pessoas nunca, a não ser quando esquecem de olhar os dois lados. Mas emocionalmente falando, não. Quem sou eu pra dar pitaco na sua fossa? Ninguém. Você levou um tombo e tanto, e pronto. Se machucou, ok. Dói, eu sei. Perdeu sua capacidade de amar, verdade. Ou não. Não existem verdades, apenas versões, na minha versão.

Sei bem como funciona, quantas vezes já fui dispensado do amor. Muitas. Quis quem não me queria, amei quem enganava, compartilhei unilateralmente, acreditei no sonho hollywoodiano, me quebrei, levantei, desisti, contei mentiras, interpretei. Parece propaganda de telefone celular via rádio estrelada pelo Fábio Assunção, mas é só minha versão daquele trânsito caótico de um amor para outro.

Você não se quebrou, eu não me quebrei. Nascemos com a disposição natural para o amor. Falo por você e eu, não pelos bárbaros da história – Hitler, por exemplo. Sim, não conseguimos imaginar viver sem, sentimos saudade, choramos, compramos discos e livros por impulso, atravessamos sábados com calças de abrigo revisando filmes melancólicos – meus favoritos são “Um Beijo a Mais” ou “A Vida é Bela”, produções genuinamente italianas, terra de gente que ama demais.

Bem, como gosto disso de sofrer com pés na bunda, resolvi amar de novo, a contragosto, paladar típico de um desistente. Cafés da manhã românticos, passeios de mão, festas em família, palpites de sogra, distribuição de beijos e mordidas em pezinhos pequenos. Viajamos pelo mundo sem sair de casa. Sabe quando o gostoso da transa se estende ao sono abraçadinhos? Pois é. Além de piegas, um prato cheio pra quem quer, mais uma vez, sair com a impressão de que o amor é o diabo com a garganta cortada ou um cão sarnento e raivoso.

Eu não estava quebrado, foi só uma interpretação, uma versão daquele ato final. Um sonho curto, ruim e mesquinho dentro do meu sonho maior, longo e aberto – apelidado de vida real, existência, a lucidez com suas esquinas e possibilidades. Eu não me quebrei, só atribui importância demais à oscilação momentânea da minha autoestima, valor demais a mim mesmo, pior, ao objeto dessa dependência psicologicamente física. Uma versão demasiado dramática do meu abandono. Fiz da minha vida uma ópera, um livro.

Você continua apto e aberto ao amor. A sede não seca. Se as coisas não aconteceram é porque não aconteceram. Pretensão sua achar que se fechou, que pode decidir, dirigir sua vida. Demita sua analista e olhe pros dois lados. Você só está perpetuando sua primeira experiência sobre o fim, cristalizando a primeira lágrima que caiu, como se tudo aquilo que acabou fosse realmente grande, infinito, definitivo.

O amor te feriu como fere uma flecha sem velocidade e impulsão. Ela cai no chão, você junta e enterra no próprio peito. É pena que quer despertar no outro, no próximo, no amado que se foi? Ninguém tem pena de você. Basta nascer para começar a sofrer, tudo é impermanente, não se iluda. O amor é gasoso, invisível, lendário, metafórico, um sonho. E como todo sonho é insólito, não pode ser cadeado em algum outro lugar que não o coração.

Seu coração não quebrou, pelo contrário, é única coisa que ficou intacta. Ele está lá, esperando por outrem. Como o meu, que pulsa melhor que antes. Um dia vou despertar e voltar a me abraçar com a solidão, estou sabendo. Por hora, não. Amanhã. Hoje, sigo sorrindo, chantageado pela minha versão atual. Toda manhã meu sonho acorda dentro de outro sonho.

Não temos o hábito de postar textos de terceiros aqui no blog, mas esse texto merece ser compartilhado. Créditos desse texto maravilhoso ao igualmente maravilhoso Gabito Nunes

Página 3 de 5112345678910