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Pílulas sem propósito ou conexão

Se houvesse um concurso para eleger as pessoas mais cools do orkut, com certeza 99% dos finalistas seriam aqueles que só têm testimonials de uma linha só em seus perfis. Você já reparou que aquele seu amigo hype só tem depoimentos hypes de uma linha, vindos de amigos igualmente hypes, formando uma teia de amigos [...]
Leia Mais Por Pedro   |   0 Comentários
jun 10

Pizza de Aliche

“Sabe quando você era uma garotinha e acreditava em contos de fadas? Aquela fantasia de como sua vida seria - o vestidinho branco, o Príncipe Encantado que iria te carregar até o castelo. Você se deitava na cama à noite, fechava os olhos e acreditava piamente em tudo. No Papai Noel, na Fada dos Dentes, no Príncipe Encantado - eles tavam tão perto de você que dava para sentir o gostinho deles. Mas aí você cresce e um dia você abre os olhos e o conto de fadas desaparece. A maioria das pessoas acabam então se dedicando às coisas e às pessoas em que confiam. Mas o lance é que é difícil se desprender totalmente de um conto de fadas porque quase todo mundo tem um tiquinho de fé e esperança que uma dia eles vão abrir os olhos e tudo aquilo vai se tornar realidade. “ (Grey’s Anatomy)

ABI5MD pizza
Creative Commons License photo credit: Northern Transplant

Quando eu era pequena, comia pizza com azeitona. Colocava azeite. E adorava aliche.

Quando chegava a pizza aqui em casa, a família toda brigava pelas maiores azeitonas.

Cresci assim, achando que gostar de azeitona era quase como uma obrigação, e simplesmente não me passava pela cabeça, a idéia de alguém não gostar. Era surreal demais para poder ser uma opção.

Comecei a dividir pizzas com gente fora de casa e então me deparei com uma situação:

A maioria das pessoas deixavam a azeitona no canto do prato, odiavam aliche e colocavam maionese na pizza.

Aquilo parecia o mais absurdo dos absurdos. E mesmo sendo um tanto quanto prepotente da minha parte achar que só porque eu era assim, todo o resto do mundo deveria ser também, eu ainda não conseguia engolir o fato de estar errada.

Passei muito tempo tendo isso como verdade absoluta; comecei então a não me surpreender com mais nada de ninguém e quando consegui parar de olhar para o meu próprio prato, vi que ainda havia muito mais:

As pessoas também não gostam de quindim, nem de purê de inhame, usavam o relógio no pulso direito e não colocavam orégano no sanduíche de queijo.

Para Vinícius

Corra Mary

Por Corra Mary   |   1 Comentário
jun 10

Bruna

“Quero averiguar a minha inveja, olhar de perto o meu rancor, cheirar as minhas feridas. Sentir de novo as cicatrizes de um masoquismo de uma vida inteira. Seja adorando outra vez aqueles que não me quiseram, ou rastejando em agradecimento àqueles que ainda querem comer meu cu.” (Fernanda Young)

Quando tudo começou a incomodar de maneira que não conseguia mais pensar em outra coisa, sentei na cama com a minha pior cara, cruzei as pernas e pensei “e agora?” sem a menor esperança de um “agora”.

Liguei a televisão e vi desenho o resto da tarde toda. Não que eu esperasse que fosse solucionar o que não tinha solução. Não ajudou em nada, mas pelo menos também não piorou. E na hora, isso me era lucro.

Precisava falar com a Bruna.

Bateu uma enorme e incontrolável vontade de fazer com que ela soubesse tudo o que estava acontecendo.

Não era uma situação de ajuda, conselho, ou respostas que mudariam o meu mundo, era uma situação de Bruna, e só queria que mesmo sem poder ajudar, ela ouvisse. Mesmo perto, ela fizesse algo com o longe e mesmo sendo só a Bruna, ela fosse tudo o que Bruna é.

Sempre adorei minhas unhas enormes e vermelhas, mas não conseguia achar Bruna em casa, e com o celular ainda chamando por Bruna, ruí todas as unhas da mão esquerda. E segundos depois, todas as da direita.

Funcionava mais ou menos assim: Escolhia um dedo qualquer, de preferência o que estivesse com o esmalte mais intacto, arrancava com os dentes o máximo que conseguisse, e cuspia o resto no chão do quarto. Ardia, eu não queria e sabia que ia me arrepender, mas a sensação de arrancar devagar aquilo que eu sabia que depois ia crescer de novo, me fez achar que talvez valesse a pena doer por alguns dias a mais.

Não foi da minha vontade, mas acabei deixando um recado qualquer: “Oi Bruna, sou eu, me liga. To precisando de qualquer coisa.”

Mas que tipo de mensagem era essa? Como se ela tivesse que saber só pela voz quem era aquela pessoa que resolveu ligar só porque as coisas não foram como o esperando.

Bruna tinha outras amigas. Bruna sempre teve muitas amigas, e poderia pensar que eu não era eu, porque eu sempre era quem não deixava recado na máquina pedindo ajuda.

E se Bruna fosse escutar os problemas de outra, enquanto os meus ainda eram fresquinhos e tristes o suficiente para fazer Bruna chorar comigo?

Bruna não me ligou nos infernais 5 minutos que se seguiram e eu senti subitamente uma enorme vontade de ir até a casa dela, apagar a mensagem, comer salada de macarrão e ir embora.

Não levantei da cama por dois anos, ou pelo menos foi o que pareceu, fiquei parada, olhando pra janela com vista para o nada, enquanto a maquina falava sem parar:

“Sou eu, Bruna! O que houve? Ta em casa? To indo praí. Vê se não vai roer todas as unhas.”

Para Bruna

Corra Mary

Por Corra Mary   |   0 Comentários
jun 10

O infortúnio de Aroldo

“Responsabilidade é realmente uma merda. Infelizmente, uma vez que você passa da fase dos aparelhos e do primeiro sutiã, a responsabilidade não vai embora. Ou alguém nos força a encará-la ou então sofremos com as conseqüências. E, ainda assim, ser adulto tem seus pontos altos. E eu falo dos sapatos, do sexo e da falta dos seus pais te dizendo o que fazer. Isso é muito, muito bom!”
(Grey’s Anatomy)


Aroldo, leonino, meia idade, trabalhava de 7 ás 7 para manter sua cobertura em Ipanema, seus 2 carros e sua mulher viciada em compras.
Numa estressante segunda-feira de trabalho recebe a ligação de Leila no seu celular de última geração:

- Oi amorzinho, sou eu, tudo bem?
- Oi Leila. Fala…
- Então, resolvi abrir espaço no guarda-roupa. Tá faltando espaço aqui pras roupas, sabia?
- Leila, eu só tenho 5 gavetas pras minhas coisas, sendo duas de meias e cuecas, vc tem um closet e mais as outras 5 portas TODAS pra você.
- Mas não tá dando, Aroldo. Preciso me desfazer de algumas coisas.
- Das minhas?
- Ah, amor, sei que tem coisas que você nunca vai usar mesmo. Me diz que eu vou doar tudo.
- Ah, Leila, sei lá. A gente não pode ver isso quando eu chegar em casa?
- Não Aroldo. Tô indo agora lá no orfanato da Irmã Celeste. Lembra dela? Que foi minha professora no Jardim de Infância. Te contei que virou freira?
- Se desfaz de qualquer coisa então. Não me importo.
- Pra que todo esse descaso, Aroldo? Eu aqui querendo fazer uma boa ação e olha como você é.
- Leila, eu preciso trabalhar.
- Pode doar aquela sua calça verde musgo que você ganhou no Natal passado?
- A minha preferida?
- Ela ocupa muito espaço, Aroldo. Já tô botando na sacola.
- Tá, Leila. Só não toca na minha coleção de gravatas.
- Ah, e tem aqueles moletons que você só usa quando vamos para Teresópolis. Qual deles você não quer mais?

Vicente, afro-brasileiro, motoboy recém chegado a empresa, ariano de sangue quente, passa pela sala de Aroldo e escuta parte da conversa:

- Se desfaz daquele preto novo então que eu odeio.

Dia seguinte, primeira página do jornal:

“Homem, classe-média alta é brutalmente assassinado por racismo”

Corra Mary

Por Corra Mary   |   1 Comentário
jun 10

Mulher apaixonada: inteligente e calculista

“Parece que o destino nunca se manifesta sem ironia!”


Creative Commons License photo credit: Mila Ramos

[.Situação.]

Você descobre que “ele” malha na academia perto da sua casa.

[.Plano.]

Você detesta malhar, não suporta professor sorridente e saltitante de academia, mas não interessa, você não pensa duas vezes antes de se matricular justamente lá.

Como você ainda não sabe os horários, dias e aulas da criança, por via das dúvidas você se matricula em todas. Desde musculação e judô, a hidroginástica e Ioga . Afinal, ele pode ser um pouco mais “sensível”, né?

É uma pena que aquele seu tubinho preto, lindo de morrer, não seja a roupa mais apropriada, então você vai as compras o mais rápido possível, se preocupando em primeiro lugar em não parecer um peixe-boi enfiado numa calça de lycra azul-marinho. Acredite, conseguir a proesa de ficar sexy e arrasadora em roupa de malhar, não é para todas.

Depois de uma semana e meia de pura malhação, afinal, você não tem tempo para mais nada, além da academia, você vê de longe o indivíduo. Arruma o cabelo, seca o suor, empina a bunda (que agora você se orgulha dela) e vai em direção ao banheiro… Na verdade você está indo em direção ao almoxarifado, o banheiro fica do outro lado da academia, mas você não pode perder a oportunidade de dar aquele esbarrão esperto, e além do mais, é óbvio que ele não vai se ligar nisso. São detalhes, apenas detalhes…

Você se joga em cima dele, ele se assusta e olha pro lado. Te reconhece, pergunta como você vai e você responde com as sobrancelhas levantadas e a mãozinha na cintura:

- Nossa, você malha aqui?

Corra Mary

Por Corra Mary   |   4 Comentários
jun 10

(A)normal

“A vida é cheia de mudanças. Às vezes elas são dolorosas, outras vezes são lindas e, na maioria das vezes, ambas as coisas.” (Dawson’s Creek)

Ela não conseguia lavar todo o amontoado de roupa suja que parecia interminável.
Ela tirava uma por uma e aquilo era infinito. Parecia que tinha engolido a cama para sempre.
Não importava, ela não dormia mais.

Ela andava por todos os lados da casa sem conseguir se lembrar de verdade o que estava fazendo ali. Como se toda sua memória estivesse sendo apagada de segundo a segundo, não a deixando ter memórias novas, pensamentos novos, e ela estava presa ao segundo anterior disso tudo ter começado. E nem disso ela conseguia se lembrar. Na verdade dizem que ela apenas não queria e que inventara uma língua só sua, para não dividir com mais ninguém.

Ela não era louca daquelas que se sentem pena por aí, daquelas que assustam ou a fazem pensar na tal lucidez ausente, ela apenas tinha cansado. Seja lá do que fosse, era evidente que ela tinha cansado, e que ficara presa naquela linha que divide um lado do outro.
Não era louca o suficiente para ser chamada de anormal, e nem normal o suficiente para ser chamada de qualquer uma.

Nunca se soube quando nem aonde. Nunca vieram nos contar o porque daquela moça nunca ter saído da linha divisória, mas minha última recordação dela, era quando se sentava e começa a escrever todas as cartas que ela costumava a escrever na sua língua e lia alto para que o mundo todo soubesse do que ninguém conseguia entender.
E por fim, todos permaneceram sem entender uma só palavra.

Corra Mary

Por Corra Mary   |   0 Comentários
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