Festa da empresa
dez 26

Toda empresa que se preze oferece ao seu empregado uma oportunidade singular: destruir a reputação do ano inteiro em apenas um dia, na festa de fim de ano da firma. Isso acontece porque o álcool é a mãe de todas as possibilidades. Algumas pessoas, talvez na carência de amor maternal, enxergam isso somente pelo prisma positivo e mergulham numa piscina que começa na euforia e termina no desgosto. Pois é, se você puder escolher entre tipos de ressaca, escolha sempre aquela que te faz vomitar.
Minha festa da firma aconteceu na longínqua área de Xerém, conhecida por abrigar um CT das categorias de base do Fluminense e por sempre inspirar a impressão de “caralho, que lugar longe da porra” nos habitantes cariocas. Nada contra, o longe para mim pode ser o perto para você (essa regra só não se confirma para Santa Cruz, Islândia e Netuno).
Pegamos nossos abadás para a festa, entramos em um dos ônibus e fomos felizes da vida para lá. Quando chegamos a Xerém, o motorista começou a vacilar quanto às certezas inexoráveis que todo condutor possui quando segue um itinerário, ou seja, ele estava perdido. Uma curva para lá, uma consulta no mapa para cá, e o motorista se achou. Imbicou nosso busão para um sítio, e todos ficaram felizes.
Um bando de pessoas de camisa branca, tal qual uma nação umbandista, desceu do ônibus para a festa. Reparamos que as pessoas do evento não estavam de branco e tampouco nos olhavam com alguma receptividade. O clima não estava ameno. Ficamos uns 30 segundos numa espécie de duelo psicológico com eles até percebermos que nós havíamos entrado na festa errada. Aquele era um evento de fim de ano do Banco do Brasil, e nós éramos 45 penetras perdidos e um motorista com orgulho ferido (motorista de ônibus errar o caminho deve ser como um jogador de futebol perder um pênalti).
Será que o PIB de Xerém cresce no final do ano devido a festas de empresa? Se no único lugar errado onde nos enfiamos já tinha alguma coisa, podemos esperar que a cidade seja um polo regional de festanças de firma.
Voltamos todos para o ônibus, e o motorista, na mais cristalina vibe de “quando se é mau fodedor, até o saco atrapalha”, pôs a culpa no mapa do convite da festa. Se ele tinha razão, somente os deuses do transporte e da cartografia poderão dizer.
Na enorme tenda montada para a solenidade havia uma infinidade de mesas, cadeiras, empregados e animadores de festa. É desolador ver o trabalho de um animador no início de uma festa; as pessoas estão sóbrias, portanto ninguém dá confiança para os pobres coitados. Isso me leva a crer que quando é uma festa adulta, a empresa de animação de eventos só aceita fechar contrato se uma cláusula indicar que haverá um tonel de birita por convidado. O lema das empresas de animação é o mesmo do que o da indústria pornográfica: “nosso trabalho é muito mais difícil no seco”.
Mas em duas horas, as pessoas já vendiam a dignidade por valores que as moedas ainda não conseguiram se rebaixar para alcançar. O cúmulo nervoso da coisa foi quando o animador (já fazendo valer o seu know-how de animação) propôs um concurso de dança cujo vencedor ganharia uma máquina digital.
Dois caras disputaram utilizando toda a falta de categoria que puderam reunir. Quando a contenda se encaminhava para o mais justo dos empates, o animador, sempre em consonância com os desejos de Lúcifer, sugeriu que eles se despissem, porque sempre há como penetrar mais fundo rumo ao núcleo terrestre da vergonha.
Apenas um teve coragem de ficar de cueca (ou sunga) no palco. Nesse momento, enquanto ele dançava “Na boquinha da garrafa”, eu pensava “sniper justiceiro, cadê você?”. Ele ganhou a tão sonhada câmera digital, e eu me perguntei o que eles fariam se valesse uma TV de led. Um pirocóptero com o pinto em chamas? Enfiar um punhal pelo cabo na bunda e fingir ser um abelhão? Tatuar o cólon? Graças a Deus eu fui embora na metade do evento.









