Corra Mary

11 abr 2013

O nosso amiguinho foi embora

Nosso amiguinho foi embora

— O nosso amiguinho foi embora… O nosso amiguinho foi embora.

Ela, 84 anos, na iminência do sexagésimo aniversário de casamento, sobre o marido, para os dois netos. Seu marido, meu avô, sorteado pela impossibilidade da morte, agora era só uma alma partilhada em frações desiguais nos interiores da gente viva que gosta dele. A morte é a única coisa impossível que acontece. É impossível e repentina, independentemente da idade, das condições de quem se desfaz disso aqui, porque não existe preparação suficiente. A morte é impossível até que se prove o contrário, e quando o contrário é provado — sempre —, é uma surpresa terrível.

E o que sobra para ela, 84 anos, 59 deles numa referência involucrada num caixão? Não sei, deve ser muito pouco. Mais de meio século compartilhando os hábitos, as tarefas e os sonos com alguém sugere que a morte também deveria ser compartilhada. É essa a injustiça que torna a vida muito mais difícil do que bonita.

Mas, e é quase uma afronta dizer isso a quem se perdeu da metade de si com a morte do outro, ela, aos 84 anos, tem um resquício de consolo. Esse resquício se encontra nos suportes familiares de que ainda dispõe.  Chegou o momento de usar a família em uma de suas maiores finalidades: neutralizar precariamente a dor pelas peças que a desfazem aos poucos. Pelas peças que deixam de existir, impossível e repentinamente. É um suporte insuficiente, porque a verdadeira sustentação acabou de deixar de ser, mas sofrer acompanhado já é algo perto de quem só tem os próprios ombros para chorar.

Ela, 84 anos, não é António Jorge da Silva, 84 anos também, cria de Valter Hugo Mãe. Ele, apenas mais uma ficção real da literatura, perde a esposa, se vê sozinho (mesmo com filhos) e é mandando para um asilo, onde se ultraja com o tratamento infantil que recebe, se deprime, vê a morte ceifando seus companheiros, se reinventa à força e convive com a saudade constante.

“passados vinte e três dias, a elisa e o meu genro vieram visitar-me. traziam os meus netos, o miúdo e a miúda, e eu senti que já não poderia adiar mais o encontro. assim que entraram no meu exíguo quarto, as portadas abertas para mostrarem que vivemos em profunda claridade, fizeram fila no correr do roupeiro e permaneceram esticados como para revista de tropas. verifiquei que estavam de gala, todos adomingados para me verem e eu imaginava bem a elisa a dar ordens precisas sobre isso. quero-vos arranjados porque vamos ver o avô. e eu senti-me um idiota por ter julgado algum dia que as suas visitas iam ser constantes, coisa do quotidiano, para que eu acreditasse ainda na união da família. que idiota fui, de facto, assumindo ali diante deles que se punham embonecados no disparate de acharem que assim devia ser para irem ver quem outrora viam todos os dias. era como transformarem-me num passeio aborrecido…”

Ela não vai passar por isso. Enquanto a impossibilidade não lhe tomar a vida e lhe devolver a companhia do marido em alguma instância das suas crenças, ela jamais será um passeio aborrecido.

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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04 abr 2013

Os novos cambistas

cambista

Hoje começou (e terminou também) a venda dos ingressos do Rock in Rio. A internet só falava disso, todo mundo feito louco tentando e se frustrando no site para realizar a compra. Alguns conseguiram, mas muitos só ficaram na vontade mesmo. Não é todo mundo que pode parar a sua vida para ficar, numa manhã de quinta feira, tentando por horas realizar uma compra num site completamente instável até conseguir.

Para aqueles que não conseguiram, só resta agora a opção de esperar a sorte de futuramente conseguirem ganhar àquela promoção esperta da rádio ou comprar o ingresso de alguém que por algum motivo desistiu. Quem comprou hoje, talvez na data por algum imprevisto não possa ir, e sabe o que essa pessoa fará? Ela não apenas venderá o seu ingresso, ela irá querer lucrar fortemente com ele. E então, por saber que está tudo esgotado, venderá o seu ingresso não pelo preço que comprou, mas por duas, três vezes o seu preço original.

Um ingresso que já não é barato (R$ 260 a inteira) sairá por uns R$ 600. Esse será o preço que você, meu amigo, terá que desembolsar para assistir ao seu ídolo de pertinho.

Essa é a nova geração de cambistas. Não são mais aqueles caras que compravam 10, 20 ingressos para venderem na porta do evento por preços absurdos. Agora, os cambistas estão nos seus amigos da rede social e te chamam de amigo, mas não hesitam na hora de lucrarem com o seu, ou de qualquer outro, precioso dinheirinho por algo que não servirá mais para eles. O preço só será justo para o bolso deles.

São essas mesmas pessoas que tanto se chocam com o desvio de dinheiro público do político ladrão, ou que acham um absurdo o preço caríssimo daquele video game no Brasil enquanto lá fora ele cai quase que pela metade. O espertinho não gosta que alguém o faça de otário lucrando com o seu dinheiro, mas não perde a oportunidade de fazer o mesmo com outro alguém se puder se beneficiar com isso.

Existe um ditado que diz que se você quiser conhecer uma pessoa de verdade, basta dar poder a ela. Nessa situação, a pessoa que tem o ingresso tão cobiçado, tem o poder e o que ela fizer com esse poder, diz muito sobre quem ela é.

Num mundo perfeito, ninguém aceitaria ser feito de otário, e o ingresso super ultra mega inflacionado encalharia na mão dos espertinhos que não só deixariam de lucrar rios com ele, mas perderiam o dinheiro que pagaram inicialmente pelo ingresso, mas infelizmente estamos falando de sonhos. Então aquela pessoa que sonha em ver o seu ídolo ao vivo, pagará. Com raiva, mas fechará os olhos e pagará.

Para quem é espertinho, deitar a cabeça no travesseiro e ter a consciência plenamente limpa de ser uma pessoa naturalmente honesta, pode facilmente ser substituída por dinheiro no bolso. E foda-se se é sujo ou não, o Iphone 5 não pode ser comprado com honestidade, então para que mesmo ela serve?

[Editado]
A atividade do cambista constitui crime contra a economia popular, previsto na lei 1521/51, com pena de até dois anos de prisão. Então, meu amigo, se você se deparar com alguém vendendo ingressos por um preço muito acima do que realmente valem, saiba que a pessoa não está só sendo desonesta, ela está cometendo um crime, então denuncie!

A denuncia pode ser feita pelo Disque Denuncia 181, pelo 190 ou pessoalmente numa delegacia de crimes virtuais.

    “CRIME CONTRA A ECONOMIA POPULAR- Cambista que compra ingressos de espetáculo e os revende por preço superior ao real – Configuração: – Inteligência: art. 2º, IX da Lei de Economia Popular

    251 – Configura, em tese, o delito do art. 2º, IX, da Lei nº 1.521/51, a conduta do cambista que compra ingressos de espetáculo e os revende por preço superior ao real, máxime porque os cambistas, atuando de modo organizado e ardiloso, têm constantemente saqueado a economia popular com suas investidas, condicionando a diversão da população ao próprio enriquecimento. (Recurso em Sentido Estrito nº 911.579/1, Julgado em 20/12/1.994, 13ª Câmara, Relator: – Roberto Mortari, RJDTACRIM 24/474)”

Postado por Marina | Categorias: Crônicas, Marina
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25 mar 2013

Cheeseburger de azulejo

azulejo

Se existe uma coisa que me deixa um pouco constrangido em trabalhar com palavras, além de não ter certeza absoluta de que a regência nominal de “constrangido” é realmente “em”, é o excesso de questões esquisitas que envolvem a nossa língua. Essas questões existem em outros idiomas? Sim. Eu vou abordá-las? Sim. Estou mentindo? Sim. Este texto é em vão? Se depender do primeiro parágrafo, sim.

A língua é um gigantesco organismo vivo que vai evoluindo com o passar do tempo, e há alguns timoneiros essenciais nesse trajeto. Eles vão conduzindo o idioma, com um propósito universal de extrema nobreza: não virar zona. Eles analisam, por exemplo, se “queijo” continua significando “alimento derivado do leite da vaca, da cabra, do besouro etc.”. Se em algum momento, “queijo” significar “ladrilho vidrado por um lado, com desenhos e cores variadas, que se usa para cobrir superfícies”, teremos três opções: ou a língua evoluiu rápido demais, ou as pessoas começaram a colocar azulejo no cheeseburger, ou algum dicionarista acabou de receber uma demissão por justa-causa.

E, para não virar zona, esses timoneiros discutem o que é certo e o que é errado. É aí que muitas vezes começa o problema. Eles não concordam entre si; há uma trava na matrix que os impede de dizer “beleza, tô contigo nessa”. Há milhões de casos nos quais “os gramáticos não chegaram a um consenso”, o que, a bem da verdade, abre um precedente confortável, porque podemos colocar a culpa neles se escrevermos alguma blasfêmia constrangedora. Se nem eles, que já conjugavam o verbo “anuir” no jardim II, chegaram a um acordo, eu não sou absolutamente ninguém para acertar tudo por, aí.

Pra mim, português tem ao menos uma conexão com a cocaína: quanto mais puro, mais mortífero. Se um alucinado cometer o ultraje milagroso de gravar todas as regras do português e resolver aplicá-las numa revisão, o resultado só poderá ser lido com naturalidade na ABL.

Só que, apesar das estranhezas que a deixam meio turva, a norma culta é bacana. Ela deve ser seguida, senão realmente as coisas viram uma zona (e só quem já comeu um cheeseburger de azulejo sabe como isso é doloroso — todos os meus dentes de fundo estão quebrados, isso sem contar com uma pequena farpa de cerâmica que ficou presa entre o meu siso e a minha gengiva). Não precisamos peidar alfazema a cada frase, até porque pompa nunca significou decência, mas seguir a norma é uma excelente maneira de evitar a encheção de saco das pessoas.

Estou, se você reparar, pregando para o português a mesma coisa que o Dove pregou para a estética quando falou em “Real beleza”. Ninguém precisa falar um português perfeito, mas você vai esfregar merda na cara antes de sair de casa? A menos que a festa tenha um tema controverso, não. Então acho que a pessoa não precisa escrotizar o idioma. A língua, querendo ou não — e eu não tenho habilidade para mudar isso —, é um artifício que, noves fora a literatura, só sobressai no erro ou na pompa. A mensagem muitas vezes é descartável. O erro é inesquecível.

 

Adendos que, por falta de competência, não consegui incluir no texto:

1)      A propaganda que eu fiz do Dove foi involuntária. Na verdade, aquele ¼ de creme hidratante deixa o sabonete molenga em três banhos. Eles precisam decidir se querem ser um sabonete em barra ou um sabonete líquido.

2)      Ainda estou avaliando se os dois moleques que testaram (sem aspas, eu acredito neles) os corretores do Enem são geniais (sobretudo o do miojo, que ainda escreve bem) ou dois completos idiotas. A verdade é que o Enem não pode sair dando zero para todo mundo. O Enem é um professor bonzinho, dá ponto onde consegue. Toda avaliação revela o resultado de duas partes: a do avaliado (a óbvia) e a da instituição do avaliador. Os colégios mais precários, por exemplo, são aqueles nos quais você consegue tirar as melhores notas, e geralmente sem ser provocado intelectualmente. É exatamente o mesmo panorama do Enem e do Mec, imaginando-se que um seja a prova e o outro, a escola.

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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20 mar 2013

Fernanda, o retrato de muitas

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Até hoje, nunca escrevi sobre Big Brother aqui no blog. Não é novidade para ninguém que me acompanha no Facebook ou Twitter que assisto o programa e eventualmente expresso opiniões sobre, mas esse texto na verdade não é sobre o programa, mas sim sobre um comportamento de uma participante que estranhamente possui o favoritismo dessa edição, o que me choca, diga-se de passagem. Por tanto, mesmo que você não assista ao programa, tenho certeza que conhece muitas Fernandas por aí.

Desconstruindo Fernanda

Dificilmente alguém conseguiria passar 3 meses sendo realmente um jogador. Calculando cada ato, pensando antes de agir e deixando de lado quem realmente é. Uma hora, o personagem sai e a pessoa se mostra completamente nua em toda sua essência. Fernanda não está sendo nada além do que é. Fernanda é linda e isso é indiscutível, e não é preciso ser um gênio para saber que a vida de uma mulher bonita é sempre mais fácil. Sempre tendo alguém para cortejar, para encantar, para fazer todas as suas vontades. As mulheres bonitas se acostumam com isso. As Fernandas da vida real lutam pelos seus objetivos, claro que lutam, mas com a facilidade de por onde passam, encontrarem pessoas dispostas a darem sempre um empurrãozinho a mais, fazendo com que suas lutas não sejam assim tão massacrantes, afinal o sorriso das Fernandas é encantador e derrete qualquer coração.

Fernanda não é a primeira Fernanda do reality e nem será a última, mas as Fernandas se perdem completamente quando se dão conta que há algo muito mais importante e forte que seus sorrisos meigos em jogo: o dinheiro. E então, suas belezas e carismas não possuem mais os mesmos resultados que possuíam na vida real. E o que acontece? Elas não sabem mais como interagir com as pessoas, já que algo que fizeram a vida inteira, não funciona mais e então, perdidas e desequilibradas, entregam o jogo para qualquer homem, que nunca teve isso durante sua vida e que por isso não se perdeu, leve o prêmio para casa. Esse é o motivo de nenhuma mulher bonita ter ganhado o BBB, com exceção de Maria, que na verdade só foi vencedora não por mérito próprio, mas sim por outro participante, Maumau, ter lhe entregado o prêmio numa bandeja, embrulhado para presente com laço vermelho em cima e tudo.

Nunca sozinha

As Fernandas nunca estão sozinhas. Em suas vidas, os homens fazem fila para terem sua companhia, para terem uma chance de desfilar com elas ao lado e isso acostuma mal, muito mal. Então Fernanda nunca conseguiria passar 3 meses, mesmo que num programa de tv, sem formar casal. Porque é assim que é a sua vida fora dali. Mas e se o rapaz não quiser uma Fernanda? Então é óbvio que é gay, já que em suas mentes insanas, o único motivo para um homem não as quererem, é que não goste de maneira nenhuma de mulher. Qualquer mulher. Já que para elas, elas próprias são a melhor categoria de mulher que um homem pode ter, exigir e esperar. Uma prepotência sem igual, mas não é de se estranhar, já que para as Fernandas, o mundo só gira em torno de terem suas vontades egoístas supridas e não importe o que isso custará ao outro.

Não necessariamente o que motiva esse comportamento carente seja apenas o sexo, o toque, ou o beijo, mas sim a presença masculina. Os cavalheirismos, os mimos, tudo aquilo que potencializa esse sentimento de “eu sou mais eu, e qualquer um também deve ser” que centraliza suas vidas.

E então elas sugam seus companheiros. Grudam e são extremamente dependentes, já que declaradamente não conseguem viver sem um homem ao lado, atrás, na frente, nelas por completo, que viva por elas, que se alimente delas, que respire elas 25 horas por dia, 8 dias a semana. É incabível para qualquer Fernanda que um homem tenha uma vida. Para elas, a vida de um homem tem que ser ela mesma.

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O príncipe de papel alumínio completamente descartável

Não existe maior símbolo de idealização do que um príncipe. O príncipe é aquele que monta num cavalo e enfrenta bruxas, dragões, maldições, apenas para ter a princesa, que por sua vez não faz nada. Só dorme, de olhos bem fechados, sem mover um dedo que seja e fica lá, linda e bela apenas esperando. E qualquer pessoa que já passou dos 15 anos de idade, sabe que relacionamentos não são contos de fada e que a vontade e dedicação de ambos precisa ser na mesma intensidade para que dê certo. Mas porque uma Fernanda iria se preocupar com um relacionamento, já que se esse príncipe se cansar e for embora, rapidamente aparecerá outro disposto a ocupar o lugar vazio, mesmo que por pouco tempo?

Fernanda vestiu André, o primeiro que apareceu, com todas as suas fantasias adolescentes. Se não fosse ele a ocupar o lugar de príncipe, seria qualquer outro. Fernandas não se apaixonam por pessoas, se apaixonam pelas suas próprias idealizações.

André desde o início mostrou que não estava disposto a ser príncipe de ninguém e isso soou como uma afronta, como um desafio para ela. E isso foi um prato cheio para que pudesse fazer o que mais gosta: joguinhos.
Provocar ciumes, dramatizar, se vitimizar, sentir pena de si mesma, pagar de sofredora e viver a novela que tanto almeja viver. Fernandas não querem viver uma vida, querem viver uma novela, e mexicana, onde pisam e maltratam um homem e ao virarem as costas, ele puxar seus braços e lascar um beijasso de 20 minutos. E aí, pronto, não importa mais o que aconteceu, qualquer ato se torna desculpável e assim vão vivendo até o próximo capítulo, onde tudo volta a acontecer.

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A incapacidade de lidar com as frustrações da vida

Sabe o que acontece quando uma Fernanda não consegue o que quer? Ela culpa o mundo. Ela culpa qualquer um, nunca ela mesma. Ela se descontrola, ela não sabe como agir, ela não age racionalmente e doa a quem doer, a vontade da princesinha mimada não foi realizada e isso se transforma num apocalipse.

Fernanda agrediu fisicamente dois participantes diante de uma frustração pessoal sua. Jogou bebida na cara, um ato de desrespeito sem igual, e pasme, um desses era o seu próprio “príncipe”.

Mulheres como a Fernanda acham que ser mulher as dá total direito de poderem tratar os outros da forma como bem entenderem, principalmente os homens, já que cresceram com a ideologia de que um homem nunca pode de jeito nenhum agredir uma mulher, faça o que ela fizer, mas se esqueceram de aprender que agressão é agressão, seja vinda de qualquer um, e não se torna mais amena quando vinda de uma mulher.

Para as Fernandas, as consequências de seus atos são um insulto e não podem ser aplicadas à elas. Porque? Ah, porque elas querem, ora bolas. E em seus mundos, isso basta.

O ato de jogar bebida na cara de alguém é exatamente a forma como Fernanda vê os outros: um grande nada, com todo o desprezo possível. O desrespeito dessa atitude é como Fernanda enxerga qualquer um que não seja ela: um joão bobo com a única finalidade de descarregar suas frustrações.

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As amizades frágeis 

Quem nunca ouviu piadinhas a cerca das amizades femininas? Piadas que expressam que amizades femininas são falsas, descartáveis, com uma tentando detonar a outra pelas costas. As amizades femininas não são assim. As amizades Fernanda é que são.

Fernandas dificilmente conseguem fazer amizade com mulheres não Fernandas. Elas precisam de alguém com pensamentos e atitudes que reforcem as suas próprias. E porque essas amizades vivem turbulentas? Porque duas Fernandas nunca conseguiriam abrir mão do egocentrismo para uma convivência minimamente saudável. A forma como lidam com o mundo, é obviamente a forma como lidarão com suas amizades. Uma Fernanda não fará as vontades da outra, já que só conseguirá se focar em suas próprias. Da mesma forma que também dificilmente conseguirão manter uma amizade com um homem, já que esse, num papel apenas de amigo, não terá obrigação alguma de estender um tapete vermelho para cada passo dela.

Suas amizades só possuem uma regra: Conto com você, mas não conte comigo.

O que acontece então é que uma Fernanda troca uma amiga Fernanda por outra amiga Fernanda. E suga cada uma da mesma forma que suga um affair e a trata não como uma amiga que possui uma vida e outras amigas além dela, mas a trata como uma amiga namorado, uma amiga que exige veemente toda a dedicação, exclusividade e a fidelidade de um cachorro, sem que sinta a obrigação de retribuir. Relacionamentos unilaterais, amizades unilaterais.

O mundo eu

Imagine-se numa mesa de jantar com outras quatro pessoas dividindo a mesma mesa. Para qualquer uma das pessoas presentes, a cena se mostra sob a perspectiva de dois ângulos, dois mundos. O ângulo geral, do mundo, como se visto por alguém fora da cena, onde 5 pessoas jantam numa mesa, e o ângulo mundo eu, onde cada pessoa, vista por seus próprios olhos, enxerga apenas 4 pessoas à mesa. Por mais que você saiba que existem 5 pessoas naquele espaço, você, do seu ponto de vista, só enxergará quatro.

As Fernandas só conseguem enxergar o mundo eu, onde assistem suas próprias vidas como telespectadoras, e não se dão conta que também fazem parte daquele ambiente e que se tudo acontece da forma como acontece, elas também possuem direta influencia naquilo.

Para elas, todos os acontecimentos acontecem à sua volta, para elas e por elas, fazendo delas não meras participantes, mas sim, deusas, que exigem adoração exclusiva e ininterrupta.

É difícil conviver com uma Fernanda. Eu, particularmente, não tenho paciência para aturar comportamentos mimados excessivos. Não suporto gente egocêntrica. Não carreguei ninguém na barriga por 9 meses para ter alguém dependente de mim e nem para amar incondicionalmente sempre desculpando e se anulando nesse tipo de convivência doentia.

Esse é o comportamento que toda mulher deveria fugir, ir na contra mão, correr o mais longe possível para o outro lado, mas infelizmente é o comportamento de muitas, ouso ainda dizer que da maioria, e senhoras e senhores, essa mulher, a personificação do egocentrismo e do desprezo pelos outros, será premiada justamente por esse comportamento. Um prêmio que só enfatiza tal comportamento. Não exclusivamente numa pessoa que provavelmente nem eu e nem você conheceremos algum dia, mas enfatiza o comportamento de todas as Fernandas por aí, que ao verem uma Fernanda receber um prêmio desses, se convencem que o certo mesmo é serem cada vez mais Fernandas.

Um minuto de silêncio por todas e todos nós, por favor.

Postado por Marina | Categorias: Crônicas, Marina
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18 mar 2013

Marco Karofsky Feliciano

glee

Muitas vezes não sabemos se é a arte que imita a vida ou se é a vida que imita a arte. Arte e vida se encontram até mesmo na ficção mais improvável. Sempre haverá uma vida para se assemelhar ao que a arte nos apresenta.

Quando assistia a serie musical Glee, lembro-me de um personagem muito marcante, o Karofsky. Era um aluno da escola onde se passa o seriado, jogador de futebol do estilo “machão” e que implicava constantemente com outro personagem assumidamente gay, o Kurt. Agressões verbais e inclusive físicas não eram raras. O ódio de Karofsky contra Kurt era gratuito, apenas pelo fato de Kurt ser homossexual.  Até que em um episódio, quando Kurt confrontou Karofsky, esse então o beijou e assumiu que seu ódio por ele era na verdade um amor secreto, com uma pitada de inveja por ele viver tão bem assumindo ser quem é, sem medo ou vergonha, já que Karofsky vivia atormentado por seus desejos renegados. Ou seja, Karofsky agredia Kurt porque além de nutrir um amor que  enxergava como errado, via nele o que ele tanto queria ser, mas não tinha coragem para. O ódio na verdade não era de Kurt, era de si mesmo.

Desconfio de todo ódio gratuito à uma pessoa, uma classe ou grupo. Ódios gratuitos normalmente são frutos de problemas pessoais que a pessoa não consegue lidar de forma racional.

Como todos já devem estar cientes, o pastor Marco Feliciano é o atual presidente da comissão de direitos humanos e minorias, o que tem gerado indignação já que Feliciano dá constantemente declarações preconceituosas, homofóbicas, ignorantes e fanáticas, sem medo de retaliação. Ao menos, coragem o pastor tem.

“Africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé. Isso é fato. O motivo da maldição é polêmica.”

    “a maldição q Noe lança sobre seu neto, canaã, respinga sobre continente africano, dai a fome, pestes, doenças, guerras étnicas!”

    “Sendo possivelmente o 1o. Ato de homossexualismo da história. A maldição de Noé sobre canaã toca seus descendentes diretos, os africanos”

    “Não foi racista. É uma questão teológica. O caso do continente africano é sui generis: quase todas as seitas satânicas, de vodu, são oriundas de lá. Essas doenças, como a Aids, são todas provenientes da África”

    “a AIDS é o câncer gay”

“A podridão dos sentimentos Dos homoafetivos levam ao ódio, ao crime, a rejeição.”

“Não tenho nenhum tipo de preconceito: na minha secretaria vou atender negros e gays como se fosse qualquer pessoa normal.”

(Essas são algumas das declarações de Marco Feliciano, presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias.)

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Como um presidente da comissão de direitos humanos e minorias pode ser tão preconceituoso e com tanto ódio justamente das minorias as quais deveria o mesmo representar?

Diante de tais declarações, imagina-se que Feliciano seja uma espécie de Hitler tupiniquim, e que sua aparência seja justamente o oposto do que tanto odeia. Quanto às declarações racistas, Feliciano, não pode esconder que é, no mínimo, mestiço. E, por favor, somos brasileiros. Chega a ser ridículo um brasileiro racista. Odiar o que está em seu próprio sangue soa, por baixo, triste e digno de pena.

Já seria bizarro se parasse por aí, mas aparentemente a questão vai ainda mais fundo.

Semana passada, assisti à um vídeo onde o então deputado, declarava que havia chamado a polícia por ter clicado num link GAY no site UOL e ter achado conteúdo GAY. Ora, o que o gênio achava que encontraria no link Gay? Receitas de bolo?

Seria então Feliciano apenas ingenuo e incoerente? Na verdade não.

No site UOL, não existe nenhum link GAY, mas existe o link SEXO GAY. Sim, se Marco Feliciano clicou em algum link, foi nesse. E antes de se deparar com os homens nus, recebeu um aviso da UOL, informando exatamente o que veria e com a opção de sair. E o que o deputado fez? Confirmou que era exatamente aquilo que gostaria de ver.

sexogay
sexogay2

E porque então ele chamou a polícia? Quando Feliciano se deu conta de que não estava no anonimato de seu lar, e sim em seu gabinete, onde o uso da internet é monitorado, precisou inventar rapidamente alguma desculpa para estar acessando tal conteúdo.

Marco Feliciano não é apenas um fanático religioso ignorante, nem um preconceituoso babaca. Ele é um Karofsky da vida real. É alguém com ódio de si mesmo, que possui extrema dificuldade em se aceitar do jeito que é: um mestiço gay. E que ao invés de tentar se entender consigo mesmo, ataca e oprime os que não possuem essa dificuldade.

E o que eu e você temos a ver com isso? Tudo!
É inaceitável que alguém que não consegue conviver com quem é, possa presidir tal cargo. Que benefício alguém que mesmo fazendo parte dessa minoria, a repudia veemente, pode trazer?

A vida pessoal do pastor não é de interesse de ninguém, mas se passa a influenciar diretamente em seu cargo público, então se torna sim uma questão geral.

Espero, com o pouco de esperança que ainda mantenho, que o atual presidente seja afastado e que outro, realmente capacitado, ocupe o lugar, e que Feliciano se reprima pro resto de sua vida, ou dê a bunda loucamente em paz, mas que em nenhum dos casos, sua escolha pessoal tenha a possibilidade de interferir negativamente na vida de mais ninguém.

Postado por Marina | Categorias: Marina
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