
Fogos de reveillon: depois de três minutos, ninguém mais tem saco para ver
Clichê é como calça de moletom. É fácil de usar, tem em absolutamente tudo quanto é lugar e, na falta de algo mais apropriado, dá para usar em todas as ocasiões; é melhor do que sair com a bunda ao léu. Mas é feio e dificilmente gera respeito a quem não varia (na vestimenta ou na linguagem). Só que, ao mesmo tempo, se a calça de moletom é tão fácil de achar e usar, provavelmente ela não foi consagrada à toa. O mesmo talvez se diga dos “O tempo é o melhor remédio” que existem na vida.
Esse parágrafo retardado é só para legitimar um chavão, o de que o tempo voa. Numa mochila propulsora. Com o botão de NOS apertado no talo.
Para tentar – miseravelmente – aliviar a consciência de quem acha que a areia do tempo está escorrendo loucamente, é bom se perguntar “o que eu estava fazendo na segunda quinzena de fevereiro?”, aí pula para abril, dá uma chegada na rotina de setembro, pensa na semana passada, e vê que, embora o tempo ande de trem bala, tem estação para cacete pelo caminho.
Janeiro foi um mês estranho. Me encontrava mortificado de saudades da minha namorada na época, que estava fazendo mochilão pela América Latina. Minha autoestima, do tamanho do pinto de um chinês no concurso “a menor genitália de Xangai”, me garantia que ela estava fazendo turismo sexual adúltero. Só depois vi que eu era um retardado, e mesmo que eu tivesse razão, em uma conjuntura mui remotamente possível, era só lembrar que chifre para o ser humano é que nem Deus para Tomé: se não viu, não existe. O mal do neurótico é achar que é telepata.
Ali me comprometi a ser menos possessivo e mongoloide. Fracassei miseravelmente, e só agora vejo algum resultado da minha autoanálise.
Fingi que me formei, apresentei a cerimônia de formatura e tudo. Todos receberam uma caixinha cilíndrica vazia para simbolizar a entrega do diploma. Para mim simbolizou muito bem a realidade.
Estagiava no Canal do Conhecimento, lugar que por dois anos me deu de mamar financeira e profissionalmente. O contrato acabou, e eu, a cinco milímetros da rua da amargura, arranjei um trabalho de peão de produção. Ali percebi o quão mau profissional eu poderia ser em um trabalho que não faz pensar. Fiquei lá 45 dias (que foram mais longos que o resto do ano todo) e fui demitido no dia 1º de abril. Ter sido demitido no dia da mentira foi um privilégio.
Abril foi como um pênis impotente: mole, mas preocupante. Fiquei em casa em férias forçadas, mandando currículo até para assessoria de imprensa de puteiro. Tentei aproveitar meu ócio para enfrentar o dragão da monografia, mas minha força de vontade me reservou um estilingue para matar o bicho. Além do mais, estava passando o campeonato mundial de curling (bocha, vassourinha, gelo…), aí tive que rever minhas prioridades.
Milagrosamente só fiquei um mês em cárcere privado. Se eu soubesse que seria assim, teria tratado o tempo de desemprego como férias. Fui admitido no meu trabalho atual e escalei um montinho a mais na montanha da prostituição. Depois de experiências com blog, teatro, jornalismo e produção, eu só poderia ter ido mesmo para o marketing. A tendência é eu começar a alugar minha bunda a partir de 2014. Mudei de setor no fim do ano e, para minha surpresa, não preciso fazer sexo para garantir meu sustento. Ainda. Agora sou produtor editorial, o que me traz profunda vergonha de exibir erros de português por aqui. Mas fôdace tambén, ningém é perfêito.
Reprovei a monografia no meio do ano, tive um dia dos namorados que dificilmente terá concorrentes, briguei exaustivamente com minha família, com minha ex e com alguns amigos e, – esquisitices do amor –, tive 500 momentos legitimadores de existência com essas mesmas pessoas.
Depois de um ano de gestação, meu filho com a Marina nasceu. Foi em uma manjedoura localizada na Bienal do Livro, em setembro. Graças ao livro do Corramary, a minha mãe agora me considera um escritor. Ela também me acha bonito.
De setembro para cá voltei para a selva da solteirice, joguei ioiô com as possibilidades sentimentais, fiz que ia, não fui, vivi em regime permanente de dúvida e saudade e me tornei uma pessoa menos beligerante. O que parecia impossível também aconteceu: passei a ser cada vez mais responsável, mas se eu morrer amanhã, terei dúvidas se vou ficar satisfeito com isso.
Cheguei a dezembro com trocentos planos na minha pochete mental. Como todo ano novo que se preze, 2012 se encarregará de eliminar a metade deles, mas a outra estará lá para ser construída. As peças de Lego estão em cima da mesa, e o meu saco está terminando de ser forjado no aço para o início das montagens.
Doismilionze foi rapidamente gigante, se é possível juntar esses termos para definir alguma coisa.
Obs.: Obrigado pelo tema, Ana! =D





