Corra Mary

22 dez 2011

Doismilionze, a retrospectiva

Fogos de reveillon: depois de três minutos, ninguém mais tem saco para ver

Clichê é como calça de moletom. É fácil de usar, tem em absolutamente tudo quanto é lugar e, na falta de algo mais apropriado, dá para usar em todas as ocasiões; é melhor do que sair com a bunda ao léu. Mas é feio e dificilmente gera respeito a quem não varia (na vestimenta ou na linguagem). Só que, ao mesmo tempo, se a calça de moletom é tão fácil de achar e usar, provavelmente ela não foi consagrada à toa. O mesmo talvez se diga dos “O tempo é o melhor remédio” que existem na vida.

Esse parágrafo retardado é só para legitimar um chavão, o de que o tempo voa. Numa mochila propulsora. Com o botão de NOS apertado no talo.

Para tentar – miseravelmente – aliviar a consciência de quem acha que a areia do tempo está escorrendo loucamente, é bom se perguntar “o que eu estava fazendo na segunda quinzena de fevereiro?”, aí pula para abril, dá uma chegada na rotina de setembro, pensa na semana passada, e vê que, embora o tempo ande de trem bala, tem estação para cacete pelo caminho.

Janeiro foi um mês estranho. Me encontrava mortificado de saudades da minha namorada na época, que estava fazendo mochilão pela América Latina. Minha autoestima, do tamanho do pinto de um chinês no concurso “a menor genitália de Xangai”, me garantia que ela estava fazendo turismo sexual adúltero. Só depois vi que eu era um retardado, e mesmo que eu tivesse razão, em uma conjuntura mui remotamente possível, era só lembrar que chifre para o ser humano é que nem Deus para Tomé: se não viu, não existe. O mal do neurótico é achar que é telepata.

Ali me comprometi a ser menos possessivo e mongoloide. Fracassei miseravelmente, e só agora vejo algum resultado da minha autoanálise.

Fingi que me formei, apresentei a cerimônia de formatura e tudo. Todos receberam uma caixinha cilíndrica vazia para simbolizar a entrega do diploma. Para mim simbolizou muito bem a realidade.

Estagiava no Canal do Conhecimento, lugar que por dois anos me deu de mamar financeira e profissionalmente. O contrato acabou, e eu, a cinco milímetros da rua da amargura, arranjei um trabalho de peão de produção. Ali percebi o quão mau profissional eu poderia ser em um trabalho que não faz pensar. Fiquei lá 45 dias (que foram mais longos que o resto do ano todo) e fui demitido no dia 1º de abril. Ter sido demitido no dia da mentira foi um privilégio.

Abril foi como um pênis impotente: mole, mas preocupante. Fiquei em casa em férias forçadas, mandando currículo até para assessoria de imprensa de puteiro. Tentei aproveitar meu ócio para enfrentar o dragão da monografia, mas minha força de vontade me reservou um estilingue para matar o bicho. Além do mais, estava passando o campeonato mundial de curling (bocha, vassourinha, gelo…), aí tive que rever minhas prioridades.

Milagrosamente só fiquei um mês em cárcere privado. Se eu soubesse que seria assim, teria tratado o tempo de desemprego como férias. Fui admitido no meu trabalho atual e escalei um montinho a mais na montanha da prostituição. Depois de experiências com blog, teatro, jornalismo e produção, eu só poderia ter ido mesmo para o marketing. A tendência é eu começar a alugar minha bunda a partir de 2014. Mudei de setor no fim do ano e, para minha surpresa, não preciso fazer sexo para garantir meu sustento. Ainda. Agora sou produtor editorial, o que me traz profunda vergonha de exibir erros de português por aqui. Mas fôdace tambén, ningém é perfêito.

Reprovei a monografia no meio do ano, tive um dia dos namorados que dificilmente terá concorrentes, briguei exaustivamente com minha família, com minha ex e com alguns amigos e, – esquisitices do amor –, tive 500 momentos legitimadores de existência com essas mesmas pessoas.

Depois de um ano de gestação, meu filho com a Marina nasceu. Foi em uma manjedoura localizada na Bienal do Livro, em setembro. Graças ao livro do Corramary, a minha mãe agora me considera um escritor. Ela também me acha bonito.

De setembro para cá voltei para a selva da solteirice, joguei ioiô com as possibilidades sentimentais, fiz que ia, não fui, vivi em regime permanente de dúvida e saudade e me tornei uma pessoa menos beligerante. O que parecia impossível também aconteceu: passei a ser cada vez mais responsável, mas se eu morrer amanhã, terei dúvidas se vou ficar satisfeito com isso.

Cheguei a dezembro com trocentos planos na minha pochete mental. Como todo ano novo que se preze, 2012 se encarregará de eliminar a metade deles, mas a outra estará lá para ser construída. As peças de Lego estão em cima da mesa, e o meu saco está terminando de ser forjado no aço para o início das montagens.

Doismilionze foi rapidamente gigante, se é possível juntar esses termos para definir alguma coisa.

 

Obs.: Obrigado pelo tema, Ana! =D

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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15 dez 2011

E no ônibus com ar condicionado…

Ar condicionado de ônibus seria uma ótima invenção caso o público-alvo a que se destinasse não fosse de seres humanos. Como bem disse René Descartes, em entrevista exclusiva na suíte presidencial do meu cérebro, “A gente sempre arranja um jeito filho da puta de escrotizar a porra toda”. Cheio de razão, não é à toa que a gente estuda esse cara no colégio.

Nossa natureza é assim, sempre haverá um desgraçado para pôr chiclete mastigado em lugares estratégicos onde se põe a mão (sério, invoco meus mais sinceros desejos de que o ebola destrua a sua vida); sempre um filho da diaba vai deixar o celular dele tocando merdas diversas no transporte público; sempre teremos um filho do gavana colocando bolsos nas mangas das camisas… Do bidê à bomba atômica, não adianta: a gente sempre arranja um jeito de imprimir nosso espírito de porco nas coisas.

Ônibus com ar condicionado é uma tradução de tudo isso.

O dia está numa temperatura de razoável para quente, e aparece o ônibus de ar condicionado. Essa é a pior conjuntura possível: quando se está na primeira temperatura que, de acordo com o código de conduta rodoviária, o uso do ar se justifica. Ao entrar, você já vê o motorista e o cobrador usando um casaco que nem a minha avó usaria para se proteger das dores da artrose no frio da Patagônia. Gangrena nas mãos, aí vamos nós.

A pergunta é: por que não deixar o ambiente com a sensação amena, já que os ares-condicionados possuem a miraculosa tecnologia de ajuste de temperatura?

A suspeita de resposta é: porque já que ônibus de ar-condicionado é mais caro, que se bote logo a temperatura de -273ºC* para amortizar em 3 milésimos de segundo os 20 centavos pagos a mais (*zero absoluto, assim como Descartes, você aprendeu na escola. Se não aprendeu, bem, -273°C é bem frio).

(Pus -273ºK, mas essa temperatura não existe, logo, mostro que não lembro o que aprendi na escola. Graças à Lisa, a imprecisão sobre temperatura foi corrigida, obrigado!)

O vandalismo esfria

A primeira postura a tomar quando se entra num iglu coletivo com rodas seria tampar as saídas de ar glacial. No entanto, em algum dia extremamente quente do passado, um vândalo desgraçado, que provavelmente reencarnará na forma de um testículo estéril de doninha na próxima vida, arrancou todo o aparato de controle do ar. Ou seja, ficou aquele buracão jorrando vento importado do Alasca, e agora você não pode fazer nada. Só congelar com ódio.

O contra-vandalismo

Aí algumas pessoas, percebendo que ainda têm 50 minutos de viagem no horizonte, resolvem apelar para se proteger da hipotermia. Fazem uma bola de papel e enfiam no buraco para estancar a ventania. Dá certo, mas às vezes dá tão certo que o papel fica preso para sempre no buraco, até chegar um dia extremamente quente, e você precisar fazer uma verdadeira cirurgia para retirar o tufo dali.

As verdades são as seguintes:

1)      Vandalismo fode quem não tem nada a ver com isso.

2)      O ar condicionado de ônibus só dá vazão quando não é necessário.

Outra coisa terrível de um ônibus de ar condicionado é que o ambiente é hermeticamente lacrado para o ar circular frio. O problema é que as trocas gasosas no nosso interior são egoístas, elas não ligam para o efeito destrutivo que vão causar caso precisem expelir, por exemplo, alguns milímetros cúbicos de veneno intestinal no ambiente. Trocando em miúdos, se o nosso intestino se manifestasse em sintonia com o nosso psicológico, o ser humano só peidaria ao ar livre. Mas não acontece isso.

Aí você entra no ônibus, o passageiro da frente lança uma bomba de efeito moral pelo ânus, e fica aquela sensação de que o cheiro não vai sair porque não tem para onde ir. Ele provavelmente só vai se dissipar se a gente respirar, se os nossos alvéolos pulmonares pegarem essas partículas de peido e jogarem na nossa circulação sanguínea. Ou seja, o peido em ônibus fechado não se dissipa; ele fica preso no interior de todos os passageiros, num pequeno esforço coletivo que legitima a solidariedade humana.

 

 

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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09 dez 2011

Conquistando respeito no trabalho

Pesquisa comprova que o respeito conquistado no ambiente corporativo não tem lastro para compras de cerveja

 

Estou há pouco mais de seis meses no meu atual trabalho e assumo que fico feliz com o respeito que conquistei. Obviamente não me refiro à parte profissional da coisa, esse respeito provavelmente desencarnarei sem saber como é. Na letra fria e fonte Times New Roman da verdade, se eu chegar a algum lugar no futuro, vai ser exclusivamente por simpatia e bom humor. A diferença entre ser um profissional de merda e um respeitado é um grande bolo na meiuca. Fico pendulando nessa área mediana, tal qual uma bolinha de Arkanoid.

Bom, agora que escrevi uma excelente carta de recomendação a futuros empregadores, posso explicar que respeito é esse que foi conquistado. Pegue um Doritos, ou um Chokito, ou um café, ou uma dose de heroína e vamos à história.

Meu amigo estagiário e eu somos aquele tipo de gente que tem uma genialidade tão grande e cristalina que vira motivo de chacota em qualquer lugar decente. Na faculdade, com pessoas da nossa idade, a gente já não é o bastião da respeitabilidade, no trabalho, então, com pessoas mais velhas e maduras, a falta de dignidade é quase tão certa quanto a morte.

Assim que ele entrou, começamos a jogar totó durante a hora de almoço. A rotina passou a ser essa: almoçar e ir para a área de lazer até completar a hora de intervalo. Só que nós não tínhamos habilidade suficiente para jogar na mesa principal com os caras bolados da empresa, então ficávamos no totó pequenininho, chamado carinhosamente de Engenhão ou série B.

E assim foi por semanas. Os caras bacanas transformando um jogo de pebolim na continuação do filme Esporte sangrento (muita agressividade e rivalidade em jogo), e a gente no totó café com leite adquirindo skills, subindo levels no duro RPG que é a vida no ambiente corporativo.

Aos poucos fomos nos enturmando com o pessoal da série A, mas não sem dor, porque não tínhamos know-how suficiente para fazer frente às lendas. Mas um dia a primeira vitória veio, e a gente se mijou nas calças de tanta emoção (claro que sem ninguém ver). Começava o filme adolescente daqueles alunos mongóis que vão ficando amigo dos caras que roubam o lanche dos mais mongóis ainda.

Estávamos subindo no estrato social da empresa, conquistando aquele tipo de respeito que só as pessoas que não nos conhecem bem podem depositar sem desconfiança. Os cumprimentos no corredor começaram, os “vai pro totó mais tarde?” ficaram constantes e a sensação de que éramos cools passou a borrifar na nossa alma. Mais tarde, quando chegamos ao totó, as lendas passaram a falar “ih, chegou a dupla, os caras são bons”. A respeitabilidade alcançou níveis nunca antes atingidos.

Até que um dia, abrimos nossa caixa de e-mail e vimos uma mensagem determinante. Era uma convocação dos caras para o paintball, esporte muito mais viril que totó, uma verdadeira guerrilha misturada com arte. Evoluímos de “frango de leite” para “galo de briga” graças a Deus, o grande Ash Ketchium da história. Ser chamado para participar do paintball era como um certificado de que tínhamos passado para o BOPE da empresa. A gente se abraçou emocionado, pois chegar à tropa de elite era um marco.

A guerra será hoje, o que provavelmente gerará um post falando que todo o respeito conquistado em seis meses foi sublimado em duas horas.

***

Contei essa história para o meu irmão, e ele, com o semblante mais solene que já havia cunhado na vida, me disse:

- Caralho, Pedro, sua vida é patética…

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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06 dez 2011

Bolsa estupro


Vira e mexe resolvem tirar alguma notícia velha do saco do esquecimento e torná-la novamente alvo de debate virtual. Dessa vez foi a notícia do Estadão de 2007 sobre o projeto de lei “bolsa-estupro”. Quem ainda não conhece o projeto, clique aqui e leia a notícia do Estadão.

É vergonhoso ver que um deputado com ideias como essa foi eleito. Seria uma ótima piada se não fosse real. Num país como o Brasil, com tantos problemas sérios, um projeto absurdo, desumano e cruel como esses é criado. Não só o projeto é de um absurdo surreal, como a defesa do mesmo também. Não irei discutir sobre a legalização ou não do aborto, já falamos sobre isso aqui no blog (clique aqui para ler) e nem de longe esse é o foco.

Para início de conversa, não me importa se o governante é evangélico, macumbeiro ou satanista. Pode ser o que quiser, mas é impraticável que se misture política com religião, o Brasil ainda é teoricamente um Estado secular e a criação de um projeto desses, por mais que nunca venha a ser aprovado é uma afronta a minha e a sua dignidade.

O auxílio a uma vítima de estupro nunca deveria vir de forma financeira. Porque dinheiro, qualquer mãe precisa para cuidar de um filho. Tenha ela sido vítima de estupro, ou não. Essas mulheres precisam de ajuda psicológica, porque com ou sem filho, sofrer um abuso sexual é um trauma que elas carregarão pela vida toda e sendo assim, o mínimo que elas merecem é o direito a abortarem o fruto desse ato.

O projeto e seus criadores em momento algum se importam com essas mulheres, defendendo a ideia de um psicólogo presente não para auxiliá-las mas para imporem suas próprias crenças religiosas às vítimas: “O psicólogo comprometido com a doutrina cristã deve influenciar a mulher e fazer com que ela mude de opinião. – defende Afonso.”

Há quem diga que o problema todo é a bancada evangélica e suas ideias absurdas, mas para mim, religião não dita caráter. Uma pessoa baixa e ignorante, continuará assim em qualquer religião que escolha. A ditadura evangélica fere e suja a minoria evangélica que não compactua com isso. Impor suas crenças é um ato absurdo e estúpido, mas a generalização também.

No final do artigo, somos brindados com outra declaração estupida do tal deputado que consegue ser ainda mais absurda: “se, no futuro, a mulher se casa e tem outros filhos, o filho do estupro costuma ser o preferido.”  Quer dizer então que além de afirmar que as mães possuem preferência entre seus filhos, essa preferência obrigatoriamente irá ao fruto de um crime sexual? O quão absurdo e inverossímil isso é? Não é preciso ser um gênio para saber que a realidade passa longe disso.

Um projeto desses não visa o auxílio necessário a uma vítima e nem a solução para o crime, pelo contrário, se baseia em crença religiosa para usar o dinheiro público como forma de consolação e caridade fazendo com que um crime brutal e hediondo ganhe facetas aceitáveis, consoladoras e até incentivadoras.

O projeto por mais que nunca venha a ser aprovado, não pode de forma alguma ser levado ao esquecimento. Gravemos os nomes e rostos de seus idealizadores para que uma vez fora de seus cargos políticos, nunca mais venham a exercer nenhum outro.

Postado por Marina | Categorias: Crônicas, Marina
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05 dez 2011

Quadrilha


Quando tinha 11 anos, me apaixonei por um menino dois anos mais velho. O contato mais próximo que tivemos foi quando ele pisou no meu pé na fila da cantina. Mesmo sem ainda me dar conta, estava aprendendo uma importante lição sobre relacionamentos amorosos: gostar de alguém não era garantia nenhuma de que seria gostada de volta.

Tudo que eu mais queria era poder pedir pro meu pai comprar aquele garoto para mim, mas o amor não funciona assim e uma hora ou outra a gente tem que descobrir isso. E consequentemente se frustrar.

Anos mais tarde, fui também apresentada a “Quadrilha” de Drummond e pude entender que além do amor nem sempre ser bilateral, ele também traumatiza e estraga vidas.

“João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.”

Lili
Lili não amava ninguém, e consequentemente não sofria daquela pontada aguda no coração que só sente quem já amou sem ser amado de volta. Lili era livre, tinha alguém que a amava apenas por ela ser Lili, já que não retribuía esse amor. Ela conheceu apenas a face bonita do amor. Final feliz para Lili, se casou com J. Pinto Fernandes, que não estava na história, ou seja, não possuía passado nem ex para infernizar a vida de Lili. Mulher de sorte, eu diria.

Joaquim
Joaquim é apenas um dos casos trágicos dessa história. Ele amava Lili, que prefiria não amar ninguém a ter que amá-lo de volta. É triste quando se é trocado por outra pessoa, mas é mais triste ainda quando se é trocado pelo nada. Saber que nada é ainda melhor que você deve ser de uma dor enorme. Não por acaso, Joaquim suicidou-se.

Maria
Maria amava Joaquim, um rapaz provavelmente depressivo e com tantas cicatrizes internas devido ao seu amor pela tão livre Lili, que não conseguia enxergar Maria. O amor não é tão óbvio, é preciso observação, cuidado e mente sã. O que Joaquim, o futuro suicida, não possuía. Maria deve então ter ficado esperando que algum dia, Joaquim enxergasse todo seu amor e se arrependesse de todo o tempo que perderam sofrendo em vão. Mas como o amor da vida real não é um filme de Hollywood, o final de Maria foi esperar eternamente por alguém que nunca chegou e nem chegaria.

Raimundo
Raimundo amava a ingênua Maria, que gastou a vida esperando. O fim de Raimundo não foi decisão própria, ele morreu num desastre. Foi o único que não teve escolhas. Enquanto os outros dirigiram suas vidas da forma como acharam melhor, a de Raimundo foi dirigida. Talvez o fim mais trágico, já que a falta de escolhas é sem dúvida uma das formas mais cruéis de direção.

Teresa
Já dizia Caio F “Viver é a melhor vingança”. Teresa amava Raimundo que não a amava de volta, e deve ter nutrido essa desilusão de forma tão amarga, que desistiu pelo resto de sua vida do amor e dos homens, se mandando para um convento. Mas não pense você que Raimundo era flor que se cheire. Para uma mulher tomar uma atitude tão drástica dessas, provavelmente Raimundo possuía culpa em tanta mágoa. Deve ter pisado nos sentimentos de Teresa. E veja só como a vida é, se encarregou sozinha de dar o troco a Raimundo.

João
Na primeira vez que li esse conto, senti pena por João não ser amado por ninguém, mas depois pude entender que mesmo João não sendo evidentemente amado por outra pessoa, há uma história paralela a essa nas entrelinhas:
João mantinha um caso secreto com J. Pinto Fernandes, uma bicha enrustida e covarde, que por pura pressão social e sem coragem de se assumir para o mundo, casou-se com Lili para evitar fofocas e desviar a atenção. João, frustrado e enojado por tamanha covardia, decidiu que não se tornaria um fraco como J. Pinto Fernandes e foi atrás de seu maior sonho: foi ser Drag Queen nos Estados Unidos.

Fim

Já não acho que Lili teve um final tão feliz assim. O que nos leva a aprender a segunda lição desse texto: o amor é um saco de merda mesmo quando parece ser um vaso de flores.

Postado por Marina | Categorias: Crônicas, Marina
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