Corra Mary
09 jul 2012

Os pombos, as velhas e as putas

Há um mistério em Copacabana. O moço do bar não ligou a luz neon, Deus não jogou sua fumaça de festa sobre a área, não se ouviu uma nota sequer de piano, não há sobretudos, mulheres sedutoras, drinks e muito menos algum detetive best-seller, mas há um mistério em Copacabana. E esse mistério só faz vulto devido ao que andaram fazendo com os pombos da vizinhança.

Três cabeças em três dias. Elemento mais baixo do estrato social animalesco, o pombo é, nas palavras de vovó, uma “barata com ossos”, nas de tia Morgana, um “rato sem malandragem”. Eu detesto as duas, mas não pelos pombos. Tia Morgana e vovó são meio esotéricas, daquelas que creem demais em banhos medicinais, e creditam à mistura de ervas o segredo para a total ausência de doenças. As moléstias existem, óbvio, velho sem doença é mentira ou milagre (ou mentira), mas como as duas possuem alopatofobia, nenhum médico jamais teve a oportunidade de pescar no lago de seus interiores bichados as trevas que matam os outros. Descobrir a doença é metade da morte. Vovó e tia Morgana levam tal assertiva às últimas instâncias da pouca vida que as piranhas do lago ainda não comeram.

Mas, embora não sejam dignas de registros muito brilhantes, o que elas pensam sobre a trinca rato/pombo/barata faz sentido em qualquer instância. A parte medonha da coisa é notar que as duas velhas se regozijam com bichos decapitados, o que me obriga a pensar que quem se alegra com algo tão nanometricamente desgraçado não pode ter tendência à felicidade. É a falta de novidades na vida em níveis exorbitantes de despropósito. O único Deus crível, o das interjeições, merece uma conjuração. Deus me livre essas duas.

O serial killer de pombos continuou a obra nos dias seguintes. Retalhou um infelizinho, retirou e depenou as asas e jogou o resto do corpo fora. Ver o esqueleto de uma asa de pombo no chão te desaprende a perceber que aquilo já fez algo voar. Fez, mas não o suficiente para que o dono evitasse ser pego. O pombo mais assustador que expirou o prazo foi um que permaneceu inteiro, pois os carros (e os assassinos) já nos mostraram algumas vezes que pombos só morrem quando se estraçalham. Não há nada mais assustador no campo semântico desses bichos do que um pombo morto que finge que dorme.

Mas possivelmente a felicidade das velhas com os defuntos de Copacabana se dê por outra razão. Os chifres que adornam as cabeças decrépitas de vovó, tia Morgana e outras velhas aleatórias do perímetro estão sendo vingados.

Reza o folclore das cercanias que as prostitutas adotaram os pombos da região. Isso contraria as regras existenciais de que a explosão demográfica dos pombos tenha se dado graças às facilidades alimentícias proporcionadas pelas velhinhas com pão francês na mão. Em dias de rei, bolinhos com recheio cremoso. As idosas têm o crédito histórico de terem tornado essas aves um pouco mais educadas e menos medrosas. Hoje em dia elas não voam mais quando um pedestre passa. Elas dão licença.

Mas, pelo que eu saiba, são as prostitutas (algumas até velhinhas, mas conhecidas menos por serem velhas do que por serem prostituas) que têm esse papel na área dos recentes pombos mortos. Sempre depois dos michês, elas descem, ainda com as reminiscências do amor comprado em si mesmas, e ficam batendo papo com os pombos, jogando-lhes uns agrados, que, na selva urbana da concorrência por alimento, servem como um contrato de amizade eterna. Se os pombos tivessem consciência daquilo que as putas exauridas falam, teríamos vários livros interessantes sobre a intimidade do meretrício. As moças escolhem direitinho os interlocutores dos seus segredos de trabalho.

Muitos dos clientes dessas prostitutas são generais matusalêmicos, jogadores trêmulos de dama, aposentados de radinho de pilha, maridos das velhinhas em geral. Vovó se escalpelou de ódio quando soube que vovô usou a gravata especial justamente para ir ao prostíbulo. É porque vovô mantém o hábito de tomar o remédio para ereção antes de sair de casa para causar o falso efeito de que a prostituta lhe causou uma ereção natural. A moça finge que acredita, vovô se orgulha, e a canseira se inicia na base do teatro. Vovó, desconfiada como uma agente da KGB, não engoliu a gravata especial para “ver os amigos do dominó” e vasculhou o lixo familiar. Achou a embalagem do remédio, um cartão, ligou os pontos e esperou o velho chegar com cheiro de eucalipto.

A traição na 3ª idade é uma concessão em nome da companhia. É um pecado aliviado pelo “melhor que nada” dos casamentos que se resumem à dependência.  Pensando nisso, vovó adestrou os corcéis do coração e preparou o café da manhã como se na noite anterior seu marido não tivesse enfiado o pau numa moça parida três gerações depois da dele. Preparou o suco de laranja com o compromisso de obliterar a cena de um velho se tremendo todo em cima de uma mulher sem rugas. Isso doía, mas era um grilhão suportável perto da possibilidade de não ter alguém tão perto para odiar diariamente.

Vovó não estava sozinha nessa situação. Ela era só mais uma sócia do clube das velhinhas enganadas e resignadas com medo da solidão. No entanto, se elas não podiam atacar os maridos, pois dependiam deles para que o suco de laranja matinal fosse bebido por alguém, todo o rancor poderia ser direcionado às moças das casas de amor temporário.

O tricô da manhã agora tinha uma pauta fixa. Como escandalizar aquelas desgraçadas que vendem uma hora de boceta para os velhinhos delas (delas quem? Uma pergunta de que eu não sei mais a resposta). Vovó e tia Morgana organizaram um quartel general de idosas com raiva e instalaram o centro de inteligência na casa de dona Lélis, a viúva ressentida.

Dona Lélis perdeu o marido durante uma ejaculação adúltera cerca de dois meses antes. O coração de Alaor não tinha gana para aguentar mais uma trepada no american bar da esquina, mas seu pênis não concordava com os prognósticos e seguia cheio de vontades. Morreu em cima de uma moça, mas teve a dignidade profética de pagar antes pelo programa.

Durante algum tempo elas ficaram observando as meninas da vida durante a manhã, que é quando elas mostravam as caras. Chegaram à conclusão de que o melhor seria matar os animais de estimação daquelas mulheres. Os pombos. Seria o plano perfeito, pois num extermínio de pombos, velhinhas estariam acima de qualquer suspeita. Ninguém da associação de moradores chegaria cheio de interrogatório para aporrinhar-lhes a energia vital. Para completar o bolo da vingança, o crime seria costurado com todo o requinte de crueldade que a imaginação concebesse. A criatividade usada para o mal pode escandalizar, e elas sabem disso, nem sei como, porque elas não sabem de porra nenhuma.

O primeiro bicho pego no massacre foi um dos decapitados do início do relato. Por ser o mártir involuntário da indisposição entre as classes, as velhinhas lhe apelidaram de “pombo de piranha”, em alusão ao boi, certamente. Os assassinatos continuaram acontecendo, cada vez com uma idosa diferente sujando a mão de sangue. Era uma terapia. Era a redenção das aposentadas. As vísceras que sumiam da cena do crime iam sendo enviadas em caixinhas cor-de-rosa para os prostíbulos.

De fato, as meninas ficaram mortificadas, muito embora elas deem o troco inconscientemente sempre quando um velho se treme todo durante algum michê infeliz.

O que ofende uma puta? Como fazer daquelas putas específicas umas pessoas desoladas? As velhas iam se perguntando isso (enquanto suas dentaduras rezavam para sair das bocas), matutando, digerindo ideias e defecando outras piores ainda a partir das que vinham. Conceber um brainstorm de velhinhas vingativas me faz perguntar o que as pessoas não fazem pela inspiração. Que tipo de delito se justifica quando o seu propósito final é a arte? Não paro de pensar nisso desde que retalhei todos aqueles pombos em busca de alguma história.

 

Postado por Pedro | Categorias: Contos, Pedro
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Este post tem 2 comentários

  1. Genial como sempre!

    Comentário por Leo Coutinho @ 10/07/12 - 8:57
  2. O mar de copacabana mudava de côr e refletia em seus olhos dependendo do seu humor, às vezes doce, mais doce, do que o doce que dava ao casal de pombos que aninhava no fôrro do sobrado. As ripas mal alinhadas, deixavam passar, sóis e chuvas,alegrias e tristezas, a poeira de carros e cocô de pombos. Minha prima era linda em seus trigésimos aniversários. O casal alado sobreviveu, teve crias e ninguém os desalojou, afinal um ninho com vista para o mar não é de se jogar fora. A prima, coitada essa morreu de tanto rspirar a poeira que vinha do teto. Durou se tanto uma semana. O médico explicou depois, toxiplasmose, bactéria comum às fezes do tal bicho. Ainda sim, não os odeio, mas daria de bom grado um fim digno pras tais velhinhas e seus miolos de pão.

    Comentário por Roberto Simões @ 11/07/12 - 9:57
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