Corra Mary
28 nov 2011

O poder sobrenatural das palavras

- Pedro, tenho que te contar uma coisa, mas fica entre nós, ok?

- O que, o quê? Você tá grávida?

- AI, QUE HORROR, PEDRO.

Neste momento cabalístico, ela levanta de onde está para achar um pedaço de madeira e bater três vezes. Porque bater na madeira, para ela, é a garantia de que um campo de força automático contra “maus auspícios” se abrirá ao seu redor.

- Como você fala besteira, cara.

- Eu perguntar de brincadeira se você está grávida não te deixa mais fértil, relaxa.

- Ah, fica quieto!

- Palavras não provocam gravidez, que mania de só se apegar às coisas ruins. Se eu falar que você vai ficar rica, você vai ganhar na megasena, na loteria, no caralho? Claro que não!

- Ah, se acontecer alguma coisa…

- Eu assumo a criança, pode deixar!

- AHHH, PEDRO, PARA DE FALAR MERDA!

Ela bate na madeira mais uma vez. Sinto que a paciência dela está se esgotando, mas meu dever cívico de eliminar as superstições do mundo não me deixa recuar.

- Ué, se você provar que eu te engravidei só por ter feito uma piada, assumo mesmo.

- AHHH, SAI, NÃO QUERO MAIS FALAR COM VOCÊ!

A paciência dela se esgota por completo. Sinto minha vida em perigo. Por mais que meus espermatozoides não tenham entrado na negociação, fiquei com sincero medo de perder a amiga caso ela venha a engravidar de um cara qualquer de agora até os próximos 36 meses. A culpa seria minha graças ao meu poder de fertilização telepática.

A única maneira de uma palavra ser uma parte da causa de uma gravidez é se o cara usar a lábia dele para te levar para a cama. Mas o azar astronômico de formar um zigoto nisso aí é responsabilidade dos atos e da fisiologia. Jesus, soa até patético eu precisar ter dito isso, mas é que a gente atribui uma aura sobrenatural ao que as pessoas dizem (ao passo que geralmente passa batido o que as pessoas fazem).

Para mim, isso é resquício da remota época em que a gente via um trovão e achava que era Deus nos dando esporro. Ou que era preciso dançar uma macarena primitiva para fazer chover. Na falta de respostas, o que qualquer um dizia fazia sentido desde que houvesse sincronia suficiente para parecer uma relação de causa e efeito (alguém falar que uma mulher vai engravidar exatamente um dia antes de ela descobrir que está grávida, por exemplo). Mas, poxa, a gente não precisa mais disso hoje em dia.

Ela fica mais calma, e a gente volta a tocar no assunto, só que rindo da situação.

- Você lembra que ia me dizer alguma coisa, mas acabei interrompendo com a piada? O que é?

- Nada, não vou contar mais.

- Pô, conta!

- Não, você vai saber numa hora dessas.

- … Vou fazer um texto sobre essa situação retardada, tá?

- Tá bem. Mas espera eu ficar menstruada.

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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Este post tem 3 comentários

  1. Bom… Posso concluir uma coisa com todo esse texto…
    Ela menstruou XD

    Comentário por Ulrich Aguiar @ 30/11/11 - 20:25
  2. Nunca tinha pensado no assunto! Texto ótimo!

    Comentário por Thuany Santos @ 22/12/11 - 17:28
  3. hahahaha ri muito dessa crônica.

    Confesso que sempre gosto mais das crônicas da Marina, mas adorei esta! Talvez até pela simplicidade de “dia-a-dia” e também por ver essa superstição sempre!

    Comentário por Daiane @ 12/01/12 - 17:44
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