O homem e o livro
out 25
“Só os irresponsáveis são realmente felizes.”
O homem sorria e segurava um livro. Sentei ao seu lado e acendi um cigarro. Não trocamos nem um “bom dia” se quer. Era só eu de um lado, ele, seu livro e um enorme sorriso do outro.
Esforcei-me para ler o título. Alguma coisa em vermelho, escrito numa capa branca com umas enormes manchas cinza em baixo, ou algo parecido. De certo era um livro interessante, ou ele não riria com tanto gosto sem se importar se alguém o visse.
As pessoas têm disso. Se alguém ri sozinho, é certo que será chamado de maluco, e se gargalhar então, é capaz de até ser evitado pelos outros.
“Cruz credo, ele está rindo sozinho” – E isso seria o suficiente para trocarem de calçada como se o outro tivesse alguma doença contagiosa, ou coisa que o valha.
Mas você é muito bem aceito se anda todo engomadinho e com a sua pior cara pelo caminho de casa. As pessoas passarão por você com a cabeça baixa e pensarão: “Esse cara é bem sério, será que é casado? Seria ótimo se conhecesse minha filha.” E seguirão seu caminho com um tipo de orgulho social que dá até gosto de ver.
E não era preciso esforço algum para perceber que entre a mureta e o banco, não eram esses os pensamentos que passavam na cabeça daquele homem.
Talvez imaginasse os personagens do livro. Como seriam suas feições, seus narizes, seus cheiros e suas risadas.
Sem mortes, porque a morte não faz ninguém sorrir. E nem o amor.
E a cada página que ele virava, eu me sentia quase que na obrigação de também ler aquele livro. Eu, e mais o resto do mundo. Porque eu estava sentada naquele banco, e não ria. Não gargalhava, não tapava a boca para parecer menos risonha. Não via motivos para isso, porque não possuía aquele livro. Era só o homem. E ele ria.
E quem seria eu para explicar que era apenas um homem e seu livro?
As pessoas deveriam ler mais. E sorrir mais também. Sozinhas.





“Só os loucos são verdadeiramente felizes”
e enquanto as pessoas “normais” apontam pros loucos, criticando as suas maluquices, eles não estão nem aí pro resto do mundo. estão ocupados demais curtindo sua felicidade (ou loucura), e daí?
quem é louco, afinal?
Porra na minha opinião, o melhor conto que você já publicou aqui nesse blog. Muito bom. Nem sempre se precisa escrever um conto de “amor” para se ter sutileza e beleza num conto. Parabéns.
“Só os irresponsáveis são realmente felizes.”
Excelente Mary, como sempre.
“a morte não faz sorrir. E nem o amor.”
Lindo!!!
E eu que criticava a minha empregada que ria sozinha, enquanto lavava a louça do almoço.
Pobre de mim!
com o que eu vivi, afirmo-te. quem ri sozinho ou assusta ou incomoda.
qual era o livro afinal?!
Concordo com Marcus [26 de outubro de 2008]
…melhor conto que você já publicou aqui nesse blog. Muito bom. Nem sempre se precisa escrever um conto de “amor” para se ter sutileza e beleza num conto…
Os outros são interessantes, mas esse… sutil e tocante… PARABÉNS MESMO! Abraços!