O chefe tarado

ago 23

Arrumar emprego novo é sempre bom. Com salário dobrado em comparação ao antigo então, nem se fala. Você já chega na animação, dando bom dia efusivamente e sorrindo para qualquer um que cruze seu caminho. Nada te abala. Acordar às 6 da manhã se torna prazeroso, e o caminho para o trabalho é repleto de campos floridos e vacas malhadas imaginárias. Você não entende o porquê de tantos rostos tristes e amuados no metrô, chega à estação dando high five com o policial, e quando chega no trabalho quase beija a moça do café.

É muita empolgação para um ser humano só, você está quase enfartando de tanta felicidade, e tem a certeza que nada poderá estragar aquele momento de pura vitória.
Bem, isso até seu chefe tentar beijar você.

Era meu primeiro dia de trabalho. Estava me controlando para não parecer empolgada. Era quase a reencarnação da Lady Di, com gestos calmos, sorriso bondoso e olhar candido. Sentava cruzando as pernas e apoiava as mãos suavemente em cima do joelho, falava com a minha voz mais doce e tinha a risada mais delicada do bairro.
Ou seja, tudo o que eu não sou.

O dia ainda estava começando, quando meu chefe me chamou em seu escritório. Pedi licença, peguei o elevador e enquanto subia as escadas até a cobertura, dava umas curtas paradinhas, para não chegar transpirando feito um porco e ofegante feito a sedentária que eu, de fato, sou.
Consegui chegar ainda linda, bela e seca. Entrei, no final da sala, sentado em sua mesa, parecendo um sultão, estava o meu chefe.
Ele apenas disse: – Encosta a porta.

Essa pobre menina que vós falais, pura, ingênua, virgem e imaculada (ok, exageramos um pouquinho), encostou a porta e se sentou na beira da cadeira em frente à mesa.

- Você está precisando mesmo trabalhar?

Normalmente, me viriam de imediato duas respostas à mente:
A) Óbvio. Se não estivesse, não estaria aqui.
B) Não, estou não. To aqui só porque adoro acordar ás 6 da manhã para trabalhar das 7 ás 7, voltar no metrô lotado sendo encoxada por um vagão inteiro de trabalhadores suados, enquanto seguro forte a minha bolsa pra nenhum deles me roubar, chegar em casa, cochilar enquanto tomo banho devido ao cansaço e terminar minha noite comendo comida congelada em frente a TV, aproveitando meus 40 minutos de Jornal Nacional, que será a única coisa que terei durante a semana que de alguma forma se assemelhará há algum tipo de entreterimento, mesmo que seja com o tiroteio que aconteceu num bairro que eu nunca irei passar na minha vida.

Reprimi meus instintos e limitei-me a responder um simples “sim”.

- O que está achando até agora?

- Estou gostando bastante.

- Vejo muito futuro para você aqui. Nossa conexão foi instantânea. Escolhi você pela entrevista, por essa química que eu tive com você. Acho isso muito importante num trabalho, e saiba que para trabalhar aqui, você tem que confiar em mim, e eu em você. Posso confiar em você?

Estava começando a ficar desconfortável naquela situação toda, minha vontade era de me teletransportar para qualquer lugar que não fosse aquela sala.

Imaginando que assim seria logo liberada, respondi mais uma vez um simples e dessa vez desconfortável “sim”.

Ele se levantou e eu me aliviei, achei que fosse me dar um aperto de mãos, um tapinha nas costas e… Ok, eu sou uma retardada.

Meu chefe chegou perto de mim, segurou meu rosto com as duas mãos e… É com extremo nojo que escrevo isso: Tentou me beijar!

Enquanto via aquele rosto cheio de rugas se aproximando, vi passando um filme da minha vida em minha mente. Não tinha mais de dois segundos para decidir qual a melhor opção para sair da melhor forma daquela situação, e eu mesma poderia duvidar disso, mas naqueles segundos ridículos, consegui refletir em mais coisa, do que havia refletido nas últimas semanas:

Que idade esse cara deve ter? 70? 75? Eu nunca beijei um cara com mais de 35 anos. E ainda meu chefe! Que absurdo, eu devia processar esse cara. Vamos então cogitar essa hipótese. Primeiro de tudo: preciso de provas e… Bem, quais eu tenho? Ok, a idéia do processo está descartada.
Meu Deus, será que para trabalhar aqui, tem que beijar o chefe? E sendo assim…  Não pode ser! Será que todas as outras que estão aqui, se enroscam com esse velho safado?
Com essa boca murcha aí aposto que ele baba, feito o velho babão que é, durante o beijo. E nem sei por que ele quer beijar uma menina de 20 e poucos anos cheia de disposição. Daria conta do depois? Duvido! Aliás, aposto que o bilau nem sobe mais.
Ai, Marina, que visão do inferno. Para! Para de pensar no bilau do chefe.

Bem, voltando ao raciocínio, só tenho duas opções:
A) Não beijar
B) Beijar
Não beijando, eu poderia estar botando em risco meu emprego. Mas que sem dúvida alguma, não me pagariam os anos de psicólogo que me seriam necessários para apagar o trauma que tal experiência causaria em mim.
E beijando, eu teria que conviver com essa tal experiência.
Optei por não beija
r.

Livrei-me daquelas mãos cheias de veias altas e azuis do meu rosto, e a minha única vontade naquele momento era de tacar álcool e fogo na minha própria cabeça para conseguir não me sentir tão suja. Era como se ele, com o toque, tivesse me contaminado com toda sua escrotisse. Por motivos óbvios, essa idéia foi eliminada de imediato.

Pensei em dar um tapa na cara daquele sem vergonha. Mas era fato que ele já passara dos 70 anos, e não seria nada difícil dele cair duro no chão encarpetado e eu ter de acabar enfrentando um perrengue por ter matado meu chefe. E em nenhuma situação, enfrentar um perrengue por matar alguém, pode ser considerado fruto de uma idéia no mínimo “boa”. Também desisti dessa.

Virei o rosto, e saí pela porta. Voltei a minha mesa e fiquei tentando entender o que acabara de quase acontecer. Decidi-me não sair do emprego, e bolei meu plano maquiavélico de levar o celular no bolso para gravar às vezes em que fosse a sua sala.

Passei as duas semanas seguintes tentando descobrir onde era o gravador do meu celular.

Numa quinta feira, fui chamada novamente a sua sala. E enquanto subia as escadas até sua sala, ia me arrependendo mais e mais por não ter baixado o manual em PDF do meu celular.

- Encosta a porta, por favor. Sente-se.
Sentei sem falar nada.
- Acho que você não está precisando trabalhar.
- Estou sim.
- Não é o que parece. Sabe quantas eu eliminei para botar você na vaga? Mais de 80 candidatas.
- Hm
- Você pode ganhar bem mais aqui. Só depende de você.
- Hm
- Você quer ganhar mais?
- Quero. Mas dinheiro a gente trabalha e faz.

Durante alguns segundos ele permaneceu apenas sentado, olhando para a minha cara e em seguida me liberou.
Desci as escadas com o orgulho nas nuvens, mas o cuzinho apertado de medo. Pronto, fudeu, perdi meu emprego!

Algum tempo depois, outra funcionária me chamou em sua sala e tentou me beijar. Não, mentira, ela apenas me “dispensou”.
Peguei minha bolsa, me despedi de todos e tive a volta de metro pra casa mais feliz do que qualquer novo emprego poderia me proporcionar. Nem me incomodei com as encoxadas.

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11 Comentários

  1. Cara, essa situação conhecida me fez gargalhar só de lembrar de voce me contando isso! As pessoas no meu trabalho já estao achando que eu sou louca porque fico rindo quando to olhando pro computador… as 7 da manhã.
    É foda… pqp.
    E na boa, ja tive pesadelos com essa visão do inferno, ja imaginei o pinto murcho e o saco caído do velho caduco comedor de garotinha. Ainda bem que acabou e eu não tive que me submeter a tal tortura!!! Seriam anos e anos realmente pagando terapia…

    PS: Chop essa semana! Topas?!

    • Pois é. Você aguentou isso bem mais do que eu, mas ainda bem que nós duas não precisamos mais passar por isso. Aquele velho nojento, escroto, tarado.
      Ah, com vc aceito choppinho semmmpre, amada!

  2. Puta velho nojento! Ainda bem que meu chefe é um anjo (acho eu, vai saber, né?)

  3. Não sei como você consegue se sentir animada e não ligar de acordar as 6! Trabalhar é um inferno, não tem nada de bom! Só o salário! lol

  4. Tempos que nao vinha aqui…mas caracoles, que coisa bizarra.
    Nem sei o que dizer, tb to pensando mt coisa, sobre como pode-se processar um cara desses..

  5. Rafael Soares /

    Haaa, então foi por isso que quando encoxei a garota loirinha no metrô ela nem reclamou!? huhauhau que merda! foi mal, eu nunca vi uma garota loirinha encoxável no metrô, é que nao podia perder a “piada”.

  6. Cara, isso é escroto, não sei como você conseguiu ser tão delicada assim. Quando aconteceu comigo, o meu chefe me passou uma cantada e veio chegando mais perto, mandei ele tomar no cu chinguei ele de velho escroto e nojento, e me demiti.

    Tomara que você não encontre mais chefes assim por ai. Se encontrar arranca as bolas dele por mim =D

  7. Bruna Paixão /

    Sério, eu espero que isso seja apenas uma “crônica” e isso nao tenha acontecido com você mesmo..

  8. Aaaaah que nojo!
    NOjoNojoNooojo!
    eu segurava o pinto e apertava ate descolar do corpo.
    #prontofalei

  9. Gostei tanto do seu blog que li tds as postagens em 3 dias!
    não sou desocupada não, sou desempregada tbm como vc, mas graças a Deus sem traumas!
    shaIHSIUHAiuhsiuahUISHIUAhsa
    postei um texto seu no meu blog, espero q nao se importe :D
    beijos

  10. Fala Mary,
    Cara, ainda não vi graça em beijar uma mulher à força. Se ela não quer, perde 100% da graça.
    Já foi no meu Orkut ver o Gabriel?
    Beijo!

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