Momentos memoráveis

out 31

Estávamos conversando sobre rotina e memória em um bar chamado Fábio Jr. (reza a lenda que o único código universal para que qualquer garçom venha até você é chamá-lo de Fábio Jr., a Glorinha Kalil deveria colocar isso no seu próximo livro). É meio aflitivo perceber que na falta de momentos memoráveis, os dias não destoam uns dos outros, o que acarreta a fusão de todos esses momentos em uma só massa. Assim, a gente não sabe o que fez na terça passada ou no sábado retrasado simplesmente porque esses dias foram muito parecidos com os outros, e não têm referências suficientes para serem resgatados no limbo da nossa cabeça.

O nosso cérebro só deixa de colocar as vivências rotineiras em uma gaveta empoeirada se a gente salpicar esses momentos com alguma coisa fora do normal. Estou lendo um livro que fala sobre isso, e nele aparece um cara que pretende mostrar que o nosso tempo psicológico se alarga se a gente tiver momentos mais memoráveis, pois os dias passados não se confundem parecendo uma coisa só. Não que a gente tenha que ir para o Camboja todo mês para poder viver mais (até porque viraria rotina), mas se rodear de pequenas coisas novas para o cérebro. Assim a gente consegue nortear mais dias passados, eles se separam uns dos outros, e a nossa noção de tempo se alarga.

É claro que você não precisa se sujeitar a coisas que não quer só por causa da sensação de que está vivendo mais. Isso porque sair da rotina pode ser um suplício, e porque tem gente que está muito feliz com o próprio dia a dia. Não se importam em esquecer o que viveu, contanto que estejam vivendo agradavelmente.

No meio do papo no Fábio Jr., nos perguntamos se aquele dia tinha alguma chance de ser inesquecível; eu disse que se a gente fizesse algumas coisas esquisitas, talvez fosse. Aí levantei a camisa e mostrei meus mamilos para eles. Não me lembro bem (merda), mas alguém entoou uma expressão de “que porra desnecessária, Pedro, tire isso do alcance da minha visão”.

É que, por exemplo, se você ler a expressão “garrafa de vinho” (ou vir alguma garrafa em cima da mesa), ela vai entrar num compartimento que contém todo o campo semântico de “vinho” do seu cérebro: uma adega mental com um monte de garrafas velhas, uns porres, umas taças e outras bobeiras sobre a bebida. Mas se você pegar uma garrafa de vinho e, sei lá, e tomar um banho com ela, essa garrafa vai ser a memória com mais apelo dentre todas com o mesmo tema, ou seja, vai ser infinitamente mais fácil resgatá-la no futuro.

A simples “garrafa de vinho”, a rotina, na nossa vida de Fábio Jr. são justamente as idas ao bar. Com tantas no currículo interno, elas correm sérios riscos de parecerem umas com as outras. Pelo menos essa foi a única ida ao bar em que mostrei meus mamilos (o que até pode ser rotina para alguns). É tímido, mas já é um começo. Se conseguirmos transformar o “tomar um banho de vinho” em uma coisa divertida e menos constrangedora, acho que estaremos no caminho certo. Mostrar os mamilos só foi divertido para mim porque as pessoas riram, e eu negocio a minha dignidade diariamente para atingir esse objetivo.

É uma pressão muito forte esta sugestão de dogma – bem-intencionado – de viver cada dia como se fosse o último. O trabalho, a família, a faculdade não deixam, e a vida não deixa você deixá-los todos (ou forçá-los a jogar merda no ventilador junto contigo). Você mesmo se boicota, porque a sensação de comodidade e segurança é um colchão felpudo como uma chuvinha lá fora.

No sábado passado tive um dia obviamente alcoolizante, mas com teores inesquecíveis. Por um deslize de planejamento, nosso enorme grupo foi a um bar que fechava antes de te fazer dizer que amava o próximo. E num mundo cruel como esse, a urgência do amor é uma obrigação. O bando inteiro, tal qual um grupo de retirantes, andou quase um km (a gente se perdeu) em busca de um porto seguro para finalmente extravasar o amor. Assim que todos nós chegamos, o Fábio Jr. da vez fez a pergunta mais detestável de todas:

- Vão querer alguma coisa da cozinha? Ela vai fechar em 15 minutos.

Depois que o bar fechou (logo), uma parcela do grupo foi para a casa de um grande amigo, comprou 15 cervejas e conversou belezinhas até as 8 e meia da manhã. Aí sim. Quando eu estava chegando a minha casa, já cantando Frank Sinatra em norueguês, reparei que tinha uma feira ao lado dela. Pensei “nunca na vida entrei em uma feira por vontade própria, pode ser agora”.

Entrei, vi as frutas, as pessoas sóbrias, para as quais aquela manhã já era domingo, os vendedores, com ânimo bêbado quase tão grande quanto o meu, e fui parado por um deles.

- O que deseja, amigão?

Apontei para aquele quarto de melancia, pensei “odeio melancia, mas foda-se, é alegórico” e fiz o pedido. Entrei em casa quase às 10, e meus pais estavam conversando na sala. “Surpresa, gente, trouxe melancia!”, eles começaram a rir e disseram “seu bêbado maluco!”. Algumas amenidades conversadas, o cigarrinho do arremate, e um “boa noite” proposital para quem já havia tido uma possível boa noite. Foi a piada do fim de semana para a família e um indício provável de que esse dia será resgatado muito mais facilmente da minha memória. E eu não precisei mostrar mamilos pra ninguém dessa vez.

7 Comentários

  1. Pedro adorei o assunto do post e adorei mais ainda o que tornou seu dia memorável,a senhora melancia. Mas de tudo o que ficou foi: os coitados dos seus pais, devem ficar loucos de preocupação com um filho chegando às 10h da matina rsrsrs! Impossível não pensar assim pois tenho 02 pré-adolescentes e já estou sofrendo por antecipação (neurótica grau máximo)! Bjos

    http://enquantomulher.blogspot.com

  2. Ou se preferir, pode registrar tudo num blog… Sempre para sempre memorável!

  3. Gostei demais… vivo buscando meu dia inesquecível. E lembrei disso aqui, ó, você vai gostar: http://365nuncas.wordpress.com/

  4. Adorei, disse tudo de bom! Até minha mãe gostou. Com certeza depois desse post vou pensar mais em sair da rotina e criar mais momentos memoráveis – e claro, sem mostrar meus mamilos, até porque seria muito nojentinho uma garota fazer isso para outras pessoas, hahahahaha.

    • Meio nojentinho é um GAROTO fazer isso, mas tudo bem, eu respeito! Obrigado, Juliana! Manda um oi para a sua mãe e fala para ela que eu me senti bem em saber que ela gostou!

  5. Mari Ramoa :) /

    Arrisco dizer que esse texto foi memorável. Gostei muito. Vou tentar aderir a técnica das pequenas coisas novas todo dia e quem sabe, incluir vinho no meu banho qualquer dia desses rs

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