Corra Mary
02 jul 2012

Minha segunda vez no videokê da Ilha

Raf eletronics, a culpa se concentra nele

Quando eu era um humilde bebê, estava engatinhando na cama em cima do meu pai e acertei seu saco escrotal com o meu joelho numa força que até hoje os cientistas tentam explicar. Sim, eu, com meu joelhinho de neném, provoquei um inchaço na base do Play Center dele (acabam de passar Liquid paper em “Pedro Staite da Hora” no testamento), o que gerou, segundo o folclore médico da família, um caso grave de “água no saco”. Não sei como fiz para inundar o meu primeiro lar, e assumo que estou com medo de procurar “água no saco” no Google. O certo é que meus parentes incutiram na minha alma um remorso eterno por tentar destruir a fábrica de filhos do meu pai após a minha produção.

Um quarto de século depois do incidente escroto-joelhal, tentei reunir os cacos familiares: fui de surpresa ao aniversário do meu pai, no videokê da Ilha do Governador. Os Staites são tão pragmáticos que até a diversão é religiosamente enquadrada na rotina. Vou morrer de câncer no útero antes de saber o nome de lá, mas se for chamado de lugar de sempre, vai fazer um sentido milimétrico em nosso microcosmo. Isso não quer dizer que eles merecem apanhar até que decidam variar os lugares de diversão, afinal, as pessoas é que fazem a graça, e se eles têm a sorte de conseguir ver os melhores amigos toda semana, Deus jogou The Sims direitinho com o grupo deles.

Sentando à mesa com minha namorada no videokê (ah, nada como um programa romântico. Sou realmente um matador), percebi que meu padrasto e meu pai se complementam nas coisas artísticas. Um tem voz de um Pavarotti adolescente, o outro é um Fred Astaire amador. Enquanto um faz o meio campo lá no palco, o outro imprime uma sensualidade dançante que nem o Kaoma foi capaz de produzir na década de 1990. Se eles trocarem os papéis, haverá duas desgraças para o mundo, mas eles nunca se sujeitaram a isso.

O engraçado é que o meu padrasto parece receber uma entidade quando sobe naquele palco para cantar, sempre seguindo um ritual: um cigarro na mão, a fumada mais blasé que a Ilha do Governador já conheceu, uma pose de “não sei quem são vocês, só sei que ficarão pelvicamente felizes” e uma aura que só alguém que já ganhou dinheiro no palco sabe exalar. Isso tudo ao som do midi file da introdução, pois quando a música começa de fato, não há um aparelho reprodutor no bar que permaneça indiferente:

- Mãe, o Alício é sensual demais no palco, acho que até eu quero dar pra ele.

Minha mãe, mesmo depois de 18 anos dormindo de conchinha com o cantor, provavelmente também estava on fire.

O bom de ir para lá é que, sendo criança ou adulto, eu recebo o melhor dos dois tratamentos. Já sou adulto suficiente para ser ouvido e fazer rir gente com o dobro da minha idade (é um dos poucos indicativos bons de que você cresceu: ter suas piadas respeitadas pelos mais velhos), mas criança o bastante para não precisar pagar a conta. A vida vende muito caro os momentos bons, porque ela é tacanha e brutal, então é preciso reconhecer que encher o rabo de cerveja grátis é uma brecha graciosa na Matrix.

No entanto, o ruim de ir para lá, nas circunstâncias que ocorreram, foi que eu abri um precedente. Se eu não for ao videokê no aniversário da minha mãe, provavelmente serei assassinado por ela enquanto estiver dormindo. Se eu não for ao do meu padrasto, serei acusado de favorecer um dos pais, e isso é uma coisa que só se faz quando o Stalin te obriga. Então, tomei no cegueta: calculo que até 2015, terei sido fagocitado pelo imenso lisossomo familiar na Ilha do Governador. Preciso bolar um plano decente de evasão até lá.

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
POSTS Relacionados

Este post tem 5 comentários

  1. E não se esqueça da nossa aposta: da próxima vez vamos cantar Luan e Vanessa lá no palco. Tá ferrado, moleque.

    Comentário por Rachel @ 02/07/12 - 15:16
    • O SEU NOME EU ESCREVIIII NA AREIA
      A ONDA DO MAR APAGOU
      TIROLIROLÁÁÁ, EU NÃO SEEEI MAIS A LETRA!
      EEEU E VOCÊ!

      Vislumbro Deus me entregando um pote de ouro, meu bem.

      Comentário por Pedro @ 02/07/12 - 15:23
  2. Hahahaahahaha! É disso que eu tava falando! Ironia e sarcasmo com as coisas simples… Parabéns!

    Comentário por Mariana @ 06/07/12 - 14:56
  3. “um cigarro na mão, a fumada mais blasé que a Ilha do Governador já conheceu, uma pose de “não sei quem são vocês, só sei que ficarão pelvicamente felizes” e uma aura que só alguém que já ganhou dinheiro no palco sabe exalar. Isso tudo ao som do midi file da introdução, pois quando a música começa de fato, não há um aparelho reprodutor no bar que permaneça indiferente”

    Ahhh, to apaixonado.

    Aliás, minha noitada de sexta foi em um videokê também. A diferença é que fui eu quem arrastou as pessoas para lá. Cantei The Doors bêbado para aquela plateia ensandecida, e um amigo terminou a noite em um motel com uma coroa (podem ficar tranquilos, nenhum deles tem hábito de ler blogs. E meu nome não é Rômulo…)

    Comentário por Rômulo @ 09/07/12 - 12:55
    • Hahahahahahaha, caralho, Rômulo, eu só posso te amar cada vez mais xD

      Comentário por Pedro @ 09/07/12 - 13:22
*Nome
*Email
Site/Blog/Url
Mensagem
* Campos obrigatórios