O jardim de infância é uma espécie de segundo parto. Quando estamos no confortável útero de mamãe (que lugar aconchegante), em dado momento a gente começa a ficar grande demais e só resta sair por aquele buraquinho maroto. É, aquele mesmo onde tudo começou há nove meses. Quando somos expelidos para o mundo aqui fora, todo o ambiente externo nos atinge de alguma forma. O ar, os micro-organismos, a luz… Nossos sentidos ficam despirocados com tanta informação, uma vez que eles estavam acostumados com placenta, escuridão e comida entrando pelo umbigo. Quando se nasce, ferrou, é uma batalha diária para não entrar em colapso.
É a mesma coisa no jardim. Estamos acostumados com o conforto do nosso lar, os desenhos animados, mamãe, irmão e fazer cocô sem pressa. Do nada, inexplicavelmente (para mim era inexplicável), eu tenho que botar uma roupinha sóbria e ir de encontro ao mundo. E o sofrimento que dá deixar sua mãe na porta da escola e seguir adiante é uma coisa difÃcil de assimilar. Parece sacanagem minha, mas nossos coraçõzinhos sofrem de verdade com essa primeira separação. As crianças são extremamente cruéis, mas sobretudo desconfiadas. Todas elas pensam que a mãe vai sumir no mundo, ou voltar para o planeta dela de origem e deixá-las naquele depósito de crianças chamado escolinha.
O meu primeiro encontro com tia Marta, a professora do jardim I, foi um pouco traumatizante. Eu resolvi extravasar meu desespero destruindo a sala de aula. Relatos arqueológicos contam que eu peguei uma cadeira e tentei tacar no espelho, mas minha força pueril não foi suficiente para levar meu plano diabólico adiante. Minha choradeira causou comoção entre meus amiguinhos (amiguinhos é o caralho, tinha acabado de conhecer esses melequentos) e um por um começou a chorar. Quando vi aquilo, pensei “serei um grande lÃder nessa escola…”, mentira, pensei “AHHHHHHHHHHHHH, MÃMÃÃÃÃEEEE, MÃMÃÃÃEEE”. Estávamos todos chorando, com a exceção de alguns que se tocavam ou comiam areia. Imagino que Dona Marta (não o morro, a tia) gostaria de enfiar a cadeira que me servia de arma no meio do meu rabinho, mas ela se conteve.
Essa dor toda se dissipou em 20 minutos. Porque crianças são cruéis, desconfiadas, mas principalmente adaptáveis. Meu primeiro grande amigo, o Michael, parava de chorar e me abraçava. Ao final do dia, já rÃamos a valer e marcávamos uns birinaites para o finde, lesque!
O jardim II foi o ano mais acachapante da minha infância. TÃnhamos aula com tia Valesca, que, se me botasse no colo, poderia fazer um belo comercial de ” united colors of Benetton”, pois ela era mais negra que o meu pendrive e eu era mais branco que leite de magnésia. Ela dava esporro mandando a criança cruzar os braços:
- Que coisa feia, Pedro! Cruza os braços!
Eu, que me cagava de medo (e de amor) por aquela búfala enorme (Tia Valesca deveria pesar mais que a turma inteira – e sim, eu a amava), cruzava os braços sem pensar duas vezes.
Nesse ano de 1991, conheci um grande amor, que me violentou o coração até a segunda série. Juliana Flora era que nem eu – magrela, branquinha e de olhos claros. Só que ela era menos magrela, menos branquinha e com olhos mais expressivos. E você sabe como é amor de criança, né!? Pois crianças são crueis, desconfiadas, adaptáveis e, sobretudo, apaixonadas. A gente ainda não faz joguinhos amorosos, não tem muita noção das coisas, não faz nada com a nossa paixão. Essa é a época de macular o coração pela primeira vez, para que tenhamos pelo menos alguma experiência amorosa até chegar o ensino fundamental.
Eu me sentia o lÃder da turminha. A nossa brincadeira favorita era apostar corrida, e eu era quem fazia os circuitos. Iam todos me seguindo e eu dando as instruções, falando que tÃnhamos que contornar a gangorra, passar por fora do gramadinho, voltar pela areia… No final, creio que só eu decorava, aà todos corriam atrás de mim para saber qual o caminho. Eu sempre ganhava. Eu era muito seboso.
Era seboso, mas tinha meus dias de carência. Eu era praticamente uma tiete dos meus dois melhores amigos – o Michael e o Gregório. Certa vez – por volta de 1993, minha mãe combinou com as mães deles um encontro lá em casa, regado a muito sorvete e cerveja (o sorvete para gente, a cervejas para as alcoólatras das nossas mães). Era hora da saÃda e minha mãe me comunicou que eles iam lá para casa. Nesse momento, tive uma explosão de felicidade genuÃna que me descontrolou. Saà correndo pelo pátio, gritei “EU AMO A VIDA!”, e abracei uma árvore. Eu juro que daria uma cena de comercial de cartão de crédito. Uma criança loira, correndo feliz e abraçando uma goiabeira… Coisa linda, né? No entanto, a árvore estava inteiramente imunda de merda, e sabe Deus de que ânus saiu isso. Será um macaco? Um mico? Uma criança? Sei lá, é difÃcil acreditar, mas tinha cocô no tronco da árvore. Fiquei com uma imensa mancha de fezes na minha camisa, tive que voltar parcialmente peladinho para casa… Mas voltei feliz da vida.
Pedro
Pra tu ver como as coisas são ironicas. Desde criança, até o seu amor pela vida tem merda no meio…
kkkkkkk.muito bom. Pelo visto era pestinha .
(Momento tiete)Já li todos os textos do Pedro nesse blog, aliás,acho q já li quase todos os textos desse blog.Enfim,sempre me divirto,tenho vontade de comentar e desisto.Mas,hoje, depois de uma semana difÃcil,ao ler esse texto eu ri como há muito tempo não o fazia lendo alguma coisa.Então resolvi comentar pra agradecer o momento ‘’spa de relaxamento”!
huaAHUahUAHuahUAHUhauH!!
cara curti pra caramba teu post =D
muito engraçado.
to tentando começar a fazer um blog mas não escrevo tão bem como você ;/
mas ta de parabéns continua assim ;D.
Pedro, quando vc virar um escritor famoso ou um qualquer coisa famoso vc vai lembrar de mim? Vai lembrar que eu falei do blog pra várias de suas novas tietes? =P
Morri com o “EU AMO A VIDA!”
hauahuahauhuahuah
Ah… Como vc lembra de tantas coisas do jardim? Eu só lembro de chorar litros, comer borracha e desprezar o amor de um amiguinho que, só porque se chamava Mariano, achava que eu tinha que casar com ele… rs
Até agora essa foi uma das poucas coisas q me fez rir hj! Pq como nao acontece há muito tempo, eu estou na merda! uhull! cheers! Anyway. Lembrei do meu namoradinho de jardim…Rolavam varios estalinhos embaixo da mesa e durou 2 anos esse namoro. Terminamos traumaticamente pq ele se mudou, snif;
Na minha primeira semana de aula, a professora mandou chamar minha mãe, porque eu não falava com ela. Acho que eu era apaixonado e tinha vergonha hahahaha.