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jun-9-2008

Mamãe, eu quero cantar

Escrito por Corra Mary

“A morte está tão certa da sua vitoria, que nos dá toda uma vida de vantagem”

Fotografia 3 - Microfone 2
Creative Commons License photo credit: Mageca

Houve uma época em que as pessoas queriam cantar. As crianças largaram suas escolas, jovens suas faculdades e adultos seus trabalhos para irem às ruas cantarem.

“- Se qualquer um canta, e encher o rabo de grana, porque eu também não posso?”

E era assim que começavam suas letras. Muito quando começavam.

O Joaquim do pão, um belo dia resolveu se juntar a eles. E logo após foi Fátima, a secretária. Verônica, a stripper, Sheylla Mickaella, a transexual (mas podem chamar de Marco Aurélio também), Carlos, o sucedido empresário, Rosana Cristina, a artista plástica e Milena, que a família já até esperava, por desde pequena ser a “piradinha da casa”.

Só não se juntou o presidente, pelo infortúnio do que ficou conhecido como “silêncio do dia 22”. Vossa Excelência fora atingida em cheio por um amplificador tamanho “festa bombástica” e morreu na hora.

Quem estava lá, conta que foi horrível.

O criminoso, conhecido pelos íntimos como Farofa, só não levou seus merecidos anos de “bonequinha do presídio” porque o juiz encarregado do caso, e o advogado de acusação, se encontravam cantando “Imagine”, em frente ao aeroporto internacional, ao lado de um tocador de flauta misterioso, que segundo testemunhas, era a reencarnação de Bob Marley.

Foi então terminantemente proibida a venda de microfones em todo território nacional. Aliás, mundial.

As pessoas cantavam em meio às praias de Copacabana, assim como cantavam enquanto alimentavam esquilos no Central Park.

E não demorou muito para virar uma loucura o tráfico negro dos microfones, que vendiam aparelhagem ruim, por preços absurdos, para pessoas viciadas.

Como não era de se espantar, em pouco tempo se fundou o grupo de ajuda aos viciados. O “C.a” – Cantadores Anônimos, fundado por velhas frigidas e mal-amadas, que faliu antes mesmo de chegar a um número considerável de membros.

Um belo dia, um ex-amante de cinema europeu, e colecionador de moedas antigas, foi a rua para tentar dar um jeito no que parecia ser o fim do mundo. Seu discurso era inteligente e convincente. Dizia ele, que tínhamos sido hipnotizados por anos e anos de total alienação diante dos meios de comunicação de massa, e bla bla bla.…

Sua última frase antes de morrer devido a fortes golpes de instrumentos musicais, dos mais variados tipos, foi constituída por 6 palavrões, e mais 3 ou 4 palavras inteligíveis.

O teatro morreu, já que ninguém mais sentava o cu nas cadeiras da platéia. Os livros queimados, já que ninguém mais lia. Os restaurantes já não existiam mais, visto que ninguém mais comia.

Os cemitérios fechados, já que qualquer cantinho, caía muito bem como uma cova para os que desencarnavam. As escolas abandonadas, e suas alunas que antes carregavam merendeiras lilás das meninas super poderosas, hoje se encontravam na rua,

O mundo por muito tempo viveu dentro de um liquidificador, até que de tanto barulho, ele se silenciou e morreu.

Corra Mary

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