Corra Mary
09 out 2011

Investimento de alto risco (psicológico)

Paulo tinha razões saindo pelas calças para se preocupar com o futuro próximo. Havia levado uma pernada do destino que lhe solapou as garantias profissionais quando o diretor de redação do jornal no qual trabalhava deu uma de Robespierre e fez todas as cabeças dos companheiros rolarem miséria adentro. O jornal, um impresso que perdeu força com o passar dos anos, reduziu-se a um grupo-anão da internet, que nem passando por uma chuva de ouro garantiria o emprego de todo o pessoal das antigas.

Mariana, a esposa do recém-decapitado jornalista, estava se virando como podia. Mas as circunstâncias maternais brecaram suas possibilidades. Estava prestes a parir o segundo filho do casal, o pequeno Agenor, que, coitado, seria um indivíduo novo em folha, mas com nome de avô. Ele sofreria as consequências no momento certo, ainda não era hora de ter a alma queimada pela sacanagem alheia.

Mas o que apagava os archotes mentais do casal na merda era a possibilidade de faltar algo ao filho mais velho (afinal, o mais novo ainda tinha um resto de alimentação por umbigo e aconchego através daqueles caldos de útero). Fabinho era um menino tímido, simpático, espirituoso e dono de uma cinta lipídica típica dos gordinhos de 10 anos. Ele tinha acabado de ser matriculado em uma respeitável escola cuja mensalidade representava um estupro no seco em qualquer orçamento mediano. O deles, agora banguela de pai e mãe, definitivamente não estava preparado para essa pica.

Foi quando o Diabo sentou no ombro de Paulo durante um sonho.

Faltava um mês cravado para as aulas começarem, e os pais decidiram pagar para ver. “A gente vai dar um jeito na escola do Fabinho”, dizia Paulo com um bafo metafórico de enxofre. Pouco a pouco, quando a rotina de busca ao emprego permitia, Paulo empanturrava o filho de doces, como se fosse uma espécie de João e Maria pós-moderno, no qual a bruxa daria lugar ao pai em particular e à vida social em geral. Fabinho encheu cinco quilos.

Paulo começou a usar um gel suspeito no cabelo e a fazer um penteado para o lado que faria até um nerd não querer andar por perto. Estava com a esperança de que o filho quisesse incorporar a escrotice dele, porque é assim que funciona a relação entre pai e filho: a gente agrega em si muitas glórias e vergonhas do nosso modelo paterno. Faltando dois dias para as aulas começarem, Fabinho pediu para fazer o cabelo igual ao do pai. Paulo suspirou de alívio. Mariana não conseguia conceber nitidamente o plano maquiavélico que o marido estava tramando, mas sabia que algo escuso estava sendo feito.

No primeiro dia de aula, Paulo fez questão de arrumar o filho da maneira mais constrangedora possível. Colocou a camisa do menino para dentro do short de helanca (o short ser de helanca já conta pontos negativos na vida), fez o penteado com aquela gomalina questionável e reparou que as imperfeições iniciadas na infância, como miopia e dentes tortos, dariam o arremate necessário com os óculos e o aparelho. “Boa aula, Fabinho”, disse Paulo ao se dar conta de que jogou uma zebra virgem no meio das hienas malvadas do Rei Leão.

Duas horas depois, o telefone de Paulo tocou. Era Zuleika de Albuquerque, um anjo vestido de bruxa, com direito a nome de megera e tudo, do outro lado da linha. Embora ela parecesse tudo o que havia de ruim, era uma mulher justa, boa gente mesmo. Nos dias úteis era diretora do colégio respeitável.

Ela ligou dizendo que Fabinho foi escorraçado pela nata malandrote da quarta-série, e que estava chorando todo o Mar Morto na sala da direção. Parece que os meninos não foram muito tolerantes ao visual arrojadamente nerd de Fábio. Antes de se pendurar pelo saco de tanto remorso, Paulo reuniu o último gás para fazer um pseudoescândalo pelo telefone.

Zuleika sugeriu um acordo, pois levar o caso para a justiça, ainda mais em um momento em que o bullying havia sido elevado a patamares estratosféricos de reprovação, causaria uma poda completa na respeitabilidade da escola. Um bolsa de estudos transformaria a revolta em resignação, essa é a regra favorita de quem está acostumado a estuprar orçamentos familiares.

Paulo desligou o telefone e disse à mulher:

- Pronto, a escola do Fabinho está resolvida.

 

Postado por Pedro | Categorias: Contos, Pedro
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Este post tem 13 comentários

  1. o que não fazem a criatividade e perspicácia juntas heheheheh muito bom!

    Comentário por Léo Dambrós @ 09/10/11 - 17:26
  2. HAHAHAHAHHAAHHAA…Genial

    Comentário por Gabriel @ 10/10/11 - 0:50
  3. kkkkk vc é Genial Pedro kkkkk adorei

    Comentário por Dandy @ 10/10/11 - 11:56
  4. Cara, que técnica genial. Eu NUNCA pensaria em algo assim.

    Comentário por Berg Hiryu @ 10/10/11 - 12:45
  5. Um jeitinho tipicamente brasileiro! Senascional.

    Comentário por Luana @ 13/10/11 - 11:44
  6. Excelente texto Pedro! Kudos!

    Comentário por Ignus Loki @ 13/10/11 - 15:43
    • Quando escrevi esse texto, pensei que ou estava uma merda ou estava bom. Os comentários foram poucos, mas estão tão legais que eu passei a acreditar mais no texto!

      Comentário por Pedro @ 13/10/11 - 15:58
      • Cara, eu sou muito fã de crônicas. Para mim o grande mestre é o Luíz Fernando Veríssimo. Inclusive tenho todos os livros dele desde que começou com “As Mentiras que os Homens Contam”.

        O jeito como vc expoêm um tema que ganhou bastante luz recentimente na mídia combinado com “jeitinho” carioca / brasileiro tem é perfeito.

        O seu texto foi de uma mastreia igual ao dele. Se um dia nos encontrarmos, eu te pago uma cerva.

        Comentário por Ignus Loki @ 13/10/11 - 16:58
        • Hahaha, cobrarei, meu filho, cobrarei!

          Comentário por Pedro @ 14/10/11 - 14:00
  7. “Paulo empanturrava o filho de doces, como se fosse uma espécie de João e Maria pós-moderno…” euiashuiasehui

    Pena que na minha época o bullying não era tão comentado, era até normal o pessoal ficar se chamando de gordo, feio, pobre, e afins… perdemos muitas bolsas com isso :(

    Comentário por Thais @ 14/10/11 - 13:32
  8. adorei! muito mesmo!

    com a devida permissão e referências, gostaria de re-publicar no meu blog! =)

    Comentário por Gabi Colgate @ 15/10/11 - 18:16
    • À vontade, minha querida!

      Comentário por Pedro @ 16/10/11 - 14:54
  9. Pobre Fabinho, sofredor de bullying para acobertar a mendigagem do pai…

    Comentário por Juliana Stott @ 18/10/11 - 18:11
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