
Num dia desprezível passado sei lá quando, eu estava saindo do meu prédio para começar mais um dia, quando, ao fazer a última curva do corredor rumo à porta da rua, brotou de rapel uma velhinha na minha frente. Não há explicação razoável que justifique a entrada dela em cena, foi milagre ou rapel, embora uma idosa daquele naipe fazendo rapel seja, em certa instância, algo miraculoso.
Andei um pouco mais devagar, porque não queria parecer indelicado e ultrapassá-la com pressa naquele corredor pequenininho. No entanto, ela andava tão lentamente que eu não tive opção, e então acabei passando a senhora quase que na porta. As gentilezas nanométricas do dia a dia rogam que você deve segurar a porta para a pessoa que vem atrás, e eu o fiz com a vovó. Segurei a porta, e ela disse: “pode deixar, pode deixar”. Eu pensei: “é óbvio que eu posso deixar, não há qualquer outra coisa que eu possa fazer.”
Fui a caminho do ponto de vans alucinadas (elas ainda vão me matar um dia), me perguntando ridiculamente: “o que eu poderia fazer? Tirar a velhinha do prédio na base da porrada? Levá-la no colo? Fechar a porta na cara dela? O máximo que ela deveria me dizer era ‘obrigado’, mas isso a ingrata não fez.”
E é um episódio absolutamente sem importância como esse que me faz pensar que estou ficando meio pancada. Acho que se houver um ranking sobre gente que se apega a falas insignificantes, estarei no trono. Não sei por que faço isso, as pessoas já não são experts em assuntos decentes para falar (este texto é uma prova formal disto), mas há algo nos automatismos da nossa fala que me fisga como um Banjo Minnow num anúncio da Polishop.
Outra insignificância que se instala no meu cérebro, tal como uma tênia que resolveu morar na cobertura do hospedeiro, é o conjunto de mínimas satisfações aleatórias que as pessoas dão.
Esteja, por exemplo, numa fila do mercado. Aí tem uma moça atrás de você com tudo no carrinho: o leite Ninho, as alcaparras, o papel higiênico folha dupla com aroma de pêssego (porque até o nosso cu merece atenção da indústria), as velas de aniversário da vó que anda devagar em prédios, tudo. Mas ela se esqueceu de pegar a alcatra. E o que ela vai fazer? Falar baixinho, sem se dirigir a ninguém especificamente: “ai, esqueci a alcatra, tô ficando maluca” e ir ao açougueiro.
Ela se esquecer da alcatra é supernormal. Algumas doenças, talvez as piores do espectro médico, aguçam a especialidade do infeliz em esquecer coisas. Fora isso, tem mãe que esquece o filho no mercado, padre que esquece o pênis no coroinha, motorista de van que se esquece de fazer a curva. O problema é ela contar – pra ninguém no meio do nada – que olvidou a porra da alcatra.
Se as insignificâncias fossem peixes voadores, você lotaria a sua tarrafa se andasse de ônibus prestando atenção. A qualquer momento uma velhinha vai dizer que levou o guarda-chuva porque achava que ia chover, mas na verdade não está chovendo; ou um cara vai se levantar atabalhoadamente falando que pegou o ônibus errado; ou então a mulher vai reclamar do próprio celular tocando enquanto o procura na caverna dos Goonies que é a sua bolsa. O motorista vai fazer uma curva fechada, a tia vai quase cair do assento e falar para o próprio crânio: “ai, que motorista apressado”.
E tudo falado para si. Isso deve ser uma mistura de carência com necessidade de se explicar para os outros, porque tem sempre um filho da puta que está prestando atenção no que você está fazendo, embora não queira falar contigo.
Acho que eu sou um desses filhos da puta.


Adorei! Bem humorado, divertido, bem escrito, e realista!
Perfeito!
Paolla
Leio o site “regularmente” há pouco tempo e a cada texto seu me espanto como você escreve bem. Sério, parabéns!
Bem legal o teu texto Pedro.
Eu acho q faço parte das duas faces da moeda, sou tanto a filha da puta q observa, quanto a louca q se justifica.
Eu sou o filho da puta que fica de lado imerso nos próprios pensamentos, tentando justificar qualquer intervenção externa.
Isso me fez lembrar de uma tal rede social, o Twitter. Tem muito disso lá =p