Guerlain

jun 20

“- Você poderia me dizer, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?
- Isto depende bastante de onde você quer chegar (…).
- Eu não me importo muito com isso (…).
- Então não importa muito que caminho você irá tomar.”

As crianças brincavam no enorme jardim, enquanto eram observadas por suas babás, que por sua vez, desviavam os olhares atentos para o motorista porto-riquenho.
Era uma família que não vivia no singular, porque o plural os era muito mais conveniente. Uma tentação, impossível de resistir. Era assim que eles eram.

 

A caçula observava seus irmãos, enquanto arranhava as pequenas unhas nos cantos de madeira da caixinha de areia.

Eram três irmãos. Eles pulavam, riam e jogavam a bola colorida para o alto. E ela percebia, podia sentir, que não era igual a eles. Sabia que não compartilharam do mesmo colostro, mas o beijo na testa tão confortante todas as noites era da mesma boca com gloss Guerlain.

 

Seus pequenos dedinhos tocaram seus olhos, igualmente diferentes e ela emitiu algumas palavras do seu vocabulário ainda precário: Porque eu sou diferente?

 

E pela primeira vez, entendeu o que era “diferença”. Não era apenas bom ou ruim, era uma pergunta que ela não possuía respostas, e talvez até papai e mamãe falhassem na tentativa de respondê-la , porque a pequena ainda não sabia o que significava “escolha” e qualquer coisa que viesse após o porquê, seria embasado e nada convincente.

 

Ela olhou para cima e pensou bem forte:

- Céu, se você não fosse azul, de que outra cor seria?

 

E apoiou a cabeça nas mãos e chorou. Chorou até ficar sem lágrimas, chorou como a criança mimada que era, chorou até esquecer dos motivos que a levaram a chorar, e chorou até seus pais saírem do carro do ano e presenteá-la com todos os sonhos do mundo, dentro de uma caixa, embrulhada com um lindo papel de presente, da mesma cor do céu azul.

Shiloh não chorava mais.

 

 

 


13 Comentários

  1. Impressão minha ou essa história é “real”?

  2. Shiloh, todos querem que ela seja linda e perfeita como os pais. Angelina quis ter os filhos de diferentes tipos pra nao demonstrar que tem preconceito, boa jogada de marketing. só quero ver se vai dar conta de dar atenção pra todos. vão crescer mimados e criados pelas babás, enquanto os pais se preocupam com os holofotes.

  3. Como sempre seu texto é surpreendente e muito bem escrito.

    Parabéns!

  4. demais!

    =*

  5. Tia Lúcia /

    Marina, querida, Guerlain me emocionou! Parabéns, gostei muito.

    Beijos,
    Tia Lúcia :)

  6. talvez eu tenha o coração bom demais …, mas não acho que isso seja jogada de marketing, acho muito humano da parte deles adotar duas crianças “diferentes” do ponto de vista de muitas pessoas.
    Se outras pessoa, famosas ou não, se preocupassem em adotar crianças “diferentes” não teriamos tantas crianças abandonadas.
    É melhor termos crianças mimadas e criadas por babás ou abandonadas pelas ruas???

    Mary como sempre adorei teu texto

    bjokinhas Alana

  7. Olá, boa noite (bom dia ou boa tarde, dependendo do horario que você lê isso xD). Vi seu blog em uma comunidade no orkut.
    Logo o primeiro texto, um texto marcante. Me chamou atenção, enfim. Parabéns :D

  8. Que tenho a dizer por este texto é que seria uma “Nelson Rodrigues de saia” por ser tão reais,interativo a nossas ideias e de grande importancia tera este blog um dia quando vermos que aquele livro na prateleira da loja era antes este blog.bjos!

  9. Seu blog tem uns textos mto bons
    Bjos
    Caio
    brogui.com

  10. tou sem palavras…..
    adorei…..
    vc mandou muito bem continue assim…
    o texto dos vegetarianos ta show de bola, sou da mesma opniao…

    bjoes exportados da suiça, hehehhehe

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