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set-1-2009

Gringo é o caralho

Escrito por Pedro

Antes de tudo, peço perdão pelo caralho logo no título. Aposto que a sensação seca, adstringente, pouco propícia que um desavisado caralho literal pode causar foi a mesma que a do meu título. Mas é porque você não vive há mais de 20 anos com o estigma de poder ser de qualquer lugar do mundo, menos da sua própria cidade. Eu sou apenas um rapaz latino americano, do Sudeste do Brasil, um país miscigenado, cheio de cores, matizes e tons. Tudo bem que toda essa tinta passou longe do meu DNA.

Já escrevi, no meu primeiro texto aqui na choupana rosa do corramary, sobre minhas vermelhidões e branquelidões. Mas não é necessariamente sobre isso que eu vou falar. É sobre a constante pressão social que a minha semi-total falta de melanina me proporciona diariamente.

Você pode me chamar de viado, de corno, de safrário, de varapau cretino, de Zé buceta, de filho da puta… Do que quiser. Se eu fizer por merecer então, fico até satisfeito (que mentira). Mas não tem coisa no mundo que eu odeie mais do que ser chamado de albino.

Albino é a minha rola!

Peço desculpas mais uma vez pela genitália explícita estacionada em alguma frase. É engraçado que “rola” sempre dá duas impressões: a de um pênis borrachudo e largo ou de um passarinho. Eu nunca uso “rola”, pois meu pinto não é um passarinho (???) nem uma deformidade genética digna do programa do Ratinho (rimou, eu sou um poeta).

Bem, voltando ao albino.

Primeiro de tudo que albino não tem melanina. Eu tenho, só que ela é pouca. Uma pessoa com pouco pênis é homem; uma pessoa sem pênis, provavelmente é mulher. Reparou na diferença enorme entre “não ter” e “ter pouco”? Pois bem. Meu cabelo não é daqueles amarelões claros, ele está mais para louro médio 3.6 com fios esverdeados. O cabelo cuja cor, segundo Juarez, meu ex-barbeiro e marido, é o sonho de toda mulher. Juarez sempre foi muito fofo… Ai ai… O que está acontecendo comigo?

Além disso, “albino” é uma palavra feia demais. Me lembra olho de peixe, uma coisa gelatinosa, sei lá. Se em vez de “albino” fosse uma palavra legal, tipo “claribalte”, eu não me irritaria tanto.

- Ih, Pedro, você é Albino?

- Albino é o cacete!

*************************

- Ih, Pedro, você é claribalte?

- Não, hehe, todos dizem isso!

Outra coisa que dilacera minhas entranhas é a constante achança pública de que eu sou gringo. As pessoas relutam absurdamente em acreditar que eu nasci no Rio, filho de dois cariocas. A única coisa europeia que escorreu do topo da árvore genealógica foram uns genes portugueses e italianos. Nada meu é alemão, ninguém da nossa família é alemão. A família só tinha relação com um germânico: o leiteiro que ia à nossa antiga casa nos anos 80, o simpático Wolfgang Shumacher. Sinto saudades dele… Gosto dele como de um pai. Somos idênticos…

Mas eu também não colaboro. A minha bolsa oficial de estágio é daquelas de um ombro só, marrom, meio escoteira / jornalista (pra ser escoteiro precisa de diploma?). Essa bolsa, escrota toda vida, é mais do que um mero saco onde guardo meus troços. É um convite aos meliantes. Uma pessoa normal, bronzeada, usando não desperta qualquer cobiça. Em mim, parece um depósito de dólares, pronto para ser passado para o primeiro surripião que tiver o dom do assalto (mas que dom filho da puta. Que surrupião idem).

Para driblar essa situação pré-delito, eu tenho que desenvolver um complexo esquema corporal chamado “malandreador de movimentos”. Eu simplesmente preciso gingar mais, andar mais cariocamente falando e falar alto, aos brados, todas as gírias que nada têm a ver comigo. Só assim um Zé bucéfalo com más intenções saberá que eu sou gente do povo dele.

Bandido filho da puta, numa ocasião em Copacabana:

- Fala aí… Boa noite… Pô, cara, você é inglês?

Inglês é o meu bilau! É o que eu tive vontade de exclamar de bate pronto.

Não preciso pedir perdão pelo bilau, porque se você se melindra com uma palavrinha tão inofensiva, vá para a puta que te pariu e sintonize no Discovery Kids. Lá não há espaço para ofensas, somente para ursos enormes roxos que brincam com crianças… Que medo! Gosto é que nem problema psicológico, cada um tem o seu.

É um saco andar pela Zona Sul do Rio de Janeiro, olhar gringos de verdade e pensar “isso sim é um gringo!”. Porque isso me faz acreditar que olham para mim na rua e pensam a mesmíssima coisa. Só fiquei tranqüilo uma vez quando estava andando na Saens Peña (Zona Norte) usando uma camisa rosa choque (mais nórdico impossível). Matutei “ihh, estou andando aqui de noite, todo mundo deve pensar que eu sou um gringo otário… Ah, mas que gringo vem fazer turismo na Tijuca? Ufa…”.

Reparou que eu comecei com caralho e terminei com bilau? Escrever realmente é uma terapia, acalma qualquer nervo.

Pedro

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  1. Bia em 1 de setembro, 2009

    Sabe que andar de sandália com meia não ajuda né!?

  2. Mari em 2 de setembro, 2009

    Nossa, alguém dá na minha cara porque eu não consigo parar de rir!!! Arrasou, claribalte! ;D

  3. T1460 em 2 de setembro, 2009

    Os habitantes da minha cidade não passaram na fila de distribuição de melanina, queratina e demais pigmentos para a pele, o que indica que morreremos de câncer de pele em breve. Aqui a pessoa é considerada estrangeira quando tem a pele um pouco escura, mesmo que seja apenas resultado de uns dias de bronzeamento na praia.

  4. Caio em 2 de setembro, 2009

    “de zé buceta, de filho da puta…” de episcopal, de boguense, de pirucoptero de mambojambo, de melinquente (ah mlk!), de fosfoblaster… NOT!, de saci andando de patinete, de Galenopata, de Thaisopata, de Pêcêcopata, de Assissino, de Peterasta da hora, de trovador de coco flamejante, de macarena sem rumo, de chimbica da calypso, de liguedjá, de [insira aleatoriedade aqui] (…)

  5. Ponto_i em 3 de setembro, 2009

    Esse texto foi super “Fica a dica pra Paola!!”, rs

  6. Diego em 28 de setembro, 2009

    simplesmente fantastico, muito bom seu texto-desabafo

  7. Mari em 18 de outubro, 2009

    eu te entendo TÃO bem T.T

    sempre foi “ah, mas algum dos seus pais é loiro d olhos azuis, né?”
    “não”
    “ah, mas vc tem algum nome alemão?”
    “não”
    “ah, vc não tem algum alemão na sua família?! pq q vc foi pra uma escola alemã?”
    “meu tatara tataravô serve?”
    “uhm..interessante…”

    ainda por cima meus pais me colocaram numa escola alemã…eu saio com pessoas alemãs d vez em quando!

    eu recebi uma alemã morena amiga da minha irmã aqui em casa e a gnt foi na feira na general osório pra ela comprar aquelas quinquilharias d turistas. a minha mãe falou pro vendedor q a alemã queria um colar…e ele se virou pra mim ao invés da alemã u.u

    “minha melanina cabe num dedal”, já ouviu falar dessa comunidade?

    inté, claribalte! se vir a marina, diz q eu quero vê-la!
    PS: eu não sou tão branca assim, só ver no fotolog q eu coloquei como website(eu não uso, mas…)



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