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Frustrações

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Publicado em 23 de maio de 2009 por Pedro
mai 23

1994. Power Rangers, a grande febre infantil daquele momento, era o sonho de consumo de toda criança. Com o pequeno Raphaelzinho não era diferente. Ele queria mais que a vida um Megazord de Natal. Se você não conhece Power Rangers, é porque estava muito ocupado lendo Dostoievsky, mas eu sinceramente não creio que alguém não conheça Jason, Kimberly e companhia. Na hierarquia de fama temos Os Beatles, depois Jesus e, em terceiro, Power Rangers, não é verdade? O resto é o resto,

O Megazord que meu irmão (o Raphaelzinho) queria era uma composição dos cinco robôs menores (mastodonte, tigre-dente-de-sabre, minhoca, camelo, não me lembro dos animais) que, encaixados, daria o robô grande. Ou seja, ele poderia brincar com os cinco animais separados ou então juntos na forma de Megazord.

Em novembro ele enviou uma carta para Papai Noel fazendo o pedido. Você pode imaginar o que é um mês e meio para uma criança esperar seu brinquedo? É muito bom (mas doloroso) acordar todo dia pensando naquilo, fazendo planos de como vai brincar com ele, as centenas de histórias que poderiam ser criadas com os robôs… À medida que o tempo passava, mais ansioso ficava o pequeno Raphaelzinho. Nos últimos dias, ele chegou a sonhar com o Mastodonte e com o Pterodátilo… Na hora em que Papai Noel chegou com o saco na mão, o saquinho de Raphaelzinho entrou em ebulição, pois ele estava à beira de um orgasmo natalino.

Raphaelzinho pegou o embrulho, com aquela cara de babaca que só as crianças em frente ao brinquedo, ou os homens em frente a uma linda menina sabem fazer. Despiu cuidadosamente o pacote, quase entrando em êxtase. Tirou o Megazord da caixa, botou no chão e ficou paralisado. O Megazord que o inexperiente Papai Noel trouxe (vulgo José Antônio, o papai biológico) não desmontava. Todas as partes do robô eram coladas, não havia vida naquele brinquedo, interação, nada!

A expectativa acumulada de um mês de espera se transformou em uma frustração tamanha, que o pequeno Raphaelzinho não conseguiu suportar. E quando a gente não suporta a frustração, a gente chora feito criança. Feito Raphaelzinho, na frente de todo mundo.

E é impressionante como frustrações mexem com a gente. É porque você precisa de tempo para se frustrar, o negócio é totalmente ligado a expectativas. E expectativa é esperar o tempo passar para conferir se o que você imaginava era isso mesmo. Quando não é, o sino maligno toca.

A cara de bunda; o castelinho de cartas que desmorona por dentro; o desânimo e a sensação de que nenhum outro brinquedo de Natal vai ser melhor que o Megazord, são sintomas cabais de que você está nadando em uma piscina de frustração.

Mas se você está assim, não se desespere. Vá com calma ao último andar do seu prédio e se jogue. Mentira, calma! Nós temos que nos frustrar, porque só assim ganhamos tolerância a posteriores decepções. É a mesma coisa com bebida alcoólica, se você vomitar, além de provavelmente ter uma ressaca a menos, você aprende a beber com mais habilidade. O que não pode é parar de beber para sempre só por causa do medo de vomitar. Quem tem medo não se frustra, mas também não vive.

Olhe só quantas datas especiais temos no ano. O que não falta é oportunidade para ganhar novos brinquedos. A diferença é que na vida, ao contrário de Natal e aniversário, essas datas especiais estão camufladas no calendário e nas circunstâncias. Quando você tropeçar numa dessas datas, caia de cara, ok? Em algum momento, um Megazord desmontável há de aparecer.

Pedro

9 Comentários

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  1. Bruno em 23 de maio, 2009

    É por isso que eu sempre comprava os brinquedos com a minha mãe, portanto eu tinha o megazord demonstável, aliás mais de um.

  2. Flavia em 25 de maio, 2009

    Nossa, que esnobe o Bruno!

  3. Pedro Staite em 25 de maio, 2009

    Você ainda tem um desses? Me vende? Ia ser engraçado dar o presente que meu irmão tanto quis (tudo bem que com 15 anos de diferença).

    Abraços

  4. Zé Messias em 25 de maio, 2009

    Esse texto foi tão Paulo Coelho…até melhor na verdade.

  5. Mari em 26 de maio, 2009

    Eu tinha uma Kimberly que trocava a cabeça. Ela podia ficar de capacete ou não mas a roupa não mudava aí eu fiz roupinhas pra ela! =)

    Quase um texto de auto ajuda… =P

  6. Isa em 26 de maio, 2009

    Aquilo era o cúmulo do absurdo, cara. Eu tenho mais que tatuada no meu cérebro a lembrança de, com 5 anos, na Kombi que me levava e buscava da pré-escola todos os dias (sim, você leu kombi) ter soltado a digníssima frase “Se Power Rangers acabar, eu morro!” (Tantantaaaaaaan!)

  7. T1460 em 26 de maio, 2009

    Herege! Esqueceu os nomes dos animais!

    Eu tinha bonecos de todos os Power Rangers da primeira geração, incluindo o verde e o branco, que eram o mesmo personagem. Algo tipo o Michael Jackson antigo e o atual. Aliás, ainda tenho. E um Megazord não-desmontável, mas que virava o Mega-Gradonzord. E também um Dragonzord, mas a flatua não acompanha.

  8. stef em 26 de maio, 2009

    hahaha fico tão feliz em saber que esse raphaelzinho é o tubinho! fica muito mais divertida a história

  9. Caio em 3 de junho, 2009

    e então, na noite de natal, o eufórico raphaelzinho descascava o presente, imaginando os mil e um usos para o megazord desmonto-interativo. quando, após a primeira pelicula de papel de embrulho azul estampado com carrinhos e cenouras (é sempre algo assim) desvendar o conteudo da caixa, a cabeça de raphaelzinho sofre uma pane elétrica, uma mudança de planos, como assim? ele berra com garganta, estomago e pulmão: NINTENDO SIXTY FOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOUR!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!



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