1994. Power Rangers, a grande febre infantil daquele momento, era o sonho de consumo de toda criança. Com o pequeno Raphaelzinho não era diferente. Ele queria mais que a vida um Megazord de Natal. Se você não conhece Power Rangers, é porque estava muito ocupado lendo Dostoievsky, mas eu sinceramente não creio que alguém não conheça Jason, Kimberly e companhia. Na hierarquia de fama temos Os Beatles, depois Jesus e, em terceiro, Power Rangers, não é verdade? O resto é o resto,
O Megazord que meu irmão (o Raphaelzinho) queria era uma composição dos cinco robôs menores (mastodonte, tigre-dente-de-sabre, minhoca, camelo, não me lembro dos animais) que, encaixados, daria o robô grande. Ou seja, ele poderia brincar com os cinco animais separados ou então juntos na forma de Megazord.
Em novembro ele enviou uma carta para Papai Noel fazendo o pedido. Você pode imaginar o que é um mês e meio para uma criança esperar seu brinquedo? É muito bom (mas doloroso) acordar todo dia pensando naquilo, fazendo planos de como vai brincar com ele, as centenas de histórias que poderiam ser criadas com os robôs… À medida que o tempo passava, mais ansioso ficava o pequeno Raphaelzinho. Nos últimos dias, ele chegou a sonhar com o Mastodonte e com o Pterodátilo… Na hora em que Papai Noel chegou com o saco na mão, o saquinho de Raphaelzinho entrou em ebulição, pois ele estava à beira de um orgasmo natalino.
Raphaelzinho pegou o embrulho, com aquela cara de babaca que só as crianças em frente ao brinquedo, ou os homens em frente a uma linda menina sabem fazer. Despiu cuidadosamente o pacote, quase entrando em êxtase. Tirou o Megazord da caixa, botou no chão e ficou paralisado. O Megazord que o inexperiente Papai Noel trouxe (vulgo José Antônio, o papai biológico) não desmontava. Todas as partes do robô eram coladas, não havia vida naquele brinquedo, interação, nada!
A expectativa acumulada de um mês de espera se transformou em uma frustração tamanha, que o pequeno Raphaelzinho não conseguiu suportar. E quando a gente não suporta a frustração, a gente chora feito criança. Feito Raphaelzinho, na frente de todo mundo.
E é impressionante como frustrações mexem com a gente. É porque você precisa de tempo para se frustrar, o negócio é totalmente ligado a expectativas. E expectativa é esperar o tempo passar para conferir se o que você imaginava era isso mesmo. Quando não é, o sino maligno toca.
A cara de bunda; o castelinho de cartas que desmorona por dentro; o desânimo e a sensação de que nenhum outro brinquedo de Natal vai ser melhor que o Megazord, são sintomas cabais de que você está nadando em uma piscina de frustração.
Mas se você está assim, não se desespere. Vá com calma ao último andar do seu prédio e se jogue. Mentira, calma! Nós temos que nos frustrar, porque só assim ganhamos tolerância a posteriores decepções. É a mesma coisa com bebida alcoólica, se você vomitar, além de provavelmente ter uma ressaca a menos, você aprende a beber com mais habilidade. O que não pode é parar de beber para sempre só por causa do medo de vomitar. Quem tem medo não se frustra, mas também não vive.
Olhe só quantas datas especiais temos no ano. O que não falta é oportunidade para ganhar novos brinquedos. A diferença é que na vida, ao contrário de Natal e aniversário, essas datas especiais estão camufladas no calendário e nas circunstâncias. Quando você tropeçar numa dessas datas, caia de cara, ok? Em algum momento, um Megazord desmontável há de aparecer.
Pedro
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É por isso que eu sempre comprava os brinquedos com a minha mãe, portanto eu tinha o megazord demonstável, aliás mais de um.
Nossa, que esnobe o Bruno!
Você ainda tem um desses? Me vende? Ia ser engraçado dar o presente que meu irmão tanto quis (tudo bem que com 15 anos de diferença).
Abraços
Esse texto foi tão Paulo Coelho…até melhor na verdade.
Eu tinha uma Kimberly que trocava a cabeça. Ela podia ficar de capacete ou não mas a roupa não mudava aà eu fiz roupinhas pra ela! =)
Quase um texto de auto ajuda… =P
Aquilo era o cúmulo do absurdo, cara. Eu tenho mais que tatuada no meu cérebro a lembrança de, com 5 anos, na Kombi que me levava e buscava da pré-escola todos os dias (sim, você leu kombi) ter soltado a dignÃssima frase “Se Power Rangers acabar, eu morro!” (Tantantaaaaaaan!)
Herege! Esqueceu os nomes dos animais!
Eu tinha bonecos de todos os Power Rangers da primeira geração, incluindo o verde e o branco, que eram o mesmo personagem. Algo tipo o Michael Jackson antigo e o atual. Aliás, ainda tenho. E um Megazord não-desmontável, mas que virava o Mega-Gradonzord. E também um Dragonzord, mas a flatua não acompanha.
hahaha fico tão feliz em saber que esse raphaelzinho é o tubinho! fica muito mais divertida a história
e então, na noite de natal, o eufórico raphaelzinho descascava o presente, imaginando os mil e um usos para o megazord desmonto-interativo. quando, após a primeira pelicula de papel de embrulho azul estampado com carrinhos e cenouras (é sempre algo assim) desvendar o conteudo da caixa, a cabeça de raphaelzinho sofre uma pane elétrica, uma mudança de planos, como assim? ele berra com garganta, estomago e pulmão: NINTENDO SIXTY FOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOUR!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!