Fly & eu

jun 29

Importante: se você nunca viu Marley & eu, mas está louco para ver e se emocionar, NÃO leia esse texto. Não quero estragar o seu filme. Se você nunca viu Marley & eu, e está pouco se fudendo, está liberado. Se você já viu esse longa canino, não se preocupe que, embora seja debochado, irônico, escroto e pederasta, não tratarei o tema de forma impiedosa ou inconsequente.

Já escrevi um texto sobre a Fly. Na outra ocasião, chamei a minha poodle de Bolota, para preservá-la, pois não sabia se algum amigo dela leria o texto no blog. Só depois eu me toquei que ela nunca teve amigos, só dona Dulce, a matriarca da minha família. E, assim como uma mãe não deve ser, dona Dulce jamais apareceu aqui no blog. Eu poderia falar mal dela (da Fly? Da minha mãe? Tanto faz), postar e viver com a consciência tranquila.

A Fly foi um presente ateniense que meu pai deu para a minha mãe. Acho que ele queria se vingar pelo fim do casamento, uma vez que fazia apenas dois anos que o matrimônio tinha sido desfeito. Ela chegou lá em casa, pretinha e pequena como um carvão, uma doçura. Se eu tivesse mais maldade e rancor, tentaria acender o carvão com álcool e fósforo, mas sempre fui muito controlado.

No começo, a gente não se dava muito bem. Meu primeiro contato com ela foi bem canino… Um canino enfiado na minha mão de sete aninhos. Fiquei bastante assustado e escangalhado emocionalmente, afinal, eu amava poodles! No entanto, essa violência toda mudou com o tempo. Depois de algumas mordidas de supetão na família, ela passou a rosnar antes. Uma espécie de aviso “seu puto, sai daqui que eu vou te morder!!!”.

Mas de qualquer forma, era impossível resistir quando ela pedia carinho. Ela vinha, toda peluda, fazendo festinha. Aí você fazia carinho nela, ela rosnava e você tirava a mão imediatamente, porque a mordida viria. Ela realmente nunca soube o que quis da vida. Eu até entendo, se existem seres humanos que não sabem o que querem (Eu? Você? Tanto faz), imagina a pobre e peludinha Fly, que era apenas um cachorro?

Ela nasceu em junho de 1994 e chegou lá em casa uns dois meses depois. Sempre teve problemas físicos e psicológicos (hehe. Se aquele encantador de cães, que trabalha na Tv a cabo, encontrasse a Fly, largaria o emprego e seria advogado), mas sempre teve um espaço em nossos corações (no meu, uma célula da coronária sempre esteve de bom tamanho).

O problema é que ela começou a ficar muito doente, e passou a viver um verdadeiro fardo diário para se manter viva. De acordo com o moço, um poodle geralmente vive 15 anos. A Fly sempre teve problemas cardíacos, mas mesmo assim, burlou as expectativas e saiu no lucro, quase completando 15 outonos.

Já li em algum lugar que o dia em que um velho acordar sem dor, é porque está morto. Pensava nisso e depois na Fly, pois, nos seus últimos dias, ela conseguiu a triste faceta de reunir todos os problemas possíveis no seu corpinho. No último domingo (diazinho de merda), aniversário do meu pai, resolvemos acabar com o sofrimento dela.

Foi um domingo esquisitíssimo. Almoço de aniversário para meu pai (embora eles sejam separados, meu pai é muito amigo da família), risos, coisas gostosas, alegria… Depois levar a Fly para o sacrifício. Era estranho, pois tudo o que conversávamos trazia a ideia de que “aham, está engraçado agora, mas daqui a pouco é hora de ir ao veterinário…”. É como no vestibular. TODAS os momentos têm um pequeno aspecto sombrio que aflora quando estamos nos divertindo. “Ahaha, que festa boa… Merda, domingo eu tenho prova… Se eu não passar, fudeu. Ai meu Deus!”.

Depois do aniversário mais animado em décadas (cof cof), tiramos a sesta e chegamos a pensar que o sacrifício seria protelado. Mas meu pai, sempre obstinado, convocou seus dois filhos para a trágica missão. Vou te contar que, por mais que ela tenha sido um animal que jamais fez questão do meu carinho (só da minha carne), eu fiquei triste. Era um ser vivo que fez de tudo para ser detestável, mas não dá, a gente se confronta com milhões de outras coisas e vê que a morte é a coisa mais possível do mundo.

Ela tomou uma anestesia primeiro e depois uma droga que traria a ceifadora sinistra em 30 segundos. Quando ela estava entrando na onda da anestesia, eu fiquei feliz porque ela aproveitaria um soninho indolor por alguns instantes. Nessa hora doeu, porque a serenidade nunca foi o forte de Fly. E ela estava bem serena. Depois o assassino, digo, veterinário expulsou gentilmente a gente da sala e finalizou os trabalhos. No final, quando meu pai foi pagar a conta, ainda fiz uma piada mongol para o veterinário:

- Hey! Você mata o nosso cachorro e a gente ainda tem que pagar???

Todos riram, inclusive o veterinário. Ele já deve ter ouvido essa piada 1439 vezes, mas rir nessas horas deve fazer parte do código de ética das faculdades de veterinária. E eu precisava fazer uma piada, estava entalado.

Pois é. Agora eu tenho quatro ex-bichinhos de estimação falecidos. Um tamagoshi, dois Haku haku dinokuns (Tamagoshis falsos) e a Fly. A diferença é que Juju, Jolly e Belchior voltavam à vida quando eu resetava. A vida é uma merda mesmo.

Obs.: Eu menti, eu não dava nome para os meus Tamagoshis… Só apelidos (Ju, Jó e Bebel).


5 Comentários

  1. Quando o veterinario da familia (nao da gente, obvio, mas dos animais da familia) foi “matar” a minha cachorra, ele não falou para a gente se retirar da sala. Na verdade tudo aconteceu no tapete da sala, com todos olhando, inclusive minha mãe filmando.
    Juro, minha mãe filmou nossa cachorra morrendo. E olha que todos a amavam. Ou pelo menos, sempre fingiram mto bem.

  2. Marina, a cada post eu acho sua mãe cada vez mais estranha, aliás, louca mesmo.

  3. Ai… Que triste! Mesmo com as tiradas engraçadinhas o contexto é muito triste! Eu não vou deixar fazerem isso com o meu cachorrinho não… Como esse veterinário tem coragem? Eu sei que pensando racionalmente é melhor pra ela porque já tava velhinha e tal mas, quem pensa racionalmente com um Poodle ou um Cocker? Eles são fofos e queriiidos (mesmo arrancando pequenos pedacinhos nossos com seus caninos violentos). Eu nunca conseguiria dar uma injeção assassina num bichinho… ;_;

  4. Não acredito que a Fly morreu! Achei que ela fosse viver mais que nós dois juntos!

  5. Agora você pode escrever um livro sobre ela e vender um roteiro para um diretor hollywoodiano, e lucrar com a morta da violenta poodle. É uma idéia inédita!

    Eu tive dois cachorros, que morreram naturalmente na quarta idade (porque da terceira eles passaram bem antes), e agora decidi que não quero mais nenhum. Dizem que os homens gostam dos cães porque não duram a vida inteira, mas eles fazem muito mais falta que a maioria dos seres humanos.

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