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set-6-2008

Estranhas convivências

Escrito por Corra Mary

“Restaurante que vende farofa, não tem ventilador de teto.”

Eram sempre em dois. Mãos dadas, unidos por uma semelhança enorme. Ele com um pronto pensamento e fala mansa. E seu ego, dilacerado e inconstante.

Ele se sentou na cadeira de balanço em frente ao velho rádio e escreveu:

Relações vulneráveis. Agora é tratar o outro com um rio de cuidados, como algo que se quebra e danifica. Em que num desavisado movimento, escape pelos dedos, fuja e se perca, sem esperanças de volta, sem possíveis comparações ou trocas.
Uma nota para o tanto de pessoas em volta, suas alegrias, suas dores, suas experiências esquecidas, guardadas e novamente esquecidas, que sempre deixam alguma coisa.
Uma nota para as frustrações dos adultos, a inocência perdida e exagerada, a ambição, a solidão e a carência. Os motivos para comemorar, as festas, e a volta pra casa. As ligações perdidas, a doença de dar febre, deixar de cama e o cansaço excessivo.
Uma nota pelo pensamento, pelas desculpas, pela consideração, e pela falta dela.
O carinho guardado que de nada serve, a tranca da porta quebrada e a as enormes olheiras de uma semana de insônia, maquiadas com base cor de pele.
Enquanto não houver culpa, o museu das decepções estará sempre aberto, com a alta classe batendo ponto, sorrindo para as paredes, com champagne em uma das mãos, e a outra tocando em quem passa. Puxando roupas, cabelos e enrolando chicletes duros e sem gosto nos longos dedos.
Enquanto os próprios desejos, superarem as necessidades, ninguém terá nada a ver com ninguém, e bastará uma gota do adoçante caindo para fora da xícara, para encurtar os dias e transformar íntimas relações em estranhas convivências.

O ego empurrou a mesinha, sentou no pequeno espaço de chão, segurou o caderno e escreveu:

A vergonha de amanhã, será algo para se levar pro túmulo, embarcando de cabeça em tudo que cheira culpa.
Um sentindo o gosto da bosta do outro, catando o que sobrou da coleta de lixo do ano passado, respirando o ar que meus pulmões rejeitaram, comendo e se deliciando com carne de segunda.
De vigília pelos próprios erros, durando a vontade de fantasiar os dias que já não existem mais, numa ponte aérea de Berlin ao Japão, de Nova Iorque a Madri, consumindo cada rosto que passa, desejando a vida do passageiro ao lado, escondendo a cara escrota atrás dos óculos escuros durante o sol da meia-noite.
Abra as pernas para o gentil rapaz que te paga mais uma bebida.
Coma a garota de olhos profundos, que chora a noite e tem vontade de voltar pra casa.
Eu quero mais é que vocês se fodam.


Corra Mary

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  1. Patty Di Lorenzo em 6 de setembro, 2008

    Estou viciada em seus posts, juro!
    Você escrever perfeitamente bem.

    Beijos

  2. Felipe Magalhães em 6 de setembro, 2008

    Um pouco descrente?
    :P

  3. janaína em 6 de setembro, 2008

    é confortante chegar aqui e me deparar com sesus textos.
    bjus!

  4. Fernanda em 7 de setembro, 2008

    Oi Marina, desculpe pelo post sem os devidos crétidos, não tive intenção alguma de coloca-lo como minha autoria.
    Lembro-me de postar por ter me indetificado pelo momento e só!
    Em todo caso, já foi retirado.

    Boa semana e também espero que entenda.



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