Doutor
ago 31
“É uma piada.
Duas velhinhas em um hotel fazenda na montanha:
Uma diz: “A comida aqui é um horror”!
A outra diz: “Eu sei, porções minúsculas”.
É assim que eu vejo a vida:
cheia de solidão, miséria, sofrimento e tristeza e acaba rápido demais.”
(Trecho do filme Annie Hall)
Aquilo tudo não era pra mim, sempre achei que escola realmente, não fosse para pessoas como eu. Aquilo tudo de leis, mols, biologia e física, faziam qualquer um enlouquecer. Já havia repetido dois anos, e se bombasse mais um, meu pai ficaria uma fera.
Doutor, era assim que a empregada o chamada. Para alguém que nunca fez doutorado, era mais luxo que o pedido. Sorriso bonito, barba bem feita, um advogado brilhante, em que a única ocupação da toda sua vida que não tinha sido um grande sucesso, foi na de ser pai.
Uma vez conheci um fulano que me lembrava meu pai. Um futuro médico, rapaz educado e um poço de inteligência que chegava a dar nojo, daqueles que fazem qualquer um se sentir estúpido diante de 20 e poucos anos sem saber que tirar a cutícula da unha, abre caminho para bactérias e infecções que 100% das peruas nunca aprenderão em anos de manicure nos salões de Ipanema.
“Ele fez Santo Inácio”, e isso enchia barriga, aquele lance todo de escola, números e logaritmos era para alguém como ele. Um orgulho para qualquer pai.
E que agora, gastava suas tardes de quinta-feira mostrando em hospitais públicos, desenhos de massinha colorida e repetindo incessantemente “O preservativo, minhas senhoras, não pode ser reutilizado”, para pobres coitadas prenhas que contavam as moedas para mais tarde comprarem o leite na padaria que seus murchos seios em dois ou três meses cessariam.
E as donas o olhavam com cara de empadinha “O que esse jovem sabe da vida?”. É meu rapaz, o mundo fora do hospital é maior do que sua cabeça instruída consegue entender. Parece fácil, e é, mas foi sua escolha ser o responsável por falar, falar, falar, até se cansar de não ser ouvido, e aí falar mais um pouco. Mas só até as 5 da tarde, porque o trânsito em frente ao shopping, a essa hora, fica uma loucura.





Não sei se tem a ver o que vou dizer. Se essa pessoa aí é satisfeita com sua vida. Mas eu não estou, e por isso vou mudar de profissão. O importante é ser feliz, estudar o quiser, se quiser (na verdade estudar é sempre preciso). O resto é pura consequência da alegria com que se vive. É o que eu desejo daqui pra frente.
Até, bj.
Gosto tanto do que você escreve que não precisa nem de comentarios.
Quase fui pra faculdade de medicina fazer meu pai feliz, mas não foi dessa vez. Adorei o jeito que você terminou o texto.
As pessoas são uma bosta.
p.s: Mary, assim que eu encontrar com os meus amigos eu falo com eles e depois te conto o que eles falaram! =)
adorei !
as vezes voce eh tao foda, que tenho dificuldade de acreditar.
NHOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO S2