“- E vocês, seus analfabetos, deviam era criar vergonha nessa cara porca e se mirar no exemplo aí do moço. Como se não bastasse ser arrimo de família, um dia ainda vai sair filosofando por aí, enquanto vocês vão continuar pastando que nem gado até a morte.”
(Caio F. Abreu)
O gosto daquele café era amargamente insuportável, mas tomava sem deixar uma gota no fundo, revezando entre mais café e cigarros de filtro amarelo.
O que era para ter sido uma ida ao boteco, se transformava numa mesa de duas pessoas que tomavam bebidas duvidosas e hora ou outra, grunhiam palavras que se podia entender “é né?” ou “mas e então?”.
Alguns segundos depois ele soltou assuntos de como foi seu dia, seu trabalho e histórias de contos fantásticos, onde eu tinha quase como obrigação, peneirar todo o exagero e as tornava tão cotidianas e ordinárias quanto a ida àquele boteco.
Gostava de passar o dia inteiro ouvindo aquilo.
Depois de anos escutando cada palavra de cada sentença fantástica, você começa a ganhar gosto pelo ouvir, sem a necessidade quase vital de sempre falar, querer contar e passar para alguém o que começa a pensar alto.
Só sentava e ouvia: “Você se tornou uma pessoa diferente. Não bebia, não fumava, e era horrores de desagradável. Hoje não sei se você é mais eu, ou se eu que me tornei mais você.”
E pouco importava, ele também mudara, e não precisava ser dito, era visível a cada briga com a mãe, cada saída a programas péssimos, a cada namorada e a cada visita ao boteco de cinco anos atrás.
Amizade igual a que tocava na música que minha empregada ouvia no rádio, ou o que fosse, mas há semanas que nossos dias não se batiam, e eu costumava chamar então de necessidade, ou falta. Quando a vida me era triste até o osso ou infinitamente generosa, era sempre ele o primeiro a estar comigo. Falando feito gralha, ou calada feito a menina da sétima série que se sentava na cadeira do canto. Eu podia ser quem eu quisesse ser, porque ele já conhecia o que eu era, o que eu gostaria de ser e o que eu provavelmente nunca seria.
Confortava-me com sorrisos, caras feias, ou quando juntava os dois em “te conheço mais que qualquer um”, e aquilo tudo era o que eu precisava. Podia até chamar de felicidade, e era assim mesmo que eu chamava.
E deixe que nos chamem a festas nunca idas, que o nosso apartamento em Botafogo nos espera com mais cigarros e programas na TV que fazem 6, 7 horas da manhã em claro, parecerem finalzinho de tarde aos que nunca tiveram hora.
Um garoto que vendia chiclete a mesa ao lado, se aproximou e pediu um cigarro.Devia ter uns 13 anos, no máximo, pés descalços e roupas nojentas quase me faziam sentir pena.
- Rapaz, qual a sua idade?
- Eu já tenho 18.
- Tem nada. Isso aqui é pra gente grande e burra. Em que ano você nasceu?
- Sabe o que é, Tia? Depois de tanto tempo na rua, eu já nem sei mais meu aniversário.
Era uma mentira, uma mentira bem contada, mas ainda assim uma mentira. Ou pelo menos minha cabeça cheia de memórias de aniversários e festas das princesas da Disney, acreditava que fosse.
Dei o maço inteiro, porque tudo que eu mais precisava estava comigo todos os dias do ano, era o meu desaniversário mais bem vivido e sentava-se na cadeira ao lado.
Para C.R Arias
Corra Mary

















“Toda escrita é porcaria. Toda gente literária é porca. Especialmente essa do nosso tempo.
Todos aqueles que têm pontos de referência no espírito, quero dizer, de um certo lado da cabeça, sobre lugares bem demarcados de seus cérebros, todos aqueles que são mestres da sua língua, todos aqueles para os quais as palavras têm um sentido, todos aqueles para quem existem altitudes na alma e correntes no pensamento, aqueles que são o espírito de sua época, e que nomearam essas correntes de pensamento; penso em suas necessidades precisas, e nesse ranger de autômato que espalha a todos os ventos o seu espírito,
- são porcos.
Aqueles para os quais certas palavras têm um sentido, e certas maneiras de ser, aqueles para quem os sentimentos têm classes e que discutem sobre um grau qualquer de suas hilariantes classificações, aqueles que ainda acreditam em “termos”, aqueles que remexem as ideologias em alta na época, aqueles de quem as mulheres falam tão bem e essas mulheres também, que falam tão bem, e que falam das correntes da época, aqueles que ainda crêem numa orientação de espírito, aqueles que seguem vozes, que agitam nomes, que fazem gritar as páginas dos livros,
- esses são os piores porcos.” Diria o Menino de Rua, 13. Com a voz ainda entorpecida, se voz houvesse, quase gracejando se graça houvesse; No momento ainda sonha, com o que lhe é permitido, a rua.
Então que abram os chiqueiros!
excelente texto…
Adorei a alusão que você fez a Alice no País das Maravilhas…
O texto todo foi muito daquela história cheia de entrelinhas nas entrelinhas!!!
Abraços…
Cara, q coisa mais linda esse texto juro. Eu tinha um amigo assim. Um amigo pra tds as hrs, um amigo q me sacaneava qdo eu me ferrava e no final eu ria tb, um amigo q me apoiava, q bebia e fumava comigo. Mas ele nos deixou em 2005 e eu tenho certeza q nunca mais vo encontrar ng como ele na nha vida, nenhum amigo tao fiel.
E eu t digo, amiga: qdo nao se tem uma pessoa desse grau do nosso lado… realmente, só um maço d cigarros inteirinho, d preferencia um marlborão vermelho, pra nos fazer sentir menos sozinhos.
“tudo que eu mais precisava estava comigo todos os dias do ano, era o meu desaniversário mais bem vivido e sentava-se na cadeira ao lado.”
É bem isso. Todas aquelas situações banais que parecem não valer nada, mas que, no fim, vc percebe que é o que vale de verdade.
To eu aqui de novo. HAHAHA.
Mary, vc ja pensou na idéia de publicar alguns dos seus textos em revistas?
São todos tão bons!
Nossa, com certeza. Sempre penso nisso. Seria muito bacana, mas não sei nem como começar a correr atrás disso.
É algo meio tipo “sonho”, saka? Não acontece com pessoas como eu.
Ah.. é porque eu tenho uma amiga que escreve também, e muito bem por sinal… E o jeito dela me lembra o seu e vice-versa, que me lembram um pouco do Caio Fernando Abreu! Ahaha
Mas ela caga de medo de publicar.. Mas enfim, vocês duas são muuito, muito boas. Eu tenho uns conhecidos de umas revistas, mas nada muito grande não, sabe? Se pudesse te ajudava!
Se puder pergunte a eles então como alguém com essa, digamos… vontade, deve agir.
O que fazer, com quem falar, essas coisas.
Ou se é apenas sorte do destino e que deva ser deixada onde sempre esteve: calma, quieta no canto do quarto.
Vc escreve muito bem. E vc sabe, ñ preciso ficar repetindo. Pena que tenho o péssimo costume de ler de madrugada, quando não consigo passar neste recado minha opinião sobre seus belos textos de forma clara. só sei que leio e gosto. e agora vc tb sabe disso, mesmo que com as palavras mais simples e pontuação quase errada. =]
adoro-te mari =*
Engraçado, gosto de ler quando estou com sono … Mas ler de madrugada = raciocinio lento = péssimos comentários aqui xD
Me prendo apenas a leitura de seus textos então, deixo a escrita pras manhãs e madrugadas sem sono.
Ou eventualmente escrevo algo bem bobinho pra marcar minha presença
*olhos fechando* preciso ler mais um texto =*