online poker

out-26-2009

Cuecas da solidão

Escrito por Pedro

Acordei 17 de outubro com um dia a mais de vida, assim como faço a cada vez que a Lua vira Sol. A diferença é que era o 365º de um bloco, o que me credencia a dizer que estou um ano mais velho, o 23º de muitos (ou não, eu não sou vidente). Estou pujante na juventude, já com uma linha que divide minha testa ao meio, o que me traz um ar de extrema experiência de vida – meu padrasto, quando tinha um ano a mais do que eu, arranjou de morar com uma mãe solteira, de dois filhos… Para você ver minha enorme vivência.

De qualquer forma, depois de acordado, combinei com dois amigos um programa absolutamente varonesco e macho: fazer compras à la Sex and the city no shopping, amigaaaa! Queria comprar uma camisa ou outra e, por que não, uma calça também. Quando estava voltando da minha empreitada consumista, lembro que a última cueca que eu ganhei de titia, eu deveria ter emoldurado, porque fazia tanto tempo que eu nem imagino como elas não andam sozinhas.

Fui até o final de uma famosa loja de departamentos (daquelas em que praticamente toda peça tem um elemento enfeiedor básico) e peguei um pacote com cinco, do tipo que NÃO desperta uma tigresa em você, sabe?

Parêntese familiar

O engraçado é que todo mundo tem essa tia cuja única função na Terra é tapar suas partes íntimas. Ela foi programada a sempre te dar umas cuecas (ou calcinhas, caso você goste de usá-las, ou então se você for menina). E é irônico, porque você já sabe de cor e salteado que ela vem com aquele pacote recheado de boas intenções, mas sem a menor criatividade, totalmente imersa na rotina do presente utilitário anual. Você odeia, é claro, mas cuecas são como pratos: nunca se dá o menor valor, até chegar um dia em que você fica sem. Aí vem a dúvida aflitiva: onde colocar a sua comida e a sua pélvis?

Fecha parêntese familiar

O problema é que eu nunca havia comprado cueca na vida (se nem para mim eu comprei, não há de imaginar que eu compre para alguém, certo?). Fui ver os tamanhos – Tinha o P, o M, o G e o GG. Peguei a M na mão, mas do nada me bateu uma superestima pélvica que me fez trocar pelo G. “Assim vai ficar bem confortável”, pensei. Mas é claro que eu errei. Não estou dizendo que Deus me cortou as coisas, mas simplesmente havia tecido demais na cueca, o bastante para proteger um gordinho sem ficar apertado. Se minha genitália tivesse um patinete, daria para ela andar nele, tamanho o espaço que ficou vago ali nas vergonhas. Por um lado, a ventilação era total, por outro, a impressão de que eu estava vestindo um blusão no lugar errado era considerável também.

Parêntese familiar

E é isso que acachapa a alma. A sua tia, por mais que só te veja nas datas especiais (leia-se “obrigação de ver e abraçar gente pentelha”), sabe exatamente o seu molde, não sei como! Deve ser uma propriedade especial das tias. Só sei que ela nunca errou a mão e sempre me deu cuecas que nem eu mesmo escolheria melhor. Que deprimente!

Fecha parêntese familiar

Mas o que mais me abalou foi que eu me senti um pouco solitário nessa hora. O simbolismo do momento em que eu mesmo buscava o que me faltava foi enorme, eu estava entrando na fase em que sua tia já tem mais o que fazer e outros sobrinhos mais novos para presentear (com cuecas, é fato. Ou com alguma coisa do Ben 10 – nunca vi um desenho ser tão popular. Fui ao shopping no dia das crianças e vi uma quantidade infindável de Bens 10zes com seus relógios porta-monstro. Se eu fosse tia, daria cuecas do Ben 10 só para continuar na essência e agradar o mínimo).

Desse episódio, posso tirar algumas lições:

- A vida está passando, estamos envelhecendo e, num futuro distante, quando meu irmão tiver um neném, ocuparei o lócus do “tio das cuecas”. E virar o tio das cuecas é o primeiro e mais importante indicativo de que estamos mudando de geração.

- Eu errei em comprar a coisa mais normal do mundo pra mim mesmo. A minha ruga na testa está ali só para sacanear, pois não tenho experiência alguma nessa vida.

- No aniversário que vem, a menos que haja uma hecatombe e eu inche de repente, comprarei um pacote de M, com toda certeza.

Pedro

Leia também:

Receba as atualizações do blog no seu e-mail. Assine o feed!

  1. Vitor Elias em 26 de outubro, 2009

    Cara, nossa tia Jurema sempre nos compra cuecas iguais!

  2. Rafa em 26 de outubro, 2009

    Hahahahahahahahaha!

    Muito bom!

    Bem melhor que depreciar a reprodução humana. ;)

  3. Julia Alves em 26 de outubro, 2009

    Pedroca, amei seu texto!
    Não sabia que você escrevia tão direitinho!!

    Beijos Amore!



Quer que sua foto apareça nos comentários? Faça um Gravatar!

Deixe um comentário