Complicado

mai 10

Um certo tipo de obrigação, um falso sentimento momentâneo de continuidade, que te empurra para fora da cama e como um relógio te avisa que já passou das cinco – concorrendo também a ser dia seguinte – e te pegarias então sentado no pé da cama, levando um objeto a boca (como uma criança de colo), sem saber ao certo o porque se faz, e se perguntarias, assim por acaso, se na situação do dia ter passado e os sonhos continuados, ininterruptos, o haveria de ter mesmo existido, e sem uma hipótese de mentira, ou verdade que deixou de acontecer, a realidade e tudo mais que ela pudesse trazer, seria tão inimaginável a ponto de tudo não indicar apenas mais cansaço pelas horas de fingimento na cama de lençóis de ontem.
E por quanto tempo ainda os vizinhos continuariam a te lembrar que não-ter-vivido não significaria não-ter-existido? E quem ainda poderiam ser eles para serem donos de tal verdade absoluta, visto que apenas pagam o mesmo aluguel com a clássica desculpa de som alto e visitas no alto da madrugada para se fazerem presentes e o apartamento não invadido pela vigilância sanitária? E você não estava incomodando. O apartamento vazio e as plantas secas e o cheiro de água sanitária não seriam motivos válidos para se incomodar, e talvez a sua não presença na caixa de correio, e a ausência das conversas sobre o tempo nos medíocres encontros no salão, o fariam ser visto quase como um anti-cristo da boa vizinhança, a mais nova conversa pelos corredores, e logo mais, por todo um bairro.
É complicado. – Você diria.


2 Comentários

  1. Ricardo /

    Bom pra caralho!

  2. nossa, que fossa.

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