Deveria ser proibido abrir textos com pegadinha. A coisa aqui mal começa e eu já te apresento um paradoxo, afinal, nunca fez parte do meu plano de vida ter um filho. Geralmente as pessoas compartimentalizam a sua própria cronologia, dando a cada época seu contingente ideal de produção (seja de trabalho, seja de filho) – “Aos 24 eu vou me formar; aos 28 já vou estar com emprego estável; aos 29 no máximo, eu quero ter um filho”. Tem gente que dá mais ou menos prioridade a uma coisa ou outra. Eu tenho uma amiga que valoriza DEMAIS a profissão, mas não quer deixar de parir uma criança. O problema é que ela quer parir tão tarde, que fica a impressão de que ela pretende usar o último óvulo antes da menopausa para ter um filhote. Também pudera, ela faz jornalismo, se já tem uma vida de risco por que não ter uma gravidez de risco também, não é?
Eu não quero parecer um ditador anti-humanidade, mas é que quando eu penso na minha prole, só me vem coisas ruins à cabeça. Ao invés de pensar em alegria, amor, carinho e recomeço, penso em dívidas, limitações de vida, vômito e muitas dívidas (é fralda pra caralho, um “dívidas” é só para elas, o outro “dívidas” é para todo o resto – Um filho custa um milhão até os 21 anos…). Imagino que ter um júnior não deva ser tão simplório dessa forma, tudo se mistura, é óbvio. Mas eu tenho medo… Muito medo!
Uma vez me fizeram acreditar que eu iria ter um Pedro II. Minha ex estava convicta de que sua sanguinolência havia se prendido nas paredes uterinas junto com o zigoto “Pedrinho + namoradinha” – na verdade, era apenas um rebento psicológico. Eu, com todo o complexo retal enfiado na minha mão, fui comprar um teste de gravidez na farmácia. É engraçado porque esses testes ficam escondidos lá no fundo, como se eu quisesse comprar, sei lá, um livro do Hitler na livraria. Achei a prateleira com várias marcas e analisei, meio sem graça, de longe. Do nada, me vem um cara atrás de mim:
- Precisa de ajud…
- Nãão, não, tudo bem, tudo bem…
Peguei o teste e imaginei “preciso despistar o caixa da farmácia… Maior derrota comprar só o teste… Ah! Já sei… Vou levar um desodorante também…”. Aí, na hora de pagar, éramos eu, o teste de gravidez, o desodorante, o caixa e o silêncio. Foi ótimo. Melhor ainda quando deu negativo.
Mesmo que meu futuro neném não tenha vingado, essa história foi a primeira a me instigar a pensar como seria se eu tivesse um filho. Ele seria branquelo ou pálido, com certeza, porque meus genes descoloridos atacariam como uma enxurrada de leite qualquer coisa que viesse pela frente.
Filhos às vezes são diferentes dos pais. Tenho medo de que a personalidade do meu jovem me cause algum tipo de constrangimento, mesmo sabendo que eu serei parte integrante de seus valores. O problema é que os marginais dos amigos dele serão a outra enorme parte. Eu tive a sorte de crescer com pessoas absolutamente interessantes, despidas de preconceito, amorosas e tal. Minha gangue adolescente pegava mulher, é claro, mas a gente tinha ética uns com os outros, botava a amizade acima de qualquer coisa, éramos sempre o “grupo meio baitola”, porque a gente se abraçava… Era (e é) ótimo.
Aliás, eu prefiro 10 vezes que o meu filho seja alvo de preconceito a ter um filho preconceituoso. Prefiro que ele chegue em casa e exclame “papiiii, cheguei!”, a falar “porra, vi dois viados na rua, que merda”. O mais louco é que sempre quando eu digo isso, o interlocutor sentencia:
- Quero ver você dizer isso quando tiver filho…
Mas ora bolas, as pessoas acham que eu quero o quê? Ganhar o prêmio Nobel da paz? Só não quero alguém que me envergonhe. E parir um ser humano que não respeita as diferenças é vergonhoso.
- Mas ele vai dar a bunda!
- Mas ele não vai dar a minha! Deixa ele dar a dele!
E assim o papo continua sem ninguém concordar com ninguém.
E por último: meu filho com certeza, nem que eu esteja louco, embasbacado, alucinado de amor, NÃO vai ter nome escroto. Por mais que a minha mulher me obrigue a chamá-lo de Muriá, eu vou dar um jeito de mudar para Mauro no escrivão.


‘Gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu.
Um filho!… Não foi de jeito…
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.’
Manuel Bandeira, “Testamento”
(vale a pena ler o poema inteiro de Bandeira, lindíssimo)
rsrsrsrs kkkkkk….muito bom …rsrsrsr
Pedro, genial este texto. Escrevi um livro sobre a minha experiência como pai, bem nesta sua linha. Depois, se estiver afim, faz o download lá no site:
http://www.paicronico.com.br
Pelo menos, acho que vc não vai achar o nome do meu filho escroto ahahah
abs e parabéns
Flavio Salles
Sempre acontece o mesmo comigo nas conversas sobre os filhos que ainda nem tenho… Quando digo que prefiro um filho gay a um filho intolerante já ouço logo, “muito fácil falar agora” ou algo do tipo…
Muito bom o texto, Pedro.
Engraçado, eu tenho outro ponto de vista, sou doido para ser pai, só não o sou ainda porque tenho certo grau de lucidez, nem me sustento plenamente ainda, como ser pai aos 19?Por mais que as vezes eu me ache até velho, diante de algumas histórias : vizinha grávida aos 12, amigo sendo pais aos 15, e por ai vai…
Mas o fato é, ter um fillho é algo mágico, ensina muitoo aos pais. Afinal, dificil não se render a delicadeza e ingenuidade de um serzinho saido de ti. Por varias vezes me pego imaginando como será meu filho, as vezes acho que vou mimas demais, n´outras vezes acho que vou ser um pai mala.
Ah, e quanto a nomes, ixi…todo mundo me chama de maluco, apesar de eu não ver motivos, pelo simples fato de eu ter plena convicção que ao ter um filho homem o nome dele será “Alypher Ruhan”. Não por ser estranho, escroto ou coisa do tipo, na verdade nem sei porque, mas desde meus…hum, uns 5 anos de idade… falo isso…E AI DA MINHA ESPOSA SE NÃO ME PERMITIR ISSO, faço um filho pela rua.kkkkkkk
ThiagOrnelas
http://www.nos4.wordpress.com
aimeudeus, eu ri MUITO nessa parte:
“- Mas ele vai dar a bunda!
- Mas ele não vai dar a minha! Deixa ele dar a dele!”
eu concordo com você, as pessoas são muito hipocritas com essas coisas… o que elas querem pra elas…
Não pretendo ter filho algum. Além de gastos, ele provavelmente não teria um planeta decente para viver e morreria de câncer de pele, porque também seria muito branco. E já tem muita gente no mundo. Daqui a pouco, nem espaço terá. Para complicar ainda mais, eu precisaria manter meu filho afastado dos mal-feitores, ou seja, o restante da raça humana.
Já me perguntaram também se eu preferia um filho corintiano ou gay. Eu disse que preferia que ele fosse gay, afinal isso seria “problema” dele. Se fosse corintiano, seria uma ameaça às outras pessoas.
Eu, como a Natasha, também ri na parte que seu filho ficcional ainda não nascido vai dar a bunda dele e não a sua.
- Quero ver você dizer isso quando tiver filho…rsrs
- Quero ver você dizer isso quando pegar aquela suposta coisinha branquela no colo…
Porra Pedro, qto mais te leio mais estigada em continuar a ler eu fico.
Enfim, é sempre bacana os assuntos que vc manda, e a forma que vc escreve também!
Sobre filhos, poxa, que rolou esse findi que te fez pensar nisso hein?! EH sempre beeeeeem punk quando essas coisas acontecem ne, so prevenir nao basta para a nossas cabecas viajarem!
Então, a gente se fala…
Bjao!
Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! Pedro ! UFA! Pensei que não fosse conseguir dessa vez.
Fiicou até belo.
é, ainda bem que hj dá pra comprar essas coisas pela internet, não?
poxa, engraçado, há um tempão não vinha ler o seu blog e hoje curiosamente estava na renner com as meninas, vimos um all star de criança e falamos que parecia all star de um filho seu. até imaginamos uma criancinha branquinha com cachinhos dourados correndo no gramado de all star. (pode falar, até amoleceu seu coração agora)
Não se engane; Mauro É um nome escroto.
(seu pai não se chama Mauro não né?)